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Tehdidin Etkisi (Elverişliliği)

KORUNAN HUKUKİ DEĞER, SUÇUN UNSURLAR

II- SUÇUN MADDİ UNSURLARI A Suçun Konusu

2- Tehdidin Etkisi (Elverişliliği)

Neste subitem, discutiremos com mais detalhes a parte da obra Exposição da

pronúncia normal portuguesa... (1892) que trata da obra Os Lusíadas, ilustrando a pronúncia dos dois períodos investigados e comparados pelo autor: o tempo de Camões e no século XIX.

Ele utiliza trechos da obra Os Lusíadas para justificar a necessidade dessa comparação, que considera ser fundamental aos estudos filológicos, e, ainda, legitima o estudo do dialeto de prestígio que ele estuda (e que está associado à Literatura e à leitura primorosa da obra de Camões). Viana (1892, p.90) diz:

Comquanto seja pouco provável que em Portugal se adopte uma leitura rigorosa dos Lusíadas, que represente aproximadamente aquella que o próprio poeta lhes daría, não é ocioso, todavía, dar aqui algumas indicações das differenças entre essa pronúncia de há três séculos e a actual, as quaes serão sem reluctancia aproveitadas por estrangeiros, a quem hábito adquirido não dá o preconceito de que só a sua pronunciação é legítima, como acontece aos portugueses com respeito ás suas, individuais ou dialectais. Serão esses preceitos suggeridos dogmáticamente, porque a demonstração e justificação delles tomaría espaço descabido nesta publicação. Sabem os estudiosos estrangeiros que essa leitura rigorosa é hoje considerada uma necessidade absoluta em philología, e cremos que lhes serão gratas as considerações que vamos apresentar, porque lhes pouparão trabalho ímprobo e talvez sem fructo.

As investigações da fala portuguesa nas obras de Gonçalves Viana apresentam informações sociolinguísticas e históricas. Trata-se de levantamento de dados para mostrar fatos linguísticos. Por isso, a proposta da leitura original da obra Os Lusíadas,

145 no tempo de Camões, realizada por Gonçalves Viana, é interessante aos estudos Linguísticos.

No excerto acima, o foneticista mostra que em seu tempo os portugueses eram mais conservadores quanto à sua pronúncia, chegando a ser preconceituosos, segundo a avaliação do filólogo. Os estrangeiros, no entanto, não agiam desse modo, conforme Gonçalves Viana comenta. Ele considera, ainda, ser grave que não haja em Portugal uma leitura rigorosa de Os Lusíadas (nos moldes filológicos) que busque recuperar a pronúncia do século XVI e decide realizar esse trabalho filológico e comparativo, revelando as seguintes mudanças linguísticas ocorridas nesses três séculos:

1. A elisão da vogal átona e em casos como mares e perigos, ilustrada no seguinte verso:

Por mares nunca de antes navegados E em perigos e guerras esforçados,

Segundo o foneticista, essa elisão ocorre na pronúncia do século XIX (“mars” e “prigos”), mas não ocorria no tempo de Camões (“mares” e “perigos”). Ele exemplifica este e pela oposição: “terás” e “trás”, na qual o fonema [ ] pode ser identificado.

Gonçalves Viana defende a ideia de que os fonemas que formam sílabas poéticas (destacados nos versos) devem ser pronunciados na leitura do poema. Ele diz:

Em um soneto de Camões, o mais afamado de todos, é usual errar-se o 1º verso do 1º terceto, pela elisão, feita duas vezes, do e surdo, tirando-lhe duas sýllabas!

E se vires que pode merecer-te

que lêem:

E se vir’s que pode mer’cer-te

Em vez da leitura correcta:

E se vires que pode merecer-te144

A leitura inadequada dos versos, apontada por Gonçalves Viana, se reflete na percepção métrica da poesia devido à supressão das sílabas indicadas.

146 Essa preocupação de Gonçalves Viana sinaliza uma postura cuidadosa do pesquisador, que não quer perder uma informação filológica ou deixar que ela seja banalizada.

Mesmo sendo um dado muito pontual, é importante ao se somar com outras informações históricas a respeito da Língua Portuguesa e que fazem toda a diferença quando se quer preservar um patrimônio Literário, um dado cultural ou dados de natureza linguística.

2. No tempo de Camões, em Lisboa, havia o som [ ], representado na escrita por –s, – ss- (saber, passo), em oposição a [s] ou [ ], representado por ç ou c antes e, i. Essa oposição era realizada também em regiões localizadas no Norte de Portugal (Trás-os- Montes, Minho, Beiras) no período camoniano e no século XIX.

Trata-se de uma realização fonológica persistente no tempo e no espaço, que deixou de ter prestígio social após o período camoniano e que, atualmente, só se realiza na região Norte de Portugal, conforme verificado em nossa dissertação (RIBEIRO, 2011).

Gonçalves Viana (1892, p.92) descreve o som [ ] da seguinte maneira:

Eram proferidos com a superfície anterior do ápice da língua, aproximando esse ápice, assim côncavo, das gengivas dos incisivos superiores, posição que denominámos reversa [...] Êste valor de s mantinha-se-lhe depois de consoante, quando final na pausa, e antes das consoantes surdas p, t, c, qu, ç, f, x. Portanto o vocábulo passo era diferente de paço [...].

Outro som característico da pronúncia de Lisboa no século XVI, mas que deixou de sê-lo no século XIX, é o som [ ] representado na escrita por z inicial ou medial. Ele fazia a distinção de pronúncia com [ ] entre as palavras coser e cozer, respectivamente [ ] [ ]. Essa distinção também permaneceu até a nossa atualidade no Norte de Portugal (RIBEIRO, 2011).

3. Havia a pronúncia [t ], representada na escrita por ch, no período camoniano, mas não no século XIX. Sobre a pronúncia de [d ], Gonçalves Viana diz que a sua existência em Lisboa no século XVI parece ser duvidosa: “É, porém, duvidoso se ge, gi

147 e o j valíam também por dj, ou se tinham o seu valor actual.” (VIANA, 1892, p.92). A pronúncia de [t ], na escrita ch, existe, hoje, no Norte de Portugal (RIBEIRO, 2011).

4. Situação parecida com a anterior acontecia com relação à nasalidade em vogais de final de sílaba antes de som nasal, conforme Gonçalves Viana (1892, p.92) diz:

É muito de presumir que as vogaes finaes de sýllaba tónica antes da consoante inicial nasal da sýllaba seguinte fossem nasaes, como o são na Beira Alta e Algarve; assim, cama, pena, sanha, lenho, cimo, dono,

fumo devíam proferir-se cãma, pena, sãnha, lenho, cimo, dõno, fumo. 5. Havia diferença na pronúncia de em (bem) e ãe (mãe) no século XVI e no início do século XIX em Lisboa. Mas, em nossa atualidade, essa distinção não existe. Como resultado disto, pronuncia-se mãe (mãe) e bãe (bem). Essa neutralização ocorre devido ao ë teoricamente fechado antes de consoante palatal (ch, x, j, lh, nh) e no ditongo ei.

6. Para Gonçalves Viana, parece ter havido os ditongos ii, uu, oo (õu), os quais: “precederam as nasaes finaes de vocábulo, taes como um, fim, dom, do que dá testemunho Duarte Nunes de Leão.” (VIANA, 1892, p.92).

7. O foneticista diz, ainda, que a pronúncia de ou (couro) distinguia-se de o no século XVI, mas que deixou de ser diferençado no século XIX, em Lisboa, mas não no sul (do Mondego para baixo).

8. Não ocorria fechamento de e em i na sílaba átona inicial em, en. O foneticista supõe que a pronúncia devia ser e(m), e(n) e não i, im ou in, como era em sua época (exceto no Alentejo e no Algarve) e acrescenta: “a primeira sýllaba do vocábulo entender, por exemplo, pronunciava-se en e não in, entendêr, não intender (VIANA,1892, p.92)”.

9. Segundo Gonçalves Viana o segmento ui de muito não era um ditongo nasal e sua pronúncia era múi(to) e não mui(to).

10. No século XIX, a pronúncia dos seguintes vocábulos femininos esta, essa, aquela e

148 Montes e em outros locais. Gonçalves Viana acredita que essa mesma pronúncia podia ser ouvida em Lisboa, na época de Camões.

11. Segundo Gonçalves Viana, o i átono se confundia com o e realizado antes de palatal e que o valor de i era comum aos dois. Essa realização ocorria no século XIX em muitas regiões (quase todas). Mas no século XVI, em Lisboa, essa troca não acontecia no caso de s seguido de consoante ou s final porque a pronúncia de s era retroflexa (ou ápico- alveolar).

Gonçalves Viana acrescenta, ainda, algumas considerações sobre a pronúncia portuguesa no tempo de Camões mencionando curiosidades sobre o Brasil:

Os dialectos do Brasil, pouco estudados, scientíficamente ou em qualquer modo, por escrito, são familiares, comquanto indiscriminadamente, aos ouvidos portugueses, sobretudo em Lisbôa. Revelam, de certo, muitos factos de interesse a respeito do léxico archaico, pouquíssimos que elucidem a phonología ou a sintaxe dos tempos do descobrimento e escassa colonização europeia das Terras de Santa Cruz. Portanto esses fenómenos especiaes interessam á phonología geral e a psichología da linguagem em absoluto; pouco, muito pouco, ao estudo grammatical do português da idade aurea da nossa literatura145.

Portanto, no século XIX, a fala brasileira parecia-lhes indicar preciosidades do léxico146 arcaico que foram mantidas nas Terras de Santa Cruz.

Viana finaliza a sua reflexão com algumas recomendações sobre a ortografia utilizada e a transcrição fonética das três primeiras estâncias da obra de Camões, Os

Lusíadas. O foneticista faz uma transcrição fonética de sua fala, lendo essas instâncias camonianas e, ao lado delas, expõe a pronúncia dos mesmos versos que ele reconstruiu, supondo como seria a fala do tempo de Camões. Para exemplificarmos, colocamos esse material no final desta subseção.

Quanto à ortografia, nota-se que ele trouxe essa questão à Exposição da

pronúncia normal portuguesa... (1892), possivelmente devido à instabilidade de usos da ortografia do século XIX, e Viana (1892, p.96) orienta o leitor dizendo:

145

(VIANA, 1892, p. 95).

146 Diferente da fonologia ou da sintaxe, que não serviriam para ilustrar bem os fatos

149 Diremos aínda algumas palavras sôbre a orthographía que aqui adoptámos. § Como o leitor terá visto, pertence ella ás que se denominam etymológicas; com a differença, porém, de outras muitas assim chamadas, pretende sê-lo rigorosamente. Adoptámo-la, para não trazermos mais uma novidade em opposição ás usanças patrias, quando já no systema de transcrição havia tantas, e de modo nenhum porque respeitemos as etymologías, fora do português, como norma de escrita portuguesa. § Para nós a melhor orthographía será aquella que, attendendo á evolução do nosso idioma, mais conforme estiver com o padrão médio da pronúncia, como o estão a italiana e a hispanhola. § Para êste effeito, entendemos a necessidade de fazerem-se quanto antes as seguintes simplificações, que enumeraremos pela ordem da sua urgência:

I. Proscrição absoluta e incondicional de todos os sýmbolos de etymología grega, th, ph, ch (= k), y.

II. Redução das consoantes dobradas a singellas, com excepção de rr, ss, mediaes, que teem valores peculiares.

III. Eliminação de consoantes nullas, quando não inflúam na pronúncia da vogal que as preceda.

IV. Regularização da accentuação gráphica. Esta última deixamo-la exemplificada em todo êste escrito.

Se o leitor quiser sôbre êsse objecto mais ampla informação, pode consultar as Bases da Ortografia Portuguesa, [...].

Com esta discussão, o filólogo faz conhecer suas ideias ortográficas fundamentais, publicando-as na parte final de sua obra de fonética (e de fonologia) e motivando o debate dos problemas ortográficos de sua época. Parece-nos uma antecipação da sua proposta de reforma ortográfica que atingirá o seu auge na

Ortografia Nacional (1904).