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1. GİRİŞ

1.3. Önem

Se por parte dos colonos encontram-se registros de resistências no processo de ocupação das unidades produtivas, a desapropriação das terras para implantação do Projeto não foi acompanhada de grandes conflitos. Os donos das terras de Paraipaba acreditavam nas boas intenções do Projeto, ou seja, para muitos a irrigação estava chegando como uma salvação. De fato o Projeto prometia assegurar

o desenvolvimento agrícola, com oferecimento de serviços para a população rural, terá de resolver o problema do desemprego sazonal através do desenvolvimento da agricultura diversificada, a fim de garantir ao agricultor uma renda mais estável e elevada (DNOCS, 1970, p5/2).

Seu Bamburral, filho de uma das ilustres famílias do povoado e ex-prefeito do município de Paraipaba, fala sobre o passado com a convicção de que em Paraipaba as relações de trabalho eram muito justas e que, portanto, a desapropriação não foi motivo para contendas entre o governo, os trabalhadores e os proprietários. Ao contrário, quando foi para socorrer a população na grande cheia de 1964, muitos fazendeiros doaram terras para construção da Nova Paraipaba.

A própria família do ex-prefeito, segundo ele, no passado doava muitas terras aos agregados. Mesmo antes da cheia e da chegada do Projeto, diz Bamburral

Era tudo fazenda e tinha o pessoal agregado as fazendas, os moradores tudim. Porque nós aqui era come se fosse uma só família, mesmo os moradores pra nos era como uma pessoa ligada a gente, trabalhava se quisesse, (...) não tinha esse negocio, só porque é morador é trabalhador. A gente trabalhava com quem queria trabalhar e as outras fazendas era do mesmo jeito. Tanto fazia ser Simplicio, Barroso, Viana, Carneiro, Pontes, Paiva, Braga, Moreira era uma coisa só.

A sobrevivência daqui antes do projeto era agricultura familiar, antes era feijão, milho, algodão, mandioca, criação de caprino, bovino, todo mundo criava, quem era proprietário e quem não era, quem não era proprietário as vezes tinha duas vaquinhas, chiqueiro de ovelha e chiqueiro de caprino, ta entendendo, era essa base assim.

As relações de trabalho era mais morador – parceiro. Não era só arrendamento não, arrendava também, muitos faziam aqueles roçados, aquelas capoeiras.

A gente tinha os moradores como sendo parceiros da gente. Não é como, muita gente que as vezes eu vejo ai, entrando escravo pro trabalho. Nós aqui não, os moradores entravam, pelo menos o papai dava morada, o sujeito chegava aqui perguntava: seu Joaquim me de uma morada em tal canto? – tire lá meu filho, tire lá, terra foi feito pra gente morar mesmo.

Há evidentemente no depoimento do ex-prefeito uma noção equivocada do que seja uma justa relação de trabalho. A terra, como ele mesmo cita, era apenas para moradia e trabalho. A terra era também cedida para exploração agropecuária, mas de uso restrito à condição de agregado. A tenência da terra - o título - representando a possibilidade de dar continuidade à reprodução social das famílias, mediante o direito de herança, seria sim uma justa relação social.

Mesmo assim, quando foi anunciada a implantação do Projeto e divulgado que os agregados do entorno teriam preferência para serem assentados, as inscrições não foram concorridas, pelo menos, entre os moradores de Paraipaba e Paracuru. Conforme expôs Dona Maria Baião, espalhou-se pelas redondezas um clima de insegurança acerca do Projeto. Foram os patrões, segundo vários informantes, que espalharam o temor entre os agregados

Foi assim: eles mesmo os patrões daqui ficaram dizendo pros quatro canto que esse projeto era mesmo uma prisão, que eles do DNOCS iam preparar os home pra guerra, que quem entrasse num saía, mais de lá. A gente sabia que tinha muita confusão aí pelos cantos, por causa do exército. Então era fácil a gente acreditar que iam prepara os homi pra isso e também que ia ser uma prisão pro resto da vida. Meu marido foi perguntar isso pra doutora, acho que era a Dra. Oneide e então ela disse que num tinha nada disso que assim como entrava podia também sair. Agora que tinha um senão, que tudo seria muito controlado no começo que era pra gente aprender a trabalhar cum a irrigação.

Eu digo que na verdade eles num queriam perder o serviço dos caba trabalhador por isso cumeçaram com essa guerra de nervo. Eles chegavam nas casa dos patrões e procuravam informações sobre os moradore. Muita gente desistiu porque falavam que aqui tinha um portão de ferro ninguém podia sair. Depois de entrar lá, só sai com permissão. Vou lá pra esse cativeiro, Deus o livre, dizia o povo. Aqui mesmo no C2, para as pessoas que iam trabalhar na pecuária o gado não tinha chegado. Plantávamos feijão e todos os dias os técnicos passavam olhando. Era técnico demais. Um dia saiu um colono daqui lá pra Gerência, pra pedir permissão pra apanhar feijão pra comer. Era duro. (Agrião, colono do D2).

O temor dos patrões de perder a mão-de-obra sujeitada da região se insinua verdadeiro. Vassourinha, assistente social do DNOCS, que participou de muitas missões para sensibilizar famílias, tendo em vista o ingresso do chefe de família como colono do Projeto, relatou que acompanhou o processo de recrutamento dos agricultores em vários Perímetros, confirmando a contradição nas informações dos patrões

Eu acompanhei muito bem isso aí, primeiro quando a gente ia fazer a seleção do povo, que chegava numa fazenda daquelas atrás de gente. Tinha até uma coisa

interessante os proprietários diziam assim: “não esse aqui é ótimo” a gente já sabia

que aquele não prestava e aquele que ele dizia que não prestava que era o bom, porque ele dizia aquele que não presta, que era pra ninguém levar, pra não tirar da fazenda, porque a gente já tinha certeza que aquele que ele dizia que era muito bom não prestava, e aquele que era ruim a gente já sabia que prestava. Mas a gente ia fazendo a entrevista com ele preenchia uma ficha, perguntava se eles tinham interesse em ir, quem que tem? Tem isso, tem isso tem aquilo, tem casa, tem energia, tem isso, tem aquilo, informação aonde teve uma

Explicitado esse contexto de amedrontamento, como estratégia do patronato local para manutenção do trabalhador sujeitado, pode-se melhor entender as resistências constatadas pelas famílias de Paraipaba, em não se inscreverem, mesmo na condição de prioritários, já que seus roçados tinham sido desapropriados. Assim, em 1975, quando concluída a construção de dezesseis casas e dezesseis lotes, no Setor D1, para assentar as primeiras famílias, o DNOCS não conseguiu recrutar o suficiente para o preenchimento das dezesseis vagas.

Treze famílias da redondeza aceitaram o desafio de se tornarem, como eles

costumam falar, um “expermento humano” no interior da área irrigada. Até que apareceu

outra família que chegou a ocupar uma casa, informou a Dama do Lago. Era uma família

vinda da Varzea Redonda, “mas num ficou nem por um dia. O home saiu pra dar uma volta

pra fazer um reconhecimento do local e conhecer o lote que era pra ser dele. Quando voltou, a mulher tinha se arredado com o filhos”.