I. BÖLÜM
I.4. GREV KURAMLARI
I.4.2. Topluluk Bütünleşmesi Kuramı
O fenômeno das secas no nordeste brasileiro não é algo recente e os primeiros registros da exploração político-econômica dos seus efeitos foram registrados ainda na segunda metade do século XIX, mais precisamente durante a grande seca de 1877-79. Nesse mesmo século se registra a primeira política pública de combate a seca, intitulada como “política de socorros públicos”, implementada desde o governo imperial, durante as secas de 1877-79 e de 1888-89, perdurando até a implantação da República, quando volta à tona durante a seca de 1903-04. Possuía “(...) um caráter puramente assistencial, quase caritativo, com distribuição de gêneros alimentícios e remédios” (FERREIRA, 1993, p.61). É justamente durante a seca de 1877-79 que
se iniciou a indústria da seca e os principais fatores estruturais que levaram ao surgimento desse fenômeno político-social, segundo o historiador Roger Cunnif são:
1. A grave crise econômica nordestina, ampliada “(...) pelas estiagens prolongadas”.
2. A criação de uma política estatal voltada “(...) para atender aos interesses privados de determinados segmentos da sociedade em detrimento dos demais”.
3. “(...) e a criação de um lobby, sempre a postos para carrear recursos para a região Nordeste” (CUNNIF, apud FERREIRA, 1993, pp.72 e 73).
Esse terceiro ponto fica ainda mais nítido quando analisamos a questão econômica brasileira durante a República Velha. O café, nesse período, passou a ser o gênero econômico de maior importância levando os cafeicultores a tornarem-se o grupo político-econômico de maior força. Nesse momento, o governo passou a adotar medidas protecionistas com o intuito de favorecer ainda mais os cafeicultores. “O Nordeste, com seus produtos em crise, não conseguia nenhuma medida protecionista e passou a se utilizar dos períodos de estiagem para reivindicar ajuda financeira da União” (FERREIRA, 1993, p.31). Dessa forma, cada uma dessas regiões do país passou a arrebatar a sua parte dos cofres públicos, o Sul utilizando o discurso do café e o Norte (Nordeste) alegando os problemas gerados pelas infindáveis secas.
Para a historiadora Lúcia Guerra (1993, p.61) esse fenômeno político deve ser ainda observado sobre dois níveis:
1. (...) o local, onde ocorriam os desvios diretos de verbas e gêneros alimentícios por membros das comissões de socorros públicos, justamente com tropeiros e comerciantes.
2. E (...) por um nível mais amplo, com a conscientização dos representantes nordestinos no sentido de aproveitar e usar as secas como meio de conseguir investimentos governamentais na região.
Partindo dessas análises167 – que focam as secas a partir de algumas instâncias políticas – podemos afirmar que a indústria da seca é a manipulação dos recursos públicos em prol das elites
167 Segundo Lúcia Guerra, as secas no Nordeste brasileiro e, em especial, na Paraíba podem ser compreendidas a
partir da leitura de duas correntes historiográficas existentes que se debruçam sobre o referido assunto: 1. “(...) a que encara prioritariamente sob o aspecto climático e como causadoras de todos os males econômicos e sociais da região Nordeste; e a que percebe as secas em um contexto mais amplo, e sem colocá-las como fator determinante da situação sócio-econômica nordestina” (FERREIRA, 1993, p.14). Ainda segundo a historiadora, duas obras – de inúmeras outras – serviriam de aporte teórico para a constituição da primeira corrente: “Notas sobre a Parahyba” (1892), de Irineu Joffily; e “A Paraíba e seus problemas” (1923), de José Américo. A segunda corrente historiográfica seria encabeçada pelo paraibano Celso Furtado, por Rômulo Almeida, e por Francisco de Oliveira,
nordestinas, onde as suas raízes e as primeiras formas de atuação foram verificadas a partir da grande seca de 1877, com o início da intervenção estatal através da criação do “sistema de socorros públicos” e, posteriormente, através da criação de outros órgãos oficiais para combater as secas: a Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS) e a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS). Desde 1922168 que as secas no nordeste brasileiro assumiram um caráter cíclico que, curiosamente, eram verificadas a cada dez anos: 1922, 1932, 1942 e 1951-1952 (A UNIÃO, 13/03/1951, p.4). Os anos de 1951 e 1952 foram marcados por um período de grave estiagem que atingiu todos os estados nordestinos, afetando as diversas mesorregiões. No Piauí, a seca atingiu violentamente o rebanho bovino que sofreu com os efeitos de uma epidemia que passou a dizimar o gado. Levas e mais levas de homens e mulheres passaram a se deslocar sem rumo por todo o estado durante os meses de janeiro e fevereiro de 1951, e a cidade de Parnaíba – situada no litoral do estado – passou a receber centenas de flagelados e retirantes que perambulavam diariamente por suas ruas a procura de trabalho e comida. Em Teresina, as praças já abrigavam centenas de famílias numerosas e famintas. “Na estação ferroviária São Luiz – Terezina foram improvisados campos de convergencia de imigrados, sendo que já ocorreram várias mortes por inanição” (A UNIÃO, 25/03/1951, p.1).
No interior do Ceará, as últimas esperanças de chuva esvaíram-se com a passagem do dia de São José169, sem uma gota de chuva cair do céu, “terrivelmente” limpo. A maior parte dos municípios do interior do estado se encontrava numa situação de extrema calamidade, os centros das maiores cidades foram invadidos por retirantes que perambulavam numa espécie de peregrinação sem fim, atrás de comida e trabalho. A maior parte do comércio dessas cidades mas precisamente através da obra “Elegia para uma re(li)gião”. É essa última corrente que norteia os estudos encabeçados por Lúcia Guerra.
168 Essa será a última seca da Primeira República, período que marca também término das intervenções estabelecidas
pelo Executivo Federal em relação à problemática das secas. (FERREIRA, 1993, p.16).
169 O mês de março é considerado decisivo pelos agricultores nordestinos, pois existe uma crença ligada ao dia 19 de
março, dia de São José, que afirma que se não chover até essa data, as plantações serão castigadas pelo verão intenso e esse não será um bom ano para as plantações, afetando diretamente as colheitas. Na Paraíba, o jornal A União passou a alimentar essa crença, durante a seca de 1951-1952, afirmando que “(...) esperança ainda não esta morta como, literariamente, como já o fizeram com a província, até que o dia 19 de março traga aprova final do que reserva a sorte, no corrente ano, aos sertões. (...) Assim é que, a expectativa de hoje até o próximo dia de São José é das mais febricitantes” (A UNIÃO, 01/03/1951, p.4). Essa crença relacionada ao dia 19 de março foi imortalizada numas das belas poesias do cearense Patativa do Assaré – A Triste Partida – que foi transformada em música por outro cearense, Luiz Gonzaga: “Sem chuva na terra/ Descamba Janeiro/Depois fevereiro/E o mesmo verão/Meu Deus, meu Deus/Entonce o nortista/Pensando consigo/Diz: "isso é castigo não chove mais não"/Ai, ai, ai, ai/Apela pra Março/Que é o mês preferido/Do santo querido/Sinhô São José/Meu Deus, meu Deus/Mas nada de chuva/Tá tudo sem jeito/Lhe foge do peito/O resto da fé/Ai, ai, ai, ai” (Composição: Patativa do Assaré – Música: Luiz Gonzaga – 1964).
encerrava as suas atividades mais cedo e muitas lojas e armazéns não abriram as suas portas durante um bom tempo, tudo por causa dos saques que já ocorriam na região.
A situação se agravou efetivamente a partir do mês de março, quando vários veículos de comunicação de todo o país – a exemplo do Jornal do Brasil, Diário Trabalhista, dentre outros – passam a noticiar diariamente a migração de centenas de retirantes nordestinos170 que partiam para outras regiões do país, a exemplo da capital federal, o Rio de Janeiro, e diversas cidades do estado de São Paulo.
S. PAULO, 6 (M) – Quem visita a estação Presidente Roosevelt de manhã, fica admirado com o grande número de imigrantes nordestinos que se espalham pelos páteos dos quais sujos, esfarrapados e famintos. São baianos, pernambucanos, cearenses, e s e r g i p a n o s. (...) Diversos estão sendo enviados para Santos e Jundiaí para trabalhar nas plantações de bananas (A UNIÃO, 07/03/1950, pp.1, 6).
Assaltos em massa eram praticados pelos retirantes famintos nas vilas e cidades por onde a “caravana da fome” passava a procura de água, comida e emprego. Na cidade de Campos Sales (CE), divisa com o estado do Piauí, 755 flagelados ameaçavam invadir “(...) o comércio e casas residenciais se o Governo não prestasse assistência imediata” (A UNIÃO, 25/03/1951, p.1). Segundo outro trecho dessa mesma reportagem, 8 milhões de homens e mulheres já haviam deixado os campos e fazendas de vários estados nordestinos em busca de água e comida. O deputado estadual paraibano, João Carneiro de Freitas (eleito em 1950), já declarava que: “se o Governo Federal não agir com presteza para enfrentar a sêca e suas conseqüências, sobretudo socorrendo as populações nordestinas, verificar-se-á o maior êxodo de todos os tempos. (...) onde toda a economia do Nordeste será arrazada” (FREITAS, apud A UNIÃO, 25/03/1951, p. 01).
Na Paraíba, os efeitos dessa calamidade foram sentidos principalmente nas seguintes “Zonas Fisiográficas”: “Agreste e Catinga Central; Médio Sertão dos Cariris Velhos; Seridó; Baixo Sertão do Piranhas; e o Alto Sertão” (ALMEIDA, 1951, p.92). Uma fase mais intensa de estiagem e outra mais amena marcaram as secas de 1951-52, no período em que José Américo esteve à frente do Executivo paraibano.
170 Embora considerados fenômenos corriqueiros de mobilidade, as migrações assumem papel de destaque na região
Nordeste. A busca por melhores condições de vida e trabalho há muito tempo tornou-se algo corriqueiro na vida das populações que habitam o Semi-Árido nordestino. Entre 1950-1960, período que abrange o recorte temporal estudado por nós nesse capítulo, “(...) a taxa de crescimento urbana foi de 5,3% enquanto, para a população rural, mal atingiu 1,2%. Em relação ao total dos habitantes da região, esse índice foi de 2% (DNOCS, 1982, p.29).
Nos primeiros meses da administração americista, o retrato da paisagem desoladora vivenciada diariamente por uma grande parcela dos habitantes do estado paraibano e da maior parte da região Nordeste, ou que já observaram à distância em alguma fotografia, documentário, filme, ou leram em alguma obra literária ou científica, foi muito bem descrita pelo grande autor regionalista, José Lins do Rêgo em uma matéria publicada pelo jornal A União durante esse período de estiagem:
As histórias de Raquel de Queiroz, de José Américo, de Graciliano Ramos, passam da ficção vigorosa para a realidade pungente.As retiradas se farão com as vias-sacras de um povo que morre aos pedaços.Os lares se desfazem, as pestes se concentram, a terra abandonada se reduz a nada. Sol e fome, sol e doença, sol e morte de todos os tamanhos.(Trecho do artigo escrito por José Lins do Rêgo, intitulado “Seca no Nordeste”. A União, 16/03/1951, p.3)
É a repetição de um “fenômeno natural” que provavelmente teria os seus efeitos amenizados e até mesmo cessados, se não fosse a inoperância dos poderes públicos, o descaso das autoridades e a ambição dos grupos oligarcas que ainda se mantêm sob a égide da indústria das secas implantada desde 1877.
A seca enfrentada pelos paraibanos durante o governo de José Américo de Almeida – mais especificamente entre os anos de 1951-52 – se inicia meses antes de sua posse, verificada no dia 01 de fevereiro de 1951. Os primeiros indícios de uma calamidade iminente foram sentidos em alguns municípios do interior do Estado ainda na segunda metade do ano de 1950. Embora as primeiras notícias referentes a essa problemática tenham surgido ainda no governo do udenista Osvaldo Trigueiro, passando pelo curto período da administração de seu sucessor e vice- governador, José Targino, os problemas relacionados a esse prenúncio de grande estiagem só receberam a atenção merecida a partir dos primeiros meses da gestão americista.
Essa afirmação é facilmente comprovada ao compararmos a quantidade de matérias, relacionadas à seca, publicadas pelo jornal A União, durante o último mês da gestão de José Targino (janeiro) e os três primeiros meses do governo de José Américo:
(Fonte: A UNIÃO, 01/01/1951 a 30/04/1951)
Durante o ano de 1951, teremos dois momentos de grande devastação sócio-econômica causada pela seca: o primeiro deles, que vai de fevereiro a maio, com interrupção a partir do mês de junho, quando teremos uma trégua com a chegada das chuvas na maior parte das regiões do Estado; e outro período de intensa estiagem, que se inicia em setembro, perdurando por todo o resto do ano de 1951 e início de 1952.
Entre as primeiras medidas adotadas pelo governador José Américo, destaca-se a “política de combate a carestia” de preços dos gêneros alimentícios de primeira necessidade. Durante os primeiros dias de sua gestão, José Américo passou a visitar171 as principais feiras livres e mercados públicos de João Pessoa a fim de limitar a crescente inflação que atingia o custo de vida da população não só da capital, mas de toda a Paraíba. Segundo o jornal A União:
Os generos tem subido assustadoramente, e os orgãos encarregados de regular o custo da vida e combater á extorsão, vem falhando na adoção de medidas concretas e objetivas destinadas a por um fim a sucessiva oscilação de preços, ou reprimir o câmbio negro. (...) O governador José Américo, sentindo a gravidade do problema em toda a sua plenitude, achou, acertadamente, de considerá-lo como o mais instante, o mais sério e o que está a exigir o mais imediato exame e pronta solução. (A UNIÃO, 04/02/1951, pp.3, 5).
A proibição da evasão de gêneros alimentícios de primeira necessidade para outros Estados fronteiriços, figurou – entre outras medidas do referido programa – numa importante ação estatal, pois além de assegurar a presença desses alimentos nas diversas regiões paraibanas, trouxe um consequente barateamento do custo de vida da população. O período da Semana Santa tornou-se uma espécie de termômetro para essas ações fiscalizadoras que ficaram a cargo da polícia militar e civil, sob a direção do delegado do DOPS, como afirmou a circular veiculada
171 Na tentativa de mostrar a eficácia dessa política de combate aos preços altos, o jornal A União passou a divulgar
fotos das visitas realizadas por José Américo e pelo prefeito de João Pessoa, Osvaldo Pessoa, inspecionando os açougues do Mercado Central. Ver uma dessas fotos no ANEXO R deste trabalho, p.289.
QUADRO 19 – QUANTIDADE DE MATÉRIAS PUBLICADAS SOBRE OS EFEITOS