Os interesses coletivos dos acionistas são atingidos através do respeito ao princípio
majoritário, que rege as sociedades; o comando pelo controlador, sem abuso de poder de
controle; a perseguição dos fins sociais e não fins egoísticos
77.
No direito societário a sociedade guia-se pela vontade da maioria, não existindo uma
submissão do acionista vencido nos órgãos de deliberação, e sim uma sujeição à vontade da
maioria. Também não há que se falar em renúncia de direitos, e sim, mais uma vez, na
sujeição à vontade dos acionistas que compõem a maioria social.
exercício da atividade de exploração do ramo farmacêutico por cooperativa médica introduz no mercado elemento diferenciador e determinante, constituindo fator de cooptação ou atração de novos cooperados ou usuários do plano de saúde por ela oferecido, infringindo os princípios da livre iniciativa e da livre concorrência constitucionalmente assegurados”. (TRF-3 - AMS: 22120 SP 0022120-12.2004.4.03.6100, Relator: Desembargador Federal Mairan Maia, Data de Julgamento: 02/02/2012).
76 NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Constituição Federal comentada e legislação
constitucional. 2. ed. São Paulo: RT, 2009. p. 641.
77 Lei das Sociedades Anônimas: “art. 115. O acionista deve exercer o direito a voto no interesse da companhia;
considerar-se-á abusivo o voto exercido com o fim de causar dano à companhia ou a outros acionistas, ou de obter, para si ou para outrem, vantagem a que não faz jus e de que resulte, ou possa resultar, prejuízo para a companhia ou para outros acionistas”. Ainda, quanto ao tema é considerado abuso de poder de controle, nos termos do artigo 117, parag. 1º, alínea “a”, da LSA: “Art. 117. O acionista controlador responde pelos danos causados por atos praticados com abuso de poder. § 1º São modalidades de exercício abusivo de poder: a) orientar a companhia para fim estranho ao objeto social ou lesivo ao interesse nacional, ou levá-la a favorecer outra sociedade, brasileira ou estrangeira, em prejuízo da participação dos acionistas minoritários nos lucros ou no acervo da companhia, ou da economia nacional;” (grifo nosso). LEI nº 6.404 /76. Sociedades por Ações. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6404consol.htm>. Acesso: 10 jun. 2015.
Nesse caminho, confira-se a opinião de Lamy e Pedreira
78, autores da Lei das
Sociedades Anônimas, que definem o princípio majoritário:
Princípio majoritário é a regra do regime de funcionamento dos órgãos de deliberação colegiada da companhia segundo a qual as deliberações são tomadas por maioria de votos e, quando conformes com a lei e o estatuto social, vinculam todos os membros, ainda que ausentes ou dissidentes. [...] A deliberação por maioria vincula todos os membros do órgão, embora ausentes da reunião de deliberação ou dela dissidentes, porque é ato coletivo, organizado segundo normas que regulam a reunião e deliberação do órgão, o que fundamenta a imputação da deliberação ao órgão como conjunto organizado de pessoas. Esse efeito, próprio da natureza do ato, é confirmado pelo § 5° do artigo 1.072 do Código Civil, ao regular as deliberações das assembleias de quotistas da sociedade limitada. A extensão do princípio majoritário às deliberações da Assembléia Geral que modificam o estatuto social implicou a derrogação, em relação às companhias, do princípio fundamental do direito contratual de que as estipulações do contrato ajustadas pelas partes contratantes somente podem ser alteradas por novo consenso dos contratantes, o que foi, inclusive, referido a princípio como uma das características da companhia (v.§ 16-2).
Esse princípio é fundamental para entender toda e qualquer alteração
contratual/estatutária, seja ligada às operações societárias, autorização para conclusão de
determinado negócio jurídico ou à forma de solução de conflitos por arbitragem. Ou seja, a
assembleia geral, órgão soberano da companhia, pode alterar dispositivos
contratuais/estatutários que (des)agradem ao acionista minoritário como a introdução de
cláusula compromissória ou retenção de lucros em valor maior que o mínimo legal
79. Por
outro lado, supor e defender que a sociedade somente poderá alterar o rumo de suas atividades
através de decisão unânime dos sócios é não compreender o dinamismo dos negócios e os
diferentes interesses que permeiam a sociedade
80.
Dessa forma, para que a sociedade persiga o interesse da coletividade, deve respeitar
as decisões assembleares e a vontade da maioria, convergindo os interesses individuais para o
78 LAMY FILHO, Alfredo; PEDREIRA, José Luiz Bulhões. Direito das companhias. Rio de Janeiro: Forense,
2009. p. 808-809.
79 Lei das Sociedades Anônimas: “Art. 194. O estatuto poderá criar reservas desde que, para cada uma: I -
indique, de modo preciso e completo, a sua finalidade; II - fixe os critérios para determinar a parcela anual dos lucros líquidos que serão destinados à sua constituição; e III - estabeleça o limite máximo da reserva”. LEI nº
6.404 /76. Sociedades por Ações. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L6404consol.htm>. Acesso: 10 jun. 2015.
80 Sobre o tema, conferir Valverde, que já escrevia em 1941: “Não foi senão após demorada e exaustiva luta de
ideias que o princípio majoritário conseguiu dominar o conceito de que os estatutos, como um conjunto de cláusulas ou estipulações de um contrato, não podiam ser alterados ou reformados senão com o consenso unânime dos sócios. Não era possível, com efeito, que empresas destinadas a perdurar, a viver mais que a vida humana, tivessem sua sorte, seu desenvolvimento e progresso ligados a regra estatutárias, que a nova situação ou o meio econômico não mais justificava ou exigia mesmo a revogação ou a modificação delas, objetivo, porém, que não poderia alcançar senão mediante concurso unânime de acionistas da sociedade anônima”. VALVERDE, Trajano de Miranda de. Sociedades por ações. Rio de Janeiro: Forense, 1941. v. 1, p. 474.