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TARTIŞMA VE SONUÇ

A lógica medieval é o nome comumente dado à lógica produzida entre Boécio e o século XV392.

Especificamente quanto a Boécio, já foi salientado que ele foi um autor de transição relevante, em razão de seu papel na perpetuação da lógica antiga e "porque ele escreveu no fim da Antiguidade Clássica, antes do saber polido ter sido esmagado pelo vigor bárbaro"393. Sobre essa função de intermediação de Boécio, Kneale e Kneale anotam que

Boécio é o último filósofo da antiguidade latina a ser mencionado aqui, mas é o mais importante pela sua influência na Idade Média. Era cristão, viveu de 470 a 524 e escreveu abundantemente não só sobre lógica mas também sobre aritmética, música e teologia. Em geral limitou-se a compilar material proveniente de manuais e comentários gregos, mas era pelo menos um estudioso paciente e as suas obras tornaram-se, portanto, uma fonte de saber para aqueles que tentaram reconstruir a civilização no Ocidente depois do século X394.

Ocorre que o tratamento a ser dado à lógica medieval neste trabalho, na realidade, concentra-se na baixa Idade Média. Essa atenção especial se justifica porque na alta Idade Média395 a produção intelectual na Europa restou severamente prejudicada em razão das invasões sofridas em seu território.

392 FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. T. III. Tradução de Maria Estela Gonçalves, Adail U.

Sobral, Marcos Bagno e Nicolás Nyimi Campanário. São Paulo: Loyola, 2004, p. 1.773.

393 KNEALE, William Calvert; KNEALE, Martha. O desenvolvimento da lógica. Tradução de Manuel

Lourenço. 2ª ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1980, p. 202.

394 KNEALE, William Calvert; KNEALE, Martha. O desenvolvimento da lógica. Tradução de Manuel

Lourenço. 2ª ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1980, p. 193.

395 "Durante a alta Idade Média em que, por intermédio do próprio Porfírio, de Agostinho e de Dionísio o

Ferrater Mora destaca que, de Boécio até o século XIII, a atividade na lógica não foi muito importante. Em compensação, do século XIII até o XIV, houve um novo florescimento da lógica396. Nesse sentido, Blanché aponta que

[...] A lógica medieval praticamente só está activa num período de cerca de quatro séculos, que vai de Abelardo a Paulo de Veneza, isto é, do século XII ao século XV, situando-se o momento mais florescente na charneira dos séculos XIII e XIV. Os séculos que antecedem representam uma espécie de interregno, tanto para a cultura em geral, como mais especialmente para a lógica. Durante este longo intervalo, o trabalho, modesto mas indispensável para preparar uma retomada, consistiu em preservar e em transmitir o legado cultural da Antiguidade, gravemente atingido pelas invasões bárbaras397.

Ainda, é importante destacar que a lógica medieval é pouco conhecida398. Primeiramente, "por uma razão totalmente exterior e de algum modo material: a dificuldade de ter acesso ao conhecimento dos textos. Anteriores à imprensa, os tratados medievais só existiam sob a forma de manuscritos"399. Além disso, por muitos séculos, o estudo da lógica medieval não despertou grande interesse, ao contrário da sua metafísica e teologia. Para Blanché essa indiferença tem razões estranhas ao medievo:

Esta falta de interesse, nos modernos, pela lógica medieval, explica-se aliás muito bem, se se recordar a ideia que correntemente se fazia da lógica: esta era considerada como tendo sido criada, uma vez por todas, pelo gênio de Aristóteles, e só ter conhecido seguidamente alguns aperfeiçoamentos de pormenor, para não falar de muitas excrescências inúteis que se lhes devem retirar400.

Ainda no que concerne às fases do medievo, Bochenski sugere uma divisão da lógica da Idade Média em três períodos401. O primeiro deles é o período de transição, que vai do

essências." BLANCHÉ, Robert; DUBUCS, Jacques. História da lógica. Tradução de António Pinto Ribeiro e Pedro Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 138.

396 FERRATER MORA, José. Dicionário de Filosofia. T. III. Tradução de Maria Estela Gonçalves, Adail U.

Sobral, Marcos Bagno e Nicolás Nyimi Campanário. São Paulo: Loyola, 2004, p. 1.775.

397 BLANCHÉ, Robert; DUBUCS, Jacques. História da lógica. Tradução de António Pinto Ribeiro e Pedro

Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 142.

398 "La Historia de la Lógica escolástica es, todavia hoy, mucho menos conocida que la de la Lógica antigua."

BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 159.

399 BLANCHÉ, Robert; DUBUCS, Jacques. História da lógica. Tradução de António Pinto Ribeiro e Pedro

Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 133.

400 BLANCHÉ, Robert; DUBUCS, Jacques. História da lógica. Tradução de António Pinto Ribeiro e Pedro

Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 134.

401 "Con todo, apoyándonos en los trabajos de Ph. Boehner, E. Moody, L. Minio-Paulello y los estudiosos (en

início do período medieval até Abelardo. Nele, não há problemática lógica nova e mesmo o legado da Antiguidade é conhecido de maneira imperfeita402. O segundo período é o criador, que se inicia por volta de 1150 e dura até o fim do século XIII. Nele, a lógica medieval parece já estar elaborada e começa a ser divulgada em manuais, como o de Pedro Hispano403. Por fim, houve o período de elaboração, que começa com Guilherme de Ockham e dura até o fim da Idade Média. Nesse interregno, não se criam problemas lógicos novos, mas se discutem com profundidade os existentes404.

Por sua vez, os próprios medievais identificaram três etapas em sua lógica, cuja divisão apresenta certo paralelismo com a apresentada acima: "à medida que esse desenvolvimento se ia processando, estabeleceram uma tal periodização. Ars vetus, ars nova, logica modernorum, tais são as etiquetas que eles aplicaram a esses três períodos"405. No caso, o divisor de águas entre as duas primeiras fases é o acesso, na língua latina, da íntegra do Organon. A terceira fase acontece a partir do século XIII, que se ocupa da análise semântica da lógica de Aristóteles, da definição do objeto da lógica e da relação entre a lógica e a ontologia. Esta será a época das Summulae Logicalesde Pedro Hispano406. Conforme já anunciado, o primeiro período, correspondente à alta Idade Média, não será objeto de análise aqui. Far-se-á, contudo, uma apreciação sobre como se traduziu, no momento seguinte, o fascínio pela verdade e pela certeza.

división provisional en períodos de la Historia de la Lógica en la Edad Media." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 160.

402 "Período de transición: hasta Abelardo. Durante él no hay, en lo que conocemos, problemática lógica

nueva, e incluso el legado antiguo es sólo conocido muy imperfectamente." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 160.

403 "Período creador: comienza, a lo que parece, inmediatamente después de Abelardo, alrededor de 1150, y

dura, aproximadamente, hasta fines del s. XIII. [...] Alrededor de 1260 parece estar elaborada ya la Lógica escolástica en lo esencial y hallarse universalmente difundida en los manuales. El libro más conocido y que ha dado la pauta en toda la Escolástica a los de esta clase – de ningún modo, sin embargo, el primero ni el único – son las Summulae Logicales, de Pedro Hispano." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 160.

404 "Período de elaboración: comienza, aproximadamente, com Guillermo de Ockham (1349/50) y dura hasta

el fin de la Edad Media. Durante este período parece que no se plantean problemas essencialmente nuevos, sino que se discuten con profundidad y agudeza los antiguos, dando lugar a una Lógica formal y una Semiótica de gran riqueza." BOCHENSKI, Innocentius M. Historia de la lógica formal. Tradução de Millán Bravo Lozano. Madrid: Editorial Gredos, 1966, p. 160.

405 BLANCHÉ, Robert; DUBUCS, Jacques. História da lógica. Tradução de António Pinto Ribeiro e Pedro

Elói Duarte. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 143.

406 MORUJÃO, Carlos. A logica modernorum: lógica e filosofia da linguagem na escolástica dos séculos