A análise pelo uso de uma matriz estrutural é um recurso utilizado desde Duperrin e Godet (1974), primeiramente empregada enquanto método operacional para elencar os elementos de um sistema. Foi apresentado como um modelo preditivo sobre o avanço da energia nuclear na França, e a partir de então passou a ser utilizado como método analítico de cunho sistêmico no âmbito de diversas áreas da ciência. A ideia não é essencialmente nova, visto que diversas alegorias matriciais têm sido utilizadas para determinação descritiva de
sistemas desde os clássicos matemáticos Gauss e Leibniz (RUDMAN, 2007). O grande avanço do trabalho de Duperrin e Godet (1974) foi a introdução do método MICMAC, que permite o planejamento estratégico por análise de variáveis (VERGARA, 2007).
O método MICMAC – Matriz de Impacto Cruzado e Multiplicação Aplicada – permite a identificação de variáveis internas e externas ao sistema analisado, baseando-se no princípio de interação entre as variáveis. Através do MICMAC é possível rastrear a incidência de dependência entre diferentes dimensões de análise do sistema (consideradas como variáveis no âmbito de sua aplicação). O método inicialmente apresentado em Duperrin e Godet (1974) é explicado em Godet (1985) e sua matriz de impacto delimitada conforme o modelo de construção matricial da Figura 12.
O conceito de avaliação de Godet (1985), segundo Buarque (2003), leva em conta a parametrização de quadrantes denominada pela Figura 6, onde se percebem as premissas que embasam toda a metodologia de análise usada em Duperrin e Godet (1974). O método empregado busca a viabilização da prospectiva da ação futura, tema amplamente discutido por Godet (1993), que tange à busca de ampliação da previsibilidade de contextos futuros através da adoção de modelos estruturais.
A matriz de impacto delimitada na Figura 12 enseja a instrumentalização do conceito descrito na Figura 13, ou seja, no Diagrama de Motricidade-Dependência de Godet (1985). As linhas da matriz de impacto representam o poder de influência das variáveis, umas sobre as outras, enquanto as colunas determinam o grau de dependência de uma variável em relação à outra. O esquema permite maior compreensão das relações internas do sistema-objeto, permitindo uma hierarquização das variáveis (ou agentes sistêmicos) pela análise das relações estabelecidas no meio (BUARQUE, 2003). Pode-se dizer que a abordagem é sistêmica, pois está em consonância com os preceitos do pensamento sistêmico e objetiva a síntese integrativa em função de análises de relações entre unidades comuns do sistema, privilegiando a visão do todo.
Segundo Buarque (2003):
Por meio da utilização de uma matriz quadrada (variável/variável) – cruzamento de todas as variáveis entre si -, é possível dar pesos de influenciação de cada uma sobre todas as outras, expressando, aproximadamente, a intensidade diferenciada de influência delas e as relações de causalidade. Mediante a soma das linhas – adição de todas as influências individualizadas de cada variável –, chega-se a um resultado que representa o poder de influência delas sobre o sistema. (BUARQUE, 2003, p. 51)
FIGURA 12
Matriz de Análise Estrutural de Impacto de Influência e de Dependência Variável/Variável Fonte: Godet (1985) apud Buarque (2003, p. 52)
O diagrama de motricidade e dependência de Godet (1985) mostra que aquelas variáveis identificadas com acentuada dependência e alto grau de influenciação são as chamadas variáveis de ligação. As de alta influenciação e baixa dependência são consideradas variáveis explicativas, enquanto as variáveis autônomas são aquelas que denotam baixa influenciação e baixa dependência. As variáveis que apresentam baixo grau de influência e alto grau de dependência são denominadas de resultado.
No sentido estrito das variáveis atreladas à interação entre os agentes de determinado sistema, é possível dizer que a MICMAC é na verdade uma ferramenta analítica de variáveis de interação, mas não compreende o papel desempenhado pelos atores ou agente sistêmicos. Para tal, lança-se mão de outra ferramenta, chamada MACTOR – Matriz de Alianças e Conflitos, Táticas, Objetivos e Recomendações.
FIGURA 13
Diagrama de Motricidade-Dependência Fonte: Godet (1985) apud Buarque (2003)
Essa ferramenta permite analisar a posição dos atores sociais a partir de sua capacidade de influência sobre o sistema como um todo. É possível ainda estabelecer a capacidade de influência de cada um dos atores sobre as variáveis a partir do cruzamento das matrizes de análise estrutural variável/variável e ator/ator. A Figura 14 ilustra o formato da matriz estrutural ator/ator, conforme sua concepção por Godet (1985).
Godet (1985) ainda garante que a correta identificação das incidências de influência e dependência identificadas no momento presente pode mostrar muito sobre o futuro de um determinado arranjo social ou econômico, tendo em vista que será delimitado um panorama de partida que, sob a dinâmica de interação entre atores, tenderá a estabelecer um novo comportamento passível de ser reproduzido pelas mesmas matrizes em momentos posteriores. A análise de momentos diferenciados, dentro das devidas considerações de pertinência estatísticas, poderia identificar uma tendência de reformulação das relações e reformulação de variáveis para o sistema como um todo (GODET, 1993).
FIGURA 14
Matriz de Análise Estrutural de Impacto de Influência e de Dependência Variável/Variável Fonte: Godet (1985) apud Buarque (2003)
Buarque (2003) categoriza as técnicas desenvolvidas por Godet (1985, 1993) e Duperrin e Godet (1974) como técnicas de construção de cenários, definindo-as como “um conjunto de técnicas e processos de sistematização e organização de informações e hipóteses como forma de análise das probabilidades de comportamentos futuros e de organização e teste da criatividade e das percepções subjetivas” (BUARQUE, 2003, p. 50). Partindo da definição do autor, pode-se dizer que os métodos de análise estrutural de Godet (1985, 1993) possuirão um padrão de complexidade ancorado na diversificação das dimensões de análise do cenário real. Enquanto abstração da realidade, não abordará a totalidade das dimensões passíveis de serem observadas no mundo real, mas aquelas que possuem maior significância para a correta interpretação da dinâmica sistêmica.