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09) Kritik dosyalar

6.3 ESET Teknolojisi

O julgamento de Nuremberg, no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, representou a ascensão de um novo paradigma ao tratamento do ser humano. A dignidade da pessoa, reconhecida como um valor acima do Estado83, ressignificou os direitos, já que “[...] qualquer violação à dignidade humana praticada como política de governo passou a constituir desrespeito à humanidade como um todo” (MARMELSTEIN, 2009, p. 9).

O sentido do tratamento humano passou a situá-lo, então, como sujeito da situação jurídica e a tutelar o direito essencial da chamada “pessoa humana” como bem jurídico merecedor de proteção (BELTRÃO, 2014, p. 2). Considerada anteriormente como simples membro da sociedade, a pessoa passou a significar um ser “[...] portador de valores e não um simples objeto deste mundo” (Beltrão, 2014, p. 2). Os aspectos tão somente biológicos e instintivos foram substituídos por caracteres valorativos.

A ideia de um ente tão somente biológico passou a estagnar-se e a noção de uma possibilidade transcendental, influência direta do Cristianismo, possibilitou a

turn out to be so again in the future. A coherent conclusion is that delinking should be equally dynamic,

yet this, if feasible, would generate a rather chaotic situation [...] As philosophers and logicians know too well, determining the relevance of some information is a very hard problem to solve. In this case too, it is impossible to fix the relevance once and for all, by devising a simple and universal rule, for relevance is dynamic and it is certainly a mistake to reduce it to a mere chronological matter – as the ruling seems to invite one to do – as if old information were irrelevant when compared to new one. Old news is not synonymous with irrelevant news” (FLORIDI, 2015, p. 14).

83O autor delimita o novo paradigma ao expressar: “Os direitos do homem estão acima dos direitos do

concretização do conceito característico da personalidade. A subjetividade do ser e o respeito como o alicerce da dignidade representam a personalidade na ordem jurídica. (BELTRÃO, 2014, p. 2)

Em relação à eficácia dos direitos, liberdades e garantias, deve ela ser mediada pelo legislador, ou seja, também é dever do legislador buscar garantir a proteção de tais direitos nas relações privadas (CANOTILHO, 2008, p. 92). Do mesmo modo, o cunho de garantia dos direitos fundamentais é representativo de que pode conviver em mesmo espaço a viabilização de princípios de justiça em âmbito privado.

No Brasil, a Constituição de 1988 seguiu o modelo de aplicação das demais Constituições estabelecidas, no sentido de positivar os direitos humanos na defesa da personalidade, formulada de modo mais efetivo no período posterior a 1945. Assim, definiu-se no artigo 1º a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

O ministro Luis Felipe Salomão, em seu voto da decisão do caso “Aída Curi”, considerou a visão da dignidade da pessoa humana como fundamento

constitucional comparado a uma “lente” através da qual devem “[...] ser interpretados os demais direitos posteriormente reconhecidos. A cláusula constitucional da dignidade da pessoa humana garante que o homem seja tratado como sujeito cujo valor supera ao de

todas as coisas criadas por ele”84 (REsp nº 1.335.153- RJ). E, então, compara a

dignidade com os demais direitos relativos ao mercado, à imprensa e ao Estado, sendo observada como um núcleo central de proteção erga omnes. Daí adviriam os princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, com base nos quais as instituições deveriam suportar, a depender do caso concreto, alguns sacrifícios, em prol da conservação da dignidade.

A reflexão filosófica é essencial para entender o ser humano inserido nesse contexto proveniente da defesa de um indivíduo em meio à coletividade. Em sua primitiva origem, o ser apto à socialização e à formação de grupos sociais é entendido como o que merece, por um aspecto valorativo, o respeito ao que o faz voltar ao seu

“interior”, mesmo que imerso no todo.

Em que hipóteses haveria importância do indivíduo em detrimento do coletivo? A quantidade de pessoas poderia ser comparada hierarquicamente ao desejo de um só indivíduo? Michael Sandel (2011) reflete sobre essas questões ao expor de

84 Superior Tribunal de Justiça. REsp. nº 1.335.153 – RJ. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. Data de

modo comparativo a visão utilitarista de Bentham. O utilitarismo é o agente propulsor da ideia de custo e benefício de modo que o principal objetivo da decisão, a maior felicidade, é observado do ponto de vista quantitativo e não valorativo.

Critica-se o princípio da felicidade pois Bentham “[...] não atribui o devido valor à dignidade humana e aos direitos individuais e reduz equivocadamente tudo que

tem importância moral a uma única escala de prazer e dor” (SANDEL, 2011, p. 63),

pelo que a principal atração do utilitarismo, para o autor, reside num potencial pouco ou quase acrítico, qual seja, a ausência de análise moral das pessoas, visto que os desejos pessoais seriam tratados como, de fato, são (SANDEL, 2011, p. 67). Ele ainda complementa:

A vulnerabilidade mais flagrante do utilitarismo, muitos argumentam, é que ele não consegue respeitar os direitos individuais. Ao considerar apenas a soma das satisfações, pode ser muito cruel com o indivíduo isolado. Para o utilitarista, os indivíduos têm importância, mas apenas enquanto as preferências de cada um forem consideradas em conjunto com as de todos os demais. E isso significa que a lógica utilitarista, se aplicada de forma consistente, poderia sancionar a violação do que consideramos normas fundamentais da decência e do respeito no trato humano (SANDEL, 2011, p. 51).

Apesar do objetivo de buscar a forma mais vantajosa, é superficial o estabelecimento de uma ideia relevante do ponto de vista moral. A partir disso, é possível avaliar, analogicamente, assumindo-se que o direito coletivo de conhecer fatos privados de forma ilimitada seria um pensamento utilitário, através do qual haveria uma superioridade da relevância do acesso à determinado fato ou dado a um maior número de pessoas, mesmo com a discordância do indivíduo lesado em sua privacidade. Outra dimensão diz respeito ao pensamento kantiano de respeito à humanidade. Destaca-se (SANDEL, 2011, p. 156):

[...] a violação do respeito por si mesmo é tão condenável quanto a violação do respeito pelo próximo. E explica também porque o princípio kantiano do respeito aplica-se às doutrinas dos direitos humanos universais. Para Kant, a justiça obriga-nos a preservar os direitos humanos de todos, independentemente de onde vivam ou do grau de conhecimento que temos deles, simplesmente porque são seres humanos, seres racionais e, portanto, merecedores de respeito.

O contexto dos direitos da personalidade está situado no critério do

imperativo do agir “[...] de tal maneira que uses a humanidade tanto na tua pessoa como

simplesmente como meio” (KANT, 2007, p. 69). Citada dimensão, no pensamento racional, amplia o horizonte do sistema quantitativo para a condição de merecimento do respeito mesmo que se esteja só, de modo que a humanidade seja reflexamente desenvolvida, como fruto da valorização de parte fracionada dela: o ser humano. A partir disso, é necessário compreender a colisão do íntimo em detrimento das liberdades próprias da coletividade, quais sejam, a expressão e a informação.

O receio de uma limitação particular existe no momento em que a censura poderia ser o objetivo disfarçado em justificativas aparentemente honrosas ou defensoras da dignidade humana. Assim, a inexatidão ou o conteúdo demasiadamente amplo da dignidade, a ponto de justificar supostos direitos da pessoa, poderia suscitar o uso prejudicial a partir de um livre critério do julgador. Destaca-se a fluidez da dignidade:

A dignidade humana não consiste em um conceito de aplicação matemática. A própria percepção do que é ou não essencial ao ser humano varia conforme a cultura e a história de cada povo, e também de acordo com as concepções de vida de cada indivíduo. Tamanha fluidez não agrada aos juristas, sempre ansiosos por um porto seguro que permita distinguir o certo do errado, o lícito do ilícito, o legítimo do ilegítimo, dando alguma segurança e previsibilidade aos conflitos que possam surgir na vida social. Daí a necessidade tão sentida nos meios jurídicos de, sem rejeitar o caráter aberto da dignidade humana, indicar os principais atributos que a compõem. Daí o ressurgimento dos direitos da personalidade na experiência jurídica contemporânea. (SCHREIBER, 2013, p. 9-10)

Em que pese a importância da aplicação da dignidade da pessoa humana, seu uso inadequado é criticado. Para Bruno Weyne (2010, p. 78-79) pela demasiada abstração e conteúdo genérico, haveria o risco de um comportamento possivelmente arbitrário. Existe, com frequência, um “[...] uso inflacionário e muitas vezes incoerente da dignidade da pessoa humana, que tem servido inclusive para justificar interesses ou soluções diametralmente opostas” (WEYNE, 2010, p. 79). Em prol de uma maior segurança jurídica, importa reconhecer um tratamento mais cuidadoso do tema quando analisado paralelamente a outros direitos. É por meio disso que:

[...] Pode-se constatar que a concepção ontológica da dignidade da pessoa humana, ao conferir a esta um status privilegiado, porém sob bases teóricas frágeis, imuniza esse princípio de uma análise mais profunda sobre o seu conteúdo, sobre as suas implicações e, principalmente, sobre os seus possíveis usos argumentativos. Isso, de um lado, representa um obstáculo ao reconhecimento e à proteção dos direitos humanos e fundamentais; e, de outro, provoca o aumento da insegurança na práxis e no discurso jurídicos. Dessa maneira, a concepção ontológica de dignidade não deve seguir

servindo como critério suficiente para a aplicação e para a interpretação do Direito (WEYNE, 2010, p. 80).

Tais reflexos morais são também observados por Regenaldo da Costa (2006) quanto ao efeito do progresso da manifestação de ideias. O uso de uma tecnologia de massa representa e, em si mesmo, faz renascer uma sociedade diferenciada, fato que, ao mesmo tempo, “[...] traz como consequência fundamental a necessidade de repensar as relações humanas e, deste modo, a moral e o direito” (COSTA, 2006, p. 115). Voltar-se a si mesmo é um exercício de reflexão através do qual um princípio pode fundamentar a resolução de um caso concreto. É a capacidade de pensar a dignidade como elemento relevante, embora sob o risco de uma aplicação, por vezes, dúbia e genérica.

O ato de pensar, então, possibilita a ideia de que uma “[...] reflexão filosófica é radical porque é um movimento de volta do pensamento sobre si mesmo para conhecer-se a si mesmo, para indagar como é possível o próprio pensamento” (CHAUI, 2000, p. 12). Dessa forma, é o entendimento da realidade e do direito um fruto da relação humana, elemento suficiente para a reflexão em face das transformações e por conta delas. A capacidade de entender o tratamento da dignidade da pessoa humana, reitera-se, desde que cuidadoso, é aludir ao direito ao esquecimento, já que a aplicação desse está condicionada à autonomia humana.

Quanto ao progresso técnico-científico, seu objetivo é melhorar as condições humanas, é primar pelo conforto e pela praticidade informativa. Com tal determinação, considera-se que agir em equilíbrio com as liberdades humanas deve representar um bem viver adequado à moral de cada circunstância e ao intuito de conservação da dignidade (PEGORARO, 2008, p. 51). O desenvolvimento é um elemento propulsor da liberdade e das condições de vida, mas o grande entrave reside

na desconsideração do “[...] valor central da pessoa, da liberdade e das qualidades

humanas para centrar o foco na produção, lucro e consumo” (PEGORARO, 2008, p. 151).

A liberdade humana está pautada, em essência, em como o ser humano se relaciona com os elementos externos e de que modo tais elementos influenciam na sua qualidade de vida. Por meio do pensamento aristotélico85, é possível compreender que

85 Pegoraro considera o pensamento de Aristóteles acerca do conjunto de energias e funções humanas em

suas múltiplas formas como o ato comandado pelo intelecto. Uma vez que é: “o caminho da ética prudencial que consiste no meio-termo entre o excesso e a deficiência. A via prudencial nada mais é do

tal liberdade assume o compromisso de como guiar a si mesma e o entendimento da limitação dos demais atos prejudiciais ao desenvolvimento do homem e da sociedade em que esse está inserido. O progresso, assim, deveria ser entendido como a busca pela expansão da liberdade e da qualidade do corpo, bem como pelo bem-estar individual e, nesse espaço, estaria situado o direito ao esquecimento.

A necessária aplicação de um sentido moral aos atos se compatibiliza diretamente com singularidades circunstanciais, o que significa que o meio-termo de um comportamento estaria, entretanto, numa “[...] proporcionalidade conveniente a cada um

de nós” (PEGORARO, 2008, p. 51). A prudência humana na orientação de uma prática

equilibrada das liberdades é preservada de modo a realizar a aplicação real do pensamento moral nas decisões humanas.

Nesse sentido, a natureza da pessoa também é situada na exigência de um desenvolvimento em todos os sentidos, de tal forma que não poderia ser o indivíduo

definido como uma “[...] máquina construída a partir de um modelo e apta a fazer o trabalho prescrito” (MILL, 2001, p. 55)86, mas como o crescimento de uma árvore,

revelado por forças internas definidoras de um elemento vivo.

Não haveria, por sua vez, um caráter genérico humano porquanto as diferenças entre os seres humanos revelariam individualidades distintas. O respeito às peculiaridades é, a partir do parâmetro moral, um propósito da dignidade humana, devendo ser considerado na resolução dos casos conflituosos.

que a busca do equilíbrio da vida pessoal e social. Porém, o meio-termo não é igual para todos mas será

proporcional a cada pessoa e em cada circunstância” (PEGORARO, 2008, p. 50).

86No original: “Human nature is not a machine to be built after a model and set to do exactly the work

prescribed for it, but a tree, which requires to grow and develop itself on all sides, according to the tendency of the inward forces which make it a living thing”. Disponivel em: <http://socserv.mcmaster.ca/econ/ugcm/3ll3/mill/liberty.pdf> Acesso em 28 de março de 2016.

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