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De acordo com o artigo 5º, inciso IV, da Constituição Federal: “IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” (artigo 5º, IV, CF/88). Por conseguinte, o inciso IX do mesmo artigo enumera as atividades relacionadas: “IX- é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (artigo 5º, IX, CF/88).

A liberdade de expressão também é situada no tratamento da comunicação social, no artigo 220: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição” (artigo 220, CF/88). Nos parágrafos 1º e 2º, acrescenta-se que: “[...] nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social,

observado o disposto no artigo 5º, IV, V, X, XIII e XIV”, sendo “[...] vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”.

Nesse contexto, o caráter individual é posicionado paralelamente à colisão entre liberdades. Tal entendimento foi representativo da já citada decisão do Supremo

Tribunal Federal (ADI 4815/DF) acerca da inexigibilidade da autorização para publicação de biografias. A biografia é apenas um dos exemplos da publicação de acontecimentos da pessoa retratada e que, por conta da sua notoriedade ou participação pública, participou dos fatos relevantes da história do país. A crítica a um pedido de autorização para a publicação faz alusão ao exercício da liberdade de expressão e sua colisão com o direito à privacidade.

Para Luis Roberto Barroso (2015), no Brasil, a liberdade de expressão deve ser considerada uma liberdade preferencial. Três razões justificam seu pensamento:

“[...] A primeira delas é porque o passado condena. A história da liberdade de expressão no Brasil é uma história extremamente acidentada” (ADI 4815/DF, 2015). A história,

portanto, demonstra liberdades constantemente ameaçadas, sendo, para ele, necessária a reafirmação da expressão como forma de mantê-la segura. E sobre as outras duas razões, ele dispõe:

[...] A segunda razão pela qual a liberdade de expressão deve ser tratada como uma liberdade preferencial em uma sociedade como a brasileira, e talvez nas sociedades democráticas em geral, é que a liberdade de expressão é não apenas um pressuposto democrático, como é um pressuposto para o exercício dos outros direitos fundamentais. Para exercerem-se bem os direitos políticos, o direito de participação política, a liberdade de associação, a liberdade de reunião, o próprio desenvolvimento da personalidade, é preciso que haja liberdade de expressão, é preciso que haja uma livre circulação de fatos, opiniões e ideias para que cada um possa participar esclarecidamente do debate público. Ninguém deve ter o direito de selecionar quais são as informações que podem chegar ao debate público. Portanto, a segunda razão é que, sem liberdade de expressão, não existe plenitude dos outros direitos, não existe autonomia privada, não existe autonomia pública. E a terceira e última razão é que a liberdade de expressão é essencial para o conhecimento da história, para o aprendizado com a história, para o avanço social e para a conservação da memória nacional (ADI 4815/DF, 2015, p. 7).

45 “[...] Há o risco de abusos. Não apenas no dizer, mas também no escrever. Vida é experiência de

riscos. Riscos há sempre e em tudo e para tudo. Mas o direito preconiza formas de serem reparados os abusos, por indenização a ser fixada segundo o que se tenha demonstrado como dano. O mais é censura. E censura é forma de “calar a boca”. Pior: calar a Constituição, amordaçar a liberdade, para se viver o faz de conta, deixar-se de ver o que ocorreu. Abusos, repito, podem acontecer e acontecem, mas em relação a qualquer direito. Na espécie vertente, a interpretação dos dispositivos civis, quanto a biografias, que têm função social de relevo para o conhecimento da história e o seu encaminhamento, o que não me parece constitucionalmente admissível é o esquartejamento das liberdades de todos pela censura particular. O querer de um ser humano, importando a sua dignidade, há de ser protegido pelo Direito. Mas o Direito não existe para Robson Crusoé” (Supremo Tribunal Federal. ADI 4815/DF. Ministra Relatora Cármen Lúcia. Data de Julgamento: 10/06/2015. DJe: 01/02/2016)

A essencialidade da liberdade tem sua finalidade no desenvolvimento da personalidade pela livre circulação de ideias. Correlaciona-se, pois, o direito ao esquecimento ao receio de uma possível seleção das informações divulgadas. Pela exposição do pensamento ao longo da história, a função da expressão é relatar a vida pela construção ou desconstrução dos fatos ocorridos. É o que pensa a ministra Cármen Lúcia acerca do direito à liberdade acolhido nos sistemas democráticos:

[…] a multiplicidade dos meios de transmissão da palavra e de qualquer forma de expressão sobre o outro amplia as definições tradicionalmente cogitadas nos ordenamentos jurídicos e impõe novas formas de pensar o direito de expressar o pensamento sem o esvaziamento de outros direitos, como o da intimidade e da privacidade. Em toda a história da humanidade, entretanto, o fio condutor de lutas de direitos fundamentais é exatamente a liberdade de expressão. Quem, por direito, não é senhor do seu dizer não se pode dizer senhor de qualquer direito (ADI 4815/DF, 2015, p. 37).

Para Paulo Gonet Branco (2015), ideias, expressões não verbais (comportamento, música, imagem) e informações são elementos formadores da liberdade de expressão. A personalidade depende diretamente das formas e interpretações realizadas e são essas imprescindíveis para entender o aspecto humano. Para tanto, “[...] o argumento humanista, assim, acentua a liberdade de expressão como

corolário da dignidade humana” (BRANCO, 2015, p. 264).

Essa liberdade, todavia, não pode ser confundida com a manifestação de um discurso de ódio. A exposição de ideias discriminatórias, no caso da defesa do antissemitismo ou de um conteúdo racista, por exemplo, fere e desconsidera o livre existir, ser e pensar de outros grupos sociais e, sendo assim, não é possível, em tais atos, presenciar o objetivo democrático que da liberdade adviria. Há, então, uma prevalência da dignidade da pessoa humana e do princípio da igualdade jurídica (BRANCO, 2015, p. 274).

Por sua vez, a referência à divulgação da informação e ao conteúdo de dados pessoais situa-se na característica da importância histórica ou do interesse público neles presentes. A partir disso, o conceito de esquecimento tem sua aplicação dependente da avaliação e potencial da divulgação de determinado tema (BUCAR, 2013, p. 16). É dessa forma que, com referência à defesa da prevalência da liberdade de expressão em âmbito nacional, defendida por Luis Roberto Barroso (2015), é possível examinar o esquecimento pelo elemento concreto, pois inexistente uma exatidão apta a determinar uma primazia da liberdade de expressão unicamente a partir da justificativa de que o

país fora marcado pela censura durante o período militar. Não se trata, porém, de uma desconsideração do caráter destrutivo desse momento histórico.

Ressalta-se, em verdade, que os fatos de um passado censurado não podem, ainda que por sua gravidade, ressignificar liberdades e sobrepor umas às outras, de forma absoluta, a menos que essa sobreposição se refira aos eventos relevantes à história e ao interesse público. Se a situação contrária fosse, não seria cabível dispor um direito à privacidade prevalecente à liberdade de expressão. O passado não poderia, em si mesmo, ser a justificativa da defesa de uma liberdade, do mesmo modo que se não ocorrida a censura, não seria justificável a relevância superior do direito à privacidade em todos os casos.

Quanto à comunicação, é ela um meio para inclusão e conexão social pelo potencial de socialidade de uma ideia transmitida ser significativo ao ser humano (BRANCO, 2015, p. 264). Não é a liberdade de expressão, portanto, ilimitada. Outros direitos podem ser observados e compatibilizados em meio à especificidade de uma questão quando:

[...] Isso não impede que, no Brasil, sejam editadas leis, com o fito de preservar valores relevantes da juventude, restringindo a liberdade de expressão. Isso porque não são apenas aqueles bens jurídicos mencionados expressamente pelo constituinte (como a vida privada, a intimidade, a honra e a imagem) que operam como limites à liberdade de expressão. Qualquer outro valor abrigado pela Constituição pode entrar em conflito com essa liberdade, reclamando sopesamento, para que, atendendo ao critério da proporcionalidade, descubra-se, em cada grupo de casos, qual princípio deve sobrelevar (BRANCO, 2015, p. 271).

A consideração de que a liberdade de expressão prevalece é adequada, assim, desde que sejam observados os critérios relativos à história e ao interesse público, com o objetivo de não ser a defesa da expressão observada a partir de uma superioridade absoluta erroneamente imposta a todos os casos.

4. A EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA, O ESQUECIMENTO NA SOCIEDADE DA

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