2.4. TİCARET UNVANINA HAKİM OLAN İLKELER
2.4.2. Ticaret Unvanında Devamlılık İlkesi
2.4.2.3. Ortağın Ölümü
O caso anterior estabelece o modelo: a interpretação bíblica define a cosmovisão e o comportamento dos fiéis. O tema está presente em muitos outros roteiros adaptados da vida real. No que se refere à IPB, o reflexo do conservadorismo que se destaca aqui é o literalismo da interpretação bíblica em relação ao papel permitido às mulheres dentro do o sistema presbi- teriano de governo. É impossível descrever o assunto, e muito menos analisar e criar teoria a seu respeito, sem levar em conta a teologia criada para legitimar o papel da mulher, ou a falta dele, até hoje na IPB.
Ainda que os conservadores queiram relacionar teologia a verdade, e consigam fazê-lo segundo os critérios metodológicos coerentes com a teologia conservadora, a sociologia pro- põe a relação entre teologia e poder. Mesmo correndo o risco de obviedade, nunca é demais avisar que o fundamentalismo e o conservadorismo dele decorrente não consideram a doutrina sistematizada em códigos, confissões, artigos de fé e outros documentos como palavra reve- lada de Deus, seria a negação do próprio fundamentalismo, pois para ele só a Bíblia merece o caráter de palavra de Deus – única regra infalível de fé e prática. A hermenêutica conservado- ra na prática apresenta-se como a única capaz da verdadeira interpretação da Bíblia, o que confere a ela estatuto de revelação no cotidiano pouco refletido dos fiéis presbiterianos.
Não é tarefa fácil listar as muitas obras e seus autores que dentro da IPB defendem a impossibilidade teológico-doutrinária da ordenação feminina ao sagrado ministério pastoral, presbiterato e diaconato. Até porque a quantidade é grande e os textos se multiplicam em arti- gos publicados por jornais e revistas de circulação não muito ampla em todos os recantos do país. Se listadas, tais obras terão algo em comum: defender que a Bíblia não permite o oficia- lato feminino em seus textos e que somente varões podem e poderão ocupar ofícios ordena- dos. Poucas perguntam a si mesmas a respeito dos pressupostos que levam à conclusão, como se a Bíblia estivesse acima e antes de quaisquer pressupostos hermenêuticos, falando por si só. Tarefa mais tranqüila é afirmar que uma dessas obras, uma só tomada como modelo, é capaz de oferecer o resumo das outras: os mesmos argumentos são repetidos à exaustão. A razão para a escolha das que vêm a seguir é simples: são obras coerentes com o espírito que impera na IPB, escritas por autores que representam a voz dominante e quase hegemônica da teologia na IPB porque ocupam posições de poder e dominação dentro da denominação. São obras alçadas ao status de opinião oficial da igreja e coerentes com sua tradição histórica.
A primeira é a dissertação de mestrado em teologia defendida por Ludgero Bonilha Morais, Investigação introdutória da cosmovisão feminista: uma análise da nova metaespiri- tualidade, que apresenta uma breve história da teologia centrada na mulher, a teologia femi- nista, como releitura bíblica que abandona a hermenêutica tradicional e possibilita uma nova inserção da mulher nos quadros da igreja. A conclusão crítica alcançada por Morais é a de "a participação feminina nos ministérios ordenados da igreja exige uma nova teologia" (2000, p. iv), que ao ser buscada nas páginas bíblicas revela-se impraticável. A ordenação feminina se- ria possível apenas se o texto bíblico sagrado fosse reescrito por uma nova autoridade subjeti- va, não sancionada.
A hipótese da dissertação é que a feminização da teologia e da igreja, o que inclui a ordenação de mulheres aos ofícios e ao sagrado ministério, traria como conseqüências a mas- culinização da mulher e a feminização do homem dentro da igreja. No campo teológico, as conseqüências têm como pressupostos o feminismo bíblico e a violação do paradigma herme- nêutico tradicional – o abandono de conceitos teológicos ligados à inspiração das Escrituras e à questão da inerrância, infalibilidade e unidade do texto sagrado cristão, que não são sim- plesmente palavras ou abstrações, antes, têm poder de criar valores, ética, moralidades, modos de ser no mundo, de enxergar o mundo, de relacionar-se com ele e de relacionamentos inter-
pessoais. Inovações multifacetadas que escapam ao controle central e tradicional de quaisquer denominações religiosas.
Interessante considerar que o autor chama o feminismo de movimento moderno tanto no contexto secular como nos arraiais religiosos. Mais uma vez a modernidade e aqui se pode pressupor mais de um sentido para o termo: o de ser o feminismo um fruto da modernidade, stricto sensu, e o de tratar-se de algo contemporâneo ou hodierno. Dentro da modernidade contemporânea, para vincular uma possibilidade anterior à outra, Morais divide a história do movimento feminista em três etapas ou ondas:
A primeira onda tratou das injustiças sociais e políticas sofridas pelas mulheres. A segunda onda, dos anos 60 para cá, é a da conscientização do estado secundário em que se encontra a mulher no sistema patriarcal. A terceira onda é a da união do femi- nismo secular com o feminismo religioso, dando um cunho espiritual ao movimento (2000, p. 8).
É a última etapa que mais interessa aqui, não pelo cunho espiritual dado ao movimento, mas pelo engajamento feminista dentro de círculos religiosos que incorpora à religião a noção de que as diferenças entre homens e mulheres, dentro da igreja por exemplo, podem ser explica- das pela via cultural e social e jamais por fatores biológicos determinantes.
O corolário dessa relativização feminista segundo a perspectiva conservadora é a pos- sibilidade da ordenação de mulheres aos ofícios eclesiásticos e ao pastorado ou, ao menos, da organização da luta em seu favor. Se as mulheres passaram a enxergar-se, "identificar-se e definir-se como se fossem tal como os homens" (MORAIS, 2000, p. 44), não haveria mais ar-
gumento factível para impedir-lhes a ordenação:
As feministas cristãs consideraram que a ordenação pastoral lhes era negada porque os homens entendiam que este "múnus" pertencia somente àqueles que eram superio- res em espiritualidade, em talentos e dons, inteligência e capacidade, características estas que também foram negadas a elas. Acesso à ordenação foi, portanto, o "front" no qual a luta pela igualdade dentro da Igreja se travou (MORAIS, 2000, p. 44).
Quais as armas utilizadas na batalha? A principal certamente foi a colocação da mulher como agente e produtora de conhecimento pertinente e relevante em todas as áreas do saber humano – com o conseqüente reexame de tudo, agora centrado na mulher. Por que não em teologia? Mesmo sem ordenação, o que inclui o imenso universo católico-romano em todo o mundo que também bloqueia o caminho à ordenação feminina, as mulheres começaram a fa- zer teologia do lugar possível a elas, ainda que inicialmente muito apertado: "A teologia não escapou desta análise centrada na mulher (...)" (MORAIS, 2000, p. 72).
Morais dedica o terceiro capítulo da dissertação (num total de seis) a uma análise da teologia centrada na mulher e esclarece que a teologia feminista tem como berço a teologia da libertação, que foi o útero e depois o berço de várias leituras bíblicas de minorias ou de grupos excluídos:
À medida em que as feministas seculares começaram a examinar cada disciplina a- cadêmica através dos olhos do feminismo, também as teólogas feministas começa- ram a tratar em detalhes da teologia feminista, baseadas no fundamento da teologia da libertação. (...) Elas vêem a libertação como crucial para a interpretação das Es- crituras. Sua teologia está baseada na percepção das condições de opressão da mu- lher (2000, p. 82).
Libertação para uma análise feminista da Bíblia, libertação para uma visão feminista da mu- lher, libertação para uma visão feminista do mundo, libertação da condição de opressão im- posta às mulheres para uma nova cosmovisão e realidade social.
São seis os pontos doutrinários listados por Morais – "alguns temas teológicos" (2000, p. 83), ele escreve – que a teologia feminista precisou alterar para legitimar seus argumentos libertários. (1) A respeito de Deus:
Biblicamente, os cristãos crêem que os seres humanos existem para servir e glorifi- car o seu Criador, Deus. A teologia feminista, no entanto, muda a ênfase: o propósito de Deus é ajudar os seres humanos a encontrar libertação, inteireza, e encontrar a u- topia em si mesmos (2000, p. 83).
(2) Cristo: "Jesus Cristo, como Filho de Deus, tem sido visto pelas feministas como a imagem de plena e verdadeira humanidade. Ao invés de ser o Deus encarnado, Jesus representa a hu- manidade deificada – 'um antegozo da liberdade' – prometida para todos" (2000, p. 83). (3) Pecado:
As feministas argumentam que a definição tradicional de pecado foi alinhada com o dualismo clássico de certo e errado, que é totalmente inaceitável. Redefinem elas o pecado como "uma situação na qual não há comunidade, não há espaço para viver como um ser humano integral" (2000, p. 84).
(4) Salvação: "As teólogas feministas definem salvação como a vereda rumo à liberdade da opressão de classe sexista e como a auto-libertação na comunidade. Elas vêem salvação como a humanização e a reconciliação com a terra" (2000, p. 84). Quanto à (5) eclesiologia, a igreja deixa de ter valor em si mesma e passa a ser instrumento para a revolução. Por fim, a (6) esca- tologia (doutrina das últimas coisas):
Crêem elas que através da experiência e do buscar a libertação dos povos sobre a ter- ra, os próprios seres humanos atingirão o estágio de uma nova humanidade e teste- munharão a "nova era" prometida por Deus. (...) Em suma, as teólogas feministas crêem que a sociedade utópica do céu sobre a terra, da justiça, da paz e da liberdade será uma conquista da humanidade (2000, p. 86).
Toda alteração feminina ou feminista de temas fundamentais somente é possível por causa de pelo menos dois pressupostos: o entendimento de que o texto bíblico é determinado (portanto, comprometido) culturalmente e que os reformadores estavam cegos em relação a esse condicionamento (ou sob determinação cultural semelhante) – nunca é demais lembrar que a ênfase da análise é interna ao campo protestante, daí falar-se em reformadores. Deter- minações reconhecidas até por teólogos presbiterianos conservadores no Brasil, como é o caso de Waldyr Carvalho Luz, citado em algumas passagens da dissertação de Morais por represen- tar a interlocução adversária a defender a ordenação feminina irrestrita.
Luz é um dos apresentadores do livro Mulheres, liberdade e Calvino: o ministério fe- minino na perspectiva calvinista de Jane Dempsey Douglass,16
que causou espécie e polêmica quando publicado no Brasil, especialmente em arraiais presbiterianos por tratar-se de uma releitura possível e legítima de João Calvino, o pai da teologia reformada. A autora defende a hipótese de que Calvino inclui o silêncio das mulheres nas igrejas dentre as matérias de ordem e decoro que são consideradas indiferentes e que permitem decisões humanas condicionadas por fatores históricos, sociais e culturais, não determinadas especificamente por Deus em ne- nhum texto bíblico. Se para as coisas indiferentes não há nem ordenação e nem proibição di- vina, o que inclui a ordenação feminina ao ministério, a pergunta de Douglass é bastante legí- tima: por que João Calvino nunca tem sido usado para defender o ministério feminino? Quase sempre ele é relembrado como teólogo contrário à participação das mulheres nos loci de poder e dominação legítimos e legais da hierarquia eclesiástica. A quem interessa esse uso de mão única do teólogo João Calvino? A quem interessa o esquecimento ou apagamento de que até mesmo a exegese e a hermenêutica bíblicas do reformador de Genebra devem ser entendidas segundo seus condicionamentos históricos? São perguntam que se acrescentam à primeira.
Luz tece um comentário oportuno quanto à concepção de ser humano esposada pela autora e que está presente em sua tese e argumentação:
Longe de assumir a atitude típica das feministas extremadas, a autora, com rara habi- lidade, enfeixa a abordagem nestes três pontos focais: o princípio da liberdade cristã, sagrado e soberano; a dignidade da mulher, não a contrapor-se ao homem, mas asso- ciar-se-lhe em proveitosa colaboração, não a buscar confrontação, mas justa equipa- ração, não a postar-se contra o homem, mas, antes, com o homem, na mesma plana e no mesmo nível; a posição de Calvino, sem deformações nem retoques, tão natural e espontânea, sem comprometê-lo, nem sublimá-lo, debuxando-o como a figura real- mente humana, muito humana, fiel a suas firmes convicções, limitado à visão de seu
16
Ele escreve a apresentação segundo a "Perspectiva Masculina" e Ana Maria Coelha Rocha, segundo a "Pers- pectiva Feminina" (DOUGLASS, 1995, p. 7-10) – ambos favoráveis à ordenação feminina irrestrita nos limites da IPB.
tempo, mas indiscutivelmente pio e justo em suas intenções, um Calvino de respei- tar-se e amar-se (in: DOUGLASS, 1995, p. 8).
Estar com e não contra o homem é um novo paradigma da relação entre homens e mu- lheres em meios protestantes conservadores. É um paradigma inclusivo que divide opiniões: de um lado os que o consideram perigoso, os defensores da ordem e das posições ocupadas dentro dela; de outro, os que o consideram necessário para a superação da ordem exclusivista e excludente vigente há muito tempo.
Em resenha do livro, Tarcízio José de Freitas Carvalho reconhece a importância da o- bra pelo questionamento que gera dinamismo na história e aponta os pressupostos e conclu- sões presentes nela. Sobre o primeiro caso, o da importância, escreve:
A obra de Jane Dempsey é dirigida a todos os que desejam avaliar criteriosamente o que se tem escrito sobre o papel da mulher, mais precisamente quanto ao seu minis- tério no corpo de Cristo. É um trabalho de pesquisa cuidadosa, rico em informações documentadas e que, por isso, deve ser estudado. Cumpre ressaltar que o interesse desta resenha não é levantar impedimentos ou buscar falhas apenas para obscurecer a importância do tema. Acima de tudo, o objetivo é respeitar a Palavra de Deus como a única fonte de autoridade – a despeito das teologias das minorias (CARVALHO, p. 154, jul.-dez. 1996).17
Já sobre o segundo caso, o do questionamento que a autora oferece à história da hie- rarquia na igreja e aos interditos a ordenações femininas, Carvalho opina que o caso nasce da compreensão primeira de que "Calvino estava profundamente moldado pelos preconceitos de uma sociedade patriarcal" (p. 154, jul.-dez. 1996), o que pode gerar, e gera mesmo, o argu- mento do silêncio das mulheres na igreja como matéria de ordem e decoro, considerada indi- ferente e adaptável às circunstâncias. Para Carvalho, a autora e os autores das duas apresenta- ções adotam a hermenêutica da fusão dos dois horizontes – o contexto original e o do intérpre- te moderno –, sem "compreender que entre os dois horizontes há a perspectiva da Escritura (de Deus) na interpretação" (1996, p. 156).18
17
A opinião quanto ao valor positivo da obra vem também da pena do apresentador do livro, Waldyr Carvalho Luz: "É esta uma obra que se recomenda aos que negam à mulher a dignidade do oficialato e do ministério, tanto quanto aos que a elas a deferem. Aqueles verão um estudo sério, ponderado, sem pruridos acusatórios, adstrito aos fatos isentos de interpretações prejudicadas ou conclusões forçadas. Estes defrontar-se-ão com uma exposi- ção cuidadosa, objetiva, precisa, que os favorece, como seria de esperar, contudo, sem insistência renitente ou alardeada procedência. E o fecho no capítulo final, obediência ao imperativo da liberdade em Cristo, é de admi- rável felicidade, digna de uma alma feminina de escol, própria da pena de invulgar devocionalidade. Bem haja esta obra de grande valor que o é" (in: DOUGLASS, 1995, p. 8).
18
Estranha-se que o resenhista dedique tanto espaço na argumentação para comentar ou criticar as apresentações à obra que se propõe a resenhar. Estranha-se também que das três considerações finais, a primeira seja uma per- gunta quanto às intenções da editora Didaquê ao estrear "no mercado editorial, na área de livros por assim dizer, com um material tão exaltado na apresentação, sem qualquer visão crítica positiva para a igreja, quando há mui-
A considerar que ele esteja correto em seu ponto de vista, de que a perspectiva bíblica foi deixada de lado na fusão dos horizontes interpretativos, pergunta-se: de que escritura ele fala, de alguma sem hermenêutica, como se existisse uma leitura objetiva e ideal, ou daquela que resulta da leitura da maioria masculina conservadora e com acesso a poder e dominação dentro de uma denominação religiosa? Se se considera que as hipóteses da autora estão equi- vocadas, seus resultados também serão equivocados.
A última das considerações finais da resenha é uma referência clara a acontecimentos históricos ligados ao feminismo cristão-protestante e à luta das mulheres em prol de seus di- reitos seculares, civis, políticos, sexuais, religiosos, o que inclui a ordenação ao sagrado mi- nistério, e que não aparecem no livro:
Três considerações finais. (...) A terceira: é verdade que as mulheres sofreram e têm sofrido seriamente por causa de erros culturais e mesmo por interpretações da Escri- tura que as mantiveram num papel aquém do descrito biblicamente. E isto não está longe. Basta olhar para trás que ou a mãe ou a avó terão vivenciado este processo. Entretanto, é preciso maior cautela por parte das mulheres (uma vez que estão orga- nizadas em movimentos). O momento emocional histórico e o volume de idéias pre- concebidas são grandes. Às mulheres cumpre não sucumbir ao desejo de interpretar a Escritura a partir das discriminações sofridas. Uma destas tentativas foi feita em um Congresso realizado nos EUA em 1993, em que as mulheres "reimaginaram" Deus como sendo "nossa criadora Sofia". O que parecia apenas uma diferença de opiniões trouxe à tona uma idolatria grosseira (CARVALHO, p. 158, jul.-dez. 1996).19
Na já citada apresentação ao livro de Douglass,20 Luz ratifica a argumentação da autora quanto à determinação cultural nitidamente presente na interpretação dos autores bíblicos e na óptica dos reformadores. Na verdade, ele está em rápido diálogo crítico com as teses de Ru- bens Duffles Andrade,21
presbiteriano que defende a ordenação feminina aos ministérios e tas questões a considerar" (CARVALHO, p. 158, jul.-dez. 1996). O que se trata de uma conjuntura à edição brasi- leira da obra, transforma-se em foco da análise. Estranha-se ainda que a resenha termine com a indicação de um outro livro sobre o assunto: "Se o leitor estiver procurando um livro objetivamente orientado para considerações hermenêuticas e uma aplicação clara do assunto tratado, uma excelente leitura é Homem e Mulher: seu papel
bíblico no lar, na igreja e na sociedade, compilado por John Piper e Wayne Grudem, da Editora Fiel" (CARVALHO, p. 158, jul.-dez. 1996). Melhor do que estranhar é entender que o resenhista parece mais preocupa- do com a defesa do status quo e menos com a resenha propriamente, mais preocupado em construir uma antia- presentação do livro do que propriamente em resenhá-lo.
19
Comentário e recurso à história desvinculados do livro resenhado, evidentemente apologéticos. Um texto que deveria ser acadêmico, com metodologia e gênero literário definido, pois se trata de resenha em periódico teoló- gico com status de cientificidade, é transformado em defesa da hermenêutica bíblica conservadora.
20
Carvalho adverte em sua resenha: "Já faço aqui um apelo aos leitores mais afeitos a julgamentos da obra pelas opiniões da quarta capa ou mesmo pela apresentação, que não ajam assim. Nesta obra os apresentadores movidos pela alegria de verem uma autora escrever sobre um assunto no qual já têm uma opinião formada, tiraram conclu- sões mais objetivas do que a própria autora" (p. 154, jul.-dez. 1996). Uma referência quase que explícita a Luz, chamado de apresentador, e seus argumentos.
21
As teses de Andrade nunca foram publicadas, porém, são conhecidas dentro da IPB uma vez que ele mesmo se encarregou de distribuí-las a teólogos, pastores e líderes, também para alguns de outras denominações, a fim de que dessem pareceres a respeito delas. São as seguintes: A mulher na igreja: demolição da doutrina tradicional
ofícios, porém, segundo Luz, com certo exagero na consideração sobre Calvino e o condicio- namento histórico que o levou a manter a norma vigente quanto às mulheres deixadas em po- sições exteriores às da hierarquia eclesiástica.
Causou-me espécie, contudo, a vigorosa arremetida [de Andrade] contra Calvino que, a seu ver, situou a mulher em âmbito profundamente amesquinhante na esfera eclesiástica. Esse juízo pareceu-me excessivamente severo, já porque se voltava con- tra o luminar de Genebra, não denunciados os demais Reformadores, até mais rígi- dos, já porque não eram o ministério e o oficialato femininos matéria da pauta dos eclesiásticos da época, já porque o próprio contexto religioso e social de então não ensejava posicionamento ao arrepio da norma vigente, já porque o biblicismo capital dos Reformadores impedia-os de desenvolver uma exegese crítica de molde a discu- tir e contrariar o exclusivismo dos varões tão vividamente expresso por Paulo, a re- fletir o vezo cultural de seu tempo. Logo, nada mais natural do que manter Calvino, cautelosa e assisadamente, o status quo, a mulher relegada a posição inferior, alijada de postos eclesiásticos, que só aos homens se reservavam. Era o espírito da época... (LUZ, in: DOUGLASS, 1995, p. 7).22
Se a determinação cultural pode ser superada, como não existente ou não-interferente, tanto no caso da produção original do texto canônico como no da interpretação dado a ele pe-