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O adjetivo “essencial” remete à essência ou a substância responsável pela
determinação mínima de um ser ou objeto. O que é essencial, é, ao mesmo tempo, imprescindível para uma especificidade existencial. Isso constitui à dignidade da pessoa, pois, seu caráter inexpropriável.
A exigência de uma proteção especial a determinados atributos humanos no campo privado é, o critério para determinar o emprego da expressão “direitos da
personalidade”, o que significa incluir tais direitos “[...] na interação entre particulares, sem
embargo de encontrarem também fundamento constitucional e proteção nos planos nacional e
internacional” (SCHREIBER, 2013, p. 13).
Retomando-se o caráter de essencialidade dos direitos da personalidade, tem-se que são eles inerentes, pois derivados desde o nascimento da pessoa. Sendo considerados intransmissíveis, não podem ser objeto de aquisição por terceiros por cessão ou sucessão. (BELTRÃO, 2014, p. 14). Nesse sentido, é a determinação do Código Civil, em seu artigo 11:
“Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e
irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária”.
“Intransmissível” é ser, explica-se, inseparável do titular, de modo que a
De fato, nos direitos da personalidade a instransmissibilidade reside na natureza do objeto, o qual, como já dissemos, se identifica com os bens mais elevados da pessoa, situados, quanto a ela, em um nexo que pode dizer-se de natureza orgânica. Por força deste nexo orgânico, o objeto é inseparável do originário sujeito: a vida, a integridade física, a honra, a liberdade, e outros de Tício, não podem vir a ser bens de Caio por virtude de uma impossibilidade que se radica na natureza das coisas. Nem o ordenamento jurídico pode consentir que o indivíduo despoje daqueles direitos que, por corresponderem aos bens mais elevados, têm caráter de essencialidade (DE CUPIS, 2008, p. 55).
Por conseguinte, sendo os direitos irrenunciáveis, não podem ser objetos de despojamento independentemente de abdicação ou do seu não exercício. E, situando-se na elevação dos bens, têm indispensável existência, pois presente desde o início da vida de forma restrita ao titular do direito. Tal impedimento à renúncia é determinante quando “[...] a personalidade jurídica não pode ser esvaziada, por ato de renúncia, da parte mais importante do próprio conteúdo, pois que a norma jurídica, ao atribuir os direitos da personalidade, tem caráter de norma de ordem pública, irrevogável” (DE CUPIS, 2008, p. 59).
Para Cambler (2005), o ato de preservar tais direitos é explícito pois a abdicação a eles seria nula, pois afronta diretamente às normas de ordem pública, consoante artigo 166, inciso VII, do Código Civil: “Art. 166. É nulo o negócio jurídico quando: [...] VII - a lei taxativamente o declarar nulo, ou proibir-lhe a prática, sem cominar sanção”.
São considerados, ademais, direitos pessoais. O caráter não patrimonial, no entanto, não é motivo impeditivo às ações com caráter de responsabilidade civil. A existência do efeito patrimonial nos direitos de personalidade nem sempre teve aplicação, tendo em vista o não reconhecimento imediato de um elemento exterior atingido (BELTRÃO, 2014, p. 17).
A imprescritibilidade, por sua vez, significa uma defesa dos direitos da personalidade independente do período de tempo. Sustenta-se, ademais, o entendimento de que, mesmo após a morte10 permanece a necessidade de defender a memória, pois seus
10 EMENTA: CIVIL. DANOS MORAIS E MATERIAIS. DIREITO À IMAGEM E À HONRA DE PAI
FALECIDO. Os direitos da personalidade, de que o direito à imagem é um deles, guardam como principal característica a sua intransmissibilidade. Nem por isso, contudo, deixa de merecer proteção a imagem e a honra de quem falece, como se fossem coisas de ninguém, porque elas permanecem perenemente lembradas nas memórias, como bens imortais que se prolongam para muito além da vida, estando até acima desta, como sentenciou Ariosto. Daí porque não se pode subtrair dos filhos o direito de defender a imagem e a honra de seu falecido pai, pois eles, em linha de normalidade, são os que mais se desvanecem com a exaltação feita à sua memória, como são os que mais se abatem e se deprimem por qualquer agressão que lhe possa trazer mácula. Ademais, a imagem de pessoa famosa projeta efeitos econômicos para além de sua morte, pelo que os seus sucessores passam a ter, por direito próprio, legitimidade para postularem indenização em juízo, seja por dano moral, seja por dano material. Primeiro recurso especial das autoras parcialmente conhecido e, nessa parte, parcialmente provido. Segundo recurso especial das autoras não conhecido. Recurso da ré conhecido pelo dissídio, mas improvido. (REsp 521.697/RJ, Rel. Ministro CESAR ASFOR ROCHA, QUARTA TURMA, julgado em 16/02/2006, DJ 20/03/2006, p. 276)
direitos estão a ela inerentes. De modo distinto, necessário considerar que a pretensão à reparação da lesão ao direito da personalidade é passível de prescrição. O direito é imprescritível, porém a ação indenizatória deve obedecer aos prazos previstos no Código Civil (BELTRÃO, 2014, p. 18).
O exercício de um direito à vida intrínseco ao fato de viver ou de exercer o direito à privacidade sem que seja necessário o isolamento representa que a inércia da vítima não gera a prescrição do direito em si mesmo considerado. Isto posto, eles “[...] não se perdem, não caducam os direitos da personalidade em decorrência do não uso, do não desfrute
concreto por parte do respectivo titular” (CAMBLER et al, 2005, p. 114).
Ressalta-se que inexiste necessidade de cumprimento de nenhuma condição anterior. A concepção de um caráter inato é continuamente reafirmada como efeito direto do direito natural, com o estabelecimento de uma motivação originária suficiente para proteger a pessoa do comportamento autoritário característico da realeza do século XVII. Existem, ainda, os direitos da personalidade adquiridos, ou seja, incorporados à pessoa por conta de fato jurídico derivado das relações sociais, a exemplo, o direito ao nome e o direito à reprodução fotográfica da imagem (BELTRÃO, 2014, p. 18).
Já quanto ao caráter da indisponibilidade, tem-se a impossibilidade de serem
exercidos por terceiros e “[...] se a personalidade é inalienável e se se concebe como a
categoria sintetizadora de todos os direitos da personalidade em espécie, então estes são incedíveis” (CAMBLER et al, 2005, p. 114). Por ser um pressuposto das obrigações jurídicas, a personalidade detém um traço absoluto. Tendo em vista seu caráter erga omnes, não existe a obrigatoriedade da existência de uma relação jurídica e, sendo absolutos, não haveria relativização do direito da personalidade. Nesses termos, delimita Cambler (2005, p. 111):
Impende uma obrigação negativa a todos os subordinados ao princípio da legalidade e a outros princípios informadores do Estado Democrático de Direito, ou seja, uma obrigação de se abster, de nada fazer que possa representar lesão ou ameaça a qualquer dos direitos da personalidade, nos limites estabelecidos nas normas e princípios constitucionais e infraconstitucionais.
Os direitos da personalidade geram uma determinada obrigação à não lesão a outrem. Tal obrigação apresenta caráter universal e tem como objetivo o respeito ao bem jurídico. Difere do direito contratual, o qual deriva de um acordo prévio e que, por meio dele, perpassam direitos disponíveis. No âmbito da personalidade, o caráter absoluto não significa ausência de limitação. Justifica-se pelo fato de que o direito objetivo poderia apresentar casos diversos capazes de induzir à proteção de outras situações (BELTRÃO, 2014, p. 20).
Por conseguinte, são “[...] intimamente ligados ao homem, para sua proteção jurídica, independentes de relação imediata com o mundo exterior ou outra pessoa, são intangíveis, de lege lata, pelo Estado ou pelos particulares” (BITTAR, 1989, p. 11). A possibilidade de um reconhecimento ilimitado de direitos da personalidade, posto seu caráter não taxativo, já mencionado, é a expressão de uma concepção de que não há um único direito geral, mas sim direitos específicos relativos à personalidade.
Representa-se a disposição “[...] numerus apertus, ou seja, da possibilidade de se
reconhecer um número ilimitado de direitos da personalidade” (CAMBLER, 2005, p. 116), a
depender da necessidade e aspecto jurídico-cultural de cada Estado. No que se refere à generalidade, entende-se paralelamente à existência da personalidade e pertencente a toda pessoa (CAMBLER, 2005). Por fim, são extrapatrimoniais por não possuírem conteúdo patrimonial, embora presentes seus reflexos econômicos na existência de lesões (BELTRÃO, 2014, p. 17).