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A defesa de um conjunto de atributos humanos em face de exteriorizações é a perspectiva do caráter íntimo de um direito. Interpreta-se como a tentativa de manter a segurança ao que caracteriza a pessoa em sua dimensão própria, ou seja, em sua personalidade, aspecto comum a todos os seres humanos.
Aliado a esse conceito, é cabível a proteção do que é singular ao ser. Isso significa que existe um critério genérico de que todos, sendo pessoas, são detentores da personalidade e dos direitos a ela inerentes, conciliado à unidade determinativa de que apenas um indivíduo no espaço universal possui características genéticas únicas, que o caracterizam como um indivíduo peculiar. A disposição nacional é prevista na Constituição Federal, em seu artigo 5º,
inciso X: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,
assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”. A tutela do direito à intimidade como direito à personalidade, prevista no Código
Civil, possibilitou uma inovação “[...] pois antes a sua tutela tinha por base, essencialmente,
as normas constitucionais que estabelecem os direitos e as garantias fundamentais da pessoa
humana” (BELTRÃO, 2014, p. 202). Assim, a previsão normativa, consoante o artigo 21, do
Código Civil, descreve: “Art. 21. A vida privada da pessoa natural é inviolável e o juiz, a requerimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar
ato contrário a esta norma”.
É necessária a compreensão doutrinária acerca do direito citado. Inicialmente, Carlos Alberto Bittar (1989) entende que o direito à intimidade11 é destinado ao resguardo da privacidade em variados aspectos: pessoa, família e negócios. Igualmente, Szaniawski (1993, p. 130) expressa a dimensão do uso da terminologia utilizada no sentido de que há, entre a
11 Quanto às denominações, também podem ser encontradas, segundo Bittar (1989, p. 102): “ ‘right of privacy’
ou ‘right to be alone’ (no direito anglo-norteamericano); ‘droit à la vie privée’ (francês); ‘diritto ala riservatezza’ (italiano); ‘derecho a la esfera secreta’ (espanhol); ‘direito de estar só’, ‘direito à privacidade’ e ‘direito ao resguardo’. Consubstancia-se em mecanismos de defesa da personalidade humana contra injunções, indiscrições ou intromissões alheias”.
maioria dos doutrinadores, uma utilização indiferente, tais como “direito ao respeito à vida
privada”, “direito à vida privada”, “direito à intimidade” e ainda “direito ao resguardo”, para designar o direito de “estar só”, ou seja, a proteção contra a exteriorização do indivíduo.
Entende-se que, apesar do uso indiscriminado dos termos, existem diferenças de significado
das expressões, “[...] não sendo unânime o pensamento que as considere expressões sinônimas” (SZANIAWSKI, 1993, p. 130).
Existe a sustentação doutrinária de um direito geral à intimidade, o qual se dividiria em aspectos relativos à imagem, segredo, privacidade e outros. O direito à
intimidade, explicado em si mesmo, concederia a visão abrangente de ser possível que “[...]
dentre os direitos de cunho psíquico, nele divisamos a proteção da privacidade, na exata
medida da elisão de qualquer atentado a aspectos particulares ou íntimos da vida da pessoa”
(BITTAR, 1989, p. 102). A parte dos conceitos doutrinários, é importante estabelecer a ideia de transformação temporal.
Em 1989, já existia a hipótese de que o desenvolvimento da comunicação traria necessidades diferenciadas e a exposição prolongada dos seres aos conceitos de uma suposta opinião pública, cada vez mais acentuada e facilmente disseminada pelo avanço tecnológico. É por meio de uma visão à frente de seu tempo que a intimidade, visada como direito da personalidade, mantém alcance após vinte anos da publicação do pensamento de Bittar (1989, p. 103). Não menos verdade, reconhece-se o isolamento no efeito ocasionado pela tecnologia: a aproximação humana considerável e capaz de ultrapassar os limites do que é íntimo a cada pessoa.
Limita-se, nesse sentido, a imersão de terceiro ao âmbito privado da vida, família, lar e correspondência. Ao campo de proteção do direito à intimidade, são dispostos os seguintes bens:
[...] confidências, informes de ordem pessoal (dados pessoais); recordações pessoais; memórias; diários; relações familiares; lembranças de família; sepultura; vida amorosa ou conjugal; saúde (física e mental); afeições; entretenimentos; costumes domésticos e atividades negociais, reservados pela pessoa para si e para seus familiares (ou pequeno circuito de amizade) e, portanto, afastados da curiosidade pública (BITTAR, 1989, p. 104).
O afastamento da curiosidade pública é a compreensão inicial da linha distintiva entre o desejo do público em saber sobre aspectos pessoais e o interesse público, no sentido de relevância à sociedade. Tal análise mais detalhada será posteriormente observada. Inicialmente, quanto ao aspecto íntimo, a referência à negação de uma curiosidade ou vontade
de imiscuir-se na vida de outra pessoa é suficiente para descrever, ao menos visualmente, um limite à esfera protegida pelo direito ora tratado.
De Cupis (1993) defende o direito à discrição ou, para ele, o “direito ao
resguardo”. Do mesmo modo, faz referência à curiosidade ao expressar que a conservação de um conceito de discrição de “[...] experiências, lutas, paixões pessoais, estão-lhes intimamente
ligadas, não podendo, por isso, conceder-se livre acesso à curiosidade do público” (DE CUPIS, 1993, p. 156).
Na existência de determinado acontecimento tão somente relativo à esfera pessoal, em consonância com o intuito de conservação da intimidade, há que se conferir uma proteção de dados ou informações com caráter pessoal. Situam-se estes, com maior evidência, no âmbito da sociedade da informação e seus efeitos característicos são positivos, a exemplo da utilidade da velocidade das informações, e negativos, no que tange à intimidade eventualmente atingida.
Por conseguinte, trata-se de um direito negativo, que se caracteriza com o
escopo de não expor a terceiros o que corresponde aos “domínios da confidencialidade”
(BITTAR, 1989, p. 104) e defende-se, pois, a vontade do detentor da faculdade de decidir sobre a divulgação, qual seja, o titular.
No que se refere às pessoas notórias, assim consideradas as que são conhecidas publicamente, Bittar (1989) revela ser possível a publicação dos fatos que tenham interesse público, independentemente da concordância da pessoa. Há a redução do limite da privacidade, tendo em vista a natureza do exercício profissional, relacionado à política, à arte ou ao esporte, funções que lhes conferem naturalmente maior visibilidade pública. Porém, há que se convir que “[...] o limite de confidencialidade persiste preservado: assim, sobre fatos íntimos, sobre a vida familiar, sobre a reserva no domicílio e na correspondência não é lícita a comunicação sem consulta ao interessado” (BITTAR, 1989, p. 104).
Com clareza, é possível separar diferentes graus que conferem distinções entre as pessoas e possibilidades de divulgação. Do mesmo modo, distinguem-se os fatos naturalmente exibidos, assim justificados pela visão pública do indivíduo, dos fatos pertencentes à esfera da confidencialidade, o denominado “intelecto próprio”, âmbito a ser protegido em seus: “[...] fatos, ações ou dados cuja extrapolação não interessa à pessoa, que pode, pois, evitar, juridicamente, sejam postos a conhecer, ou a sancionar a divulgação realizada sem, ou contra, o seu consentimento (art. 5.º, X) ” (BITTAR, 1989, p. 105).
Considera-se que o tratamento de pessoas notórias persiste na questão limitadora ao aspecto humano comum e independentemente da existência de notoriedade. De qualquer
modo, “[...] mesmo nestes casos, por outro lado, as exigências do público detêm-se perante a esfera íntima da vida privada, e, além disso, as mesmas exigências são satisfeitas pelo modo
menos prejudicial para o interesse individual” (DE CUPIS, 2008, p. 157). No mesmo
parâmetro, discorre Beltrão (2014, p. 202):
[...] A inserção desta pessoa no contexto social é importante para revelar a possibilidade de exposição da sua vida privada, mas se destaca e não deve ser esquecido que a sua esfera íntima e secreta deve ser sempre preservada, pois se encontram bastante distante do interesse público. Desse modo, os problemas familiares envolvendo uma pessoa pública estão contidos em sua esfera íntima que não interessa à sociedade, mas somente àquela pessoa própria e talvez a um ciclo reduzido de parentes e amigos.
Consideram-se, assim, sancionáveis: “[...] indiscrições injustificadas; a utilização abusiva da comunicação privada; divulgação abusiva na comunicação ao público; espionagem e revelação de dados pessoais e de confidências” (BITTAR, 1989, p. 106). A referência ao aspecto característico do que torna determinado interesse público, advindo da coletividade, é motivação à limitação do direito à intimidade, no sentido de que o coletivo teria predominância sobre o interesse particular. Seria possível determinar uma margem limitada, de modo que a pessoa não seja injustamente prejudicada. A ordem da coletividade poderia, para ele, ser exemplificada em:
[...] exigências de ordem histórica, científica, cultural ou artística; exigências de cunho judicial ou policial, inclusive com o uso de aparatos tecnológicos de detecção de fatos; exigências de ordem tributária ou econômica; exigências de informação, pela constituição de bancos, empresas, ou centros, públicos ou privado, de dados, de interesse negocial, e de agências de divulgação comercial (de elementos de cunho patrimonial); exigências de saúde pública e de caráter médico-profissional e outras. (BITTAR, 1989, p. 106).
A compreensão corrobora uma aceitação da exibição de fatos que tenham interesse histórico, artístico ou científico e tais fatos representariam conceitos com valor considerável à sociedade. O respeito a uma limitação para satisfazer o interesse objetivado constituiria a linha tênue entre coletividade e elemento íntimo, de tal forma que a revelação de dados pessoais a outras pessoas, as trocas escusas de informações e a divulgação de fatos pessoais são representativos de um apelo à violação da intimidade (BITTAR, 1989, p. 107).
Defende-se, então, a utilização de um “direito à intimidade” em sentido mais
restrito que o “direito à privacidade”, mesmo que ambos tratem da análise do objeto interno,
relacionados à pessoa e que, porventura, tendam a atingir o ser, observado no seu sentido mais profundo.
A privacidade, cujo marco teórico aconteceu com Samuel Dennis Warren e Louis Dembitz Brandeis, em 1890, terá sua influência estudada, nos capítulos seguintes, em relação direta com a prática de uma defesa do que deve ser “deixado em paz”. No entanto, menciona-
se a ampliação do significado de privacidade, não mais apenas aliado à ideia do “right to be let alone” característico de um objeto mais restrito.
O reconhecimento de um direito ao esquecimento revela uma importância pré- estabelecida ao que caracteriza o ser em seu sentido interno. A valorização da pessoa humana, então, é de valiosa reflexão. O ato de tornar “íntimo”, na definição própria do termo, assim reconhecido como direito da personalidade, pode ser explorado através dos seguintes questionamentos: por que defender o direito de esquecer o elemento íntimo? E, por fim: por que defender a pessoa?
3. O ESQUECIMENTO E OS ASPECTOS SOCIAIS: MEMÓRIA, VERDADE E