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Uluslararası Profesyonel Kongre Organizatörleri Birliği (The International

1.4 Kongre Turizminin Önemi

2.1.5 Uluslararası Profesyonel Kongre Organizatörleri Birliği (The International

Na apreensão da experiência do uso compulsivo de crack, o corpo e a produção de corporeidades ganham ênfase cada vez maior, dada sua relevância para a compreensão do sofrimento desses sujeitos. É recorrente, nas abordagens midiáticas do crack, a figura do noia, pertencente a um grupo particular de usuários, em oposição às formas de consumo chamadas controladas ou sociais - em que o usuário consegue adaptar o consumo à sua vida pessoal e profissional, ao menos por certo período. No léxico da toxicomania, os noias "são aqueles que, por uma série de circunstâncias sociais e individuais, desenvolveram com a substância uma relação extrema e radical, produto e produtora de uma corporalidade em que ganha destaque a abjeção" (RUI, 2014, p. 21).

O corpo do noia radicaliza a alteridade na medida em que constitui uma imagem do sujeito marcada pela repulsa, pela negação da norma, pela ausência de cuidado de si (RUI, 2014). A exposição dos corpos "marcados", ressaltam Gomes e Adorno (2011), efetiva uma forma de estar nos espaços públicos que identifica esses sujeitos, precisamente, como usuários

de crack. Essa identificação é marcada por um processo de materialização dos corpos cujo resultado é a produção de seres abjetos, de corpos abjetos. O termo abjeção, do latim ab- jicere, significa literalmente rejeitar, afastar, o que coaduna com o sentido psicanalítico da rejeição como modalidade de exclusão de significados pela recusa em crer, ou melhor, pela postura de não querer saber (BUTLER, 2011). Para Butler, o abjeto ou a abjeção designa

aquelas zonas "inóspitas" e inabitáveis da vida social, que são, não obstante, densamente povoadas por aqueles que não gozam do status de sujeito, mas cujo habitar sob o signo do "inabitável" é necessário para que o domínio do sujeito seja circunscrito. Essa zona de inabitabilidade constitui o limite definidor do domínio do sujeito; ela constitui aquele local de temida identificação contra o qual - e em virtude do qual - o domínio do sujeito circunscreverá sua própria reivindicação de direito à autonomia e à vida. (BUTLER, 2007, p. 155)

A corporalidade abjeta, em suma, refere-se a corpos desqualificados do ponto de vista dos códigos, das normas e disciplinas que regem sua composição, organização e apresentação na vida social. Corpos cuja desqualificação é exatamente aquilo que constitui o limite e a contraface dos corpos qualificados, que gozam a priori da condição de sujeitos com direito à vida, a uma existência significativa. Esse jogo dos corpos, tão crucial para a constituição simbólica dos sujeitos e daqueles que vivem na zona inabitável, traz fortes implicações políticas. "A abjeção de certos tipos de corpos, sua inaceitabilidade por códigos de inteligibilidade, manifesta-se em políticas e na política, e viver com um tal corpo no mundo é viver nas regiões sombrias da ontologia" (BUTLER apud PRINS; MEIJER, 2002, p. 157). Trata-se, portanto, de adaptações e perturbações de códigos, de rendições e resistências aos dispositivos regulatórios que distribuem os corpos na ordem social.

Deve-se ressaltar que, para Butler (2007; 2011), autora cuja contribuição aos estudos de gênero e sexualidades deve ser reconhecida, a categoria do abjeto não deve ficar restrita a tais problemáticas, sob o risco de se perder sua produtividade analítica e compreensiva a respeito da invisibilidade e da rejeição a certas subjetividades. A esse respeito, diz a autora: "o abjeto para mim não se restringe de modo algum a sexo e heteronormatividade. Relaciona-se a todo tipo de corpos cujas vidas não são consideradas vidas e cuja materialidade é entendida como não importante" (BUTLER apud PRINS; MEIJER, 2002, p. 161-162). É preciso observar ainda que a abjeção não deve ser entendida como atributo desses corpos, mas, antes, como propriedade das relações que esses corpos estabelecem com outros, instituindo essas zonas que circunscrevem e delimitam o horizonte do corpo habitável e do não habitável, da identificação imposta e da identificação rejeitada, da vida reconhecida como tal ou rejeitada enquanto vida.

No caso dos usuários compulsivos aos quais Rui (2014) se refere, seus corpos são abjetos "menos pela falta de limpeza ou pela possibilidade de transmissão de fluidos/doenças e mais porque perturbam ficções de identidade, sistema e ordem; porque não respeitam fronteiras, posições e regras; em suma, porque são ambíguos" (RUI, 2014, p. 22). A abjeção, portanto, refere-se a uma forma específica de invisibilidade, que não se restringe apenas à exclusão, pois, como já dito, tais corpos "se fazem ver". Diz respeito, sobretudo, ao não reconhecimento do outro como sujeito, bem como ao desconforto e mesmo ao repúdio gerados por essas corporalidades, tanto pela relação que tais corpos e sujeitos estabelecem com o outro, quanto pela relação que mantêm consigo mesmos. São corporeidades à parte, que incomodam, a si e aos outros, mas que não passam despercebidas.

Do ponto de vista político, e subjacente à problemática do sofrimento, o que importa na compreensão desses corpos e experiências à luz da heurística da abjeção é a ideia do abjeto como aquele cuja vida não é tida como digna de se viver, isto é, não é considerada legítima, tampouco relevante. No caso dos usuários de crack, a figura do noia torna-se "categoria de acusação", de avaliação da legitimidade alheia e de si próprio, pois "ouve-se com muito maior frequência a acusação de que alguém é noia do que alguém chamando a si mesmo de noia" (RUI, 2014, p. 312). Constitui-se, dentro da esfera do consumo de crack, uma segunda zona de inabitabilidade deslegitimadora das práticas e condições físicas, a zona dos noias, "aquilo que não se deve ser, aquilo que o próprio noia não quer ser" (RUI, 2014, p. 312).

O sofrimento associado aos corpos desses usuários radicais do crack, a partir das perspectivas antropológicas que temos evocado, não está apenas associado à sujeira e à degradação dos corpos, mas também à vergonha da magreza excessiva gerada pelas rotinas extensivas de uso, pela restrição da vida ao consumo da pedra. No depoimento de Treze ao programa A Liga, por exemplo, o personagem lamenta o corpo magro quando se lembra da época em que ainda não usava crack. Mostra-se mais envergonhado por isso do que pelo fato de ser acusado pelo apresentador de estar malcheiroso e sujo, ao que responde com bom humor dizendo que não sente odor nenhum, embora não tenha se banhado nos últimos dias.

A condição dos corpos enseja ainda uma outra forma de sofrimento, porque expõe esses indivíduos a intervenções, a repressões violentas e esforços disciplinadores diversos: a polícia, o tráfico, a mídia, os próprios usuários, os órgãos de saúde pública (GOMES; ADORNO, 2011; RUI, 2014). O conjunto dessas relações de poder contribui para estabelecer uma organização desses sujeitos na ordem sensível, no que diz respeito à distribuição física e simbólica dos corpos em determinados lugares, segundo certas categorias.

Depois de acompanhar um usuário doente ao posto de saúde - durante o trabalho etnográfico feito em associação à prática dos redutores de danos24 -, Rui (2014) presenciou a cena em que o médico atendeu o homem e o liberou rapidamente, sem lhe dar orientações nem lhe entregar receita. Passou as orientações ao redutor de danos que o acompanhava e às enfermeiras. "Não o considerava um interlocutor" (RUI, 2014, p. 320-321). A falta de zelo corporal logo foi associada à incapacidade de compreensão por parte daquele sujeito - certamente reforçada pela vontade de se livrar do paciente, ou pela descrença na legitimidade do atendimento médico a um usuário de crack. Ou seja, a produção de corpos abjetos desafia tanto a existência material desses indivíduos enquanto seres cuja vida é legítima, quanto a existência discursiva enquanto seres de palavra, ou cuja materialidade corporal e condições de fala e interpretação devem ser levadas em consideração.

O domínio da abjeção também não é constituído somente pela aspereza do inabitável, pela rejeição. Como explica Butler (2007, p. 156), o repúdio a esses corpos "cria a valência da 'abjeção' - e seu status para o sujeito - como um espectro ameaçador". A ameaça da abjeção recai, precisamente, sobre as normas que regulam os corpos e práticas por ela desafiadas. A negação, a repulsa, a dificuldade de reconhecimento e mesmo a impossibilidade de materialização daquele corpo como pertencente a um sujeito são, na verdade, consequências da perturbação causada pela abjeção nas categorias de identificação - de identificação do usuário com o outro, consigo e com o papel que lhe é atribuído. Para Butler (2007), é precisamente esse aspecto "ameaçador" da abjeção que a torna um domínio fundador das reivindicações de legitimidade e da inteligibilidade.

Corpos sujos, malcheirosos. Mas a sujeira e o cheiro, nesse caso, não significam apenas a autodegradação. Tornam possíveis a esses sujeitos a distinção em relação a outras categorias do contexto de rua, possibilitando aos usuários, por exemplo, que exerçam a mendicância nas calçadas e sinais da cidade. Conforme ressalta Frangella (2004, p. 164), é na "manipulação diária das fronteiras da abjeção que o morador de rua redimensiona sua dinâmica social e política no espaço urbano". As marcas corporais dos sujeitos em situação de rua, de maneira geral, também funcionam como mecanismos de defesa e modos de negociação com outros sujeitos sociais, demarcando espaços em relação a outras pessoas e principalmente em relação à polícia, como forma de se evitar a abordagem e a revista, por

24

A redução de danos é um modelo de abordagem das problemáticas associadas ao consumo compulsivo de drogas. O foco do trabalho dos redutores de danos é minimizar as consequências do uso à saúde dos usuários, assegurando-lhes os direitos à saúde, à cidadania e às prerrogativas dos Direitos Humanos. As ações mais comuns desses grupos assistenciais estão ligadas à conscientização e à prevenção sobre condutas arriscadas ligadas às drogas, como o compartilhamento de seringas e cachimbos, as práticas sexuais desprotegidas etc.

exemplo, ou como maneira de chamar a atenção para si em público (FRANGELLA, 2004; GOMES; ADORNO, 2011; RUI, 2014).

Portanto, a corporeidade abjeta produzida pelo uso compulsivo do crack faz emergir uma ambiguidade: por um lado, denuncia a radicalidade da relação desses sujeitos com a droga, cuja consequência é logo sentida e mostrada pelos corpos entregues conscientemente ao autoabandono, à sujeira, à magreza, às intempéries das ruas, sem falarmos nas consequências físicas do uso compulsivo da droga, como queimaduras nos dedos e lábios, feridas malcuidadas etc.; por outro, permite a esses sujeitos experimentarem uma sensação contraditória de poder, a começar pelo domínio total sobre o corpo e sobre a própria vida, pelo aproveitamento do "espectro ameaçador" ante outros sujeitos e pela autodefesa contra intervenções repressivas e esforços disciplinadores.