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Ticaret Unvanı Üzerinde Tekel Hakkı

Belgede Ticaret unvanı ve korunması (sayfa 75-81)

2.2. TİCARET UNVANINI KULLANMA MECBURİYETİ VE UNVAN

2.2.4. Ticaret Unvanı Üzerinde Tekel Hakkı

Dada a origem protestante do termo fundamentalismo e da tradição fundamentalista,6 por que os radicais islâmicos são hoje chamados de fundamentalistas, se não são cristãos e nem estão preocupados em defender as doutrinas fundamentais do cristianismo? A resposta vem da história: "A confusão terminológica veio à tona quando o aiatolá Khomeini derrubou o xá [Reza Pahlevi]. Foi em 1979" (PIERUCCI, 1999a, p. 177).

Em nome de Alá e Maomé, a rebelião religiosa derrubou o regime político laico e seu governo e estabeleceu um regime teocrático e totalitário. No Irã, país da revolução religiosa, e depois em outros países islâmicos, os textos do Corão7 passaram a ser interpretados e utiliza- dos para legitimar o uso e o abuso da força pelos governantes contra opositores, fossem eles países, governos ou pessoas.8

Nenhum termo do universo islâmico capaz de nomear aquele acontecimento e suas motivações era suficientemente conhecido no ocidente. Um neologismo com base nos perso- nagens pareceria estranho, por exemplo, "khoeminismo". Poderia até pegar, mas o sentido de urgência muito próprio da mídia e de seu modus operandi exigiu pressa. Em 1979, e ainda hoje, o mundo islâmico era um grande outro cultural desconhecido. A solução? "O jeito foi recorrer às pressas ao baú de ismos das igrejas ocidentais" (PIERUCCI, 1999a, p. 178). Foi as-

sim que o noticiário ocidental, da década de 80 do século passado até hoje, passou a chamar de fundamentalistas os muçulmanos sectários e fanáticos, que chegam ao conhecimento do mundo principalmente por meio de atentados e ações terroristas.

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Para obras introdutórias ou de divulgação, que não aparecem na argumentação a seguir, a respeito da origem protestante do fundamentalismo, bem como de sua passagem do universo protestante para o de outras religiões, e também para o entendimento de que havia sentimentos e movimentos aparentados do fundamentalismo em outros movimentos religiosos mesmo antes daquele surgir na história no início do século XX dentre os protestantes, cf.

BOFF,2002; DREHER,2002; FUNDAMENTALISMOS, integrismos, 2001. 7

"Os novos navegantes protegem as crianças do naufrágio nas marés da ignorância. Ajudam-nas a decifrar o ABC da guerra e da paz. Na Geografia, as crianças aprendem que a palavra 'assassínio' tanto pode ser escrita com um A de Afeganistão como com um A de América. Na Língua Inglesa, as crianças aprenderam que o adjec- tivo 'bad' pode ser escrito com um b de Bin Laden, mas também com um b de Bush. E, num re-ligare curricular essencial, as crianças aprendem que a palavra 'cultura' começa com um c de Cristo e de Corão. (Subitamente, percebi que tenho no computador um autocorrector fundamentalista. Não reagiu ao termo Cristo. Mas, logo que digitei a palavra Corão, sublinhou-a a vermelho)" (PACHECO, 2003, p. 129).

8

"Na época anterior, o Irã sob o domínio dos xás não era um paraíso democrático. Governantes corruptos usa- vam a polícia secreta Savak para suprimir agitações. E havia muito a suprimir, porque o xá Muhammad Reza Pahlevi procurava ocidentalizar o país e os mulas xiitas conservadores apontavam a heresia. Esses homens santos queriam o retorno à severa lei islâmica, e grande parte do povo concordava" (HAUGHT, 2003, p. 183).

Antes de prosseguir, é imperativo um panorama de alguns acontecimentos religiosos da década de 70 do século passado – útero e berço de tantas revoluções modernas na história da humanidade. Para Gilles Keppel, nas últimas três décadas do século XX, as religiões do livro ou abraâmicas (islamismo, judaísmo e cristianismo católico romano e protestante), in- tensificam suas respostas à modernidade, na tentativa de superar moderna e racionalmente as crises impostas por ela. Tanto os protestantes da passagem do século XIX para o XX como os muçulmanos na década de 70 do século passado, ou os contemporâneos, tentaram dar respos- tas religiosas aos desafios da modernidade. São respostas modernas, portanto. As religiões começaram a tentar recuperar espaços perdidos para o desencantamento moderno, por meio de iniciativas populares ("por baixo") ou institucionalizadas ("pelo alto"): fenômeno histórico- social apelidado de a revanche de Deus, nada mais do que outro fruto do racionalismo moder- no.

"1977, 1978, 1979, no decorrer de cada um desses três anos, houve mudanças no juda- ísmo, no cristianismo e no islamismo" (KEPPEL, 1991, p. 16). No caso judeu, em 1977, os sio-

nistas chegaram ao poder político e proclamaram um retorno ao pacto: Israel é o povo esco- lhido de Deus, contra o trabalhismo (socialismo) e o humanismo secular (racionalismo). Em 1978, no cristianismo católico-romano, foi eleito papa o cardeal polonês Karol Wojtyla (João Paulo II), cujo longo pontificado abriu espaço para os diferentes integrismos católicos, que por falta de outra palavra representam o fundamentalismo romano: retorno a conceitos e práticas anteriores ao concílio Vaticano II (o mais moderno dos concílios ecumênicos), contra o racio- nalismo, o comunismo e as religiões não católicas.9 Há ainda o caso do cristianismo protestan- te dos anos 70, que resgatou nos EUA e posteriormente na América Latina, por meio da polí- tica e de reavivamentos religiosos, elementos morais e religiosos reacionários contra toda forma de racionalismo, possibilidade de socialismo e outras religiões, abrindo espaço para as grandes igrejas de caráter avivalista e para os pregadores eletrônicos e seus impérios de co- municação.10 Sempre a afirmar e reafirmar o destino manisfesto do povo estadunidense.

9

Mais de 20 anos depois de João Paulo II assumir o papado, o Vaticano (por meio de sua Congregação para a doutrina da fé) publica a Declaração Dominus Iesus, proclamando ser a Igreja Católica a única depositária da verdadeira religião na terra: "Existe portanto uma única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, gover- nada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele" (2000, p. 26-27).

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"A partir de 1967 os EUA nunca mais deixaram de ter vultuosos déficits na balança comercial. No começo dos anos 70 Nixon desvincula definitivamente o dólar do padrão ouro. As duas crises sucessivas do petróleo repre- sentam um marco histórico na supremacia do capital financeiro sobre o capital diretamente produtivo. A constan- te reciclagem de ingentes somas de dólares em direção aos bancos norte-americanos é imprescindível para com- pensar os elevados déficits anuais na balança comercial e o volume cada vez maior da dívida interna acumulada, via déficits orçamentários. A economia norte-americana se alimenta de capital importado. Mas o avanço da feti-

Destino manifesto é uma concepção baseada na teologia do pacto (eleição ou predesti- nação) pela qual se entende que Deus escolheu um povo especial na terra para abençoar os outros e implementar o seu reino dentre homens e mulheres. Esse conceito nasceu com os ingleses puritanos e conservadores que saíram da Europa para "fazer a América". Desde então, os habitantes dos EUA acreditam-se portadores de uma mensagem (ortodoxia) e de uma ética (política, econômica, sexual) indispensáveis a todas as nações do globo. Para impingir seu padrão não importam os meios, que vão desde a matança dos indígenas na conquista do oeste até o contemporâneo "quem não estiver conosco está contra nós" do presidente Jorge Walker Bush em reação ao ataque às torres gêmeas e na guerra contra o Iraque.

Voltando à argumentação central, destaca-se para recordar que o caso islâmico serve de tipo ou padrão para os outros (cristão e judaico):

A finalidade desses dois processos [reislamizar o indivíduo e o Estado] é idêntica: reislamizar a sociedade nos países muçulmanos e propagar o islamismo por toda par- te, até transformar a humanidade em "ummahnidade" (KEPPEL, 1991, p. 62).11

Reislamizar, rejudaizar ou recristianizar são processos religiosos que rejeitam outras possibilidades de constituição da sociedade, por exemplo, o socialismo que crescia nos países islâmicos na década de 70, cujo triunfo parecia ser questão de tempo.

Para alcançar a reislamização, o fundamentalismo apresenta-se como ferramenta privi- legiada por rejeitar o diálogo e considerar o outro um terreno a ser conquistado por meio do proselitismo.

A meu ver, o fundamentalismo é a tradição travando uma luta feroz contra um mun- do cosmopolita e reflexivo que está à procura de razões. É mais do que uma cisão entre as diferentes categorias de crente verdadeiro: é não-participação deliberada na "conversação cosmopolita com a humanidade" de que fala o filósofo Richard Rorty. A recusa ao diálogo – a insistência em afirmar que somente é possível uma visão do chização é tamanho que o norte-americano comum não tem a menor idéia do que está passando, nem acreditaria em nada do que estamos afirmando. Um grupo de 'capitalistas inteligentes' enxerga pelo menos a ponta do ice- berg e faz uma espécie de proposta de reconciliação intra e intercapitalista: a Comissão Trilateral da primeira fase, com sua tese de interdependência eqüitativa (uma espécie de assunção conjunta de lucros e perdas pelos 'irmãos maiores'), que era uma tentativa de 'progressismo conservador' com vistas a tornar menos visíveis as chagas causadas na maioria da humanidade. Conseguiram assessorar por algum tempo um presidente encantado- ramente ingênuo e débil, por sinal um 'renascido' profundamente crente na missão divina dos EUA: Carter. En- trou em contradições inevitáveis com a parte maior do grande capital, não muito proclive a deixar-se 'civilizar'. Também, por quê? O capital financeiro, entre muitas outras coisas, encontrava aplicação muito rentável no endi- vidamento vertiginoso do Terceiro Mundo. No período que estamos focalizando, dá-se uma entrada em cena espetacular do teleevangelismo cada vez mais explicitamente político: Jerry Falwell passa a comandar, na Maio-

ria Moral, a campanha para devolver um orgulho nacional de cariz religioso a uma nação combalida e sujeita a 'síndromes' debilitantes de seu auto-apreço. E os teleevangelistas passam a somar-se em coro à exaltação de um novo salvador: Reagan" (ASSMANN, 1986, p. 24-25).

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"Cada grupo humano se acredita investido da humanidade com exclusão de todos os outros" (FRANÇOISE, 2000, p. 25) – assim, a humanidade é "ummahnidade", de ummah: comunidade islâmica.

mundo e que já se possui essa visão – tem efeito nocivo num mundo que necessita cada vez mais desse diálogo. O fundamentalismo é um conceito que só tem sentido sobre o pano de fundo da modernidade recente – a generalização e a radicalização das instituições modernas.

Ele pode ser alimentado pelos mesmos sentimentos que originaram o fanatismo em épocas passadas, mas sua importância para nós é outra, e seu teor não é o mesmo. O fundamentalismo é a tradição que conscientemente se opõe à modernidade, mas que ao mesmo tempo assume feições modernas e não raro se utiliza de tecnologias mo- dernas (GIDDENS; PIERSON, 2000, p. 97).

De dentro da modernidade, um movimento moderno, utilizando-se de técnicas e con- quistas modernas, critica a modernidade e outros de seus produtos, por exemplo, o cosmopoli- tismo, o diálogo, a ciência. A busca de razões é insuportável para quem julga já haver encon- trado a razão.

Karen Armstrong defende que o fundamentalismo nasce da recusa (ou da ultrapassa- gem), nem sempre positiva, de uma concepção de mundo baseada em mythos para a assunção de uma nova cosmovisão baseada em logos. O racional como condição para a verdade: fenô- meno demasiadamente moderno. Ela escreve: "Para quem, como eu, aprecia as liberdades e as conquistas da modernidade, não é fácil entender a angústia que elas causam nos fundamenta- listas religiosos" (2001, p. 16). É assim: não se pode estar na modernidade e não receber o pacote todo. Com as conquistas vêm também os fanatismos, dentro deles, os fundamentalis- mos.

O conhecimento da história pode facilitar o entendimento do que seja o fundamenta- lismo ou do que sejam os fundamentalismos. A tarefa de definição do termo não é fácil. De novo, o pensamento e as palavras tocam um problema de classificação. Como existem tentati- vas sérias de definição, pelo menos de apresentar um caminho de classificação, dentre elas se apresenta a seguinte:

A necessidade de um conceito claro de fundamentalismo é urgente. Como se consta- ta, nos últimos anos o termo fundamentalismo vem sendo prodigamente empregado em situações variadíssimas, tanto no campo religioso como no político. Fundamen-

talismo aparece, às vezes, como sinônimo de conservadorismo, sectarismo e fana- tismo; como movimento ou corrente amarrados a modelos culturais religiosos do passado, fechados aos valores do mundo moderno e até mesmo às ciências. Tanto se fala em fundamentalismo que esse termo já está inflacionado. Em geral, carrega uma carga negativa e uma conotação pejorativa. Fundamentalista seria o fanático, o sectá- rio, o intolerante, o conservador, o autoritário, o totalitário... e sempre são os "ou- tros". Por causa disso, até os clássicos representantes desse movimento no protestan- tismo de hoje preferem o título de evangélico-conservador ao de fundamentalista (ORO, 1996, p. 23).

Os autores citados acima afirmam concordemente que é impropriedade atribuir o ter- mo fundamentalismo a movimentos religiosos que não os protestantes originais, pior ainda a movimentos políticos, econômicos e sociais em geral. Até porque essa atitude enfraquece o sentido original, que precisa ser preservado em sua força (MOLTMANN,1992-1993). Mas o que há a fazer? O uso jornalístico e popular já consagrou vários sentidos para o termo fundamenta- lismo e nenhum deles pode requerer o estatuto de correção absoluta: todos são verdadeiros.

Dada a legitimidade da utilização ampla do termo-conceito fundamentalismo, resta uma consideração: ele existe e está presente nas mais diferentes religiões (para não falar aqui de política, ideologia, economia). É um fenômeno moderno. Da caça às bruxas,12 passando por The fundamentals, até chegar à revanche do sagrado e à queda das torres do World Trade Cen- ter, os fundamentalismos são um fenômeno moderno. As religiões criam gaiolas para si, para oferecer segurança, e querem trazer para dentro delas, se possível, toda a humanidade. Trata- se de oferecer segurança ontológica e social. Sentem-se chamadas para essa tarefa.

É chegada a hora, moderna ela mesma, corolário das lutas pelos direitos humanos, de ensinar a tolerância. Se o fundamentalismo foi inventado e exportado, pode-se também trans- mitir e confiar a guarda da tolerância, se possível, a todo mundo no mundo todo. O que não é fácil, pois, se a intolerância é quase natural (por ser universal) e legitima-se na história, a tole- rância precisa ainda ser criada e recriada. Paul Ricœur (2000) propõe um caminho de quatro movimentos em direção da tolerância: o primeiro é o de não impedir a existência do outro; segundo, compreender o outro e sua existência; terceiro, aceitar o direito que o outro tem de viver segundo suas convicções; por último, aceitar que há verdade também lá fora, no outro. Afinal, "todos moramos em casas em que os vizinhos de cima fazem um barulho dos diabos e os de baixo não param de se queixar..." (MILLER; MILLER, 1992, p. 33).

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"[A caça às bruxas] Não é um produto das eras obscuras, mas da era moderna. O Malleus Maleficarum surge seis anos antes da descoberta da América; é contemporâneo de Pico della Mirandola, de Marsilio Ficino, do humanismo florentino. A Démonomanie des sorciers (Demonomania das bruxas), de Bodin, foi escrita por um homem da Renascença, depois das descobertas de Copérnico! Não me cabe explicar por que o mundo moderno elabora justificativas teóricas para a caça às bruxas. Quero lembrar apenas que essa doutrina só pode ser estabe- lecida porque já existia uma desconfiança em relação às bruxas. É encontrada na Antigüidade clássica (Horácio fala nisso), no edito de Rotari, na Suma teológica de Santo Tomás. Era tida como uma realidade corriqueira, exatamente como um código de direito penal leva em conta a existência de ladrões. Mas, sem essas crenças po- pulares, não teria sido possível estabelecer uma doutrina da perseguição" (ECO, 2000, p. 17).

"É preciso lembrar (...) que a caça ás bruxas, embora tenha se iniciado na Idade Média, teve seu apogeu durante a Renascença, pois vai até o século XVIII" (MURARO, 1992, p. 121).

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