O termo dependência possui diversos sentidos de acordo com a área em que é aplicado. Hirschman (1958) foi o primeiro a tratar da dependência entre firmas, focando as cadeias de suprimento e as relações de suas partes no setor produtivo. Muito mais tarde, sua obra originaria os conceitos de dependência funcional e dependência produtiva (GUZMAN- CUEVAS; CÁCERES-CARRASCO; SORIANO, 2009), baseado nas aquisições e vendas de produtos e serviços entre empresas, seja em escala local, regional ou nacional, mas não antes das contribuições de contribuições paralelas como a teorização da cadeia de valor (PORTER, 1985) e o conceito de fluxo de valor (WORMACK; JONES, 1996).
Alinhando o tema ao âmbito das discussões da teoria dos sistemas aplicada ao estudo dos arranjos produtivos, é possível dizer que o conceito de dependência estrutural inclui a dependência funcional e a dependência produtiva. A dependência estrutural é um conceito discutido no âmbito dos sistemas produtivos, que soa como um termo geral frente aos termos específicos de dependências produtiva e funcional. Enquanto a dependência funcional se apoia na rede de veiculação do produto ao mercado, estritamente dimensionada no escopo geográfico da distribuição de produtos e serviços e relacionamento com clientes, a dependência produtiva está na cadeia de fornecimento de matéria-prima e outros recursos para a composição de um produto ou serviço final (GUZMAN-CUEVAS; CÁCERES- CARRASCO; SORIANO, 2009). Já a dependência estrutural é a composição dos dois tipos anteriores, e está atrelada às condições ambientais de estabelecimento de relações com outras unidades produtivas ou agentes econômicos, determinada por variáveis macroeconômicas e padrões da cultura regional.
A dependência estrutural é vista na sociologia como “correspondente, complementar e antiteticamente ao conceito de imperialismo” (IANNI, 1988, p. 202). De certa forma, é possível encontrar sob o conceito delimitado aqui de dependência estrutural elementos que se desdobram das relações políticas inter-regionais, assim como reflexos e resultados econômicos de seu perfil de desenvolvimento sócio-histórico. Contudo, a adesão passível de ser encontrada entre o conceito sociológico de dependência estrutural e aquele que margeia o estudo do equilíbrio das relações entre agentes econômicos em escopo regional está no âmbito macroeconômico. Enquanto a sociologia foca a dependência estrutural nas relações entre nações, o desenvolvimento sistêmico transpõe esse conceito para todo tipo de estrutura relacional. Assim como o conceito de Ianni (1988), a dependência estrutural para o desenvolvimento sistêmico se decompõe em diferentes dimensões. Sabendo que as relações
político-econômicas entre nações são também sistemas interagentes, a adequação ao estudo das relações no escopo regional é pertinente, principalmente ao se constatar que a variável regional pode conter diferentes escopos.
Do mesmo modo que adotar o termo dependência estrutural significa transpor conceitos macroeconômicos, é possível conceber seu alinhamento ao uso recorrente do termo equilíbrio estrutural (HEIDER, 1946; NEWCOMB, 1953). A teoria do equilíbrio estrutural foi concebida em meio a preceitos matemáticos complexos, e originou um sem número de outras teorias no campo da sociologia e economia (WASSERMAN; FAUST, 1994), tendo sua aplicação mais significativa no campo das ciências comportamentais obtida por Harary (1959), baseando-se em Heider (1946). A partir de Harary (1959) foi possível alinhar a perspectiva qualitativa de dependência estrutural com os métodos matemáticos de verificação do equilíbrio estrutural. Subtraindo-se a questão epistemológica relacionada às duas formas de tratamento do objeto de pesquisa, há complementaridade entre os conceitos.
O conceito sistêmico de dependência estrutural expressa maior abrangência do que os conceitos enumerados até aqui. Na teoria dos sistemas, a dependência estrutural é vista como uma propriedade inerente a todo tipo de sistema. Tendo em vista que sistemas são estruturas de relações entre entidades conectadas com um propósito comum (ESPEJO, 1996), deriva-se a ideia de que cada agente conectado ao sistema depende da relação que estabelece com o meio. Essa dependência se estabelece no ato de relacionar-se com outro agente, dado pela necessidade ou conveniência de um ou de outro. A própria relação depende da pré-disposição dos agentes em se conectarem, o que significa dizer que se torna um pré-requisito para o estabelecimento de laços no interior do sistema. De igual teor, não há sistema sem dependência, já que toda interação gera certo grau de dependência (ainda que próximo do nulo) e que não há sistema sem interação. A dependência é tão natural em um sistema quanto a existência de relações. Capra (2002) observa que:
Não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento. Os animais dependem da fotossíntese das plantas para ter atendidas as suas necessidades energéticas; as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes; e todos juntos, vegetais, animais e microorganismos, regulam toda a biosfera e mantêm as condições propícias à preservação da vida. (CAPRA, 2002, p. 14)
Dessa forma, a dependência está presente na cadeia de relações de sistemas complexos como a biosfera, argumento corroborado por Lovelock (1991). Ocorre que, dentro do panorama de saciedade e conveniência que gera a interação, é possível que apenas um agente
no ambiente (tendo em conta que o ambiente é sempre limitado em suas múltiplas dimensões no âmbito interacional) dá conta de suprir ou saciar a sua necessidade. Quando somente uma conexão no ambiente poderia resolver a necessidade de um agente, seria pertinente dizer que essa relação possui dependência elevada de via única, ou seja, uma dos agentes é muito importante para o outro, mas a recíproca não é verdadeira na mesma intensidade. Esse tipo de situação equivale à percepção de desequilíbrio no estabelecimento de relações sistêmicas. Em um ambiente onde houvesse maior quantidade (e também diversidade) de agentes que pudessem saciar a necessidade do indivíduo foco, a relação estabelecida não sofreria de dependência acentuada sobre apenas um dos lados, uma vez que outras possibilidades estariam disponíveis no ambiente.
Esse caráter de dependência pode ser considerado a gênese do conceito de dependência estrutural interna, quando uma das entidades componentes do sistema mantem uma relação de dependência com outra por conta da impossibilidade de estabelecer o mesmo tipo de relação com outras entidades do mesmo ambiente, seja por limitações de ordem técnico-objetivas ou por conflitos comunicacionais (diferença de protocolos de comunicação ou de cultura local/institucional). Trata-se da transferência da ideia de dependência das relações para a contingência sistêmica, ainda que como mero artifício cognitivo para compreensão da realidade, uma vez que os sistemas de ordem econômico-social são abertos e não se encerram em si mesmos (BUCKLEY, 1971).
A ideia de dependência estrutural pode ser aplicada no âmbito interno das organizações (PARASHKEVOVA, 2009) ou da macroeconomia e das relações internacionais (CAPORASO, 1978). A gradação do escopo de aplicação do conceito está alinhada à perspectiva sistêmica, principalmente por seu caráter recursivo. Pode-se dizer que o conceito de dependência estrutural possui a mesma raiz em todos os âmbitos de sua aplicação. Respeitadas as questões relativas ao escopo de aplicação do conceito, é possível verificar o nível de dependência evidenciado nas relações estabelecidas entre agentes de um determinado arranjo.
O conceito de dependência no âmbito do estudo das relações entre agentes econômicos está presente no desenvolvimento de métodos analíticos estruturais como o MACTOR (GODET, 1993), o KSIM (KANE, 1972), o MICMAC (DUPERRIN; GODET, 1974) e a avaliação de modelos globais de interação e desenvolvimento de empresas (WANTY; FEDERWISH, 1969), vistos adiante no capítulo 2.5.
Na temática da SNA, é possível dizer que a dependência pode ser vista como um tipo de interdependência direcional, ou seja, onde há influência direta de apenas um indivíduo ou
relação sobre outro(a). É possível dizer que em redes sociais complexas, o caso mais comum não seria de dependência, mas de interdependência, tanto das relações quanto dos nós. Essa temática é abordada adiante no sub-tópico 2.9 e melhor desenvolvida entre as contribuições da pesquisa no capítulo 5.