2.4. TİCARET UNVANINA HAKİM OLAN İLKELER
2.4.2. Ticaret Unvanında Devamlılık İlkesi
2.4.2.1. Unvanda Geçen Adın Değişmesi veya Değiştirilmesi
O presbiterianismo, e dentro dele a IPB, é um movimento religioso herdeiro da Re- forma Protestante do século XVI. Período da história em que não houve só uma reforma reli- giosa dentro do cristianismo, por mais que até hoje o nome do período tenha sido usado assim, no singular, a Reforma. O caso religioso é emblema de um período de profundas mutações, que começa antes do século XVI propriamente e o ultrapassa (DUNSTAN, 1964). A Europa entrou num processo de mudança, que ainda não se esgotou, e resultou modificada depois daquele período.
As modificações revolucionárias atingiram: (1) o espírito e o intelecto humanos: filo- sofia, arte e religião em rompimento com a tutela e ingerência da Igreja Católica; (2) a socie- dade: economia e política; capitalismo, nova divisão social do trabalho, urbanização, mais tarde, industrialização; (3) a geografia e a geografia política: grandes navegações, conquistas e globalização; novos Estados e nações; (4) a ciência e a tecnologia: conhecimento produzido e utilizado em favor da humanidade, pelo menos, em tese e no início. Enfim, instaura-se o perí- odo que impera até os dias de hoje: a modernidade – acompanhada, o que está claro pelos e- xemplos acima, de todas as suas conquistas, progressos e avanços; e também de todos os seus fracassos, dos quais destacam-se a destruição do planeta e da natureza, o ser humano como parte deles, e as guerras como capítulo à parte do roteiro geral de destruição.
O período pode ser lido de várias maneiras, dependentes elas mesmas do ponto de vis- ta adotado. As explicações predominantes para estas profundas mudanças podem ser econô- micas, sociais, jurídicas, intelectuais, psicológicas. O que não se pode negar é a influência da religião no processo, pois, interpenetrada por todas as outras causas, parece que a causa religi- osa representa um esforço enorme do ser humano europeu dos séculos XV e XVI para decla- rar sua independência frente aos poderes do alto representados pela autoridade eclesiástica.
A revolução copernicana é exemplo claro dessa contradição. A ciência ousou colocar em xeque uma doutrina judaico-cristã, cuja origem se reportava à interpretação tradicional de textos bíblicos ligados à criação e à encarnação de Jesus Cristo: a centralidade do planeta Ter- ra. Essa ousadia trouxe uma sensação de alívio à humanidade que se libertara de algumas de suas cadeias, mas trouxe graves conseqüências, talvez inesperadas, relacionadas a questões de valor e estima e de segurança ontológica e histórico-social, um sentimento individual e coleti- vo de transitoriedade e fugacidade jamais experimentados.
Problema moderno o instaurado por Copérnico e seus pares, cujo desdobramento mais profundo foi a polêmica darwinista – outro golpe desferido contra a segurança ontológica da humanidade e de cada indivíduo, construída durante séculos por meio de pregação religiosa e interpretação de textos de revelação. Copérnico e Darwin são os responsáveis pelas, assim chamadas por Freud, duas primeiras feridas narcíseas na história do sujeito e da humanidade – dois grandes golpes da ciência contra o amor-próprio ou a megalomania do ser humano (FREUD, v. XVI, s.d.; v. XVII, s.d.).
A primeira retirou da terra a centralidade no universo. A segunda retirou do ser huma- no uma condição de privilégio na criação: o ser humano perdeu sua condição singular no reino dos viventes para assumir uma outra de parentesco com várias de outras espécies.21
A terceira, de natureza psicológica, o mais violento dos golpes segundo Freud, é a própria emergência do inconsciente, que retirou do sujeito a condição de senhor de sua casa: mente, ações, desejos, pulsões.
Dentro do espírito moderno, e das transformações modernas dele decorrentes, pode-se acertadamente perguntar, o presbiterianismo é herdeiro de qual reforma (pois foram muitas as reformas e os reformadores)? De dentro do espírito histórico reformador ou revolucionário, três foram os principais movimentos concretos de reforma religiosa: (1) a Reforma Luterana iniciada por Lutero, em 1517, com ênfase na justificação pela fé, (2) a Reforma Calvinista, implantada pelo francês João Calvino, em 1536, em Genebra, com ênfase na soberania de Deus e predestinação, e (3) a Reforma Anglicana, iniciada com o rei Henrique VIII, em 1534, que se pretendia anti-romana e antiluterana ao mesmo tempo e que evidenciou a separação da Igreja da Inglaterra em relação à de Roma (MENDONÇA, 1997). Três movimentos que se refe- rem às divisões que saíram da Igreja Católica, o êxodo é fundamental, pois houve outros tan- tos movimentos de reforma do cristianismo internos ao catolicismo romano, antes, durante e depois do período da assim chamada Reforma Protestante (DUNSTAN, 1964).
Falar em IPB, portanto, é falar de uma linguagem anterior que lhe deu existência e sus- tentação ao longo da história: a linguagem oficial que congrega (o termo é religioso de propó- sito) debaixo de si um conjunto de fiéis, homens e mulheres de todas as idades, anciãos, adul- tos, jovens, adolescentes e crianças. Compreender a IPB é um exercício no caminho da per- cepção de que a linguagem dos fiéis não difere da linguagem oficial. Poderia ser de outra for-
ma? Talvez não por se tratar de instituição religiosa, permeada, ou melhor, penetrada em to- dos os seus poros pela noção de verdade da qual torna-se guardiã e reprodutora.
Falar de linguagem em religião cristã é falar de teologia. A linguagem – entendida aqui não como fruto da necessidade humana de comunicação e inter-relação, mas como conjunto de regras, vocabulário, sintaxe, a gramática, enfim – nasce da teologia e é por ela controlada. Há um discurso presbiteriano correto, desejável e controlável: o que se espera é que saiam das bocas dos fiéis as palavras que correspondam à reta ou sã doutrina e a reproduzam. Além disso, antecipando assunto, que os corpos e mentes dos fiéis expressem também a reta doutri- na, falem por si mesmos a respeito dela. Mentes e corpos controlados: exercício do poder a serviço da verdade.
Dentre as denominações protestantes históricas, o presbiterianismo é o movimento cu- ja origem teológica, doutrinária, dogmática, sistemática está baseada na obra de João Calvino, reformador francês cujo vulto ficou historicamente associado à cidade de Genebra, e na de seus sucessores.22 A Reforma Calvinista começa antes de Calvino – os movimentos históricos são assim, dinâmicos, e quase sempre a escolha de ícones, um nome ou data, é arbitrária e trai outros partícipes e outros momentos do processo. Seu início deu-se com Ulrico Zwínglio, ex- padre influenciado por Lutero, que abandonou o papado em 1522 e que propunha e defendia o sacerdócio de todos os crentes, salvação pela fé e autoridade da Bíblia – doutrinas evidente- mente reformadas.
João Calvino (1509-1564) era francês [da Picardia] e surgiu no cenário religioso lo- go após a morte de Zwínglio. Não se sabe quando Calvino se tornou protestante. Em Basiléia, aos 26 anos, publicou as Institutas. Em viagem, a pedido de Guilherme Fa- rel, Calvino decidiu ficar em Genebra e continuar a obra da Reforma. Não deu certo a primeira tentativa e ele foi para Estrasburgo, para logo depois, a pedidos, voltar a Genebra em 1541. Calvino foi o criador do moderno ministro protestante e fundou a Academia de Genebra, hoje a Universidade. Teologicamente Calvino sustentou as teses de Lutero, menos a da comunhão. Porém, enfatizava: a soberania de Deus, a predestinação, a perseverança dos santos e um novo governo eclesiástico, baseado na autoridade do "mais antigo" – o presbítero (MENDONÇA, 1997, p. 58).
21
"(...) a presente guerra entre ciência e religião pode ser atribuída com mais razão a Darwin que a Galileu [re- presentado acima por Copérnico]" (HELLMAN, 1999, p. 136): é a opinião do professor de história da ciência Wil- liam Provine.
22
A grande obra teológica de Calvino, sua teologia sistemática, é chamada em português, na edição brasileira, de
As Institutas ou tratado da religião cristã – tradução do original em latim Institutio Religionis Christianae. O tradutor, Waldyr Carvalho Luz, escreveu em seu prefácio à obra: "Indiscutivelmente, é João Calvino o pensador máximo da Reforma e sua famosa obra, as chamadas INSTITUTAS, o magnum opus não apenas de seus escritos, mas de toda a literatura produzida pelos Reformadores" (in: CALVINO, v. I, 1985, p. 9).
"Calvino não chegou a ser o Calvino da história por ter querido ser o Calvino da histó- ria. Chegou a sê-lo porque outros, por fora, o obrigaram a tal" (FEBVRE, 2002, p. 16). A vonta- de de Calvino era a de ser um intelectual e humanista, segundo as tendências de sua época e na medida do que é possível a um cristão austero e dogmático tal e qual se revelou, a serviço da religião e da igreja protestantes. Seu interesse maior era o de escrever obras que divulgas- sem o movimento e atraíssem novos adeptos para ele. Segundo testemunho próprio, sua índo- le era marcada por profunda timidez e recato. Acima de temperamento ou desejos pessoais, estava sempre a vontade de Deus do qual se considerava soldado em batalha. O sabor do texto seguinte justifica a longa transcrição:
Para qualquer lugar aonde eu fosse, teria me acautelado a fim de ocultar minha iden- tidade como o autor de tal façanha [a redação, publicação e distribuição de As Insti-
tutas, em sua primeira versão]; e resolvera continuar na mesma privacidade e obscu- ridade, até que, finalmente, William Farel me deteve em Genebra, não propriamente movido por conselho e exortação, e, sim, movido por uma fulminante imprecação, a qual me fez sentir como se Deus pessoalmente, lá do céu, houvera estendido sua po- derosa mão sobre mim e me aprisionado.
Como a estrada mais direta para Strasburg, pela qual eu pretendia passar, estava bl o- queada pelas forças armadas, então decidi passar rapidamente por Genebra, perma- necendo ali não mais que uma noite. Um pouco antes disso, o papismo havia sido expulso dela pelos esforços daquela excelente pessoa, a quem já me referi, e de Pe- dro Viret. Todavia, a situação ainda não estava apaziguada, e a cidade se encontrava dividida em facções ímpias e danosas. Então certo indivíduo, que agora se encontra- va ignominiosamente em estado de apostasia, e havia bandeado para os papistas, me descobriu e revelou a outros minha identidade.
Nisso, Farel, que ardia com inusitado zelo pelo avanço do evangelho, imediatamente pôs em ação toda a sua energia a fim de deter-me. E, ao descobrir que meu coração estava completamente devotado aos meus próprios estudos pessoais, para os quais desejava conservar-me livre de quaisquer outras ocupações, e percebendo ele que não lucraria nada com seus rogos, então lançou sobre mim sua imprecação, dizendo que Deus haveria de amaldiçoar meu isolamento e a tranqüilidade dos estudos que eu tanto buscava, caso me esquivasse e recusasse dar minha assistência, quando a ne- cessidade era em extremo presente.
Sob o impacto de tal imprecação, eu me senti tão abalado de terror, que desisti da vi- agem que havia começado. Movido, porém, por minha natural solidão e timidez, não me via na obrigação de responsabilizar-me por qualquer ofício particular. Depois disso, tendo já passado quase quatro meses quando, por um lado, os anabatistas co- meçaram a assaltar-nos, e, por outro, um certo apóstata muito perverso, sendo secre- tamente apoiado pela influência de alguns dos magistrados da cidade, estava em imi- nência de trazer-nos um bocado de problemas. Ao mesmo tempo, uma sucessão de desavenças sobreveio à cidade, o que de modo singular nos afligiu. Sendo, como eu mesmo reconheço, naturalmente de índole tímida, vacilante e pusilânime, fui arre- messado ao encontro desses violentos conflitos como uma porção de meu primeiro treinamento. E ainda que não procurasse estar debaixo deles, todavia não me sentia sustentado por uma grandeza tal de espírito, que me alegrasse além do que poderia, quando, em conseqüência de certos distúrbios, fui banido de Genebra (CALVINO, 1999, p. 39-41).
Porque a viagem a cavalo a Estrasburgo era perigosa para um cavaleiro solitário, Cal- vino ficou em Genebra. Essa sua primeira residência na cidade, a convite e por insistência de Guilherme Farel, deu-se de 1536 a 1538, quando ele foi para lá sedimentar a opção de fé re- formada adotada não sem disputa por Genebra (LESSA, s.d.). Calvino e seu grupo foram expul- sos porque, dentre outros acontecimentos, o reformador estava forçando a magistratura e os cidadãos a aderirem a uma Confissão de Fé e a vários Artigos sobre o governo civil da igreja local, que ele mesmo escrevera.
Calvino retornou a Genebra, ocasião em que desenvolveu toda a obra que o tornou tão famoso como reformador contra suas disposições, pelo menos as conscientes:
Vendo-me assim em liberdade e isento dos vínculos de minha vocação [depois de haver sido expulso da cidade], resolvi viver num estado de privacidade, livre do peso e das preocupações de qualquer encargo público. Foi quando aquele mui excelente servo de Cristo, Martin Bucer, empregando um gênero similar de censura e protesto ao que Farel recorrera antes, arrastou-me de volta a uma nova situação. Alarmado com o exemplo de Jonas, o qual ele pusera diante de mim, ainda prossegui na obra do ensino. E embora continuasse como sempre fui, evitando por todos os meios a ce- lebridade, todavia fui levado, sem o saber, como que pela for ça, a comparecer às as- sembléias imperiais, onde, voluntária ou involuntariamente, fui forçado a aparecer ante os olhos de muitos. Mais tarde, quando o Senhor, revelando compaixão por essa cidade, acalmou as perniciosas agitações e tumultos que prevaleciam nela, e por seu infinito poder destruiu tanto os conselhos dos perversos quanto as tentativas sangui- nárias dos perturbadores da república, a necessidade forçou-me a voltar à minha fun- ção anterior, contrariando minha aspiração e inclinação. O bem-estar desta Igreja, é verdade, era algo tão íntimo de meu coração, que por sua causa não hesitaria a ofere- cer minha própria vida; minha timidez, não obstante, sugeriu-me muitas razões para escusar-me uma vez mais de, voluntariamente, tomar sobre meus ombros um fardo tão pesado. Entretanto, finalmente uma solene e conscienciosa consideração para com meu dever prevaleceu e me fez consentir em voltar ao rebanho do qual fora se- parado. Mas o Senhor é minha melhor testemunha da tristeza, lágrimas, profunda an- siedade e abatimento com que eu fiz isso, e muitas pessoas piedosas teriam desejado ver-me livre de tão deplorável estado, não fosse ele aquilo que eu tanto temia e que me fez dar meu consentimento, antecipando-as e fechando seus lábios (CALVINO, 1999, p. 41-42).
Em Genebra, Calvino não foi somente um líder religioso, exerceu também o poder temporal, baseado em seus pressupostos teológicos. Para ele, o poder eclesiástico estava sem- pre acima do poder político, portanto, este tinha de ser determinado por aquele. O sistema de governo que Calvino estabeleceu em Genebra pode ser considerado uma teocracia, na qual a voz do governante é a voz de Deus. Sua própria presença naquela cidade era encarada como a máxima expressão da vontade de Deus.
L'Abbé A. Boulenger (1938) escreve que João Calvino, nesta sua segunda passagem pela cidade de Genebra, como governante, de 1541 a 1564, deu início à organização da cha- mada "Igreja Calvinista" – o que parece ser a posição tradicional ou, pelo menos, a mais di-
vulgada e conhecida. Lucien Frebvre resgata uma tese alternativa interessante, que vem mais para elucidar um capítulo de transição do que para turvar a história:
Sem dúvida, não se deve forçar as coisas, mas existe muito de verdade na tese de Pannier segundo a qual o autêntico calvinismo não viu a luz em Genebra, em 1542, senão em Estrasburgo, entre 1538 e 1541.
Não se trata, obviamente, de tirar a importância das tentativas de 1536 nem das rea- lizações de 1542. Mas, não por acaso, foi em Estrasburgo, onde começou o trabalho, o longo e paciente trabalho de Calvino, empenhado em organizar uma Igreja sua, uma Igreja que levasse a sua marca (2002, p. 21-22).
Em Genebra, depois em Estrasburgo e de volta para Genebra, no esforço de criar a i- greja calvinista, a relação entre Igreja e Estado ganhou atenção especial do reformador francês e o afastou de Lutero, que atribuía poder supremo à autoridade civil, sujeitando a Igreja ao Estado. Para Calvino, isso transferia ao Estado o poder de arbitrar em questões doutrinárias e disciplinares, próprias somente à Igreja. Para corrigir o que identificava como um defeito do luteranismo, Calvino defendia que em questões religiosas, referentes à pureza das doutrinas, o Estado deveria se colocar em função da Igreja, sendo esta a soberana.
Para ilustrar como o rígido reformador administrava a cidade de Genebra segundo seus conceitos teológicos e doutrinários, que influenciavam diretamente a organização civil,23
Jean Delumeau destacou os ministérios que Calvino instituiu, em sua obra Ordenações eclesiásti- cas, e que passaram a fazer parte da organização genebrina. "As Ordenações de novembro de 1541 mostram como tinha evoluído a eclesiologia calvinista em poucos anos, quanto havia endurecido" (DELUMEAU, 1989, p. 124).
O primeiro dos ministérios era o dos pastores; estes se encarregavam de anunciar a pa- lavra, lecionar o catecismo, administrar os sacramentos, abençoar casamentos e sepultamen- tos. O segundo ministério era o dos doutores, homens responsáveis pela missão de instruir os fiéis na sagrada doutrina, encarregando-se também da educação e da organização de escolas. O terceiro ministério era chamado de Consistório, composto pelos pastores e por doze anciãos – sua função consistia em vigiar a vida de cada um dos cidadãos, admoestar os faltosos e avi- sar a companhia encarregada das repreensões; além de, pela ação de seus assistentes, os "de- zeneiros", intimar os fiéis a freqüentar a igreja para ouvir os sermões, submeter à obediência e ao serviço todos os fiéis e dificultar e corrigir todos os escândalos. O último dos ministérios era o dos diáconos, cuja missão era receber, dispensar ou conservar os bens dos pobres e cui- dar dos enfermos.
Com sua prática mais do que com sua doutrina, Calvino cria o "tipo humano calvinis- ta" – conclusão a que chega Febvre (2002, p. 24). Foi um homem capaz de arrastar consigo seus contemporâneos e de criar um padrão para as gerações posteriores. A sua posteridade já tem cinco séculos. O que vem a ser isso? De onde tal poder? De uma compreensão da vida e de uma cosmovisão muito específicas:
O cristão tem um rei ao qual deve servir cegamente. Seu rei é o Rei supremo e deve- se segui-lo aonde quer que seja, cegamente, até a morte. Transportados pelo fervor sentimental? Melhor, transportados pela obediência cega e a fidelidade levada até a paixão. E o cristão está vinculado a seu Rei pelo mais poderoso, pelo mais eloqüente dos sentimentos – a honra. Luta pela honra de seu Rei. E sua honra apóia-se em sua luta por este Rei (FEBVRE, 2002, p. 26).
Sentir-se predestinado e afirmar a predestinação é quase que decorrência natural do sentimento psicológico e da ética pessoal: "A predestinação, a peça final do edifício, a coroa- ção. O último toque da alma de um cavaleiro que não trai. Que não teme. Que se mostra fiel e sem medo, até a morte" (FEBVRE, 2002, p. 29). O risco? Fazer tudo para a glória de Deus co- mo soldado predestinado pelo seu Rei é a perigosa atitude que pode divinizar o ser humano, que se confundindo com Deus pode sentir-se Deus, capaz de dar e de tirar a vida (FEBVRE, 2002).
Quanto à teologia propriamente dita, a obra teológica máxima de Calvino é densa, constituída de quatro livros, a exaltar a soberania de Deus Todo-Poderoso que executa a sua vontade na história, desde a criação do mundo até a consumação de tudo, aguardada pelos cristãos como o ápice escatológico de sua redenção. Segundo esta hermenêutica teológica, se Deus é soberano, e se há salvação e perdição eternas, para além da história, é o próprio Deus quem salva e condena os seres humanos. Aquilo que foi experimentado por Calvino em sua vida de guerreiro de Deus transforma-se agora na doutrina da soberania de Deus em que se fundamenta outra doutrina calvinista, a mais famigerada e polêmica dentre os ramos protes- tantes, que é a da dupla predestinação.24
23
Para o assunto, cf. ZWEIG, s.d. 24
Um contraponto: "Quanto à sua teologia, Calvino tem sido muitas vezes acusado injustamente de ter formulado noções doutrinárias que eram na verdade parte do ensino tradicional da igreja cristã por séculos. Insiste-se que inventou a doutrina da dupla predestinação, e até já se sugeriu que ninguém mandou mais pessoas para o inferno que Calvino. O freudiano Oskar Pfister sugeriu ser a doutrina da dupla predestinação um resultado de sua perso- nalidade obsessiva-compulsiva, e outros têm sugerido ser ela fruto de suas irregularidades intestinais. Diz-se que