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1. GİRİŞ

1.5. Tanımlar

Por um período de dois anos, o Projeto contou apenas com essas treze famílias que se dizem experimentais. De várias formas essas famílias pagaram o preço que é tão peculiar ao pioneirismo. As restrições em termos de conforto material são muito destacadas, as mudanças na relação de tempo e espaço em relação à agricultura e um controle intensivo sobre a vida deles são as marcas maiores do desencaixe que vivenciaram

Quando nós chegamos em 1975 era só nós os treze. Era 16 casas e ficou apenas três casas desocupadas. Pensava que aqui era uma escravidão, mas mesmo assim viemos enfrentar essa batalha. Esses treze eram todos daqui perto, das redondeza. Depois foi que vieram as pessoas de Itapipoca e dos outros lugares. (...)Sofri muito aqui. Não tinha energia e nem tinha água. (...) Eu banhava os meninos o dia todim e essa água eu ajuntava todinha e aproveitava essa água pra aguar o canteiro. Quando viemos

pra cá íamos pegar água no Setor “E”. (...) O DNOCS viu o sofrimento então

mandaram um carro pipa e colocaram só a pipa em cima de uma forquilha. E quando nós queríamos água íamos buscar. (...) Só chegou água nas casas depois de dois

anos. (...) Quando chegou energia e água, foi que começaram colocar mais gente. É foi mesmo no 77 que começou a chegar mais gente. (Dama do Lago, esposa de colono do D1)

Tinha uma coisa que a gente pode dizer que nunca nós tivemos muita liberdade, mas apesar da gente sempre ter sido sujeito aos donos da terra, a gente era um pouco mais livre, quer dizer assim mais aliviado, pois a gente plantava colhia e num vinha ninguém pra pastorar a gente todo dia, e nem ninguém se metia na casa da gente. Quando nós cheguemos aqui foi difícil pra nós se acostumar com isso, pois o DNOCS controlava tudo. Era técnico na plantação e as assistente na casa ensinando a gente a cuidar dela (Jujuba, esposa de colono do D1).

Ninguém tinha direito nem de dar um apanhado de feijão pra uma pessoa nossa, pois a gente pra sair do Projeto se fosse no rumo do Croatá tinha uma Guarita , se fosse no rumo da Paraipaba tinha outra, bem ali onde hoje tá a imagem de Santa Rita. (Sacuíba, colono do D1).

De 1975 a 1976, essas treze famílias iniciaram um modo de viver inteiramente novo. Plantar por meio de outro itinerário técnico, pois adentrar em uma área irrigada não significava apenas o acesso a água. Um pacote tecnológico acompanhava o calendário agrícola. Adubos, defensivos e plantar por meio do uso de mudas eram práticas obrigatórias. Tratava-se de certa forma de um endividamento, pois quando da colheita, era descontado o preço do insumo. A essas imposições referiram-se os primeiros colonos como a falta de liberdade.

Do plantio à colheita, as famílias eram submetidas a um rígido controle pois eles teriam que entregar toda a produção para a Cooperativa, por isso não lhes era permitido sequer uma manifestação de solidariedade para com um parente ou amigo, presenteando-os com um apanhado de feijão ou com um litro de leite.

O enfraquecimento forçado das relações vicinais é lamentado pela grande maioria dos sujeitos quando se refere à mudança para o Projeto. Esse estímulo à quebra da solidariedade entre vizinhos e parentes, tão caro às sociedades tradicionais, foi uma das rupturas destacadas pelas pessoas do Projeto. Aliás em os parceiros, Antônio Cândido para analisar a mudança nos modos de ser da cultura caipira examina tanto as relaçoes vicinais, quanto a religiosidade por constituírem-se traços fundantes dessas sociedades.

Até 1977, época em que chegaram as novas famílias para serem assentadas, as treze pioneiras conviveram não só com mudanças de itinerário ou nos modos de vida. Novas culturas foram incorporadas às suas experiências como agricultores de subsistência. Antes da intervenção era o milho, o feijão, a roça, umas cabeçinhas de cabra e, ainda uma criação de galinha. Na área irrigada eles tiveram que fazer uma reconversão produtiva, passando a plantar tomate, laranja e cenoura. O feijão foi a cultura que pemaneceu entre eles, mas as sementes eram as mesmas para todos. A cultivar Pitiúba de ciclo rápido e de alta

produtividade cobriu a região com este tipo de feijão, rendendo para os colonos e seus

familiares o apelido de “Pitiúbas”.

Com mais de um ano de intenso convívio no Projeto, eu desconhecia o apelido. Alguém na cidade de Paraipaba mencionou, de passagem, este tipo de gozação com que os estudantes da cidade provocavam as pessoas do Projeto, principalmente, os estudantes. Indagadas sobre a existência desse apelido, duas jovens filhas de colono, reagiram de imediato, afirmando que isso não existe mais. Que foi coisa do passado.

Provocadas para falar sobre o assunto, filhas de uma das treze famílias pioneiras, sorriram e responderam. Isso rendeu muita confusão no Projeto, como é bem evidenciado nos comentários de Jujuba e Lavanda do D1, seguidos da observação de Espina Dulce.

Quando era de noite nós tudo saía daqui naquelas camionete tipo D-10 para ir pra escola na Paraipaba. Bastava a gente entrar na cidade e ter alguns estudantes junto e eles já largavam os gritos, chamando nós de Pitúba. A gente pra se vingar começou a responder chamando eles, da cidade, de Peixe Pôde, porque a cidade era pequenininha e só tinha um mercado véi muito porco que só fedia a peixe. (...) mas num pegava neles, porque eles num tinham nada a ver cum peixe. Nós se importava muito porque eles queriam dizer que nós era da roça, que somo matuto, e nós somo mesmo da roça, viemos da roça e eles sempre vão achar a gente matuto.

Com o tempo o povo foi esquecendo mais. Veio muito Pitiúba pra cidade e quando eles vem pra cá e deixam de ser matutos, eles num se zangam mais. Até se orgulham dizem uns que agora tão até rico. Aí o povo foi esquuecendo. Deixou de ser uma provocação.

Sim minha filha, mais outro dia quando foram entregar os prêmios das cem melhores escola do Estado e que saíram três de Paraipaba, sendo duas do Projeto. Uma diretorazinha disse assim: eita, as Pitiúbas hoje num dormem.

Dessa tensão na chegada das famílias à Paraipaba é importante que se apreenda a partir dos dois primeiros comentários, que essas jovens demonstram ter inculcado a imagem desabonadora associada ao comportamento do matuto, do sertanejo, do caipira etc. Figurando, em sua aparência, a uma brincadeira de colegiais, a disseminação dessa identidade escondia

um conteúdo pejorativo relacionado “à chegada de uns matutos à cidade”, desencadeando

conflitos entre jovens moradores da vila e os filhos dos colonos.

Não teria significado aprofundar uma compreensão do fenômeno, se o mesmo se restringisse tão somente ao conflito. Entretanto, a imagem desabonadora de si mesmos por eles inculcada, refletiu-se, posteriormente, aparecendo como uma das possibilidades de rejeição ao trabalho de agricultor. Esta questão será retomada no sexto capítulo à luz da relação de poder que se institui entre estabelecidos e outsiders, tão cara à sociologia elisiana.