2.5. TİCARET UNVANININ DEVRİ
3.1.2. Ticaret Unvanına Tecavüz Davalarında Sessiz Kalma Nedeniyle Hakkın
O puritanismo é moderno. Se não é pós-industrial como o fundamentalismo, é posteri- or àquele espírito humanista que incendiou a Europa da passagem do século XV para o XVI, posterior também às primeiras revoluções modernas do espírito científico, no mínimo, con- temporâneo delas. O puritanismo é moderno e também pós-industrial, não no seu nascedouro, mas em sua conservação, posto que hodierno. O puritanismo manteve sua existência e se re- produziu concomitantemente às mais profundas transformações da história e do intelecto hu- manos nos últimos quatro séculos. Diminuição dessa força houve, é inegável, mormente na Europa, da qual o feminismo é uma das heranças mais sensíveis.
Nascer protestante ou se converter ao protestantismo e fazer parte de uma igreja influ- enciada pelo puritanismo significa para uma mulher aceitar todos os característicos comuns aos dois gêneros – os três conceitos-chave, (1) idéia de salvação, (2) vocação e (3) pertenci- mento e fidelidade a uma comunidade visível de santidade, junto com a rejeição do mundo pela militância religiosa no mundo, ou seja, conquistar o adversário pelo exemplo: responsabi- lidade individual pela salvação divina e gratuita por meio de frutos exteriores que a evidenci- em – e mais o que é próprio às mulheres. Salvar-se do inferno para uma mulher puritana no seio do puritanismo inglês ou em o norte da América significava aceitar a cosmovisão e o mo- dus vivendi et operandi da comunidade puritana, com tudo definido por homens e para eles mesmos.54
Se o pertencimento à seita (igreja protestante, no caso) passa a ser uma das instâncias reguladoras exteriores da vocação e salvação interiores, é coerente que homens e mulheres dêem os frutos relacionados a sua condição de gênero. O papel da mulher é o de aceitar as decisões historicamente tomadas por homens, primeiramente os puritanos que fugiram da Inglaterra para fazer a América dedicada à glória de Deus; depois, os daqueles que vieram para o Brasil a fim de expandir as fronteiras da América com os mesmos objetivos religiosos. Reconhecer o papel destinado ao gênero feminino é trafegar pelos caminhos permitidos dentro dos espaços destinados às mulheres.
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A criação conceitual de uma bruxa (ou de uma coletividade de bruxaria) para depois poder ser caçada pela autoridade religiosa passava por critérios recorrentes, dos quais se destaca o de manter relações sexuais com o diabo ou demônios trazendo seus filhos à luz (cf. TOMITA, 2001-2002).
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Conkin (1976) afirma que o grande crime das bruxas de Salém não foi o de praticar bruxarias, mas um desres- peito histérico àquilo que de direito, ou seja, uma quebra de acordo por parte das mulheres ao tentar ocupar espa- ços que não eram seus.
De Genebra à Grã-Bretanha, desta a Salém e Boston, de lá para o Brasil, às mulheres pouco conhecimento e pouco espaço público. Teologia e pregação são coisas de e para ho- mens (varões); ocupar o púlpito, a cátedra e os conselhos, participar dos processos decisórios, também. Às mulheres resta a casa, o espaço próprio do lar, ouvir os homens na igreja, as reu- niões próprias às mulheres, desde que nelas sejam conversadas coisas próprias de mulheres. Por isso é que mulheres que sabiam demais ou que desejavam saber demais eram bruxas na Europa e nos Estados Unidos, não porque tivessem feito pacto com o demônio, mas porque ousavam colocar em xeque toda uma estrutura masculina de poder e dominação.
(...) as mulheres que eram parteiras, as que conheciam o poder curativo dos chás, as que sabiam sobre a fertilidade ou a esterilidade das sementes, as que conheciam o ci- clo de reprodução dos animais domésticos, as que dominavam a arte de fiar, as que tinham os segredos da cozinha, as que geravam, amamentavam e educavam crianças com competência, as que preparavam poções para que os atos sexuais não fossem meros atos para a reprodução, mas também prazerosos, estavam realmente detendo poderes que os homens não tinham e eram condenadas como bruxas perversas. Ora! Eva já infelicitara o homem uma vez, fazendo-o perder o Paraíso e ter que trabalhar. Não se poderia repetir que a árvore do conhecimento e do discernimento voltasse a ser propriedade da mulher. Eliminá-la era justificado. Então, que fosse eliminada (CHASSOT, 2003, p. 65).
Se saber é poder, todo conhecimento aos homens. Todo poder aos homens. As mulhe- res não deviam saber e as que sabiam deviam se calar ou ser caladas. As ciências especializa- das ou fragmentadas começavam a nascer em seu sentido moderno, as mulheres teriam muito a contribuir nesse processo, mas isso também foi interditado a elas. As mulheres não foram consideradas bruxas apenas religiosamente por causa de seus curandeirismos, benzimentos, remédios, chás, poções, milagres, mas porque as ciências passavam a ser monopólio dos ho- mens, a medicina dentre elas talvez como o maior sintoma daqueles tempos.55
Attico Inácio Chassot defende a tese de que a ciência é, ela mesma, masculina. Suas idéias encontram-se com as desta tese no caminho trilhado por ambas: tratam de Ocidente, modernidade, conhecimento, poder e dominação (em estruturas masculinas, nunca neutras), interdição às mulheres ao conhecimento e ao poder e dominação.
Chassot estabelece três ancestralidades masculinas da ciência: a grega, a judaica e a cristã. Inegável que o protestantismo e seu ramo puritano tenham também os mesmos ances- trais masculinos. Para antecipar a pergunta "O protestantismo não é, ele mesmo, cristão?", a
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"Os doutores da Igreja e da Universidade uniram-se num grande movimento para desqualificar e penalizar as mulheres médicas. Isto se inicia no século XII, e por volta do século XIV as mulheres foram proibidas de praticar a cirurgia na França. Na Itália, como também na França e em outros países, muitas mulheres judias que eram médicas foram penalizadas: por serem heréticas e por serem médicas" (MURARO, 1992, p. 108).
resposta é sim e não. Sim, por razões óbvias, ele é cristão e não há necessidade de mais expli- cações. Não, por não ser cristão de origem, como é o caso da Igreja Católica Apostólica Ro- mana; trata-se daquele protestantismo denominacional, mais americano do que europeu. O protestantismo e seu braço puritano são tão modernos como as ciências. E tão masculinos quanto.
(...) Eva não foi apenas a primeira mulher. Foi a primeira bruxa, pois passou a ser detentora de saberes que a serpente lhe revelara e esses Adão não conhecera. Há a- qui o estabelecimento de disputas. Mas quem colabora e resgata a humanidade de seu pecado é outra mulher. Esta o faz por meio da maternidade, mas isso ocorre por meio da concepção de uma virgem, logo sem a participação do homem. Assim Mari- a, antípoda de Eva, tem sua pureza assinalada pelo não contato sexual com o homem. Ela é também um contra-exemplo daquelas mulheres – as bruxas – que se apoderam do conhecimento, especialmente quando este não é detido pelos homens. E o "faça- se a tua vontade!" pronunciado por Maria na Anunciação é destacado às mulheres, como o exemplo de submissão inquestionável (CHASSOT, 2003, p. 63).56
Na disputa entre homens e mulheres, às últimas interditam-se conhecimento e sexo. Mulheres com seus saberes dissonantes acerca do corpo (do próprio corpo e do corpo do ou- tro, até do corpo social) eram bruxas, não podiam se pronunciar em público, deveriam ficar sob controle do Estado e da Igreja ou em silêncio definitivo (pelo banimento ou morte). Co- nhecer o corpo era dominar os saberes do sexo e do prazer. Proibiu-se o conhecimento acerca do sexo para depois proibir todo conhecimento.
Repita-se: puritanismo não é somente sexo, é também sexo, ou preferencialmente se- xo, melhor, nenhum sexo (apesar de toda relativização que os próprios puritanos de hoje quei- ram fazer).
A caça às mulheres foi, portanto, uma reação dominante, entenda-se masculina, da re- ligião e sociedade patriarcal contra os saberes dissonantes, heréticos, femininos. Saberes que conduziam a comportamentos dissonantes, desviantes, segundo o padrão estabelecido. Mata- va-se para manter a ordem. Morte em prol da verdade do pensamento e do comportamento. "Queimar mulheres na fogueira por possuírem um saber não referendado pela Igreja" (PINSKY;
PINSKY, 2004, p. 15) não significou, não significa e não significará nunca defender uma ou a verdade; significa queimar mulheres na fogueira.
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Para uma visão panorâmica da socioteologia da mulher Eva como responsável pelo pecado e pela queda de toda humanidade, em obras relacionadas a esta seção da tese, cf. CHASSOT, 2003; MURARO, 1992; TOMITA, 2001- 2002. Mais: o Malleus Maleficarum (1993) como continuação do Gênesis (MURARO, 2000). O Malleus Malefi-
carum foi escrito em 1848 pelos inquisidores Heinrich Kramer e James Spenger, e por quatro séculos foi o livro oficial da Inquisição para a caça às bruxas.
O protestantismo também caçou suas bruxas (FREITAS NETO, 2004; MURARO, 1992), copiando métodos da Igreja Romana que criticava e tentava superar, e isso aconteceu dentro da modernidade.57 Se o catolicismo romano pode apelar ao argumento de que a prática da caça às bruxas teve início na Idade Média, ainda que o tenha mantido por décadas dentro da mo- dernidade, o protestantismo nem isso. Interessante notar que o próprio protestantismo foi en- tendido pelos eclesiásticos romanos como resultado do domínio de Satanás sobre a Europa, do qual a bruxaria também era um dos frutos. Por seu lado, o protestantismo encontrava na bru- xaria um remanescente romano de heresia e heteropraxia que insistia em prejudicar o cristia- nismo todo. Quem estaria com a verdade? O fato: o espírito moderno protestante fez uso de métodos abjetos e medievais da igreja que pretendia denegar, ao mesmo tempo em que foi vítima do alter-auto-método quando foi perseguido pelo catolicismo romano na contra- reforma (iniciativa oficial da Igreja Romana para não entrar na modernidade, permanecendo oficialmente medieval).
A caça protestante às bruxas dentro da moderna Reforma do século XVI fez parte de um projeto consciente e também inconsciente de definição da ortodoxia e da ortopraxia pro- testantes. Processo consciente e inconsciente de definição do locus simbólico e concreto da mulher na eclesiologia cristã protestante. Tão importante quanto o que a mulher pode falar, qual é o discurso feminino possível, é o de onde ela fala, se do púlpito ou do chão.
Mais eficazes do que um conjunto claro de regras proibitivas às mulheres – não poder cortar o cabelo, não poder se maquiar, só poder usar saia etc. – são os efeitos de um código consuetudinário que estabelece o espaço simbólico da mulher em casa e na igreja. Em locus eclesiástico as mulheres podem e devem se reunir, mas para tratar das coisas próprias de mu- lher – desde as mais intimistas como o cuidado do lar, do marido e dos filhos, até as mais so- ciais, como o cuidado com os desprestigiados e marginalizados pela sociedade por meio da assistência, ação sociais e educação.
Pelo testemunho de Hawthorne considera-se que, não só ele, mas todo o puritanismo posterior a seus antepassados é herdeiro simbólico dos caçadores protestantes de bruxas. O que reúne os puritanos em torno de uma teologia que expõe e garante o projeto de dominação do homem sobre a mulher e da qual nasce uma prática que é parte da própria sustentação do projeto. Se a mulher foi o canal da tentação que expulsou a raça humana do paraíso é preciso
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As bruxas com seu poder supostamente doado por Satanás foram responsabilizadas pela epidemia que atingiu Genebra em 1545 e muitas delas foram condenadas nos Países Baixos e Inglaterra (FREITAS NETO, 2004). O que
muito cuidado com ela: a mulher pode ser um perigo ao homem no caminho da salvação pes- soal. São processos concomitantes: a centralização cada vez maior do poder nas mãos dos homens e a docilização cada vez maior das mulheres.
Do início da modernidade até o início do século XX, até hoje em algumas comunida- des e sociedades, poucas mulheres ousaram transgredir o novo estereótipo moderno de poder e dominação, masculino e patriarcal, tal foi o medo que nelas deixou a caça às bruxas (MURARO, 1992). A mulher passou do livre arbítrio de Eva, a bruxa, para o "faça-se a tua vontade" de Maria, a virgem. Do dinamismo à experiência estática e submissa de aceitação e acolhimento.
Como o protestantismo esforçou-se para tirar os espaços destinados a Maria em sua fé e religiosidade, a fim de se diferenciar do catolicismo romano no qual ela alcança quase status trinitário, simbólica e sintomaticamente expulsou também o último resquício de espaço desti- nado à mulher, ou seja, é como se a mulher não existisse para o protestantismo.
2.7 Sinal de advertência
Outra vez a ressalva: o que está apresentado de puritano na vida das mulheres presbite- rianas e de seu próprio puritanismo não é motivo de indignação ou de outro sentimento seme- lhante que pudesse levar à resignação ou luta contra o estado vigente das coisas na história. O modo de ser puritano é um dado e dentro dele as mulheres vivem e fazem atos possíveis den- tro das cenas, os papéis são claros e estão claramente distribuídos. O discurso e a prática re- flexivos das mulheres presbiterianas devem diferir do que a sociologia propõe a respeito da mesma questão? É possível outro mundo?
A inquietação que resta não é quanto ao modo pelo qual as bruxas são caçadas hoje na IPB. Nem é preocupação uma definição rigorosa de bruxa, como já ficou evidente. O conceito bruxa aqui quer trazer à luz o imaginário de uma ou mais mulheres que detêm conhecimento e querem poder. A pergunta que fica é esta: onde estão as bruxas? Não há bruxas. Para a IPB não vale o famoso dito popular espanhol: No creo en brujas, pero que las hay, las hay. Não há bruxas.
As mulheres da IPB conhecem o seu lugar: simbólico e concreto. Não ousam questio- ná-lo. Individual e coletivamente são dóceis. Reproduzem a educação: todo poder aos os ho- reforça a construção da representação negativa do feminino, desde Eva.
mens. Em suas reuniões, elas cantam – não fazem só isso, mas cantam. Aqui também o recur- so à análise da hinódia é significativo. O hinário Novo Cântico reserva a subseção "Sociedade Auxiliadora Feminina" para hinos a respeito das mulheres na igreja, dentro da seção "VIII. Igreja – seu ministério". A idéia principal dos hinos transporta a luta das mulheres da história para o além, o etéreo, a eternidade, ou seja, a vida exemplar de uma mulher, para além de sua própria vitória pessoal e espiritual, pode assegurar a transformação de pessoas e realidades a seu redor; menos aquelas relacionadas a poder e dominação, pois a luta, a verdadeira, a puri- tana, é travada em outra esfera, não na da política.
As mulheres são retratadas em guerra santa contra os poderes do mal, o mundo é o palco da peleja, o cenário é sombrio: destruição iminente e chegada do final dos tempos, a missão é o trabalho religioso, em gratidão pela salvação e testemunho da causa aos outros. O alvo principal da ação feminina em prol do bem deve ser o lar.
322 Heroínas da fé
(Letra de Jerônimo Gueiros e música de Ludwig van Beethoven) 3
Erguei-vos heroínas, E vinde trabalhar! Mostrai vossas virtudes Na Pátria, Igreja e Lar!
324 Unidas e firmes
(Letra de Patrocínia de Castro Fernandes e música de Philip Paul Bliss)
Vamos todas, vamos todas, Sempre unidas no Senhor! Como esposas, mães ou filhas, Trabalhemos com fervor!
325 Aspiração feminina
(Letra de Isaac Nicolau Salum e música de William Gustavus Fisher)
Nós crentes redimidas, Depomos nosso lar E as nossas próprias vidas Perante teu altar.
3
Esposas, mães piedosas, Queremos ser, Senhor, Fiéis e carinhosas, Enchendo o lar de amor. Que paz e harmonia Dominem nosso lar, E em tua companhia Possamos sempre andar.
325-A Jesus Cristo é o Senhor
(Letra de Persides Sabóia e música de Carl Blackbore)
Sim, Jesus Cristo é o Senhor! Das nossas vidas ele é o Senhor! Dos nossos lares ele é o Senhor! E o nosso tempo é do Senhor!
As heroínas da proteção do lar, nas mesmas letras, reconhecem sua pequenez e fraque- za: "Somos fracas, bem sabemos" (324 Unidas e firmes, estrofe 2); "É vão qualquer trabalho / O nosso esforço é falho" (325 Aspiração feminina, estrofe 1); "Se a nossa fé se abala" (325 Aspiração feminina, estrofe 2). Claro que os hinos não são derrotistas e que toda deficiência feminina encontra sua superação em Deus, a quem os hinos se dirigem. Ao receber o que faz superar suas limitações, as mulheres aceitam que a vitória contra o mundo e o mal já está as- segurada. A vitória é o cumprimento de sua missão, não outra coisa, espalhar as idéias do bem (323 Santa peleja, letra de Maria Conceição da Costa Lemos e música de Eduardo da Fonse- ca), dedicando-se à obra do Senhor ou da Igreja com todas as forças e talentos (325-A Jesus Cristo é o Senhor).