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Bölüm 8. Kamu Bankaları

8.3. Vakıflar Bankası A.Ş

Os problemas e questões referentes à habitação popular existentes em Mossoró são, em muitos aspectos, representativos da realidade nacional. Significativa presença das questões aqui apontadas são compatíveis com a situação e a realidade brasileira, sendo a habitação, por

isso, uma discussão central e referencial aos seus processos sociais. Entre outras razões tal compatibilidade acontece porque há muito tempo, conforme abordagem feita neste trabalho, o contexto local, e sua vinculação regional, estabeleceu ligações e liames com os processos de reprodução espacial do país, sendo, por isso, passível das influências políticas, econômicas e culturais que têm vigência em seu território.

A discussão sobre a habitação e seu significado presente não prescinde da consideração do arcabouço histórico que, em muitos aspectos, contribui com fundamentos para sua compreensão. No Brasil, até a aprovação da Constituição de 1988, o direito à moradia foi sempre definido como direito à propriedade, que remontava à Constituição de 1934 e ao Código Civil de 1916. Com a nova legislação emergem novas expectativas, sobretudo porque a atual Constituição estabelece a condição de ‘função social’ a toda propriedade urbana. É neste sentido que esta propriedade deve, por isso, ser reconhecida também como detentora de obrigações sociais (FERNANDES, 2010).

Contudo, as resistências a este princípio são inegáveis pois, até o presente, decisões judiciais ainda são tomadas considerando a propriedade privada como direito absoluto e não pela sua inerente função social, conforme preconiza o texto constitucional. Neste sentido, aplicar o Estatuto da Cidade, enquanto legislação que regulamenta os capítulos específicos da política urbana do conjunto de lei fundamental do país, tem sua complexidade porque em sociedades ditas emergentes como a brasileira, mas com uma longa trajetória de afirmação de desigualdades e desníveis sociais, o poder político e social vem associado à posse patrimonial (MARICATO, 2010).

Assim, embora a Constituição de 1988 aborde a política urbana nos artigos 182 e 183, é somente com a emenda constitucional nº 26, aprovada no ano 2000, que a moradia passa a ser considerada um direito social. Nela é expressa seu significado: “Art.6° São direitos sociais a educação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” (BRASIL, 2008).

É na percepção destes aspectos que reafirmamos o caráter de desafio, inerente à perspectiva de tornar efetiva a lei do Estatuto da Cidade. Não há demonstração de que esteja em questão apenas a dificuldade de adaptação e mudança de uma sociedade no tocante aos seus processos sociais e até culturais, o que já seria, por si só, uma significativa ousadia quando se considera a complexidade da realidade socioespacial brasileira. Porém, juntamente com tal anseio, é preponderante que seja considerado o intrincado arranjo e contexto que compõe os processos sociais, seus interesses, disputas e assimetrias. É por isso que a

existência da legislação não faz prevalecer sua aplicação a categorias sociais de maneira direta e indistinta, o que poderia favorecer de forma acentuada as transformações que sua interpretação permite insinuar.

No tocante a habitação popular é possível sua inserção nesta discussão, ao mesmo tempo em que é notória sua individualidade e particularidade como questão social. Em uma sociedade segmentada em classes sociais de forma tão clara, esta colocação, em alguns aspectos e circunstâncias, interessa principalmente aos segmentos mais pobres. A habitação e sua possibilidade de ser aproveitada enquanto estrutura urbana tem sido utilizada na condição de patrimônio, sendo, para sua efetividade, aproveitado o espaço da cidade para respaldar o seu fracionamento de acordo com o perfil da classe social que o ocupa.

A realidade de Mossoró é representativa deste processo. A formação e expansão histórica de seu espaço urbano mostram que a diferenciação social e desigualdade de classes são concomitantes ao seu movimento de expansão econômica que, como já foi abordado, é marcada por fases ou períodos que podem, em muitos pontos, ter seus traços e os seus aspectos observados na morfologia e dinâmica urbanas. Lembrando que esta é uma característica do movimento histórico da reprodução espacial no âmbito da influência do capital. Mesmo com fontes teóricas não muito abrangentes, é possível verificar que a habitação da população é um importante componente que pode contribuir no diagnóstico ou elaboração do perfil socioeconômico de sua realidade.

Já relatamos os números do primeiro levantamento demográfico realizado nesta cidade no ano de 1873, logo após sua emancipação política, ocorrida em 1870. Embora com restrições, os números descrevem que Mossoró possuía 1.270 residências, somando 7.748 habitantes. É importante lembrar que este período correspondia ao empório comercial que, conforme aborda a literatura, se tratava de uma ocorrência que cada vez mais afirmava o lugar na divisão territorial nacional e até internacional do trabalho. Mas tal distinção regional não representava garantias de privilégios ou grandes transformações nas condições de vida à sua população.

Outro levantamento censitário foi realizado em 1922, ou seja, quase cinquenta anos depois deste último relatado. Neste período e, de acordo com os números apontados, é possível compreender, em síntese, que os desníveis sociais eram um aspecto inerente da expansão do espaço da cidade. A sua população, nesta contagem, era de 20.300 habitantes, que moravam em 1.872 casas, sendo 840 de tijolo e telha e 1.032 de taipa e telha que, por sua vez, estavam distribuídas em 30 ruas, 12 praças, 5 travessas e uma avenida (FELIPE, 2001). Neste período do censo, bem mais da metade das casas eram de pau-a-pique, o que denota que

o quadro social específico em que se compunha o lugar era hegemonicamente de pobres, permitindo a interpretação de que a ocupação do espaço da cidade por este segmento social se configurava especificamente com características que lhes permitia distinção. Também neste período acontecia a transição econômica entre o decadente empório comercial e a nova fase ou etapa de produção econômica, baseada na industrialização de matérias-primas locais, a qual produzia substratos e produtos que eram predominantemente fornecidos à região sudeste do país. Assim o espaço urbano passa a ser organizado pelos comerciantes locais, considerados então como a elite social, sendo esta que articula as condições para a formação deste novo período produtivo, cujos esforços para manter as condições de hegemonia regional são mantidos. Neste sentido, se dá a afirmação espacial em que se estabelece o centro comercial como área nobre da cidade, que passa a ser dominada por este segmento social, inclusive para o assentamento de suas moradias (FELIPE, 1988).

Os indicadores demográficos das últimas décadas, embora insuficientes para justificar os problemas sociais existentes na cidade, contribuem para a compreensão da complexidade contida neste espaço urbano, principalmente quando junta-se a isso o aspecto da centralidade regional que lhes condiciona uma preponderância espacial baseada numa rede de lugares, cuja abrangência mantém-se considerável nas últimas décadas. Estas características endossam muitos argumentos de quem estuda Mossoró e propõe teorizar a cidade sob o ângulo de cidade média.

A tabela abaixo mostra o crescimento demográfico de Mossoró e sua respectiva taxa de urbanização, denotando os períodos de maior expressão, a partir dos dados numéricos.

Tabela - 01 Evolução demográfica e taxa de urbanização de Mossoró de 1940 a 2010

Ano População absoluta População urbana População rural urbanização (%) Taxa de

1940 31.515 13.730 17.785 43,56 1950 40.681 20.088 20.593 49,37 1960* 50.690 41.476 16.214 81,82 1970** 97.245 79.509 17.736 81,76 1980 145.989 122.861 23.128 84,15 1991 192.267 177.331 14.936 92,20 2000 213.845 199.081 14.760 93,10 2010 259.815 237.241 22.574 91,31 Fonte: IBGE

* Inclui a população dos atuais municípios de Governador Dix-sept Rosado, Baraúna e parte da população do município de Serra do Mel, neste período inseridos na abrangência de Mossoró.

De acordo com esses números, a partir da década de 1960 o setor urbano mossoroense assume preponderância espacial no tocante ao número de habitantes, principalmente pela centralização dos processos econômicos a partir da produção agroindustrial e da atividade comercial que mantinham crescimento constante. A atividade agrícola tinha sua participação, porém na medida em que Mossoró tomava parte na divisão interregional do trabalho, a partir da articulação regional produtiva do país, a ênfase no espaço urbano e sua capacidade de ligar e determinar os movimentos econômicos, que tinha sido iniciado desde a década de 1930, mantinha-se, e era decisiva aos que buscavam sobressair na economia do Brasil. É a partir desta década (1960) que a taxa de urbanização local ultrapassa o índice de 80% da população, ao mesmo tempo em que o crescimento demográfico também se acentua.

Essa expansão demográfica de Mossoró foi, considerando os indicadores de média, superior a do Brasil, nas últimas décadas do século XX. Conforme aponta a tabela acima, de 1970 a 2000 a sua população urbana vai de 79.302 para 199.081 habitantes, o que revela um crescimento de 119.779 pessoas neste intervalo, isto é, um aumento de 151%, o que dá um crescimento de 2,5 vezes da população urbana (ELIAS; PEQUENO, 2010).

Nosso interesse em referenciar estes dados demográficos é reunir aspectos e fundamentos que contribuam para a justificativa da ênfase espacial alcançada por Mossoró na atualidade, seja no âmbito interno para mostrar a extensão da complexidade espacial, seja no externo ao denotar a expansão da abrangência de sua influência espacial e regional. Sem esquecer que ambas as escalas têm complementaridades. Esta elaboração tem possibilidade de contribuir com a argumentação da importância histórica da cidade no contexto regional, a ponto de ajudar na definição do crescimento econômico local enquanto um processo contraditório, em razão do seu caráter excludente. A constituição deste crescimento não inibe a geração de pobreza e até sua expansão, o que pode comprometer o acesso da população a direitos elementares como o acesso à habitação. Temos ciência do sentido e do significado que podem assumir os indicadores estatísticos. É notória a necessidade de compreendê-los enquanto informação de conteúdo permanentemente relativo, principalmente pelo sentido momentâneo que conduz de um traço ou especificidade da realidade. Santos (2009) propõe situar estes indicadores referentes à análise das problemáticas sociais numa condição que viabilize sua interação com outras variáveis, no propósito de seu dimensionamento. Assim diz: “a definição de pobreza deve ir além dessa pesquisa estatística para situar o homem na sociedade global à qual pertence, porquanto a pobreza não é apenas uma categoria econômica, mas também uma categoria política acima de tudo. Estamos lidando com um problema social” (SANTOS, 2009, p. 18).

O crescimento demográfico de Mossoró, em seus diferentes momentos, é também reflexo das fases ou períodos específicos que se desenvolvem a partir de sua autonomia política. Isso porque esse crescimento populacional contribui para explicar a expansão urbana da cidade e suas tendências conforme os fatores de influência agregados ao processo, como a produção econômica, as definições políticas, etc.

A Figura 05, a seguir, mostra a expansão do espaço urbano da cidade, predominantemente fundamentada na reprodução da economia, a qual foi também determinante para a fixação da população no espaço da cidade e, com isso, o estabelecimento dos setores de moradia definidos com o tempo.

Figura 05 - Expansão urbana de Mossoró de 1870 à atualidade

De acordo com o esboço acima, é possível perceber que até meados da década de 1920 a cidade mantém sua mancha urbana integrada à área central tradicional. Dessa forma, durante todo o período do empório comercial a ocupação espacial da cidade se deu basicamente na atual zona central ou em trechos adjacentes. É somente a partir do final desta década de 1920, quando tem início um novo período econômico para a cidade, que a expansão urbana de Mossoró promove a ocupação de outros setores a partir de determinados aspectos como a circulação da produção econômica no espaço que, em decorrência de seus fluxos, incentivam a fixação da moradia (PINHEIRO, 2008).

Neste período, era o percurso ou a proximidade da estrada de ferro na cidade o setor ou trecho espacial que mais interessavam, tanto aos comerciantes quanto aos habitantes, para assentar moradia ou endereço de fixação. Dessa forma, as áreas adjacentes a este fragmento foram prioritariamente ocupadas, pois, também, representavam a situação de vias de acesso a outros lugares. Assim, se destacam neste sentido a estrada para São Sebastião (atual cidade de Governador Dix-sept Rosado, RN), no sentido sul, acesso utilizado pelos comboios de gado para alcançar os sertões potiguares e paraibanos a partir de Mossoró; a estrada para a cidade de Aracati no estado do Ceará, no sentido noroeste local, que viabilizava o acesso ao vale do rio Jaguaribe; e, a estrada para Porto Franco (que se localiza atualmente no município de Areia Branca, RN), na direção norte.

É importante lembrar que a cidade mantinha sua reprodução espacial na margem esquerda do rio Apodi-Mossoró, pois ainda não havia condições estruturais para a expansão urbana ocupar a outra margem. Somente em meados da década de 1940 a margem direita (setor leste da cidade) do rio tem viabilizada sua inserção na dinâmica urbana da cidade quando, em 1946, é inaugurada a ponte Jerônimo Rosado. É a consolidação de mais um momento da extensão do espaço urbano, agora numa direção que ainda não havia tendência efetiva, ocasião em que a periferia encontra mais um espaço para ocupação, viabilizando a expansão da cidade através da moradia popular.

Uma referência para a definição contextual da estrutura urbana de Mossoró, conforme abordagem do subtópico 2.2.2, é dada no final da década de 1960 com a intensificação da mecanização da atividade salineira, no qual um dos resultados enfáticos foi a dispensa de expressiva quantidade de mão de obra vinculada a esta produção. Como destaca Felipe (1982), o efetivo dispensado pelas salinas superou o número de dois mil trabalhadores que, juntamente com seus dependentes, ultrapassava o número de dez mil pessoas. E completa afirmando: “Em 1969 representa 18,2% da população do município de Mossoró, passa a construir suas casinhas de taipa, originando bairros como a Baixinha, Barrocas e parte dos

Paredões, bairros que até hoje carecem de infraestrutura” (FELIPE, op. cit., p. 74). Esta extensão da ocupação urbana pela habitação comum, popular, estimulou o crescimento da cidade e dos problemas urbanísticos e estruturais inerentes às condições de vida dos segmentos sociais mais pobres.

Era mais uma frente de expansão da periferia que moldava o espaço da cidade, consolidando sua fixação. No aspecto social as fragilidades eram inegáveis, pois expressiva parcela da população, conforme relata a literatura, ainda tinha como base de seu sustento a produção sazonal do sal, algodão e outros produtos agrícolas, sendo o espaço e sua organização o reflexo desta situação, que em muitos aspectos, tinha sentido de exclusão social.

Na década de 1960 ainda ocorre o crescimento urbano de Mossoró para muitas direções. Um setor deste espaço formado pela migração de famílias oriundas de cidades da região oeste do Rio Grande do Norte dá origem ao bairro Boa Vista que se situava fora do perímetro urbano da cidade naquele período. Ainda nesta década novas porções deste setor oeste da cidade são ocupadas, permitindo a posse de áreas dos atuais bairros Belo Horizonte, Lagoa do Mato, assim como de trechos popularmente conhecidos como Vaca Morta e Alto do Xerém. São predominantemente formados por famílias pobres, grande parte migrantes de outras cidades que, com estas fixações, contribuem com a extensão da habitação popular no espaço urbano local. Já na década de 1970 é formado o loteamento Nova Betânia, área ainda situada no oeste da cidade e eleita pela classe média para servir de base para sua habitação, o que serve de referência para justificar seu enobrecimento até hoje. Também nesta década, no setor sudeste da cidade são criados três novos agregados de ocupação de moradia que foram denominados Papoco, Planalto 13 de Maio e Bom Jesus. O último ainda possuía características rurais, mas que juntos dão origem a novas aglomerações de habitação social.

Conforme já afirmamos, a década de 1970 é o tempo da transição para mais uma fase econômica que a cidade ocuparia. Com a crise da agroindústria, há uma busca de afirmação socioeconômica em atividades que pudessem viabilizar o sustento da mão de obra então disponível e assim dar direção proveitosa ao dinamismo da cidade. Uma nova tendência de investimentos públicos e privados no setor de serviços passa a estimular, com o tempo, sua economia. É em razão destes novos movimentos que este centro urbano continua a atrair significativa quantidade de migrantes que buscam empregos na cidade, considerada grande, e passam a ocupar as vagas que são oferecidas nas inúmeras atividades ofertadas. A centralidade regional que Mossoró possui passa a ser cada vez mais expressiva, o que é demonstrado pelos estudos do IBGE (IBGE, 2008).

Neste período é muito acentuado o volume de investimentos públicos para a oferta de serviços, a produção de infraestrutura urbana e a busca de sua consolidação. São construídos também, para isso, conjuntos habitacionais em setores da periferia, que também são importantes na estruturação da cidade e na disponibilidade de casas para a população, que cresce significativamente. É daí que são erigidos os conjuntos Abolição, Inocoop, Santa Delmira, entre outros.

Como indutores da dinâmica econômica local, iniciados desde meados da década de 1970, com os incentivos da SUDENE, são estabelecidos a empresa de produção fruticultora MAISA (Mossoró Agro-industrial S.A.), assim como a abertura dos trabalhos de produção de petróleo da Petrobras, além da intensificação da atividade salineira e de outras atividades industriais. Contudo, tal dinamismo e diversidade de atividades econômicas chegam ao presente estabelecendo seus reflexos e permitindo às forças políticas gestoras do município ostentar muitos indicadores econômicos resultantes como declarações de competência e sucesso, não obstante os sinais e traços de pobreza, exclusão social e miséria também estarem inseridos no mesmo contexto. Assim denota-se que o espaço da cidade, além das inegáveis prerrogativas econômicas que revelam crescimento, traz imbuído em sua composição muitos paradoxos e contradições, compostos de vivências sociais, como veremos adiante. A realidade habitacional, no que se refere a moradia social, é um claro exemplo.

2.2.2 - Centralidades, seletividade...: a habitação no espaço contemporâneo de Mossoró

Mossoró no presente se constitui num centro urbano no qual a fluidez espacial lhes vincula a interações espaciais de escalas significativas no sentido da extensão. Esta expressão e centralidade espaciais, coerente com a dinâmica nacional nesta questão como já relatamos, são consideráveis.

Porém, seu crescimento econômico e urbano não são acompanhados de intervenções políticas que conduzam a cidade no âmbito de um planejamento que manifeste claramente os fundamentos democráticos contidos na legislação nacional específica, ou seja, o Estatuto da Cidade, por exemplo. E, embora se trate de um espaço municipal, não há clareza nas ações de seu governo que manifeste o reconhecimento da unicidade de sua composição espacial, enquanto complexo integrador de diferentes segmentos sociais e políticos. É neste sentido que Elias e Pequeno (2010) expõem suas considerações no tocante ao contexto das políticas de planejamento urbano atuais de Mossoró, articuladas pelo poder público municipal:

Na ausência de políticas de desenvolvimento urbano e habitacional associadas a processos de planejamento, prevaleceu, nos últimos anos, a lógica do projeto urbano através da qual a gestão do espaço intraurbano passou a ser conduzida mediante intervenções pontuais, orientadas segundo critérios estrategicamente definidos (ELIAS; PEQUENO, 2010, p.449).

A explicação para que o Estado tenha postura de descaso e negligência com segmentos expressivos de habitantes que, em razão de suas condições socioeconômicas, têm demandas compatíveis com o que preconiza a legislação nacional está, para Ermínia Maricato (2010), na postura assumida pelo poder público. Para ela, diferentemente das nações que possuem um nível de desenvolvimento mais expressivo e que, por isso, restringe as desigualdades sociais e onde, consequentemente, o Estado tem total controle na regulação do solo urbano para aplicar as leis existentes, nos países mais pobres a sobreposição dos planos e leis é comprometida pelo jogo de interesses que interfere na gestão pública, além de existir áreas das cidades nas quais a segregação em relação a cidade “oficial” ou “legal” impede a execução destes planos e leis (MARICATO, 2010).

É neste sentido que a ausência de autonomia, e também muitas vezes de transparência, comprometem a atuação do poder público, dificultando ou impedindo que o mesmo envolva de forma mais direta e abertamente a sociedade na gestão e no planejamento da cidade. Nesta questão mais uma vez é importante recorrer à história para uma compreensão do contexto mossoroense. Quanto ao poder político e administrativo, a cidade mantém-se sob hegemonia da oligarquia Rosado, um clã familiar que centraliza o poder local há mais de seis décadas, tendo também representação nas instâncias mais importantes do parlamento nacional, assim como, atualmente, um de seus membros governa o estado do Rio Grande do Norte. Para Felipe (2001), uma importante estratégia para o domínio familiar exercido no