1.4 Kongre Turizminin Önemi
2.1.6 Birleşik Toplantı Endüstrisi Konseyi (Joint Meetings Industry Council JMIC)
O pânico moral em torno do crack, a própria característica material da droga e as evidentes consequências do uso compulsivo nas corporeidades dos usuários relacionam-se a ponto de criarem um impasse ao reconhecimento dessas vidas como dignas de serem vividas e, por isso, passíveis de luto. Butler (2015) coloca nesses termos os dilemas morais relativos aos enquadramentos e modos de apreensão de certas vidas que não são qualificadas enquanto tal - numa referência específica, mas aberta a outros exemplos, aos prisioneiros de guerra ou àqueles povos afetados diretamente pelos conflitos, como os refugiados, ou mesmo povos e grupos classificados como inimigos, que devem ser eliminados porque constituem alguma forma de ameaça: aos poderes políticos instituídos, ao sistema econômico e trabalhista, às religiosidades estabelecidas, às normas cívicas naturalizadas etc.
A vulnerabilidade dos usuários de crack se torna objeto de interesse das narrativas exatamente porque tais sujeitos constituem vidas precárias, em condições precárias de existência, sobrevivência e prosperidade. Mas não se trata meramente de uma forma de exclusão dos adictos da vida social e política, na qual estes indivíduos são considerados sujeitos doentes ou entregues ao próprio destino trágico. Trata-se de uma divisão do sensível na qual esses sujeitos não são contados como vidas, nem ao menos são considerados sujeitos - são o refugo que precisa ser mostrado para que seja evitado a qualquer custo, combatido ou remediado; são a contraface do normativo. Como afirma Butler (2015), essa dificuldade para apreender certas vidas se realiza precisamente porque nossa capacidade de reconhecê-las depende que elas se produzam segundo as normas sociais que as caracterizam como vidas.
Com isso, a autora não quer dizer que a vida de um ponto de vista orgânico esteja condicionada às normas segundo as quais é reconhecida. Pelo contrário, Butler (2015) chama atenção ao fato de que nem todas as vidas são consideradas "vivas", pois fogem aos enquadramentos25 e modelos normativos de apreensão:
Na verdade, uma figura viva fora das normas de vida não somente se torna o problema com o qual a normatividade tem de lidar, mas parece ser aquilo que a normatividade está fadada a reproduzir: está vivo, mas não é uma vida. Situa-se fora do enquadramento fornecido pela norma, mas apenas como um duplo implacável cuja ontologia não pode ser assegurada, mas cujo estatuto de ser vivo está aberto à apreensão. (BUTLER, 2015, p. 22)
Esse jogo ambíguo regula e enquadra certas vidas como vivas, enquanto outras são deixadas nas "regiões sombrias da ontologia", de onde são resgatadas quando convém ao próprio enquadramento. A precariedade, para Butler (2015), não deve ser compreendida como uma condição particular de certas vidas socialmente denegadas. Ela enfatiza, antes, o caráter generalizado de sujeição a determinados modos socialmente facilitados de morrer ou de viver, a depender dos cuidados estabelecidos socialmente para com certas vidas. "Apenas em condições nas quais a perda tem importância o valor da vida aparece efetivamente. Portanto, a possibilidade de ser enlutada é um pressuposto para toda vida que importa" (Butler, 2015, p. 32). A precariedade, assim, enquanto processo socialmente condicionado, correlativo à interdependência entre as pessoas, deve ser pensada em termos de igualdade, de condição generalizada. Segundo essa perspectiva, é porque dependemos uns dos outros para viver e morrer que todas as vidas devem importar.
Entretanto, somos o tempo todo interpelados por maneiras de distribuir a precariedade de modo desigual entre grupos e sujeitos. Antes de se tornar uma questão relativa ao testemunho midiático, essa é uma indagação sobre a representação midiática da vida como tal. Nesse sentido, reproduzimos a pergunta e a resposta de Butler (2015) a esse respeito: o que faz com que uma vida se torne visível enquanto vida, em sua precariedade, em sua necessidade de amparo, na possibilidade de ser perdida e enlutada, e o que nos impede de ver ou compreender certas vidas, perecíveis, sem importância e, por isso, nem mesmo consideradas vivas? Para essa autora, o problema diz respeito sobretudo à mídia e suas
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Embora faça uma única menção à teoria do enquadramento de E. Goffman, além do título de sua obra, Frames
of war, traduzido no Brasil para Quadros de guerra, Butler (2015) não apenas homenageia o sociólogo como, ao
lê-lo em associação à abordagem de J. Derrida, desenvolve esse conceito em direção à reflexividade e à necessidade constante de "enquadrar o enquadramento", no sentido de questionar as molduras para mostrar que elas nunca contêm a cena que pretendem ilustrar. Nesse sentido, o próprio enquadramento, embora dependente das condições de reprodução, torna-se um rompimento perpétuo consigo, o que muda a compreensão quanto à sua vulnerabilidade e quanto à instrumentalização. Em suma, na tese de Butler, cabe aos enquadramentos regular as condições de reconhecimento e apreensão das vidas.
maneiras de enquadrar. De acordo com Butler (2015, p. 82), "só é possível atribuir valor a uma vida com a condição de que esta seja perceptível como vida, mas é apenas de acordo com certas estruturas avaliadoras incorporadas que uma vida se torna perceptível".
Ao chamar atenção para o como da retratação midiática de certas vidas, Butler (2015) denuncia a distribuição desigualitária da condição de "vida que importa", gesto cujas implicações incidem sobre nossas "disposições afetivas politicamente significativas", tais como horror, culpa, luto, indiferença. É nesse sentido que a autora distingue a vida precária das condições precárias: nem toda vida precária está entregue a condições precárias de vida; por outro lado, as vidas entregues às condições precárias têm sua precariedade primordial negada, posto que nem consideradas vidas são.
Nesse sentido, destaca-se o papel que a autora confere ao testemunho enquanto elemento-chave na apreensão de certas vidas. Diz Butler: algo está vivo, mas não é uma vida. "Em seu lugar, 'há uma vida que nunca terá sido vivida', que não é preservada por nenhuma consideração, por nenhum testemunho, e que não será enlutada quando perdida" (BUTLER, 2015, p. 33). Embora não esteja fazendo referência ao testemunho midiático, a autora considera o testemunho uma forma de considerar o outro, um gesto direcionado à preservação de determinadas vidas, reconhecidas enquanto vivas. Recorre-se, portanto, a uma matriz conceitual de testemunho na qual esse fenômeno, enquanto potência de dizer, é atravessado pela afirmação de uma vulnerabilidade humana comum. O testemunho, nesses casos, produz- se contra a impossibilidade de dizer e de viver, contra a divisão entre o que está vivo e o que constitui uma vida. Ou seja, o testemunho é revelador da precariedade como condição generalizada.
A condição precária, na qual é negado não somente o testemunho, mas as necessidades de sobrevivência e a própria existência simbólica, designa, para Butler (2015), uma condição politicamente induzida. Ou seja, diferentemente da precariedade da vida, pressuposto social elementar, a precariedade como condição social advém de injunções políticas cujas motivações e consequências são, em primeiro lugar, a indiferença para com aquelas vidas que não são consideradas vivas - inspirada por motivos diversos: tanto pela desaparição de certos sujeitos numa determinada ordem sensível onde a igualdade é pressuposta, quanto pela suposta ameaça que determinadas vidas oferecem à manutenção dessa ordem sensível e normativa; em segundo lugar, a indiferença e as injunções políticas agravam as próprias condições de precariedade:
A condição precária também caracteriza a condição politicamente induzida de maximização da precariedade para populações expostas à violência arbitrária do
Estado que com frequência não têm opção a não ser recorrer ao próprio Estado contra o qual precisam de proteção. Em outras palavras, elas recorrem ao Estado em busca de proteção, mas o Estado é precisamente aquilo do que elas precisam ser protegidas. (BUTLER, 2015, p. 47)
Obliteradas da ordem sensível, suprimidas da realidade social, impossibilitadas de gozar de uma existência simbólica, essas vidas em condições precárias ficam mais expostas do que quaisquer outras vidas aos riscos de sofrerem violações e de morrerem. Mesmo porque o risco, de um ponto de vista simbólico, só constitui ameaça à vida considerada enquanto viva; embora, de um ponto de vista prático, ele seja ainda mais ameaçador às vidas desconsideradas - e expostas às violências de toda parte, inclusive à violência justificada pela suposta ameaça que elas oferecem às vidas reconhecíveis e dignas de consideração.
Esse dilema moral em torno dos vivos e das vidas faz surgir toda uma classe de seres dispensáveis - à maneira do resto de que falava Dias (2012) sobre a analogia entre usuários de crack e a própria droga, derivada dos resíduos produzidos na fabricação da cocaína. O ponto final dessa espiral que começa com o reconhecimento desigual da precariedade da vida e passa pelo agravamento das condições precárias de vida culmina na formação de grupos e classes de vidas dispensáveis. "Essas populações são 'perdíveis', ou podem ser sacrificadas, precisamente porque foram enquadradas como já tendo sido perdidas ou sacrificadas; são consideradas como ameaças à vida humana como a conhecemos" (BUTLER, 2015, p. 53). E, quando perdidas e/ou sacrificadas, na lógica que organiza e legitima sua morte, essas vidas não são objeto de lamentação. São perdas necessárias à manutenção da vida dos "vivos".
Até que ponto a retratação de certas vidas, a exposição de determinados corpos e a exploração de histórias de vida pela via do testemunho podem corroborar ou romper esses enquadramentos que apreendem certas vidas e consideram outras dispensáveis? Se a vida só aparece efetivamente em condições nas quais sua perda tem relevância, então podemos afirmar, por derivação, ser ante a denúncia do desvalor da vida que ela adquire maior relevância para o exercício da política. O problema, no entanto, persiste quando consideramos um ordenamento político no qual certas vidas só são consideradas do ponto de vista de sua dispensabilidade.