Alexandre Lahóz Mendonça de Barros,
Professor da EESP e Coordenador do Núcleo de Pesquisas do Centro de Agronegócio da FGV / EESP.
O
relatório sobre as perspecti- vas agrícolas mundiais para o período de 2005 a 2015, ela- borado conjuntamente, pela primei- ra vez, pela Organização de Coope- ração e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pela Organização das Na- ções Unidas para a Agricultura e Ali- mentação (FAO), traz informações in- dispensáveis para a análise do agronegócio brasileiro e mundial. O estudo mostra a influência do Bra- sil e de outros países fortes no agronegócio, na evolução das agroexportações. Um tênue choque na demanda de alimentos na China e Índia provocará ajustes externos não negligenciáveis. A produção agrícola global deverá crescer, no ce- nário 2010, o equivalente a uma sa- fra brasileira de grãos, e, no cenário 2015, a duas safras. Nas carnes, con- siderando estes mesmos cenários, crescer respectivamente uma e duas vezes, o volume da produção corren- te nacional.O trabalho aponta o Brasil como o maior ganhador entre as nações agrí- colas exportadoras nos próximos dez anos, deixando para trás, por exem- plo, os Estados Unidos, no comércio mundial de oleaginosas, e a Austrá- lia, no comércio de carne bovina. No mundo globalizado e competiti- vo, o Brasil precisa fortalecer as es- tratégias para a inserção comercial
do seu agronegócio. Os ganhos de produtividade proporcionados pelas atividades das suas várias cadeias pro- dutivas não podem ser dissipados por ineficiências na logística de armazena- gem, transporte e portos. Há grandes entraves nas distribuições interna e externa da produção primária, sendo estas um calcanhar-de-aquiles. Se exis- tem as potencialidades e capacidade para o Brasil alavancar de forma signi- ficativa a sua produção agropecuária no cenário de médio prazo, é necessá- rio conceber as estratégias pós-portei- ra das fazendas, para dar suporte a esse crescimento, na apresentação de posi- ções, análises e tendências sobre ques- tões cruciais para o desenvolvimento do agronegócio.
O diferencial de custos mais baixos da agricultura nacional é reconhecido não apenas no Brasil, mas também no mer- cado externo. Porém, a atividade sofre uma combinação perversa de pelo me- nos quatro diferentes fontes de risco que torna preocupante o futuro do agronegócio brasileiro:
1. Risco de produtividade
O risco de redução de produtividade por razões climáticas ou biológicas é intrínseco à produção agrícola. Por essa razão, diversos países, inclusive o Bra- sil, procuraram desenvolver sistemas de seguro que permitam manter a es- tabilidade do setor produtivo ao asse- gurar uma proteção à quebra de safra. As experiências internacionais sugerem que a participação do setor público no
mercado de seguro agrícola é quase indispensável. O governo brasileiro aprovou a lei que permite a atuação de resseguradoras nacionais e estran- geiras no País. Outro passo importan- te será a regulamentação do Fundo de Catástrofe.
2. Risco de variação nos preços dos pro- dutos e dos insumos
A volatilidade nos preços dos produ- tos agrícolas, bem como dos princi- pais insumos consumidos pelo setor, é uma realidade no setor agropecuário. A forma de defesa dessa volatilidade encontra-se tradicionalmente associa- da às operações de mercado futuro e de opções.
Fora das economias agrícolas desen- volvidas, como há falta de políticas de garantia de renda ao produtor, as os- cilações na oferta internacional de qualquer produto são corrigidas na margem pelo produtor nacional (re- dução de renda seguida de diminui- ção de área plantada). Os ajustes na estrutura produtiva são muito mais severos.
Sobra ao agricultor a estratégia de di- versificação de cultura, mas esse ca- minho, dependendo do tamanho da propriedade em questão, pode limi- tar os ganhos em escala decorrentes da especialização. O risco de variação nos preços do produto e dos insumos é especialmente relevante nas regi- ões de pior logística. Quanto mais dis- tante dos portos, mais alto é o preço
dos insumos e mais baixo o do pro- duto. O custo do frete reduz a mar- gem de rentabilidade e, assim, para uma mesma variação no preço do pro- duto ou dos insumos, o efeito sobre a rentabilidade será tanto mais severo quanto pior for a logística da região. 3. Risco de variação da taxa de câmbio A partir do final de 1998, a taxa de câmbio brasileira passou a flutuar li- vremente. A abertura na conta de ca- pital, associada à alta liquidez nos mercados internacionais sugere que a volatilidade da taxa de câmbio será a regra na economia brasileira. A integração ao mercado internacional por parte da agricultura brasileira faz com que todo sistema de preços no País tenha como referência básica a taxa de câmbio. As mudanças na taxa de câmbio foram expressivas, explicando boa parte da expansão e da crise na última década no País.
4. Risco sanitário
O aumento no tamanho do agrone- gócio brasileiro elevará o risco sanitá-
rio envolvido na produção. Além dis- so, a expansão do comércio inter- nacional traz consigo o risco de contaminação com doenças exis- tentes no exterior. Em outras pala- vras, a probabilidade de problemas sanitários eleva-se conforme au- menta a integração internacional. O governo federal está empenha- do em organizar a legislação e em construir uma estrutura para lidar com os padrões de qualidade exi- gidos pelas legislações sanitárias presentes nos parceiros comerciais do País. Entretanto, as restrições fi- nanceiras do governo parecem in- dicar que não haverá como acom- panhar a velocidade do movimento privado.
As restrições fiscais impõem cortes no orçamento da vigilância sanitá- ria do Ministério da Agricultura. O déficit nominal do governo federal força cortes nas despesas que se generalizam por todo o governo fe- deral. Adicionalmente, é difícil es-
tabelecer prioridades entre os di- ferentes ministérios. Por conta dis- so, apesar do forte crescimento nas exportações do agronegócio (e, conseqüentemente, da necessida- de de maior controle sanitário), o volume de recursos alocados para a segurança alimentar cai a cada a n o .
As perspectivas do agronegócio brasileiro dependerão fortemente do desenvolvimento de ferramen- tas financeiras para mitigar os ris- cos inerentes ao setor agrícola. O futuro reserva ao País posição de destaque no cenário internacional; diversas oportunidades de merca- do surgem a todo o momento, as- segurando uma trajetória de ex- pansão potencial de grande magnitude. Entretanto, a velocida- de do crescimento do agronegócio brasileiro dependerá, fundamental- mente, da capacidade do sistema produtivo para lidar com os riscos inerentes aos ciclos econômicos e agrícolas.