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09) Kritik dosyalar

5.7 ESET SysRescue

Aída Jacob Curi foi mais uma mulher morta violentamente no Brasil.74 Durante tentativa de abuso sexual por dois rapazes, com a ajuda do porteiro do Edifício Rio Nobre, Aída foi agredida e torturada. O crime aconteceu em julho de 1958, no bairro Copacabana, no Rio de Janeiro. Aída foi atirada do topo do prédio, numa tentativa de simulação de suicídio. Os anos 1950 foram marcados pelo conceito de

“juventude transviada” (BAYER, 2015). O superficial e falso conceito de liberdade

juvenil atingiu, no entanto, a fragilidade da vítima e provocou a violência extrema a que fora essa acometida.

As causas que levaram Aída até o local do crime, nesse momento, não são o objeto principal de análise. Importa saber, por ora, que Aída Curi foi a vítima e, sendo assim, seus irmãos pleitearam indenização contra a Globo após a veiculação da

72Superior Tribunal de Justiça. Resp nº 1.334.097-RJ. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. Data do

Julgamento: 28/05/2013. DJe: 10/09/2013.

73 Idem.

74 Disponível em: <http://justificando.com/2015/03/13/na-serie-julgamentos-historicos-aida-curi-o-juri-

simulação do crime no programa “Linha Direta-Justiça”. Novamente, foi o direito ao esquecimento a base de fundamentação do pedido.

Os irmãos de Aída Curi pleitearam pedido de indenização por danos morais contra o mesmo veículo de imprensa referente ao caso Chacina da Candelária. No entanto, a decisão, proferida em Recurso Especial nº 1.335.153 – RJ75, não considerou a existência de dano moral indenizável. Em sentido diverso, a justificativa teve como base o fato de que, devido à sua importância histórica, não seria possível descrever o crime sem que houvesse referência à vítima. Nesse viés, a liberdade de imprensa pareceu superior ao esquecimento:

Em um crime de repercussão nacional, a vítima – por torpeza do destino – frequentemente se torna elemento indissociável do delito, circunstância que, na generalidade das vezes, inviabiliza a narrativa do crime caso se pretenda omitir a figura do ofendido. 5. Com efeito, o direito ao esquecimento que ora se reconhece para todos, ofensor e ofendidos, não alcança o caso dos autos, em que se reviveu, décadas depois do crime, acontecimento que entrou para o domínio público, de modo que se tornaria impraticável a atividade da imprensa para o desiderato de retratar o caso Aida Curi, sem Aida Curi. 76

Segundo os irmãos de Aída, as dores da trágica morte foram revividas. A retratatação do caso em rede nacional provocou o ressurgimento de um contexto factual vivido em 1958, sendo a alegação fundamentada na “[...] ausência de

contemporaneidade da notícia de fatos passados”77. Reviver os fatos que, em outro

momento, foram a motivação para a perda da irmã, foi, para eles, um desrespeito à memória de Aída e de seus familiares. O esquecimento teve sua aplicação defendida também à vítima e ao seu núcleo de proximidade afetiva78. A defesa resume que o

75 EMENTA: RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL-CONSTITUCIONAL. LIBERDADE DE

IMPRENSA VS. DIREITOS DA PERSONALIDADE. LITÍGIO DE SOLUÇÃO TRANSVERSAL. COMPETÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DOCUMENTÁRIO EXIBIDO EM REDE NACIONAL. LINHA DIRETA-JUSTIÇA . HOMICÍDIO DE REPERCUSSÃO NACIONAL OCORRIDO NO ANO DE 1958. CASO "AIDA CURI". VEICULAÇÃO, MEIO SÉCULO DEPOIS DO FATO, DO NOME E IMAGEM DA VÍTIMA. NÃO CONSENTIMENTO DOS FAMILIARES. DIREITO AO ESQUECIMENTO. ACOLHIMENTO. NÃO APLICAÇÃO NO CASO CONCRETO. RECONHECIMENTO DA HISTORICIDADE DO FATO PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. IMPOSSIBILIDADE DE DESVINCULAÇÃO DO NOME DA VÍTIMA. ADEMAIS, INEXISTÊNCIA, NO CASO CONCRETO, DE DANO MORAL INDENIZÁVEL. VIOLAÇÃO AO DIREITO DE IMAGEM. SÚMULA N. 403/STJ. NÃO INCIDÊNCIA. RECURSO ESPECIAL Nº 1.335.153 - RJ (2011/0057428-0). Superior Tribunal de Justiça. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. REsp nº 1.335.153 – RJ. Data de Julgamento: 28/05/2013. DJe: 10/09/2013.

76 Superior Tribunal de Justiça. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. REsp nº 1.335.153 – RJ. Data de

Julgamento: 28/05/2013. DJe: 10/09/2013.

77 Idem.

78“Caso contrário, chegar-se-ia à antipática e desumana solução de reconhecer esse direito ao ofensor

(que está relacionado com sua ressocialização) e retirá-lo dos ofendidos, permitindo que os canais de informação se enriqueçam mediante a indefinida exploração das desgraças privadas pelas quais passaram.

esquecimento não estaria, pois, apenas pautado no sujeito condenado ou acusado no

envolvimento com o crime. A decisão em referência considerou que o período de tempo transcorrido

entre a data do fato e a data da publicação das cenas foi suficientemente extenso para retrair o efeito da dor vivida. O tempo não revelaria o completo desaparecimento do fato doloroso, mas, em si mesmo, seria responsável pelo seu abrandamento:

No caso de familiares de vítimas de crimes passados, que só querem esquecer a dor pela qual passaram em determinado momento da vida, há uma infeliz constatação: na medida em que o tempo passa e vai se adquirindo um “direito ao esquecimento”, na contramão, a dor vai diminuindo, de modo que, relembrar o fato trágico da vida, a depender do tempo transcorrido, embora possa gerar desconforto, não causa o mesmo abalo de antes. 8. A reportagem contra a qual se insurgiram os autores foi ao ar 50 (cinquenta) anos depois da morte de Aida Curi, circunstância da qual se conclui não ter havido abalo moral apto a gerar responsabilidade civil. 79

Dois critérios podem ser observados: a) o critério temporal e b) o critério do sujeito cujo direito ao esquecimento estaria sendo ofendido. O decurso do tempo realmente afetaria e seria a base para esquecer um crime, em outra época, largamente discutido e veiculado? E, por conseguinte, a vítima e seus familiares também teriam sua dignidade ferida pela revisitação de toda a sequência de atos perpetrados?

Pela decisão, entendeu-se que a imagem de Aída, um dos elementos de sua personalidade, não foi utilizada de forma humilhante de forma a ocasionar um impacto emocional aos seus familiares. Não possibilitou, ainda, a centralização do programa sobre a vítima, mas sobre o ato criminoso exposto e, por fim, julgou-se ausente o uso comercial e abusivo da imagem de Aída.80

Embora as decisões do STJ, de 2013, refiram-se tão somente ao meio de comunicação televisivo, é de fundamental importância o estudo mais amplo do esquecimento nos demais espaços de comunicação. Perceber os critérios presentes nos casos julgados se faz essencial para distinção dos casos.

Não obstante isso, assim como o direito ao esquecimento do ofensor – condenado e já penalizado – deve

ser ponderado pela questão da historicidade do fato narrado, assim também o direito dos ofendidos deve observar esse mesmo parâmetro.” Idem.

79Idem.

80 “Na verdade, os próprios recorrentes afirmam que, durante toda a matéria, o caso Aida Curi foi

retratado mediante dramatizações realizadas por atores contratados, tendo havido uma única exposição da imagem real da falecida. Tal circunstância reforça a conclusão de que – diferentemente de uma biografia não autorizada, em que se persegue a vida privada do retratado – o cerne do programa foi mesmo o crime em si, e não a vítima ou sua imagem. No caso, a imagem da vítima não constituiu um chamariz de audiência, mostrando-se improvável que uma única fotografia ocasionaria um decréscimo ou acréscimo na receptividade da reconstituição pelo público expectador” Idem.

O esquecimento do passado judicial traz sujeitos diferentes dos relativos ao esquecimento de dados pessoais, visto que esses não necessariamente estão relacionados à ocorrência de crimes. Pelas situações expostas, é possível perceber a amplitude e a complexidade do esquecer, assim como diversos os significados pessoais sobre a vida.

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