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Em julho de 1993, no Rio de Janeiro, jovens moradores de rua foram assassinados nas proximidades da Igreja da Candelária. Um provável acerto de contas levou à acusação de policiais militares envolvidos no homicídio. Um dos acusados, o serralheiro Jurandir Gomes da França, foi posteriormente absolvido. O caso, anos
depois, foi retratado no programa “Linha Direta-Justiça” da empresa Globo
Comunicação e Participações S/A, com a utização do nome e imagem do serralheiro. Ele, um homem comum, foi novamente exposto quando da reconfiguração do crime. Já inserido em sua comunidade, a relembrança dos fatos que o envolveram, certamente, ocasionaram o retorno ao passado.
A fatídica Chacina da Candelária foi relembrada em seus pormenores e a pessoa, em outro momento acusada, teve relembrado o suposto envolvimento no crime e a exposição de seu nome e imagem. Uma vez não mais em evidência o caso, finalizado o trâmite da acusação, a sociedade é levada a rever o rosto de alguém que não mais deseja reviver uma depreciação da sua reputação. O serralheiro, então, pleiteou em face da Rede Globo a condenação por danos morais, tendo em vista a veiculação
televisiva e a vinculação dos elementos de sua personalidade, sendo o direito ao esquecimento o principal fundamento.
No Recurso Especial nº 1.334.09768, proferido em 2013, pelo relator
Ministro Luis Felipe Salomão, o veículo de imprensa foi condenado, então, ao pagamento de indenização por danos morais. Um dos critérios utilizados na decisão foi a passagem temporal e seu efeito para justificar o caráter ilícito do episódio veiculado. A questão não tratou se os aspectos levados ao público foram ou não reais, se demonstraram ou não a realidade. A ofensa à pessoa, então, não advém da verdade ou da mentira exposta. Ainda que a retratação seja respaldada pela real ocorrência, é o ressurgimento da acusação via comunicação de massa o aspecto irreversivelmente rediscutido dentro da própria comunidade em que a pessoa estava inserida.
A decisão observou os valores envolvidos no conflito entre os direitos fundamentais envolvidos: a liberdade da imprensa e o direito da personalidade. Nesse sentido, a dignidade humana foi retratada:
[...] há, de regra, uma inclinação ou predileção constitucional para soluções protetivas da pessoa humana, embora o melhor equacionamento deva sempre observar as particularidades do caso concreto. Essa constatação se mostra consentânea com o fato de que, a despeito de a informação livre de censura ter sido inserida no seleto grupo dos direitos fundamentais (art. 5º, inciso IX), a Constituição Federal mostrou sua vocação antropocêntrica no momento em que gravou, já na porta de entrada (art. 1º, inciso III), a dignidade da pessoa humana como - mais que um direito - um fundamento da República, uma lente pela qual devem ser interpretados os demais direitos posteriormente reconhecidos. 69
É possível, por conseguinte, justificar o esquecimento pela visão comparativa do Direito frente à estabilização do passado. O cumprimento efetivo da
68EMENTA: RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL-CONSTITUCIONAL. LIBERDADE DE
IMPRENSA VS. DIREITOS DA PERSONALIDADE. LITÍGIO DE SOLUÇÃO TRANSVERSAL. COMPETÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DOCUMENTÁRIO EXIBIDO EM REDE NACIONAL. LINHA DIRETA-JUSTIÇA . SEQUÊNCIA DE HOMICÍDIOS CONHECIDA COMO CHACINA DA CANDELÁRIA. REPORTAGEM QUE REACENDE O TEMA TREZE ANOS DEPOIS DO FATO. VEICULAÇÃO INCONSENTIDA DE NOME E IMAGEM DE INDICIADO NOS CRIMES. ABSOLVIÇÃO POSTERIOR POR NEGATIVA DE AUTORIA. DIREITO AO ESQUECIMENTO DOS CONDENADOS QUE CUMPRIRAM PENA E DOS ABSOLVIDOS. ACOLHIMENTO. DECORRÊNCIA DA PROTEÇÃO LEGAL E CONSTITUCIONAL DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E DAS LIMITAÇÕES POSITIVADAS À ATIVIDADE INFORMATIVA. PRESUNÇÃO LEGAL E CONSTITUCIONAL DE RESSOCIALIZAÇÃO DA PESSOA. PONDERAÇÃO DE VALORES. PRECEDENTES DE DIREITO COMPARADO. RECURSO ESPECIAL Nº 1.334.097 - RJ (2012/0144910-7) Superior Tribunal de Justiça. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. Data do Julgamento: 28/05/2013. DJe: 10/09/2013.
69 Superior Tribunal de Justiça. Resp nº 1.334.097-RJ. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. Data do
pena e a absolvição tem, ademais, o aspecto da exclusão registral, de modo que as pessoas outrora envolvidas não sejam eternamente marcadas pelo fato. São exemplos:
[...] prescrição, decadência, perdão, anistia, irretroatividade da lei, respeito ao direito adquirido, ato jurídico perfeito, coisa julgada, prazo máximo para que o nome de inadimplentes figure em cadastros restritivos de crédito, reabilitação penal e o direito ao sigilo quanto à folha de antecedentes daqueles que já cumpriram pena (art. 93 do Código Penal, art. 748 do Código de Processo Penal e art. 202 da Lei de Execuções Penais)70
A defesa de um direito ao esquecimento poderia considerar ilícita a veiculação de fatos passados considerados desagradáveis, a princípio, vistos exteriormente. Porém, quanto à pessoa retratada, em seu íntimo e em sua vida privada, aspectos tratados em relação aos direitos da personalidade, a ideia é de relembrança dolorosa, visto que incidente na dignidade individual.
Embora a Globo tenha defendido71 que a simulação de crimes é
historicamente importante à sociedade e é bem recebida pelo público tanto nacionalmente quanto internacionalmente, sendo a publicação televisiva de crimes um costume da imprensa jornalística, o respeito à história e ao interesse público no caso Chacina da Candelária independeria da visualização do nome e da imagem de um ex- acusado, pessoa não notória.
A exposição do crime em programa jornalístico não teria, em nenhum momento, sua finalidade social excluída, já que não importaria à coletividade retomar as características pessoais do acusado, à época intensamente observado pela opinião pública. Quanto à ideia de utilidade da informação à sociedade, entende-se que o uso do fato informativo justificado como interesse histórico representaria a manutenção das fraquezas humanas. A passagem do tempo e a possibilidade de mudança pessoal é entendida:
70Idem.
71“Sustenta a recorrente, Globo Comunicações e Participações S.A., inexistir dever de indenizar por
ausência de ilicitude, uma vez que a ideia do programa Linha Direta Justiça é absolutamente comum no Brasil e no exterior e que incontáveis vezes veículos de comunicação divulgaram programas jornalísticos sobre casos criminais célebres (livros, jornais, revistas, rádio, cinema e televisão se dedicam rotineiramente a publicar matérias sobre crimes de grande repercussão no passado). Aduz, por outro lado, não ter havido nenhuma invasão à privacidade/intimidade do autor, porque os fatos noticiados já eram públicos e fartamente discutidos na sociedade, fazendo parte do acervo histórico do povo. Argumenta que se tratou de programa jornalístico, sob forma de documentário, acerca de acontecimento de relevante interesse público, tendo a emissora se limitado a narrar os fatos tais como ocorridos, sem dirigir nenhuma ofensa à pessoa do autor, ao contrário, deixando claro que teria sido inocentado” Superior Tribunal de Justiça. Resp nº 1.334.097-RJ. Relator Ministro Luis Felipe Salomão. Data do Julgamento: 28/05/2013. DJe: 10/09/2013.
[...] esse interesse público, que é, em alguma medida, satisfeito pela publicidade do processo penal, finca raízes essencialmente na fiscalização social da resposta estatal que será dada ao fato. Se é assim, o interesse público que orbita o fenômeno criminal tende a desaparecer na medida em que também se esgota a resposta penal conferida ao fato criminoso, a qual, certamente, encontra seu último suspiro, com a extinção da pena ou com a absolvição, ambas consumadas irreversivelmente. E é nesse interregno temporal que se perfaz também a vida útil da informação criminal, ou seja, enquanto durar a causa que a legitimava.72
Assim, é o esquecimento “[...] na verdade, como um direito à esperança, em absoluta sintonia com a presunção legal e constitucional de regenerabilidade da pessoa humana”73. Nessa percepção, a ponderação dos valores relativos à liberdade do veículo de comunicação em expor a informação deve coexistir com interesse público de ser informado e, ao mesmo tempo, conservar a intimidade da pessoa retratada.
A proteção da personalidade individual, nesse caso, não afetaria a liberdade de imprensa, tendo em vista seu irrisório potencial de alterar a exposição do crime ou de prejudicar o entendimento dos fins informativos almejados pelo programa televisivo.