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2. ALANYAZIN

2.5. İlgili Araştırmalar

Como se faz notar nesse estudo, a invenção do “regadio” foi entendida por

estudiosos, como Darcy Ribeiro, como uma das revoluções que marcou severas rupturas na evolução da humanidade. De início por possibilitar a produção de excedentes de alimentos, tendo como desdobramento o processo de urbanização e uma diferenciação social que, em

última instância, demarcou a divisão de classes entre os apropriadoes de excedentes “classe que não trabalha” e uma “classe que trabalha”, que são os produtores reais.

Esse processo de diferenciação social foi se expandindo, como mostra o mesmo estudo, em virtude da institucionalização dos exércitos e de camadas de especialistas, que nascem, juntamente com a formação dos Estados, para mediar conflitos sociais que se foram ampliando, à medida que as sociedades tornaram-se mais complexas, pela formação das duas

,classes: “senhores” e “párias”.

Essa trilha, que pincelou a evolução da humanidade, se robusteceu nas sociedades modernas. Os Estados, com suas camadas de especialistas, envergados da responsabilidade de dirimir conflitos sociais peculiares às sociedades de desenvolvimento iníquo lançam mão de projetos modernizantes ou desenvolvimentistas em nome da reabilitação, dos que se transformaram em párias em suas respectivas sociedades.

4.4.1 Experiências de desencaixe

De fato, os rios deixaram de ser um justo “pai de família”, para usar o termo

alcunhado com precisão por Dona Maria Baião. Bem a propósito, a hipótese que sustenta esse estudo se amparou em observações de Scott (2006) e de Mota (2004). Ambos tratam de processos de reestruturação produtiva decorrentes da ação governamental que provocam desmontes nas estratégias ocupacionais de agricultores familiares, em suas formas de sociabilidade, nas relações familiares etc..

Abundam na literatura, sobretudo, em trabalhos acadêmicos, o número de referências trazendo abordagens críticas que apontam a tendência de iniquidade dessas estratégias de desenvolvimento. A análise interpretativa de Sandroni (1980), sobre a experiência das comunidades do entorno do rio São Francisco que tiveram seus sistemas de produção inundados pela construção do reservatório de Sobradinho, é bastante ilustrativa.

As comunidades vendiam pequenos excedentes agrícolas e pesqueiros e compravam artigos que não podiam ser produzidos localmente. A reposição dos supostos da produção estava garantida pela atividade natural do rio São Francisco. (...) Embora as terras de vazante nas margens do rio e nas ilhas fossem limitadas para uma população crescente, as condições naturais permitiam o sustento de um número considerável de pessoas, sem que a ameaça da ruína pairasse constantemente sobre suas cabeças. A relativamente débil articulação com o mercado era uma expressão dessa auto-suficiência. (...) Com a construção da hidrelétrica de Sobradinho, esse processo foi bruscamente interrompido, atingindo profundamente e desorganizando as bases produtivas. O principal problema consistiu na eleiminação do sistema de vazante. (Apesar das antigas comunidades terem sido reassentadas nas margens do reservatório e a amaioria dos relocados indenizados em dinheiro em espécie e com lotes variando de 5 a 30 há, o empobrecimento foi geral155 (SANDRONI, 1980, pp. 35-36).

De olhar abrangente, a agudeza de Sandroni na interpretação dos efeitos de edificação da barragem Sobradinho, em meio aos tradicionais sistemas de produção de vazanteiros do rio São Francisco, é exemplar em dois aspectos: 1) por desenhar pistas para estudos que buscam desvendar essa problemática; e, 2) por destacar o quanto conhecimentos sistematizados ao longo de sucessivas gerações se perdem, desestabilizando o equilíbrio da natureza, já que problemas de outra ordem afetam a estabilidade da produção local. Por exemplo,

155 Grifos nossos.

A acumulação de conhecimentos sobre o comportamento do rio realizada durante várias gerações foi inutilizada pela construção do reservatório. O conhecimento da localização dos tabuleiros no antigo rio facilitava a pesca, pois ali o peixe se concentrava e o fundo plano e liso não oferecia perigo para o arrastão das redes: hoje, ninguém mais sabe onde ficam e mesmo que isso fosse possível, as novas condições – com a maior profundidade – exigiriam técnicas de pesca muito avançadas. A criação de uma imensa chapada de água mudou também o sistema de ventos na região do reservatório e entre outras coisas tornou mais ariiscada a navegação passando a exigir embarcções maiores (em grande parte fora do alcance econômico dos reassentados) e mais resistentes, que possam enfrentar ondulações de quase um metro de altura (ÍDEM, p.36).

A instituição do uso de técnicas avançadas tem sido uma diretiva da política de irrigação no assentamento de unidades de produção familiar. Os agricultores familiares - que serão os protagonistas do desenvolvimento pretendido – são evocados como objeto de redenção, sem que na concepção de seus destinos sejam envolvidos em quaisquer dos mecanismos de consulta e participação. Ao novo agente social – o colono, ou irrigante - é imposta uma agricultura moderna e “redentora” (no dizer dos agentes governamentais),

marcada por tensões entre a economia de mercado e a “economia moral”.

Dessa forma, ao chegar à posição de colono, como bem assinalado por Diniz, o antigo meeiro ou morador tinha sua estrutura de vida alterada. Os agricultores não tinham identificação com aquele espaço, que não foi construído por eles e, portanto, não gerou qualquer identidade socioespacial.

Estavam sem identidade não só com o espaço físico, mas com tudo o que ele representava: irrigação, novas tecnologias, novas relações de trabalho, ou seja, uma nova forma de viver (DINIZ, 2002, p.49).

Cavalcanti & Mota (2002), em estudo que recuperam a desconstrução do tecido social que se formou no Vale do São Francisco pelo assentamento de unidades de produção familiar, mostram como esses projetos instituídos no mesmo contexto em que se instituiu no Ceará o Projeto Curu Paraipaba, foram desmontados excluindo os agricultores familiares.

Os estímulos governamentais, tais como incentivos fiscais, disponibilização de infra-estrutura de irrigação, associados aos preços dos fatores, terra e mão-de-obra baratas, foram os ingredientes necessários para atrair empresários para transformar o Vale do São Francisco em um moderno pólo de fruticultura irrigada para atendimento do mercado globalizado. Paulatinamente, foi ocorrendo a sucessão da posse da terra (lotes dos agricultores familiares) efetivada por meio de venda aos empresários que aportaram no Vale.

Ao reorientar a diretiva para uma perspectiva de autonomia dos sujeitos das áreas irrigadas, a nova política de irrigação privilegiou um modelo, no qual entrou em cena a figura

do “empresário” ou “produtor” em substituição aos “colonos” ou “irrigantes”. Esses últimos,

conforme entendimento de Vital & Sampaio (2007), conformando uma categoria social

chamada de “agricultura familiar irrigada do Nordeste”. Essa substituição, contudo, não

significa que os agricultores familiares desses novos projetos de irrigação tenham desaparecido. Na grande maioria dos casos, eles foram expropriados de seus locais de morada e trabalho, para que o Estado pudesse implantar os projetos de irrigação.

A competente e minuciosa investigação de Mota (2005a, 2005b, 2009) sobre os mecanismos de apropriação do território, do meio ambiente e de controle do trabalho na

região do Platô de Neópolis é emblemática no sentido de apontar o processo de “desencaixe” vivido pelos agricultores familiares desse espaço rural e de seus “reencaixes” como

trabalhadores assalariados no moderno Projeto de irrigação. Ao apresentar os resultados da primeira investigação, a pesquisadora concluiu

que o “desencaixe” dos trabalhadores de sistemas tradicionais de produção que

mesclavam vínculos pessoais e econômicos de sujeição e o reencaixe dos mesmos no Platô se deu ao longo do tempo, através da configuração de estratégias individuais e familiares em que a reflexividade foi mais intensamente acionada dada a novidade das situações enfrentadas e a necessidade de reequilibrar as estratégias para garantir a sobrevivência (MOTA, 2005, p. 238).

Em outro estudo (Mota, 2009, p. 98), realizado após 15 anos de funcionamento do Platô, e não mais nas empresas e lotes de irrigação, mas nas cercanias do Platô, o panorama estampou-se desanimador. não apenas para os agricultores familiares do local que recorreram ao assalariamento como estratégia de sobrevivência. Os resultados não eram condizentes com o planejado, nem em relação à transformação da região em pólo exportador, nem quanto à geração de empregos e muito menos quanto à expectativa de dinamização do local. Ao contrário, o estudo mostra que nas cercanias, com a implantação do Platô, as áreas

diminuíram por conta da desapropriação das terras para o projeto, “e, paradoxalmente, a

população dependente do extrativismo aumentou, gerando uma pressão sobre os mesmos, a

qual desencadeia tensões e conflitos localmente”. .

Nesse contexto, o empresariado de ator central passa a ser alvo das críticas. O

projeto de inovador passa a ser visto “como um acúmulo de erros técnicos quanto aos índices

de pluviosidade, à inadequação dos solos, à umidade, à seleção dos cultivos, dentre outros

aspectos” (ÍDEM, p.99).

Não são muito diferentes as observações feitas por Vital & Sampaio (2007). Em estudo de caso sobre a agricultura familiar e fruticultura irrigada no Nordeste, os autores

afirmam que salvo poucas experiências bem sucedidas, a grande maioria das intervenções apresentou pouco sucesso, atribuindo como causas, além da estabilidade da fonte de água em períodos sucessivos de seca, problemas de escolha inadequada dos sistemas e da falta de conhecimento e experimentação de técnicas e cultivos. No caso da fonte de água, o fator físico pode ser determinante. Mas as outras causas estão ligadas à inadequada formulação e implementação das propostas de intervenção.

A pesquisa de campo e as consultas a literatura temática parecem apontar para uma mesma direção, ou seja, os espaços dinamizados por meio da implantação de projetos de irrigação apresentam fragilidades incompatíveis com os ideais de sustentabilidade do desenvolvimento. Ameaçam, por assim dizer, entrar em colapso, na muito bem formulada síntese de Dalva Mota

Com menos de 50% da área cultivada, evasão do empresariado cerca de 5% dos empregos previstos, retração das áreas com frutas e aumento da área de cana-de-açúcar, diminuição da área plantada e do número de trabalhadores ocupados e questionáveis quanto ao volume de investimentos públicos (cerca de 200 milhões de reais) o modelo parece entrar em colapso. As justificativas para o desempenho apontam a heterogeneidade do empresariado, a opção por culturas destinadas ao mercado nacional e os problemas fitossanitários enfrentados (MOTA, 2009, p. 105).

O processo de diferenciação social ocorrido em decorrência da construção da barragem de Sobradinho ilustra um quadro de proletarização entre famílias que foram reassentadas. Segundo o autor, a pobreza era tamanha que, além de alugar a terra, os reas- sentados vendiam também sua força de trabalho ao próprio arrendatário na qualidade de assalariado ou parceiro, inaugurando uma original relação de produção na região. Tal relação, na verdade, não refletia outra coisa se não a aceleração 'do processo de diferenciação do campesinato. Mas isso se deveu fundamentalmente à quebra repentina da estabilidade da base produtiva do campesinato local.

Antes - dizem os atuais relocados - éramos pobres, mas não precisávamos nem do governo. Hoje, a ruína desses lavradores conduziu muitos deles à proletarização e a uma situação de miséria talvez maior do que a eventualmente provocada por inundações ou longas estiagens. Em síntese, as mudanças na base produtiva atuaram como se repentinamente a fertilidade da terra tivesse se esgotado ou algo semelhante acontecesse com um recurso natural cuja extração constituísse a base econômica de uma comunidade camponesa (ÍDEM, p.37).

Os processos de “desencaixe” de agricultores familiares mediados pela

implantação de projetos de irrigação na região Nordeste, além de fazer registro das rupturas

sociais. Visível na academia, na literatura sobre as secas, ou nas vozes de poetas populares, a historicidade das relações sociais, que mediam essas intervenções governamentais no Brasil, exibe o quanto tais processos modernizantes têm concentrado riquezas e alargado o processo de exclusão dos sujeitos, nos espaços rurais.

No caso em estudo, como acentuado por Francisco de Oliveira, os fazendeiros que faziam a elite pecuária-algodoeira eram os filhos privilegiados, num primeiro momento, depois os empresários da indústria sucro-alcooleira, como mostrou Martins (2008), persistindo os privilégios para atores da pecuária leiteira. Uma elite rural que se entrelaçou ao DNOCS, constituindo a indistinta linha divisória entre o Ceará e o DNOCS, assunto que será abordado no próximo item deste capítulo.