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TARTIŞMA VE SONUÇ:
Primeiramente, saliente-se que houve uma lógica megárica independente da lógica estoica. Por sinal, aquela é anterior a esta. Ocorre que os estoicos foram muito bem sucedidos na divulgação de sua lógica em numerosos e excelentes manuais, motivo pelo qual comumente se fala apenas da lógica estoica355. Segundo Bochenski, foi preciso recorrer a Diógenes Laercio para desfazer esse erro amplamente difundido, de que teria existido uma lógica estoica, mas não uma megárica. De acordo com o historiador da lógica, depreende- se que a escola megárica é mais antiga que a estoica e que os fundadores do estoicismo (Zenão e Crísipo), na realidade, aprenderam lógica com o megáricos (Diodoro, Stilpo e Fílon)356.
353 "La primera impresión que se recibe a la lectura de los fragmentos megárico-estoicos es la de que se trata
de algo distinto de la Lógica aristotélica: no sólo la terminología y la tesis, sino hasta la problemática misma son completamente diferentes. [...] A pesar de todo, no es posible decir que su pensamiento lógico haya podido surgir sin influjo del viejo maestro." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 119.
354 KNEALE, William Calvert; KNEALE, Martha. O desenvolvimento da lógica. Tradução de Manuel
Lourenço. 2ª ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1980, p. 115. Ainda sobre Euclides: "Euclides, o fundador da escola de Mégara, era um discípulo de Sócrates, mas tinha sofrido com igual intensidade a influência dos eleatas. Ele pensava mesmo poder harmonizar os dois ensinamentos, e tentava assimilar o Bem de Sócrates ao Uno de Parmênides. A bem dizer, da herança dos eleatas, os megáricos parecem ter retido mais a dialéctica de Zenão do que a ontologia de Parmênides." BLANCHÉ, Robert; DUBUCS, Jacques. História da lógica. Tradução de António Pinto Ribeiro e Pedro Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 99.
355 "Sus miembros supieron además, propagar la Lógica en numerosos y excelentes manuales, razón por la
que posteriormente – hacia la época de Galeno – se habla sólo de la Lógica estoica." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 117.
356 "Ha sido preciso citar estos extractos de las Vidas y opiniones de Filósofos famosos de Diógenes Laercio
para desterrar un error ampliamente difundido, a saber, que ha habido una Lógica estoica, pero no megárica. De los pasajes reproducidos se desprende inequívocamente que (a) la escuela megárica es más antigua que la estoica, (b) que los fundadores de la Estoa – Zenón y Crisipo – aprendieron la Lógica con los Megáricos, con Diodoro, Stilpón y Filón." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 117.
Dito isso, anote-se que uma primeira contribuição dos megáricos foi a criação de uma série de paradoxos que desafiaram os lógicos por muitos séculos, o que leva a crer que eles se dedicavam, inicialmente, a disputas dialéticas357. Como anotado, Eubulides foi discípulo de Euclides e contemporâneo de Aristóteles, sendo conhecido pela invenção de vários paradoxos358, dentre eles o do mentiroso e o do calvo.
O paradoxo do mentiroso é, sem dúvida, o mais famoso359 e questiona o seguinte: uma pessoa diz que está a mentir, aquilo que ela diz é verdadeiro ou falso? O referido problema mostra a inviabilidade de que uma declaração afirme qualquer coisa sobre sua própria verdade ou falsidade e a necessidade de distinção entre níveis de linguagem.
O paradoxo do calvo é ainda mais interessante: diz-se que um homem era calvo se só tivesse um cabelo? Sim. Diz-se que um homem era calvo se só tivesse dois cabelos? Sim. Diz-se... etc. Então, quando é que se para? Desde os megáricos, esse problema apresenta uma preocupação com a ambiguidade e a falta de precisão de expressões comuns da linguagem natural e suas consequências para a verdade ou falsidade das proposições. Conforme se afirmou antes, os paradoxos apresentados pela escola megárica não são posteriores, mas contemporâneos, a Aristóteles. Ainda assim, pelas razões já expostas acerca da inauguração da ciência da lógica, esses paradoxos são analisados depois da lógica aristotélica.
Ademais, apesar de não ter sido a única, nem a contribuição mais relevante dos megáricos, para o presente trabalho, tais paradoxos servem para mostrar que os pensadores da referida escola também se dedicavam aos problemas e aos desafios da certeza e da verdade do raciocínio.
357 "Enquanto a teoria lógica de Aristóteles parece ter sido estimulada sobretudo por reflexão acerca da
demonstração, tal como ocorre, por exemplo, em geometria, os Megáricos parecem ter concentrado a sua atenção na dialéctica de Zenão e nas disputas dialécticas quotidianas que deram origem àquilo que Platão e Aristóteles chamaram erística." KNEALE, William Calvert; KNEALE, Martha. O desenvolvimento da lógica. Tradução de Manuel Lourenço. 2ª ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1980, p. 115.
358 "Entre seus discípulos [de Euclides] encontra-se Eubulides, inventor de muitos paradoxos..." KNEALE,
William Calvert; KNEALE, Martha. O desenvolvimento da lógica. Tradução de Manuel Lourenço. 2ª ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1980, p. 115.
359 "Mas uno de ellos, 'el mentiroso', tiene lógicamente un interés realmente grande y fue objeto durante
siglos de detenidos estudios por parte de los Lógicos, tanto en la Antigüedad como en la Edad Media y en el s. XX." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 141.
Kneale e Kneale relatam, ainda, que, além dos paradoxos, Eubulides também merece destaque por seu ataque a Aristóteles:
Parece provável, contudo, que a obra de Eubúlides tivesse um outro efeito, e este mais desastroso, na história da lógica. Diógenes Laércio diz que ele se opunha fortemente a Aristóteles e que o atacou consideravelmente. Não sabemos se isso foi o começo da hostilidade entre os Peripatéticos e os Megáricos; mas é certo que a disputa, herdada pelos Estóicos dos Megáricos, continuou por muitos séculos e que teve um efeito prejudicial no desenvolvimento da lógica. E isto porque, embora as teorias aristotélica e megárica fossem na verdade complementares, foram tratadas como alternativas. Na altura em que se tornou óbvio que deviam ser fundidas, o ímpeto intelectual do mundo antigo estava gasto e não havia ninguém com a necessária estrutura para tal empreendimento360.
Essa passagem de Kneale e Kneale mostra que a lógica megárica não se contrapunha à aristotélica. Na verdade, ela a complementava. A lógica megárica rendeu contribuições principalmente para o reexame dos conceitos modais e o início de um debate importante sobre a natureza das frases declarativas condicionais361.
Por fim, vale ressaltar que os megáricos tentaram estabelecer teses de lógica, e não metafísicas. Seus esforços visaram fixar teses "destinadas a integrar-se numa lógica bivalente do verdadeiro e do falso – e não teses ontológicas, incidindo sobre a natureza das coisas"362.