Os modelos gerados sob a lógica do desenvolvimento sistêmico devem, para que haja manutenção de sua existência, ser flexíveis no que toca à sua estrutura de relações. Se uma das entidades conectadas ao todo sofrer um colapso natural – tendo em mente que nem sempre é possível prolongar o ciclo de vida organizacional – deve ser possível o rearranjo interno para a manutenção das funcionalidades que permitam a reprodutibilidade do sistema ao longo do tempo, de acordo com o princípio de autopoiesis (MATURANA; VARELA, 1991). Isso remonta à ideia de adaptação a novos contextos, o que inclui entre as premissas do desenvolvimento sistêmico a preservação da capacidade de adaptação dos modelos (HONADLE, 1999).
Entre os conceitos endógenos ao desenvolvimento sistêmico está o equilíbrio das relações entre agentes para redução da dependência estrutural interna do modelo produtivo. O conceito de dependência estrutural foi cunhado na sociologia, quando observadas as classes internas e externas que compõem o Estado Nacional (CARDOSO; FALLETO, 2004). Na economia, o conceito foi amplamente discutido no âmbito das relações entre países precocemente industrializados e aqueles considerados de industrialização tardia (CARDOSO DE MELLO, 1982), o que dimensionou uma divisão internacional do trabalho que concentrava as funções mais próximas da tecnologia de ponta no eixo do sistema e as demais funções na periferia (FURTADO, 2008). A ideia adaptada frente à dinâmica dos arranjos
produtivos é recuperada de forma mais objetiva, no âmbito das redes de organizações e outros agentes econômicos. Não se trata de abandonar os preceitos que a economia política desenhou para o tema, mas da necessária adequação ao nível organizacional. O conceito de dependência estrutural interna expressa o nível de importância que as relações entre os agentes de uma economia, arranjo produtivo ou segmento de mercado frente ao sistema consolidado.
Os tipos de arranjos produtivos e de estruturas de relações econômicas tendem a variar de acordo com a tipologia de redes (GUERRINI, 2005), e para as demais redes de relações econômicas há implicações que tangem a questões de cunho sociocultural e de desenvolvimento do sistema econômico local (CASTELLS, 1999). Esses modelos de estrutura variam entre dois grandes grupos, cuja tipologia advém de uma adaptação da Geografia, da Biologia e da Ecologia: modelos multinucleados e modelos mononucleados.
O surgimento dos arranjos produtivos mononucleados pode ser explicado, historicamente, pela necessidade que alguns nichos de mercado possuem de acumulação de capital para financiamento de pesquisas e desenvolvimento de meios de produção adequados para a viabilização da atuação de seus agentes. Segundo Dantas (2002), áreas como as telecomunicações, por exemplo, demandam investimentos altíssimos para implantação de redes e desenvolvimento de tecnologia compatível com a demanda do mercado. Essa é uma verdade presente não somente na moderna indústria de alta tecnologia, mas em outras que contribuíram historicamente para o desenvolvimento do sistema capitalista, talvez tendo encontrado seu modelo mais emblemático no desenvolvimento das estradas de ferro no século XIX (HADLEY, 2009). A ideia da corporação nesse primeiro momento está, enquanto entidade central de condução produtiva, diretamente ligada à ideia de concentração da posse dos meios de produção ou dos canais de acesso ao mercado (HOBSBAWN, 2006).
Modelos produtivos mononucleados tendem a possuir um número menor de relações internas entre os agentes, ao menos quando comparado com os modelos multinucleados (geralmente formado por redes multidirecionais). Essas relações se dão em mão única, ou seja, do menor para o maior, conforme mostrado na Figura 2.
O informacionalismo, termo que define o atual estágio do sistema capitalista, em que o produto cerne é a informação (LOJKINE, 2002), tem como principal característica o estabelecimento de novas redes produtivas, ampliadas pelos processos recorrentes de outsourcing, e pelo redimensionamento das redes já constituídas na fase industrial do capitalismo. Como salienta Castells (1999), é no informacionalismo que vemos o “modelo de redes multidirecionais posto em prática por empresas de pequeno e médio porte e o modelo de licenciamento e subcontratação de produção sob o controle de uma grande empresa”
(CASTELLS, 1999, p. 181). A constatação de Castells aponta para outro modelo distinto de arranjo econômico, anteriormente denominado como multinucleado.
FIGURA 2
Representação Geral do Modelo Produtivo Mononucleado Fonte: Adaptado de GANZERT (2010, p. 46)
As redes multidirecionais ou modelos multinucleados tendem a se estabelecer em arranjos produtivos regidos por diferentes núcleos de relacionamento com o mercado. Nesse tipo de rede, os relacionamentos entre os agentes participantes estabelecem arranjos de diferentes formas, com finalidades distintas. Por não haver concentração de importância sobre um único agente, ou seja, a evidência de um núcleo decisório distinto, e estando o poder político/normativo diluído na rede, ocorre a constatação de vários núcleos de decisão, determinando-se uma estrutura multinucleada. Sua representação gráfica genérica é dada pela Figura 3.
Para Schiller (2008), a inovação repousa sobre a necessidade de relações mais estreitas entre os agentes de um segmento, estabelecendo sistemas de inovação de alta efetividade. Diante da necessidade de mudança trazida pela competição entre players, “esses sistemas baseiam seu desenvolvimento em laços estreitos multidirecionais e complexos de interdependência entre atores que acarretam a constituição de redes de cooperação” (SCHILLER, 2008, p. 111).
FIGURA 3
Representação Geral do Modelo Produtivo Multinucleado Fonte: Adaptado de GANZERT (2010, p. 47)
Em modelos multinucleados, há notadamente o surgimento de uma maior quantidade de organizações concorrentes (SAXENIAN, 1994), por conta da fragmentação do mercado. Em mercados onde há maior parcela de participação em poder de um agente central, esse passa a se utilizar da capacidade de escala para redução de custos, tomada do mercado e diminuição do potencial de operação dos concorrentes diretos e indiretos. Em oposição ao modelo multinucleado, a presença da grande organização nuclear é a força motriz do sistema mononucleado. Suas relações alcançam, direta ou indiretamente, todas as unidades produtivas incluídas no sistema. Dessa forma, torna-se o grande referencial das demais unidades do sistema, tanto diante das especificações de produtos, processos e estruturas, quando diante da visualização do mercado. Seja em um cluster (concentração regional de empresas) ou em outro modelo de arranjo produtivo, as empresas que exercem a função de núcleo sistêmico carregam sobre si a responsabilidade da manutenção de todas as unidades conectadas a si. Dos arranjos produtivos mononucleados, chega-se à variante mais drástica da temática que é o mercado mononucleado. Apenas uma unidade central fornece a maior parte dos produtos de um determinado segmento. Significa aumento relativo da importância da organização central do sistema produtivo frente aos seus concorrentes, dada a amplitude de sua atuação no
mercado. Essa organização passa a influenciar de forma desmedida o nível de preços, o que não é interessante para o consumidor.
Nos mercados mononucleados, o consumidor é o grande prejudicado, por não possuir opções de mesmo nível técnico aos produtos oferecidos pelo agente central do mercado, uma vez que esse compete apoiado no volume operacional, possibilitando custos mais baixos com qualidade melhor. Muitas vezes, a diferença de custos não é repassada para a formação de preços, diante da possibilidade do agente central ditar o preço do mercado por não possui concorrentes aptos a equalizar, concorrencialmente, oferta e demanda a um preço mais baixo. Dessa forma, o poder de mercado do agente central tende a significar o poder de estabelecimento dos níveis médios de preços praticados.
O mercado mononucleado é um estágio futuro do modelo produtivo mononucleado. A concentração de capital para fins produtivos, aglutinando os recursos sobre um único agente sistêmico, desdobra-se em impedimentos para o estabelecimento de novos concorrentes de menor porte. Em sistemas mononucleados, a estrutura criada possui alto grau de dependência em relação ao agente central. Significa dizer que se por algum motivo a organização no núcleo do sistema entrar em colapso, há um risco elevado de todo o sistema ruir. Se apesar da dependência interna do arranjo produtivo houver agentes externos que compitam no mercado de forma relevante, é possível que haja substituição do agente em colapso. Entretanto, no âmbito interno do arranjo produtivo, é possível que os demais agentes de menor porte não consigam subsistir à crise do modelo. Os modelos multinucleados possuem dependência interna diminuída, em função da inexistência de um agente que concentre o poder decisório. O equilíbrio das relações estabelecidas entre os agentes de um arranjo produtivo regional sinaliza, segundo as premissas do desenvolvimento sistêmico, à constituição de modelos com reduzida dependência estrutural interna, menos susceptíveis ao colapso e mais propícios à manutenção sistêmica ao longo do tempo.
A complexidade dos arranjos socioeconômicos contemporâneos faz com que muitos dos recursos utilizados até o momento como ferramentas de análise de cenários se tornem obsoletas, abrindo terreno para a emergência de novos paradigmas, alguns deles correlacionados com temáticas já presentes há algum tempo na literatura econômica e administrativa, tal qual a Teoria dos Sistemas e a Cibernética (BERTALANFFY, 1975; WIENER, 1948). Entre esses novos conjuntos de ferramentas se encontra uma ainda embrionária vertente da SNA (Social Networks Analysis), chamada de Análise de Redes Multidimensionais (CONTRACTOR, 2009). O arcabouço teórico em redes multidimensionais
está ainda pouco desenvolvido, tanto no âmbito das disciplinas de cunho social quanto entre as disciplinas de maior adesão ao modelo cartesiano de ciência.