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1.4 Kongre Turizminin Önemi

1.4.2 Sosyo-Kültürel Açıdan Kongre Turizminin Önemi

o programa A Liga exibido em 21 de junho de 2011, o jornalista Rafinha Bastos22, apresentador e repórter, dispôs-se a acompanhar um homem viciado em crack durante um dia inteiro. O personagem escolhido para prestar testemunho, cujo corpo raquítico e o desarranjo gestual evidenciam os efeitos do uso constante da droga, chama-se Paulo e atende pelo apelido de “Treze”. Desde o encontro do apresentador com Treze, segue-se um longo percurso narrativo em que o personagem sai pelas ruas de Brasilândia, distrito de São Paulo, em busca do que comer, de dinheiro e, principalmente, de crack. O infortúnio de Treze é contado em close-ups sucessivos de seu vício e sofrimento, intercalados por depoimentos ora lúcidos, ora confusos - em que a confusão é a própria matriz geradora de sentidos, considerando-se o objetivo de inscrever o testemunho de um usuário "típico" de crack.

“O que posso fazer? O negócio é ‘da hora’. [...] Quero terminar essa reportagem fumando dez, vinte, cem pedras”, confessa Treze, às lágrimas, depois de se mostrar conscientemente aprisionado ao crack, ao mesmo tempo em que se vê rendido àquela narrativa. Treze é testemunha de si, mas, principalmente, da devastação provocada pela “pedra”, assim como o jornalista que acompanha de perto seu infortúnio. E nós, espectadores, tornamo-nos testemunhas daquele sofrimento televisionado. Por que somos apresentados à desgraça de Treze? Ele é apenas um qualquer, mero exemplar do sofrimento, cuja imagem e palavra são invocadas somente para mostrar os revezes provocados pelo crack? E, principalmente, de que maneira Treze nos é apresentado em sua desgraça?

A insistência naquele personagem, em acompanhá-lo por um dia inteiro durante sua aventura nada trivial de sustentar mais uma jornada de consumo e sobrevivência, é emblemática no que diz respeito à centralidade das vítimas para uma economia midiática do testemunho. Revestido por uma aura da piedade, o testemunho midiático do sofrimento é pródigo em produzir vítimas e (re)encenar dramas, o que reforça um diagnóstico já bastante anunciado na literatura sobre o tema: nunca se deu tanta atenção ao sofrimento do outro (BRUCKNER, 1996; WIEVIORKA, 2003; ERNER, 2006).

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Rafinha Bastos é jornalista e comediante. Ele ficou conhecido nacionalmente a partir de 2008, quando estreou no programa Custe o que custar (CQC), da Rede Bandeirantes. Anos depois, passou a integrar a equipe do programa A Liga. Até que, em 2011, após a repercussão negativa de uma piada sobre uma cantora brasileira, ele foi suspenso e demitido da emissora, para a qual voltaria anos depois. Em razão das constantes polêmicas criadas em torno de sua atuação como humorista, o trabalho de Rafinha Bastos como jornalista tanto no CQC quanto em

A Liga é, geralmente, pouco lembrado.

A idolatria aos vitoriosos e o prestígio das celebridades dividem espaço com o heroísmo das vítimas nos múltiplos cenários midiáticos na contemporaneidade. O desenvolvimento de regimes de imagens e textualidades ancorados no espetáculo da dor e do sofrimento do outro vulnerável tem sido alvo de diversas investigações nos últimos anos (BOLTANSKI, 1993; SONTAG, 2003; CHOULIARAKI, 2009; PETERS, 2009a; VAZ; RONY, 2011; BIONDI, 2011). Esses dramas e tragédias são narrados, encenados e registrados em diferentes contextos culturais e produtivos, da literatura ao cinema, da fotografia à televisão.

No Brasil, as emissoras de TV são pródigas em oferecer aos espectadores esses ingredientes rotineiros de sofrimento. Seja na ficção televisiva, representada principalmente pelas novelas e pelas minisséries, seja no telejornalismo, do noticiário aos programas de reportagem, a figura da vítima é recorrente e decisiva. Outrora considerada inocente e passiva, a vítima tornou-se, em nosso tempo, categoria social e cultural das mais relevantes, a qual, ao despertar grande interesse das narrativas midiáticas, evidencia uma face ambígua e até controversa: reveste-se de uma força potencialmente política que ora resiste à coisificação, ora serve a certa lógica instrumentalizadora do sofrimento. A notabilidade da vítima realça sua centralidade para o regime midiático, mas sob a ambiguidade de se tornarem objetos dos discursos miserabilistas ou de assumirem uma capacidade real de agenciamentos.

A notoriedade e mesmo o protagonismo contemporâneo das vítimas deveriam implicar, de certa forma, o reconhecimento do sofrimento vivido, da violência sofrida, em suma, da presença do sujeito e de suas vulnerabilidades na consciência coletiva (WIEVIORKA, 2003). Mas até que ponto essa emergência vitimária coincide, efetivamente, com o interesse pelos sujeitos em suas condições de vida? Até que ponto essa exploração das vítimas possui uma motivação genuinamente solidária e política, voltada para a denúncia, a reparação ou a reivindicação de uma transformação da realidade em que vivem aqueles que sofrem?

A aparição das vítimas nos cenários de visibilidade pública não é, por certo, um fenômeno novo, tampouco restrito às produções ficcionais e jornalísticas televisivas. Entretanto, a proeminência desses sujeitos e a presença ostensiva nessas narrativas midiáticas constituem no mínimo sintomas relevantes das transformações das formas expressivas na contemporaneidade. Trata-se de uma mudança cultural e política significativa, com grande repercussão nos regimes de sensibilidade (FASSIN, 2002; WIEVIORKA, 2003; ERNER, 2006).

Há pelo menos duas maneiras de compreender esse problema, do ponto de vista dos regimes midiáticos: o da construção de certa consciência do sofrimento ante os semelhantes desditosos e o da rendição à sedução voyeurística das imagens que não recuam diante dos desgraçados. Nos dois casos, no entanto, considerando o espetáculo do sofrimento a que estamos cada vez mais acostumados a assistir, falar da exploração do sofrimento e das vítimas põe em evidência o emprego da compaixão como forma de regulação do político, isto é, do jogo entre a subjetivação e a dessubjetivação (FASSIN, 2002). Por regulação do político entenda-se, por ora, a possibilidade de exposição do sofrimento e dos sofredores em grande escala, bem como a capacidade de reconhecimento desse mesmo sofrimento como condição que requer ação e reparação, e das vítimas como sujeitos políticos capazes de agir e reagir.

Para Wieviorka (2003), a emergência das vítimas na contemporaneidade indica, sobretudo, uma espécie de reconhecimento das situações e contextos violentos como formas de negação do sujeito. Diz-se, portanto, de um "aumento da sensibilidade aos problemas não apenas do funcionamento social e de socialização, mas também de subjetivação e dos riscos de dessubjetivação" (WIEVIORKA, 2003, p. 33-34, tradução nossa)23. Nesse sentido, o pano de fundo desse protagonismo das vítimas na mídia seria político e se constituiria como convite a pensar ou mesmo agir em relação àqueles que têm sua subjetividade afetada pelas formas de violência, injustiça e pelos infortúnios. Daí a ambiguidade da condição de vítima: reduzida à identidade negativa do objeto do sofrimento destituído de subjetividade ou capaz de recuperar sua capacidade de subjetivação e reação aos contextos de sofrimento. De todo modo, a vítima cai nas redes midiáticas e tem sua história, sua rotina e seu corpo explorados por diversas narrativas.

A questão que se coloca, então, não é apenas a do porquê, mas também a do como. Antes de reivindicar o potencial político desse regime do sensível protagonizado pelas vítimas, devemos nos perguntar sobre as formas de inscrição dos sofredores, as maneiras de retratar os infelizes, os modos de narrar o infortúnio dos enjeitados. Como veremos mais adiante, com os exemplos dos usuários compulsivos de crack nas narrativas televisivas, o problema das vítimas é, antes de mais nada, uma questão de abordagem, de construção de esquemas interpretativos a partir dos quais acompanhamos o testemunho dos sofredores, entregues a esse conjunto amplo de possibilidades exploradas pelo regime midiático de visibilidade e dizibilidade.

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d’une sensibilité accrue aux problèmes non plus seulement du fonctionnement social, et de la socialisation, mais aussi de la subjectivation, et des risques de désubjectivation.

Em sua crítica aos interesses que fundamentam e regulam o elevado grau de visibilidade das vítimas na contemporaneidade, Bruckner (1996) vê nas formas de abordagem o maior dos entraves à legítima preocupação política e moral com esses sujeitos. "Duplo movimento: só o que está mal retém a nossa atenção e, diante de qualquer problema, privilegia-se a abordagem miserabilista, a que emociona" (BRUCKNER, 1996, p. 226). Para esse ensaísta, o problema da instituição vitimária contemporânea está na dependência da figura da vítima como pretexto para o sentimentalismo. O sofredor é mecanicamente transformado em motivo de lamentação, enquanto que o espectador é perturbado e compelido a se emocionar: comovendo-se, apiedando-se, indignando-se.

Esse tipo de abordagem nos remete ao esquema narrativo oferecido pelo melodrama, que, como lembra Xavier (2000), oferece-nos uma espécie de modelo de sofrimento baseado numa encenação em que a vítima emociona graças à performance que executa, dramatizando seu "percurso de aflições". Mas, enquanto dispositivo operador de uma "sedução moral negociada", o melodrama busca sua legitimidade na denúncia da injustiça que oprime o sofredor, ao mesmo tempo em que cede às exigências do apetite por imagens e do desejo de ver mais (XAVIER, 2000). Volta-se, assim, uma vez mais, à ambiguidade do espetáculo do sofrimento que satisfaz, num só compasso, o clamor moral contra as formas de sofrimento e a sedução voyeurística.

No entanto, e para avançarmos em relação a essa ambiguidade, os problemas de abordagem do sofrimento alheio incluem principalmente a construção de certos padrões de vítimas, como se algumas tivessem mais legitimidade - ou notabilidade - do que outras para prestar testemunho do sofrimento:

Quando se têm de abordar certas questões sociais, postula-se imediatamente que o desempregado, o toxicodependente, o sem-domicílio fixo, o jovem dos subúrbios, devem ser desesperados, constituídos em objectos de condoimento. É sua conformidade com este padrão que os torna televisuais ou radiofónicos e permite escamotear outras abordagens mais políticas: por detrás de cada caso particular é preciso catar algo de patético. (BRUCKNER, 1996, p. 226)

A rotina de exposição das vítimas reveza modelos distintos de sofredores, os quais são chamados a se tornar atores do próprio drama, encenado diante dos outros. Além do que emociona, importa também o que nos rende, o que nos ameaça. Bruckner (1996) faz referência a figuras genéricas, porém bastante conhecidas dos espectadores de televisão, para as quais facilmente encontramos correspondentes na realidade brasileira: nas reportagens ou telenovelas, não podem faltar os adictos, os sem-teto ou sem-terra, os "favelados", a mulher, a criança ou o idoso vítima de maus-tratos, as pessoas discriminadas por cor da pele ou

orientação afetiva e sexual, as vítimas da violência cotidiana dos centros urbanos, entre tantos outros personagens adequados aos seus respectivos modelos vitimários. O problema colocado diz respeito, portanto, à padronização das vítimas, ao seu apadrinhamento e sua produção como exemplares dignos de atenção e cujo testemunho vale a pena assistir ou ouvir.

Os usuários de drogas certamente compõem uma dessas "classes" de sofredores cuja visibilidade midiática é inegável. E os consumidores de crack, por sua vez, têm lugar privilegiado num cenário em que o aumento do tráfico e do uso dessa droga no país tem provocado intensas controvérsias em relação a políticas de proteção social e saúde pública, mecanismos repressivos e disputas de sentido entre discursos proibicionistas, terapêuticos e miserabilistas. O conjunto desses impasses incide diretamente sobre as condições daqueles sujeitos, bem como sobre a maneira como eles são inscritos nos regimes midiáticos. É o caso, por exemplo, das atuações policiais legitimadas por certo anseio higienizador que, por sua vez, é motivado por ações e reações violentas tanto do aparelho público repressor quanto dos usuários - criando-se, assim, um círculo vicioso no qual a violência suscita a "ação enérgica", geradora de mais violência.

O interesse pelas formas de inscrição dos toxicômanos em determinadas narrativas midiáticas constitui, por isso, uma de nossas preocupações centrais. Trata-se menos de corroborar o pânico moral em torno do qual gravita a questão do crack, do que de examinar, de um ponto de vista político e narrativo, esses relatos cujo enfoque e modo de abordagem recaem sobre o sofrimento, a miséria, o autoabandono, as condições precárias de vida, a "anormalidade", a vida considerada "indigna", a alteridade radical. Interessa-nos o que esses sujeitos e narrativas oferecem como desafio à compreensão do testemunho midiático do sofrimento, cuja abordagem tende, por via de regra, a privilegiar outro conjunto de indivíduos em situações de sofrimento - como as vítimas de catástrofes, da guerra, da fome, do terrorismo, etc.