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Todas as lutas brasileiras de um determinado período pra cá, você não pode dizer se não falar no Partido Comunista. O Partido Comunista foi, por exemplo, na Campanha do “Petróleo é nosso”, um dos principais lutadores do “Petróleo é nosso”, apesar de envolver militares enfim, (...). E nós tínhamos uma posição contra Getúlio. Nós tínhamos a mesma posição da UDN, só a que a UDN era a direita golpista. (...) Nós mudamos a posição talvez um mês antes de Getulio se suicidar. Eu concordei, porque a posição nossa era errada.

(José Muniz da Paixão, operário) Getúlio tornou-se um ditador no Brasil em 1937, isto todo mundo sabe. Mas depois Getúlio deu uma guinada que para nós estava interessante. Ele era contra as multinacionais, contra o imperialismo, defendendo o que é nosso. E a gente era favorável a ele. Não tenha dúvida. Éramos mesmo. Mas o que ocorreu foi o seguinte. A pressão em cima de Getúlio, quando ele quis se desligar dos grupos poderosos, das aves de rapina, é o que o motivou a fazer aquilo. Foi um grupo de poderosos, de antipatriotas, contrários ao país, que provocou aquilo.

(Irineu José de Souza, operário)

Na manhã de 25 de agosto de 1954, dia posterior ao suicídio de Vargas, os muros de diversos bairros da capital fluminense amanheceram pichados com dizeres contra o golpe militar e por eleições livres. No bairro da Ponta d’Areia, próximo ao cais, os operários navais improvisaram um comício para denunciar o golpe articulado pela UDN, militares e EUA e invocaram a carta testamento de Vargas “como o mais insuspeito testemunho da pressão que exerce o imperialismo norte-americano em nosso país, contra o desenvolvimento e a emancipação econômica de nossa pátria”700. Em outros pontos de Niterói e no interior do estado, foram registradas manifestações que resultaram em prisões, tanto na capital fluminense quanto em outras cidades tais como São Gonçalo, Barra Mansa, Volta Redonda e Campos701.

700 Imprensa Popular, 26/8/1954, p. 2. 701

Na capital federal, uma multidão se avolumou em frente ao Palácio do Catete enquanto nas ruas do centro da cidade milhares de pessoas seguiram em passeata até a Câmara Municipal. Foram registrados ataques a Embaixada Americana e nas sedes do jornal e da rádio O Globo, no jornal Tribuna da Imprensa e também no periódico comunista Imprensa Popular. Neste dia, populares entraram em confronto com a polícia que tentou dispersar a multidão a tiros, resultando na morte de uma pessoa e vários feridos. Na véspera do suicídio de Vargas, a polícia já havia invadido 8 sindicatos e prendido 26 dirigentes sindicais que se reuniam para deliberar sobre a adesão a greve geral que estava marcada para ocorrer no dia seguinte em São Paulo702. A paralisação geral neste estado acabou ocorrendo uma semana depois e foi organizada pelo Pacto de Unidade Intersindical (PUI) que além de bandeiras salariais e contra a carestia, acabou se configurando como um vetor de mobilização contra as forças políticas e econômicas que foram apontadas como responsáveis pelo suicídio do presidente703.

Em Niterói, a greve unificada de padeiros, barbeiros, têxteis e marítimos que estava marcada para ocorrer no mesmo dia da greve geral em São Paulo, não teve êxito. Naquele dia 2 de setembro de 1954, apenas os trabalhadores da Cia. Lloyd Brasileiro que já vinham alertando sobre a possibilidade de paralisação da categoria desde junho daquele ano, paralisaram as suas atividades por algumas horas704. Durante a parede, a Ilha do Mocanguê chegou a ser cercada por fuzileiros navais, fato este que recebeu imediatos protestos dos trabalhadores em greve. Ao final, os marítimos conseguiram obter os pagamentos atrasados e reverter a punição de um companheiro que havia sido suspenso pela direção da companhia no decorrer do movimento705.

A desarticulação dos movimentos grevistas que não conseguiram lograr êxito no país, como o caso da greve unificada Niterói, pode ser um indicativo do grau de perplexidade que a morte inesperada de Vargas causou nos trabalhadores. Outra hipótese – complementar a esta – é que o suicídio do presidente gerou fissuras temporárias no interior do movimento sindical antagonizando àqueles que apoiavam Vargas e os que faziam oposição a este. Esta questão, especialmente sensível para os comunistas – visto que na “memória oficial” do partido e na de seus militantes o PCB só mudou de posição em relação ao governo semanas antes de Vargas tirar a própria

702

Imprensa Popular, 25/8/1954, p. 8; LEAL, Murilo. A Reinvenção da classe trabalhadora. Op. cit. p.258.

703 LEAL, Murilo. A Reinvenção da classe trabalhadora. Op. cit. p.254-262. 704 Diário do Povo, 1/9/1954, p. 1 e 2.

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vida706, podem gerar lapsos e até mesmo uma reinvenção dos fatos por parte de quem narra, tal como podemos observar na narrativa de Irineu José de Souza que chamando a atenção para os compromissos nacionalistas assumidos por Vargas – e defendidos pelos comunistas – nem chega a mencionar o quanto posições como a sua divergiam da linha política oficial adotada pelo PCB, partido o qual era filiado desde 1941.

É claro que não estamos sugerindo aqui que a posição da militância comunista não pudesse diferir da linha política tirada pelo partido – mesmo à época. As discrepâncias entre as diretrizes da “cúpula” e a ação da “base” não eram incomuns e nós, inclusive, já identificamos algumas destas incongruências em diferentes momentos deste trabalho e visualizaremos outras tensões desta natureza no decorrer deste capítulo. Porém, a “imaginação criativa”707 que nos sugere a narrativa de Irineu revela algo que vai um pouco além de seus posicionamentos pessoais a respeito de Vargas. Após o suicídio, os comunistas lamentaram o que foi avaliado como uma percepção tardia dos acontecimentos e por mais que muitos militantes indiquem uma mudança de posição do partido em relação ao governo dias antes da morte de Vargas, ela só foi efetivamente visível após os acontecimentos que sucederam o dia 24 de agosto.

Imediatamente após esta data, o vice-presidente Café Filho assumiu a presidência tomando posturas abertamente conservadoras em relação ao movimento sindical, reprimindo greves e proibindo o funcionamento de organizações sindicais que não estivessem de acordo com a legislação vigente, diretrizes estas que foram igualmente seguidas pelos seus sucessores Nereu Ramos e Carlos Luz708. O PTB, que naquele momento não estava disposto a fazer nenhuma concessão que pudesse desviar- lhe dos postulados nacionalistas e reformistas presentes em seu estatuto de fundação ou que pudessem representar uma traição à memória de Vargas, decidiu fazer oposição ao governo de Café Filho e aos demais presidentes que o sucederam até a realização de novas eleições.

706 “Naquela época éramos radicalmente antigetulistas e só voltamos atrás quinze dias antes dele morrer, quando percebemos que a sua derrubada só interessaria à direita”. PRESTES apud ALMEIDA. PTB: do

getulismo ao reformismo. Op. cit. p. 160.

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Alessandro Portelli desenvolveu esta noção para analisar a entrevista feita com ex-operário italiano e militante comunista Alfredo Filliponi. Segundo Portelli, a “rememoração imperfeita” de Filliponi, ao misturar fatos, datas, criar situações que enaltecem sua trajetória, mas que de fato, não ocorreram, revelam como “desejos há muito enterrados no inconsciente”, podem vir à tona em forma de devaneio, sobretudo quando existe “sentido coletivo de desapontamento” com o tempo presente. Cf. PORTELLI, Alessandro. Sonhos ucrônicos: memórias e possíveis mundos dos trabalhadores. Projeto História. São Paulo (10), dezembro de 1993.

708 NEGRO, Antonio Luigi e Fernando Teixeira da Silva. Trabalhadores, sindicato e política (1945-1964).

Assumindo uma postura cada vez mais “doutrinária” em detrimento de uma posição “pragmática”709 que até então era majoritária dentro do partido, o PTB vinha esboçando mudanças que buscavam aproximá-lo dos trabalhadores não apenas “por dentro” do aparelho de Estado, mas também “por fora”. Segundo Lucília de Almeida: “Naqueles anos, quanto mais crescia a mobilização, a nível das organizações populares e dos sindicatos, mais se puxava a corda do PTB em direção à via do reformismo”710. Assim como os comunistas, os trabalhistas também foram impelidos a fazer modificações nas suas linhas de atuação partidária na medida em que as suas bases, em particular no movimento sindical, se mobilizavam em torno de pautas conjuntas.

Afinal, desde o início de 1954, a palavra de ordem que sobressaía nos meios sindicais era a da unidade. No estado do Rio, assim como em outras partes do país, multiplicaram-se as Frentes Intersindicais pelo salário mínimo, pelo congelamento de preços, contra a assiduidade, contra a carestia, em defesa do direito de greve, em defesa da liberdade sindical, de luta pelo abono, bem como foi organizada a Comissão Intersindical de Niterói e São Gonçalo e Conselho Sindical do Estado do Rio com objetivo de unificar as lutas dos trabalhadores. Mais do que qualquer outro período anterior, os trabalhadores se uniam para pautar as suas reivindicações dentro de um quadro de referência mais amplo que incluía denúncias contra a fome e a carestia e propostas para assegurar o direito ao consumo a todos. Lutar por direitos e por melhores condições de vida para a classe trabalhadora significava lutar pelo desenvolvimento do país.

Aquele era um momento que segundo Lucília de Almeida, as teses nacional- reformistas-desenvolvimentistas encontravam um lugar privilegiado no pensamento social brasileiro. Segundo a autora, diferente do nacionalismo dos anos 1930 que se associou ao programa centralizador e intervencionista de Getúlio Vargas, o programa nacionalista da segunda metade dos anos 1950:

(...) foi apropriado por expressivas organizações da sociedade civil e por inúmeros parlamentares que transformaram tanto o Poder Legislativo como os sindicatos, as organizações estudantis, os

709

Lucília de Almeida aponta a existência de duas correntes mais atuantes dentro do PTB desde a sua fundação: A primeira, denominada “getulista pragmática”, defendia que o partido deveria cultivar o carisma de Vargas como instrumento de mobilização política e era composta por elementos ligados à burocracia estatal e aos sindicatos oficiais, em sua maioria; A segunda corrente, chamada de “doutrinária” defendia que o PTB deveria articular-se em torno de uma doutrina socializante, independente de carismas pessoais e da burocracia estatal. Cf. ALMEIDA, Lucília de. PTB: do getulismo ao reformismo (1945-

1964). Op. cit. p. 58-62.

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movimentos camponeses, as universidades e associações profissionais

em espaços de discussão e divulgação de suas principais teses711.

Intelectuais do Instituto Superior de Estados Brasileiros (Iseb), estudantes da UNE, trabalhadores rurais e urbanos, parlamentares. Ainda que as diferenças no teor dos projetos destes grupos não possam ser minoradas, a ideia de que o Brasil necessitava de transformações profundas, que incluíssem reformas sociais, valorização da educação e da cultura nacional e estímulo à produção industrial e proteção das riquezas nacionais (sobretudo em setores estratégicos da economia), conferiam forma e conteúdo às suas propostas. Emancipar-se da relação de dependência com o capital estrangeiro, constituía uma premissa fundamental para libertar-se do subdesenvolvimento e das agruras da herança colonial. Corporificando-se em manifestos, campanhas, frentes, manifestações populares, o ideário nacionalista estabelecia valores e fornecia material para a elaboração do vocabulário político da época. Ou, nas palavras de Lucília de Almeida, este nacionalismo conformava um ethos, “(....) valores e projetos que constituíam o substrato de um tempo, uma vez que foram internalizados e defendidos por parte expressiva da população brasileira”712.

O PCB, que teve um papel destacado na articulação de campanhas nacionalistas desde pelo menos a entrada do Brasil na 2ª Guerra e que já mantinha alianças informais com setores trabalhistas tanto na materialização destas campanhas quanto na esfera sindical, passou a assumir posturas cada vez mais nacionalistas e reformistas, demonstrando um distanciamento ainda maior com os postulados expressos no Manifesto de Agosto de 1950. Esses “desvios” da linha doutrinária do partido provocavam discussões acaloradas no interior do PCB resultando muitas vezes em expulsões de militantes e até mesmo intervenções, tal como ocorreu no Comitê Regional do Estado do Rio que por determinação do Comitê Central do partido, recebeu um novo secretário713 em julho de 1954 que tinha como tarefa reestabelecer a unidade partidária no estado que se encontrava sob forte influência da linha “titoísta”714.

711 DELGADO, Lucília de Almeida Neves. Nacionalismo como projeto de nação: a Frente Parlamentar nacionalista (1956-1964). In: FERREIRA J. & REIS D. A. (org.). Nacionalismo e reformismo radical (1945-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 365.

712 Idem, p. 364.

713 Oswaldo José Vicente relata que foi escalado pelo Comitê Central do PCB como interventor do Comitê Estadual do Rio por intermédio de Carlos Danielli (filho de Paschoal Danielli). Oswaldo era natural da cidade de Campos - RJ e morador do bairro da Engenhoca, em Niterói. Ingressou no partido em 1947, enquanto trabalhava como bombeiro hidráulico na Cia de Comércio e Navegação. Já no ano seguinte, Oswaldo passou a servir exclusivamente ao partido, cumprindo tarefas de articulação política em viagens pelo interior fluminense e por outros estados do país. Ao terminar a sua tarefa como

Apesar de não termos identificado nenhuma referência explícita de que a militância comunista fluminense estivesse abertamente favorável ao titoísmo, verificamos que havia uma forte tendência da mesma em tecer alianças com setores progressistas e nacionalistas, conforme já abordamos. Nos meios sindicais, as pressões de grupos da base já haviam motivado uma inflexão na linha geral do partido desde 1952 quando este acabou por oficializar o retorno da militância aos sindicatos oficiais e a realização de alianças com setores não comunistas, situações estas que já ocorriam na prática715.

A seção fluminense da Liga de Emancipação Nacional (LEN)716, entidade criada com o objetivo de defender a nacionalização das fontes de energia elétrica e da distribuição do petróleo, o desenvolvimento da indústria nacional e a reforma cambial, fiscal e reforma agrária, configurou mais um espaço onde os trabalhadores tomaram parte efetiva. Criada em dezembro de 1954, a LEN fluminense contava com a participação de sindicalistas, estudantes, industriais, comerciantes, membros da Associação Feminina Fluminense e de lideranças trabalhistas, comunistas e socialistas717 que, unificados em torno de bandeiras nacionalistas e reformistas, buscavam fazer frente à interferência de grupos estrangeiros em setores estratégicos da economia nacional e discutir as bases do desenvolvimento brasileiro.

É importante salientar que as denúncias contra a influência estrangeira na economia e na política interna brasileira – “o imperialismo norte-americano” – já eram

interventor no comitê estadual, Oswaldo embarcou para URSS para o curso de capacitação política. Brasil Nunca Mais (BNM). Depoimento de Oswaldo José Vicente. DPS, 30/3/1965.

714 Esta corrente, que foi criada a partir da experiência do governo socialista de Josip Tito na Iugoslávia, foi considerada “traidora” por desejar uma linha política mais independente de Moscou e mais voltada para as questões nacionais.

715 Marco Aurélio Santana menciona a importância dos chamados “reformistas” ou “sindicaleiros” na mudança na linha sindical do PCB em 1952. Cf. SANTANA, Marco Aurélio. Trabalhadores e militância sindical: a relação partido/ sindicato/ classe no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro (1947- 1964). RAMALHO, José Ricardo e Marco Aurélio Santana (org.). Trabalho e tradição sindical: a

trajetória dos metalúrgicos. Rio de Janeiro: DPC&A, 2001. p. 177-178.

716 A entidade foi fundada em 5 de abril de 1954 no Distrito Federal por iniciativa do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN), com o objetivo de ampliar e organizar as lutas nacionalistas no país. A sua direção nacional contava com 70 membros do Distrito Federal e estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Pernambuco, Ceará, Piauí, Maranhão e Pará. A entidade foi fechada pelo presidente Juscelino Kubitschek através do Decreto nº 39.338, de 11 de junho de 1956. Liga da Emancipação Nacional (LEN) (verbete). In: ABREU, Alzira Alves de et al. (coords). Dicionário Histórico-Biográfico

Brasileiro. Rio de Janeiro: FGV, 2001.

717 Participavam da LEN fluminense: o vice-governador eleito pelo PTB no estado do Rio, Roberto Silveira (presidente); o deputado federal pelo PTB Aarão Steinbruck (presidente executivo); o vice prefeito eleito pelo PTN em Niterói, Wilson de Oliveira; o industrial Cristóvão Carreteiro; a presidente da AFF, Irene Vanderley; os líderes sindicais Almir Reis Neto (presidente do Sindicato dos Têxteis), Irineu José de Souza (presidente do Sindicato dos Operários Navais), Demistóclides Batista (presidente do Sindicato dos Ferroviários) e mais cerca de trinta membros. Cf. Imprensa Popular, 25/12/1954, p. 3.

feitas por comunistas. No início do segundo governo Vargas, as negociações capitaneadas pelo ministro do exterior João Neves da Fontoura, que era conhecido por suas convicções liberais e americanistas718, resultaram na composição da Comissão Mista (1951) Brasil- Estados Unidos e no Acordo Militar (1952), acarretaram protestos por parte dos comunistas que denunciavam a “transformação do Brasil em uma colônia americana” e conclamavam “todos os brasileiros sem distinção de classe, de crença ou de partido contra a escravização da nossa pátria”719 (ver anexo nº 3). Já o PTB, apesar de contar com lideranças identificadas com o nacionalismo e reformismo, só veio a incorporar o nacionalismo como uma bandeira prioritária dentro do partido a partir da Campanha do Petróleo e principalmente após o suicídio de Vargas720. Assim, a carta testamento deixada pelo presidente apontando os grupos internacionais que desejavam aumentar a sua influência no Brasil como um dos responsáveis por sua morte, cumpriu um papel fundamental na aliança entre comunistas e trabalhistasque buscaram a partir das bandeiras nacionalistas, encontrar formas de articulação:

(...) Vargas contribuía assim para criar, depois de morto, um fator de unidade entre as correntes políticas de base operária, algo que jamais fizera em vida. (...) Diante do suicídio, poucos lembrariam da ambiguidade do regime, que desde 1930 criava leis trabalhistas mas raramente garantia o seu cumprimento. O fato de que os novos valores estabelecidos pelo mínimo por Vargas somente entraram em vigor meses após a sua morte, foi completamente apagado da memória histórica. (...) A carta-testamento, ao mobilizar as massas getulistas, tornava-se ‘mais fácil a unidade entre comunistas e trabalhistas’, com

base no nacionalismo comum721.

A aliança entre comunistas e trabalhistas, no entanto, não era ausente de tensões. Além das diferenças doutrinárias e programáticas entre as duas siglas, o PCB, apesar

718

João Neves da Fontoura foi ministro das relações exteriores de 1951 a 1953, mas desde o governo de Eurico Dutra (1946-1950), já procurava estabelecer, junto com então ministro do exterior, Raul Fernandes, e com o embaixador norte-americano, Herschell Johnson, as bases para uma política externa de maior aproximação com os EUA. Devido ao seu protagonismo em negociações que resultaram na Comissão Mista (1951) e no Acordo Militar (1952) entre Brasil e EUA, João Neves foi apontado como um dos responsáveis pelo afastamento de elementos nacionalistas do segundo governo Vargas (1951- 1954), como o ministro da Guerra, general Estillac Leal. Para mais, ver: João Neves da Fontoura (verbete). In: ABREU, Alzira Alves de et al. (coords). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós-

Op. cit.; D’ARAÚJO, Maria Celina Soares. O segundo governo Vargas 1951-1954: democracia, partidos e crise política. São Paulo: Ática, 1992. p. 148-191 e GOMES, Ângela de Castro. Partido Trabalhista

Brasileiro (1945-1965): getulismo, trabalhismo, nacionalismo e reformas de base. In: FERREIRA, Jorge

et. al. Nacionalismo e reformismo radical (1945-1964). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. Vol.

2.

719 APERJ. DPS. Panfletos. 1944-1960.

720 ALMEIDA, Lucília de. PTB: do getulismo ao reformismo (1945-1964). Op. cit. p. 99.

721 FORTES, Alexandre. Sul em chamas. Revista Nossa História. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional: Vera Cruz, ago/2004. a.1. n.10. p.32.

das suas posturas centralizadoras – por vezes intransigentes – e da sua situação de ilegalidade, era um partido que tinha relativa influência junto à classe trabalhadora, enquanto o PTB foi durante um bom tempo considerado um partido que reunia dirigentes sindicais “pelegos” que tinham pouca ou nenhuma representação junto à mesma722. Os trabalhistas, em geral, eram vistos como intimamente ligados ao controle estatal e como hesitantes no que diz respeito à tomada de medidas que viessem a interferir significativamente nas bases da desigualdade brasileira, mesmo nos momentos em que estiveram à frente da máquina estatal e contavam com amplo apoio popular723. Por outro lado, o partido contava com todo o legado deixado por Vargas que iam desde as suas realizações na esfera trabalhista como – e talvez principalmente – a CLT, até o magnetismo da imagem política do presidente que foi positivada sobremaneira após a sua morte. Além disso, o PTB passou a contar com lideranças cada vez mais expressivas e mais afinadas com a linha “doutrinária reformista” que tinha Alberto Pasqualini como seu principal teórico e João Goulart e Leonel Brizola como expoentes de projeção nacional.

A passagem de João Goulart pelo Ministério do Trabalho, aliás, foi um capítulo importante para a “puxada de corda” à esquerda do PTB. Afinal, além de buscar estreitar o diálogo com os trabalhadores – inclusive comunistas – Jango tomou medidas