3.3. Dar Mükellef Kurumlarda Vergilendirme Yöntemleri
3.3.2. Kaynakta Kesinti Yoluyla Vergilendirme
3.3.2.3. Vergi Kesintisine İlişkin Bakanlar Kurulu’na Tanınan Yetki ve Kesinti Oranı
Cesar A. Guimarães Pereira defende que os artigos 22 e 59, §1º do Código de Defesa do Consumidor são normas heterotópicas: normas de direito administrativo inseridas na legislação consumerista. Segundo o referido autor, essas normas contém disciplina específica para o serviço público em geral e independem da parte remanescente do CDC. A aplicação do artigo 22 do CDC aos serviços públicos prestados pelo Estado não pressupõe nem acarreta a caracterização de uma relação consumerista, aplicando-se inclusive aos serviços prestados gratuitamente. 37
37 PEREIRA, Cesar A. Guimarães. Usuários de serviços públicos. 2ª ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva,
Por serem normas de direito público, não há necessidade de configuração da relação de consumo prevista nos artigos 2º e 3º do CDC – que pressupõe fornecedor, consumidor e serviço diretamente remunerado.
Contudo, o referido autor admite a possibilidade de aplicação do CDC em relação ao serviço público, embora ressalve que essa aplicação é limitada ao necessário respeito do regime jurídico de direito público. Assim, segundo ele, o CDC pode ser aplicado ao serviço público enquanto não for promulgada a lei de defesa do usuário de serviços públicos (prevista no artigo 27 da Emenda Constitucional 19/98). Além disso, podem ser aplicadas ao serviço público as normas de direito administrativo do CDC (artigos 22 e 59, §1º), bem como toda a disciplina processual de proteção dos consumidores, especialmente no que se refere à tutela coletiva (artigos 81 a 104 do CDC). 38
Observe-se que o Estado de São Paulo promulgou a Lei 10.294/99, que dispõe sobre a proteção e defesa do usuário do serviço público do Estado de São Paulo. Por isso, no Estado de São Paulo, não há mais que se falar na aplicação do CDC para a defesa do usuário dos serviços públicos estaduais: aplica-se a citada lei para tal fim.
Assiste razão a Cesar A. Guimarães Pereira ao afirmar que os artigos 22 e 59, §1º do CDC são normas de direito administrativo cuja aplicação independe da configuração de relação de consumo. O artigo 22 do CDC é norma que disciplina a prestação de serviços prestados pelos órgãos públicos, por si ou suas empresas, suas concessionárias ou permissionárias, os quais são submetidos, como sabido, ao regime jurídico de Direito Público. Não se trata, pois, de norma de direito privado elaborada para ser aplicada às relações de consumo. Discorda-se, nesse ponto, do entendimento de Cláudia Lima Marques (supra, IV-2.1) no sentido de que todas as normas dos artigos 1º a 54 do CDC seriam normas de direito privado.
Com efeito, enquanto não promulgada a lei federal de proteção ao usuário, a legislação consumerista deverá ser aplicada no âmbito dos serviços públicos federais sempre que se configurar relação de consumo nos termos do CDC (fornecedor, consumidor e serviço remunerado). Se houver pontos de incompatibilidade entre o regime jurídico consumerista e o regime jurídico dos serviços públicos, prevalecerá este último. Caso o serviço público seja prestado gratuitamente, não se configurará relação
38 PEREIRA, Cesar A. Guimarães. Usuários de serviços públicos. 2ª ed. rev. atual. São Paulo: Saraiva,
de consumo, mas serão a ele aplicáveis os artigos 22 e as normas de proteção processual do CDC.
A aplicação das normas processuais do CDC aos serviços públicos decorre do parágrafo único do artigo 22 do CDC, que estabelece que “nos casos de descumprimento, total ou parcial, das obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista neste código” (destacou-se). Perceba-se: a forma prevista no CDC para a defesa do consumidor em juízo está prevista nos artigos 81 a 104. O artigo 83, em especial, diz que são admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada e efetiva tutela dos direitos e interesses protegidos pelo CDC, incluindo-se nessa disposição os direitos previstos no próprio artigo 22.
Por exemplo, os serviços sociais qualificam-se como serviços públicos quando prestados diretamente pelo Poder Público e são regidos por normas de Direito Público. É o caso, por exemplo, do atendimento gratuito em hospital público ou do aluno matriculado em escola pública. Nesses casos, o serviço social é remunerado por toda a sociedade mediante o pagamento de impostos (tributos em geral). O cidadão que se beneficia do serviço público é qualificado com usuário. Como tal serviço público prestado diretamente pelo Estado é gratuito, não se configura relação de consumo nos termos do artigo 3º, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, que exige remuneração para configuração de serviço na relação consumerista. Todavia, aplica-se o artigo 22 do CDC para a proteção do usuário desses serviços gratuitos, bem como as normas processuais do CDC (artigos 81 a 104).
Como visto, os direitos dos usuários dos serviços prestados direta e gratuitamente pelo Poder Público decorrem das obrigações estatais de fornecimento de serviços adequados, eficientes, seguros, e, quando aos essenciais, contínuos, nos termos do artigo 22 do Código de Defesa do Consumidor. Esse artigo, repita-se, configura norma de direito administrativo inserida na legislação consumerista e não necessita da configuração da relação consumerista entre fornecedores e consumidores para sua aplicação.39
39 Não obstante a robustez dos argumentos apresentados, o entendimento aqui defendido ainda não se
fez ouvir plenamente na jurisprudência. Há precedente do STJ no sentido da não aplicação do CDC em caso de dano causado a usuário por de erro médico cometido em atendimento em hospital público: “Portanto, no caso dos autos, não se pode falar em prestação de serviço subordinada às regras previstas no Código de Defesa do Consumidor, pois inexistente qualquer forma de remuneração direta referente ao serviço de saúde prestado pelo hospital público, o qual pode ser classificado como uma atividade geral exercida pelo Estado à coletividade em cumprimento de garantia fundamental (art. 196 da CF). 4. Referido serviço, em face das próprias características, normalmente é prestado pelo Estado de maneira
Por outro lado, os serviços públicos prestados por particulares no regime de concessão ou permissão (remunerados por tarifa) são regidos precipuamente por normas de Direito Público (em especial pela Lei 8.987/95), mas há incidência do Código de Defesa do Consumidor, por determinação do artigo 7º da Lei 8.987/95, para proteção do usuário, que nesses casos também é qualificado como consumidor. O mesmo raciocínio é valido em relação aos serviços públicos remunerados por taxa, pois haverá plena configuração de relação de consumo.
Além do direito ao recebimento de serviços adequados, eficientes, seguros, e, quanto aos essenciais contínuos, o usuário consumidor dos serviços públicos concedidos ou permitidos possui os direitos básicos dos consumidores previstos no CDC, compatibilizados com os direitos previstos no artigo 7º da Lei no 8.987/95 e na legislação específica de cada serviço. Ensina Maria Cristina de Oliveira que “em se tratando de Serviços Públicos prestados mediante concessão ou permissão, é inconteste a aplicabilidade do CDC, visto que a relação que se estabelece entre o concessionário e o usuário do Serviço é, reconhecidamente, uma relação de consumo”. 40
O Superior Tribunal de Justiça tem reiteradamente reconhecido a aplicação do CDC aos serviços públicos, por exemplo, quando prestados por concessionárias de serviços de fornecimento de esgoto, manutenção de rodovia, fornecimento de água, telefonia móvel e telefonia celular. 41
Apresentam-se duas conclusões quanto à aplicação do CDC aos serviços públicos.
Primeira: aplicam-se o artigo 22 e a proteção processual do CDC (artigos 81 a 104) aos serviços públicos gratuitos.
Segunda: enquanto não promulgada a lei de proteção dos usuários prevista no artigo 27 da Emenda Constitucional 19/98, aplicam-se todas as normas do CDC aos serviços públicos federais remunerados, na medida em que se compatibilizarem com o regime jurídico próprio do serviço público.
universal, o que impede a sua individualização, bem como a mensuração de remuneração específica, afastando a possibilidade da incidência das regras de competência contidas na legislação específica.” (REsp nº 200201541999, 1ª Turma, relatora Denise Arruda).
40 OLIVEIRA, Maria Cristina de. O Código de Defesa do Consumidor e a Administração Pública.
Interesse Público, nº 22, 2003, p. 82-94.
41 Na ordem em que os exemplos aparecem no texto: REsp 1212378/SP, 2ª Turma, relator Ministro
Humberto Martins, j. 08.02.2011; AgRg no Ag 1067391/SP, 4ª Turma, relator Ministro Luis Felipe Salomão, j. 25.05.2010; AgRg no REsp 1133507/RJ, relator Ministro Castro Meira, j. 29.04.2010; REsp 764.187/MG, 2ª Turma, relator Ministro Mauro Campbell, j. 27.10.2009; REsp 806.304/RS, 1ª Turma, relator Ministro Luiz Fux, j. 02.12.2008.