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2. BÖLÜM: ESERLERİNİN İNCELENMESİ

2.1. SAFAHAT VE HOPHOPNAME’NİN GENEL TANITIMI 1.Safahat Hakkında 1.Safahat Hakkında

2.2.3. Ahlak-Terbiye

A campanha da SOCEMA, contra o depósito de resíduos dos tanques de navios petrolíferos, nas praias, ao leste de Fortaleza, fez-se em 1979. A reação do grupo ao piche na Praia do Futuro, pelo óleo expelido na limpeza dos tanques dos navios de petróleo, revelou aspectos importantes sobre como os ambientalistas conseguiram chamar a atenção das autoridades e da população. Planejaram ações ousadas para provocar as autoridades responsáveis pelo problema a tomarem atitudes cabíveis à solução do problema do excesso de piche (subproduto do petróleo), que tanto incomodava os banhistas.

Flávio Torres lembrou que o fato foi importante por solucionar o problema, aparentemente, sem implicação para a saúde, que incomodava os habitantes e poderia acarretar danos ao ecossistema marinho. Flávio ressaltou que a campanha foi uma oportunidade de conscientização da população, que não tinha conhecimento das causas do aparecimento de piche. Os debates dos ambientalistas e a reação das autoridades, evidenciaram a falta de iniciativa de gestores responsáveis pela decisão de medidas necessárias para evitar o despejo de óleo pelos navios. Eles provocaram os gestores públicos ao alegar não atenção e cuidado com o ambiente urbano. Flávio Torres comentou o significado das denúncias, em 1979, que tiveram repercussão e fizeram com que os responsáveis implementassem medidas de erradicação do problema.

Os navios soltavam piche, lembra que as praias daqui eram cheias de piche? Eles lavavam os tanques quando iam saindo do porto e as praias ficavam cheias de piche, de asfalto. Isso não existe mais e foi uma vitória. Esse movimento começou por nós, que íamos à praia e ficávamos cheios de piche, sem falar nas crianças, que brincavam na areia e tomavam banho de mar e ficavam com o corpo cheio daquelas bolas pretas.

As denúncias da poluição das praias e a manifestação organizada, em 1979, com estudantes universitários, no domingo, dia de maior freqüência dos banhistas, foram marco da mudança de estratégias dos ambientalistas. Vê-se que, nas ações analisadas anteriormente, com foco em programas de governo, não havia participação direta da população. As pessoas eram informadas sobre os problemas e acompanhavam os debates pelos jornais, entretanto, a partir da campanha de limpeza do óleo das praias, o grupo da SOCEMA, além de utilização de jornais na divulgação da campanha e de provocar as autoridades e o poder público, realizou coleta de piche na praia e conversou com banhistas informando a causa do problema e a solução. O contato direto com a comunidade contribuiu para a sensibilização do problema. A professora Clélia Lustosa, na época estudante do curso de Geografia da Universidade Federal do Ceará, narra essa atividade.

Me lembro a questão do piche. Foi proposto levar os saquinhos e distribuir pra pessoas na praia para recolher o piche da Praia do Futuro e depois levar aquele piche recolhido, não lembro

bem qual era o destino... acho que Prefeitura, Capitania dos Portos e Governo do Estado. Sei que, na época foi recolhido piche e entregue às autoridades como forma de denunciar e de reclamar sobre a lavagem dos navios que jogava o piche nas praias.

Flávio Torres reconhece a coragem em se contraporem e desafiarem diretamente as autoridades, pois, pela ousada na vigência do regime militar, poderiam ser reprimidos, mas na condição de professor universitário, apresentavam argumentos técnicos com legitimidade das intervenções, como forma de proteção:

No dia do Natal nós fomos à praia e juntamos piche. Então nós juntamos umas quantidades, botamos naquelas caixinhas de Sedex e enviamos como presente de Natal. Com uma carta muito bem feita, redigida pelo pessoal da Scala. E mandamos pra um monte de autoridades, da marinha do meio ambiente.

Pensamos também em uma campanha no jornal. Quem fez a campanha foi a Scala, de graça pra nós. O slogan da Campanha era o seguinte: Nesse Natal lembre-se do mar. E Durante uma semana, todos os dias saia no jornal uma foto com um coquetel ao Kwait, Camarão a petróleo, e não sei o que mais. Era uma coisa jocosa.

Com a campanha, eles chamaram a atenção da sociedade, por cartazes das delícias da culinária cearense contaminada por óleo. Os cartazes com imagens de pratos típicos, peixe, camarão e lagosta, regados a petróleo, para chocar visualmente e convencer as pessoas sobre a necessidade de medidas para evitar que a praia continuasse a ser depósito de piche dos navios petrolíferos. Além disso, pela composição das imagens, eles destam a substância, resíduos de petróleo que, absorvido pelo ser humano ou animais, são perigo à saúde.

Figura 3. Folhetos publicados nos fascículo Nº 5 do curso Ecologia66, do O Povo, em 1989. Arquivo SOCEMA.

Matéria do O Povo, de 09 de janeiro de 1979, apresenta a reação do Capitão de Fragata da Capitania dos Portos, Mauro Moutinho Carvalho, às denúncias da SOCEMA, em que não concorda com a campanha, para ele, passional, de entidade que desconhece.

Não sei o que é SOCEMA. Recebi uma carta com amostra de piche, mas não respondi simplesmente porque eles, os dirigentes da Sociedade, não colocaram o endereço no envelope. Além disso, não concordo com a maneira como foi feita a

66 Veiculado através dos jornais: O Povo (CE), Jornal de Brasília (DF), A Crítica (AM), A Província do Pará (PA), O Estado do Maranhão (MA), O Dia (PI), Diário de Natal (RN), Tribuna do Norte (RN), O Norte (PB), Diário de Pernambuco (PE), Gazeta de Alagoas (AL), Jornal de Sergipe (SE), A Tarde (BA). Coordenado por Marília Brandão, Bióloga, professorado Departamento de Biologia da UFC e Maria José de Araújo Lima, Bióloga, professora da área de Ecologia do Departamento de Biologia da UFC.

campanha. Foi muito passional e um assunto como esse merece muito estudo.

Ao falar do problema denunciado pelo grupo de ambientalistas, argumentou que o piche nas areias poderia ser ocasinado por vazamentos de lençóis petrolíferos submarinos e não como resultado de lavagem dos tanques dos navios, em área próxima à costa litorânea. Citou ainda que a responsabilidade pela poluição das praias era de competência do órgão federal, Secretaria do Meio Ambiente-SEMA.

Em resposta às declarações do Capitão, Flávio Torres, Vice-Presidente da SOCEMA, fora do país, em especialização em Munique, enviou carta com provocações, publicada no Jornal O Povo, de 30, de janeiro de 1979, em que abordou, primeiro, a desinformação do Capitão sobre acontecimentos da cidade e dos problemas ligados do meio ambiente, tratados nos jornais pela SOCEMA.

Acabo de receber recortes de uma entrevista concedida por V. Sa. ao Jornal O Povo, sobre os problemas da poluição de petróleo em nossas praias, e que eu gostaria de tecer algumas considerações.

Primeiramente devo confessar-me um pouco chocado com as declarações de V. Sa., não pelo fato de ignorar o que é a SOCEMA. Afinal ninguém é obrigado a se manter informado sobre o que acontece em nossa cidade.

Depois, faz críticas à possibilidade de vazamentos naturais de petróleo e à forma irônica das informações do Capitão.

Francamente Senhor Comandante! Tal possibilidade de vazamentos naturais de petróleo existe, mas é tão provável quanto o aparecimento de um vulcão em plena Praça do Ferreira.

Flávio Torres opôs-se à rotulação do Capitão de que a campanha, elaborada por Agência de publicidade de reconhecida competência, seria passional. Diz ele: Aliás, não concordo com o rótulo de passional em nossa campanha. Embora os cuidados com a preservação ambiental mereçam uma dedicação apaixonada. Foi uma campanha de esclarecimento público... Permita-me, também, adjetivar nossa campanha como contundente e objetiva. Ressaltando que, apesar de a preservação ambiental merecer dedicação

apaixonada, a SOCEMA têm o compromisso com a objetividade e a realidade dos fatos. Com ousadia e ironia, foram tratadas as declarações do Comandante da Capitania dos Portos, destaca-se, ainda, a observação sobre a responsabilidade com relação à atitude individual de responder publicamente às declarações do Capitão.

Observam-se, ainda, pelo jornal e carta, os elementos que contribuíram na construção da legitimidade dos ambientalistas, pois feitas as referências aos membros da SOCEMA, o jornal relaciona-os com a titulação acadêmica. A posição de professor universitário significava que eles tinham responsabilidade e competência para tratar dos problemas ambientais, o que dava legitimidade aos membros na sociedade. Ao se dirigir ao Comandante da Capitania dos Portos, Flávio Torres não pretendia, com a carta, iniciar polêmica, simplesmente esclarecer o público que precisava ser informado sobre a existência de vazamentos naturais nos lençóis petrolíferos: O público precisa saber que absolutamente não concordamos com a hipótese de vazamentos naturais de petróleo. A não ser comprovados por algum estudo científico.

As falas de Flávio Torres apresentam formas e estratégias, pelos sujeitos, de inserção da questão ambiental no debate público, e revelam os elementos para atribuir legitimidade às reivindicações dos ambientalistas, no momento inicial do movimento. Levantaram-se bandeiras para o Governo inserir, no planejamento urbano, a criação e preservação de espaços públicos verdes, áreas urbanas destinadas a praças, jardins, parques paisagísticos e ecológicos, ressaltadas e consideradas imprescindíveis para manutenção de vida saudável e garantia da ventilação diminuindo os efeitos do calor do clima do Ceará.

As denúncias dos jornais locais e ações empreendidas resultaram no reconhecimento, pela sociedade, do papel dos ambientalistas, na defesa do ambiente urbano, a partir de que, no final dos anos 1970, há demanda maior da SOCEMA, por parte da população de Fortaleza: é o caso de denúncias e apoio às ações de comunidades para combate à poluição industrial.