1.2. TİCARET UNVANININ TARİHİ GELİŞİMİ
1.2.1. Genel Olarak Ticaret Unvanının Tarihi Gelişimi
Como exigência teórico-metodológica importante - as “violências” nos convocam a saber ler, compreender, interpretar suas formas de expressão e manifestação para além do senso comum, do imediato e aparente - como complexo saturado de contradições e
determinações - atravessa as várias dimensões e a totalidade da vida social, a vida cotidiana de indivíduos e coletividades.
A violência não pode ser pensada a descolada do “chão vivo” da vida cotidiana. É no cotidiano que se evidenciam as expressões contundentes da questão social, atravessado pela conjuntura e estrutura das relações sociais.
No caso da violência contra as mulheres, considerar a perspectiva do cotidiano e das possibilidades de resistência compreende a aproximação das suas histórias e trajetórias, território, correlação de forças e mediações que constituem a vivência das situações.
Um debate que se coloca a partir dos estudos sobre a violência contra a mulher é saber quais são as perspectivas de luta e resistência de mulheres submetidas a uma série de violações e iniquidades.
Saffioti (1994) realiza importantes considerações sobre a ideologia e a desigualdade da construção social de gênero como legitimadoras da assimetria de poder dos homens sobre as mulheres.92 Mulheres em situações de violências costumam ceder diante de determinadas circunstâncias, especialmente das violências concretas (física e sexual) e/ou ameaça de morte.
Através da inversão provocada pela ideologia de gênero e de violências factuais nos campos emocional, físico e sexual, a mulher aparece como consentindo com sua subordinação, enquanto categoria social, a uma outra categoria social constituída pelos homens. O problema, portanto, não se põe ao nível do indivíduo, mas de toda uma categoria de gênero. O consentimento não representa senão a aparência do fenômeno, na medida em que a consciência das dominadas é distinta da consciência dos dominantes. Esta assimetria não autoriza nenhum cientista a falar em consentimento das mulheres com sua dominação pelos homens. As duas categorias de gênero falam a partir de posições hierárquicas e antagônicas, ao passo que o conceito de consentimento presume que os co-partícipes falem a partir da mesma posição ou de posições iguais. Portadoras de uma consciência de dominadas, as mulheres não possuem conhecimento para decidir: elas cedem diante de ameaças ou de violências concretas'. Menciona-se, ainda uma vez, a recusa veemente da posição vitimista, posto que não se concebe a vítima como passiva. O excerto que se segue expressa, simultaneamente, a passividade da vítima e o equívoco de pensá-la como capaz de consentir. A violência deseja a sujeição consentida ou a supressão mediatizada pela vontade do outro que consente em ser suprimido em sua diferença. Assim, a violência perfeita é aquela que obtém a interiorização da vontade e da ação alheias pela vontade e pela ação da parte dominada, de modo a fazer com que a perda da autonomia não seja percebida nem reconhecida, mas submersa numa heteronímia que não se percebe como tal. (SAFFIOTI, 1994, p. 445-446) (Destaques do autor).
Essas considerações são importantes diante de uma questão muito presente no cotidiano - a polarização das mulheres como pactuadoras das situações de violência ou simplesmente como vítimas, não sendo, desta forma, possível decidir como ou sobre o próprio destino. Tratar a questão nesses termos seria simplismo, tendo em vista a complexidade do fenômeno.
A rotina e persistência da violência e outras diversas variáveis, com medo, vergonha, impotência, questões econômicas e financeiras, questões relacionadas à dinâmica dos próprios territórios, dependência afetiva, entre outros, podem conformar um cenário no qual as mulheres tenham dificuldade de romper ou mesmo acionar serviços de denúncia ou proteção. O que corrobora para essa aparência de mulheres vítimas e desprovidas de potencialidades.
Mulheres também reproduzem a desigualdade social do gênero e não raras vezes também respondem com violência a diversas circunstâncias. No entanto, a maioria das vezes, os perpetradores das violências, especialmente aquela que ocorre dentro de casa por parceiros íntimos, são homens. Os homens são legitimados socialmente a reagir com violência contra as mulheres.93
Não se está, de forma alguma, afirmando que as mulheres são santas. Ao contrário, elas participam da relação de violência, chegando mesmo a desencadeá-la. Nem por isto, porém, a mulher detém o mesmo poder que o homem, não podendo, por conseguinte, consentir com seus desmandos ou com ele acumpliciar-se. Trata-se de uma correlação de forças, que muito raramente beneficia a mulher (SAFFIOTI, 1994, p. 446).
Partimos do pressuposto de que mulheres em situação de violência são sujeitos da própria história, portadoras de potencialidades pouco ou quase nunca reconhecidas por elas mesmas ou pela sociedade como um todo.
A violência atravessa as diversas dimensões e relações sociais, seu caráter central encontra sua representação em um conjunto de relações simbólicas.
A violência simbólica impregna corpo e alma das categorias sociais dominadas, fornecendo-lhes esquemas cognitivos conforme a esta hierarquia, como já havia, há muito revelado. É exclusivamente neste contexto eu se pode falar em contribuição de mulheres para a produção da violência de gênero. Trata-se de um fenômeno situado aquém da consciência, o que exclui a possibilidade de se pensam em cumplicidade feminina como os homens no que tange ao recurso à violência para a realização do projeto masculino atravessa todas as relações sociais, transforma-se
93 Ver debate sobre “Masculinidades” - Campanha do Laço Branco, SOS corpo, Coletivo feminista, grupos de reflexão entre homens, entre outras. Iniciativas têm sido tomadas como estratégia de combate e enfrentamento das violências.
em algo objetivo, traduzindo-se em estruturas hierarquizadas, em objetos, em senso comum (SAFFIOTI, 2001, p. 119). (destaque nosso).
As condições de gênero, associadas às condições precárias de vida e de fragilidade relativa aos direitos e à cidadania resulta em um cenário ainda mais complexo.
Agrega-se ao debate o fato da violência contra a mulher ser tratada como questão naturalizada e banalizada pelos operadores da lei, pela mídia e pelos diversos meios de comunicação, entre outros.
Podemos entender que mulheres concedem muitas vezes a violência como forma de resistir e contornar o seu cotidiano, como forma de sobreviver.
A partir das narrativas das mulheres pesquisadas, conseguimos perceber que agregadas às diversas formas e estratégias de sobrevivência, mulheres constroem alternativas e pequenas formas de resistência participando de espaços coletivos de formação e discussão, no estabelecimento de redes de solidariedade e apoio mútuo, arranjos familiares, cultivo de sonhos e esperanças. Pode-se dizer que mecanismos e estratégias de resistência estão sempre presentes, alcançando maior ou menor êxito.
Uma parcela das mulheres consegue romper com a relação dominada/dominante, saindo do estado de não conhecimento para o de conhecimento. Sua consciência perde as características de dominada e passa a ter uma visão de conjunto das relações de gênero. Mais do que isto, muitas lançam-se na luta pela ampliação da cidadania feminina, fazendo uma leitura dos direitos humanos a partir da óptica de gênero. Tais movimentos podem dar, e frequentemente o fazem, origem a políticas públicas compensatórias, visando a reduzir e até mesmo a eliminar as discriminações contra a mulher. (SAFFIOTI, 1994, 453).
As mulheres constroem alternativas e estratégias de sobrevivência associadas ao estabelecimento de redes de solidariedade e com as organizações sociais. As perspectivas de luta e resistência são incipientes, considerando o conjunto das determinações sociais e diversas variáveis que envolvem as situações de violência. Mas existem, podem e devem ser potencializadas.