Atualmente, apesar de uma difusão mais rápida e mais extensa do que nas épocas precedentes, as novas variáveis não se distribuem de maneira uniforme na escala do planeta. A Geografia assim recriada é, ainda, desigualitária. São desigualdades de um tipo novo, já por constituição, já por seus efeitos sobre os processos produtivos e sociais. Milton Santos
A estruturação dos eixos de desenvolvimento econômico no Estado de São Paulo, se por um lado, apresenta condições favoráveis à instalação de unidades industriais e de outros setores empresariais, por outro lado, ao adensar essas atividades contribui para que outros espaços permaneçam deficientes do ponto de vista de atividades empresariais geradoras de “efeitos externos”. Cada nova melhoria implantada nas áreas onde já há concentrações de infra-estruturas significa desequilibrar as condições espaciais e regionais do estado, uma vez que muitas áreas continuam sem receber investimentos. A conseqüência imediata é o aumento dos desequilíbrios espaciais, e o que é pior, fomentado pelo Estado e municípios.
Há diversos meios de se comprovar as diferenças espaciais no Estado de São Paulo. Se se analisar os mapas de rodovias observando as que possuem pista dupla, as localizações de fibra ótica, as Estações Aduaneiras do Interior (EADIs), banda larga em instituições de pesquisa, os fluxos de mercadorias, pessoas e de informações etc., logo se perceberá que as áreas que possuem esses atributos são coincidentes. Isto revela que, enquanto certas porções do espaço são densamente ocupadas por diversos tipos de objetos técnicos e atividades humanas, movimentações das mais diversas naturezas, outras áreas do espaço permanecem praticamente estagnadas, ou pouco modifica suas realidades se comparadas com as áreas
dinâmicas. Deve-se, também, levar em conta que as áreas onde existem maiores concentrações de infra-estruturas são as mais populosas do estado, mas não explicam quem são os beneficiados de modo direto por existir tal concentração.
As intencionalidades que promovem a instalação de objetos técnicos e normativos relativos à melhoria dos sistemas de circulação nos territórios são diversas e refletem quais interesses são prioritários. O principal interesse atendido que aparece ao se investigar a organização do território e a localização dos investimentos no espaço é promover o aumento da capacidade produtiva e o aumento da velocidade de circulação/acumulação do capital. Nesse sentido, Castillo (2007) identifica que,
Nessa situação, vão sendo definidas as prioridades de investimentos em infra-estruturas, de acordo com interesses corporativos, disfarçados pelo discurso de um desenvolvimento econômico que, automaticamente, beneficiaria toda a população (p. 42).
Os interesses corporativos requerem atenção especial para que os sistemas de circulação sejam aperfeiçoados única e exclusivamente para o atendimento de suas demandas. O Estado, na atualidade, ocupa uma posição de relativa dependência em relação às corporações multinacionais e cede realizando adaptações e melhorias espaciais visando oferecer fluidez territorial nas áreas escolhidas pelos interesses corporativos para operarem. O discurso que justifica a ação do Estado, conforme aponta Castillo (2007) é disfarçado por trazer esperança no sentido de um desenvolvimento que supostamente beneficiaria toda a população.
Por outra perspectiva, pelas condições atuais das formas de organização do trabalho, as suas divisões espaciais, sociais e territoriais, é provável ser remota a possibilidade de se romper com a imbricação atual entre a organização estrutural da economia e da sociedade. O Estado, no curto prazo, certamente, é incapaz de promover ações no sentido de atendimento prioritário dos interesses das classes menos favorecidas economicamente. Ocorre que a sobrevivência financeira do Estado depende das atividades produtivas, em razão de que a arrecadação estatal provém primordialmente da arrecadação de impostos e taxas. Em outras palavras, nos períodos de crise se o Estado não possuir reservas financeiras sólidas poderá executar medidas drásticas de cortes de gastos. Enfim, aos que pregam as transformações sérias em prol dos investimentos em benefícios dos menos favorecidos do ponto de vista do poder aquisitivo, devem se lembrar que o Estado nos moldes atuais é, antes de tudo, um Estado capitalista.
Assim, os interesses das grandes corporações e das grandes empresas tendem a ocupar uma posição de primazia para o Estado, nas ocasiões em que se estuda a distribuição dos investimentos no território. Para Santos (2008a), em razão da globalização da sociedade,
Quando todos os lugares foram atingidos, de maneira direta ou indireta, pelas necessidades do processo produtivo, criam-se, paralelamente,
seletividades [espaciais, territoriais e regionais] e hierarquias de utilização, com a concorrência ativa ou passiva entre os diversos agentes (p. 29). (grifo nosso).
A importância do espaço para os interesses privados adquire valores diferentes a cada ponto, assim, “cada ponto do espaço torna-se, então, importante, efetiva ou potencialmente. Sua importância decorre de suas próprias virtualidades, naturais, ou sociais, preexistentes ou adquiridas segundo intervenções seletivas” (SANTOS, 2008a, p. 29). (grifo nosso).
Vê-se que os interesses das corporações e os (que deveriam ser) do Estado não são compatíveis, ou seja, não se constitui em um consenso. Nesse embate de interesses em jogo os agentes sociais mais frágeis, que são os menos favorecidos economicamente, vêem seus interesses sendo contemplados quando se coincidem com os das grandes empresas. Entretanto, o mais usual é o adiamento de suas demandas, uma vez que na maioria das vezes não são coincidentes. O resultado espacial do conflito de interesses desses diferentes agentes econômico-sociais é a diferenciação espacial gerando os espaços opacos e os luminosos, conforme Santos e Silveira (2003). Nesse presente trabalho há expresso, por meio de cartogramas e quadros, algumas evidências dessa diferenciação espacial, provocadas pelas seletividades e hierarquizações de utilização.
CAPÍTULO 2 – OS EIXOS DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO