Antes da apresentação do conceito de equilíbrio no âmbito das relações sistêmicas produtivas no escopo regional, é necessária a recuperação do conceito de base econômica, que explica as relações causais do processo de desenvolvimento de uma região pela divisão de sua atividade econômica em dois tipos, endógena e exógena (ISARD, 1965 apud SZAJNOWSKA-WYSOCKA, 2009, p. 76). Nesse contexto, as atividades de exportação desempenham papel fundamental no desenvolvimento de uma demanda externa que estimule a produção local e desenvolva a economia interna como um todo. Os setores envolvidos em atividades de exportação iniciariam, em teoria, um mecanismo de multiplicação desenvolvimentista através das relações de cooperação no intuito de saciar a demanda externa. Dessa forma, fatores endógenos serão reforçados por conta de fatores exógenos (relacionados à exportação), estimulando assim elementos da economia interna (MALECKI, 1997). Segundo Malecki (1997), a teoria das bases econômicas orienta que o governo local deveria propor ações que estimulassem investimentos privados em prol do desenvolvimento de uma matriz de abastecimento externo em vias de estimular os setores econômicos internos. Nesse ponto, há confluência com a teoria de Ávila (2006), desde que haja retornos do investimento no âmbito do desenvolvimento da comunidade local sob as diversas dimensões associadas ao conceito. Segundo o autor:
esse tipo de investimento uma vez iniciado nunca mais poderá ser interrompido, não importando se por consórcios de iniciativas e esforços de agentes externos e internos ou elevação da capacidade da auto-suficiência de permanente conquista pelos próprios agentes internos. (ÁVILA, 2006, p. 135)
A ideia de base econômica está associada diretamente à noção de que há uma relação estreita entre a produção local e o ambiente externo como um todo. Para Souza (1980), “a teoria mais simples para explicar essas relações é a teoria da base econômica, que pretende estudar e avaliar os impactos dos fluxos de mercadorias e de serviços entre a região e o resto do mundo” (SOUZA, 1980, p. 117). Dessa forma, há uma relação direta entre a situação macroeconômica no ambiente externo e o potencial de desenvolvimento de uma determinada localidade, sugerindo-se a orientação dos investimentos para saciar as necessidades de exportação. Nessa dinâmica “O setor básico será o que apresentará maior dinamismo de crescimento e o setor de mercado local terá seu crescimento limitado pela distribuição interna da renda e pelas interdependências que poderão criar-se entre as exportações e as atividades de mercado interno” (SOUZA, 1985, p. 118). Dada à interdependência evidenciada, segundo Lane (1977), torna-se apropriado chamar o setor exógeno (mais amplo do que apenas as exportações) de setor básico da economia, tal qual um ambiente condicionador das dinâmicas endógenas. Essa relação se dá até o estabelecimento da geração de renda interna com certo grau de dependência das atividades desempenhadas no âmbito da economia exógena (LANE, 1977). Entretanto, não se pode reduzir a teoria do desenvolvimento regional à sua intersecção com a teoria da base econômica, pois não há similaridade na explicação de importantes fenômenos do desenvolvimento. Segundo Schwartzman (1973), “as exportações não podem ser consideradas como única fonte de variação no emprego (e na renda)” (SCHWARTZMAN, 1973, p. 10). Ainda assim, há influência direta do meio externo sobre os desdobramentos econômicos internos.
Sabendo que o desenvolvimento local está ancorado, pela teoria da base econômica, aos desdobramentos da macroeconomia, é possível dizer que não há completa independência das economias locais do contexto global. A postulação da interdependência na teoria da base econômica orientou uma série de desdobramentos teóricos, como a ideia de dependência econômica periférica, presente nas obras de Furtado (1956) e Cardoso de Mello (1982).
A ideia de dependência está atrelada ao conceito de equilíbrio, pois um sistema equilibrado sugere a interdependência entre fatores sistêmicos que se estabilizam em uma determinada configuração estrutural ou dentro de uma configuração dinâmica de equilíbrio
estrutural (ESPEJO et al., 1996). Entretanto, o conceito de equilíbrio tem sido definido de diversas formas pela literatura, uma vez que sua aplicabilidade é multidisciplinar. Uma vez que cada área da ciência tem seu próprio conceito de equilíbrio, deve-se ter claro que o equilíbrio a ser tratado nas relações entre agentes econômicos é o equilíbrio econômico.
O conceito de equilíbrio econômico surgiu com Quesnay (1759), numa tentativa de esquematizar as relações entre as diferentes classes econômicas e os diversos setores da sociedade, tornando-se um referencial para todos os economistas fisiocratas. Smith (1776) desenvolveu melhor o conceito chegando ao modelo clássico de equilíbrio de mercado, que evolui acompanhando os desdobramentos da ciência econômica até os dias de hoje, onde se contemplam os complexos modelos de equilíbrio geral de Krugman (1997).
Paul Krugman desenvolveu o conceito de equilíbrio em diversas situações. Em Krugman e Obstfeld (2005), por exemplo, determinou-se a condição de arbitragem espacial, definindo que sendo o preço do bem no local j e o preço do bem no local i, sabendo que ‘ é o custo de transporte do bem P do local j para o local i, a garantia de homogeneidade dos preços nos dois locais é expressa pela condição − ≤ ‘ (KRUGMAN; OBSTFELD, 2005). Esse conceito de equilíbrio de preços é também importante para a determinação da potencialidade de competição entre produtos externos em um sistema econômico regional.
Outras aplicações da ideia de equilíbrio ganharam destaque no âmbito da economia, como o conceito de equilíbrio de Nash (1950, 1951), que postula sua evidência quando, dado um conjunto de estratégias, nenhuma alteração unilateral seja rentável ao jogador. Ainda no âmbito da teoria dos jogos aplicada à economia, o conceito de equilíbrio correlacionado de Aumann (1974, 1987) foi reconhecido com o prêmio Nobel de economia em 2005. O equilíbrio correlacionado é um conceito mais amplo que o equilíbrio de Nash, sob o qual é possível a postulação de equilíbrios múltiplos e alguns jogos (AUMANN, 1987).
No âmbito das relações entre agentes em sistemas econômicos locais e regionais, principalmente no que tange à temática proposta neste trabalho, a aplicação do conceito de equilíbrio mais importante se dá na influência e dependência de um elemento frente a outro no contexto sistêmico. Como contribuição a essa temática, pode-se observar a teoria do equilíbrio estrutural de Heider (1946). A partir da psicologia cognitiva, Heider (1946) postula que o equilíbrio estrutural é um estado para o qual se observam relações sistêmicas entre diversos elementos que partem de um grau de instabilidade nas relações estabelecidas. Segundo o exemplo de Soczka (2005):
Seja uma díade composta por p e o entre os quais é estabelecida uma relação que pode assumir um de dois estados: positivo (L+) ou negativo (L-). A hipótese de Heider (1946) é a de que a) existe um estado de equilíbrio se uma entidade possui o mesmo carácter dinâmico em todos os sentidos ou seja, pL(+)o ou pL(-)o para qualquer L; b) existe um estado de equilíbrio se todas as partes da unidade têm o mesmo carácter dinâmico ( todas positivas ou todas negativas) e se entidades com diferentes traços dinâmicos se encontrarem segregadas uma da outra; c) se não existir um estado de equilíbrio, desenvolver-se-ão forças no sentido de o estabelecer : ou mudarão os traços dinâmicos ou mudarão as unidades de relação mediante comportamentos ou restruturações cognitivas. (SOCZKA, 2005, p. 11)
Por Heider (1946), o equilíbrio nas relações entre unidades sociais somente poderá ser verificado se analisadas as bases cognitivas que elucidam a percepção sobre o desenvolvimento da relação entre dois entes sociais. Heider (1946) deu origem a uma série de desdobramentos no campo da Análise de Redes Sociais. No âmbito da SNA (Social Networks Analysis) enquanto método analítico de relações constituídas entre indivíduos de um sistema social, o equilíbrio estrutural de Heider pode ser estudado desde que observada a necessidade de adendos instrumentais que categorizem os estados da relação entre díades.
Por fim, o equilíbrio das relações entre agentes econômicos no âmbito dos arranjos produtivos estabelecidos em nível regional tange às diversas formas de equilíbrio elucidadas neste capítulo. Preocupa-se sob a abordagem do presente trabalho em identificar o equilíbrio aos moldes da definição do desenvolvimento sistêmico. Segundo Martinelli e Joyal (2004), o desenvolvimento sistêmico passa pela evolução equilibrada do padrão de vida das pessoas em diversas dimensões de análise, seja sob critérios econômicos, sociais, ambientais e educacionais (MARTINELLI; JOYAL, 2004). A princípio, a noção de equilíbrio não se esgota na ideia de crescimento uniforme das variáveis incluídas no conceito de desenvolvimento, mas na representação das relações de proporção entre cada uma das variáveis consideradas, chegando a um padrão ideal – e equilibrado – de sua constituição. Significa dizer que o equilíbrio sistêmico não é, necessariamente, regido pela uniformidade das variáveis concernentes à temática de desenvolvimento. Pelo contrário. Dadas as características do meio, algumas variáveis terão maior relevância em um momento e, possivelmente, menor relevância em outro. Dessa forma, o tipo de equilíbrio observado em sistemas de interação econômica em escopo regional é típico de um encadeamento dinâmico e poucas vezes linear de variáveis regidas por questões subjetivas de baixa previsibilidade. Diante da percepção de volatilidade comportamental dos atores atuantes e das variáveis a eles relacionados, ainda assim é possível enunciar a possibilidade de ocorrência do equilíbrio, mas de uma forma mais ampla, conforme parcialmente enunciado por Paiva (2001), em que o equilíbrio é tido como um “estado no qual não há tendência de se mover para longe de um
determinado padrão de comportamento” (PAIVA, 2001, 89). Essa assertiva somente far-se-á válida desde que observado a priori que sua aplicação se dá apenas na observação das relações na perspectiva macro, pois os padrões de comportamento individuais tendem a se alterar conforme a influência do meio.
Para a Economia é comum que o conceito de equilíbrio seja tratado sob a formação de modelos de relacionamentos entre agentes econômicos. Sob o olhar econômico, produtores são considerados envolvidos no desenvolvimento de atividades que gerem algum tipo de produto, que pode ser parte integrante de outro produto ou colocado à disposição da sociedade como um produto de consumo final. No campo da produção, a lógica de relacionamentos entre os diferentes agentes envolvidos na obtenção de um produto, de sua matéria-prima mais básica ao consumidor final, é estudada no campo das cadeias de suprimento, ou supply chains (NAGURNEY; DONG, ZHANG, 2002).
As redes de fornecimentos são, na verdade, redes econômicas. A condição de equilíbrio para os estudos de supply chains também levam em conta o pleno aproveitamento dos recursos estabelecidos em uma determinada estrutura de rede, assim como é considerado nos modelos econômicos que não se valem da teoria de redes. A Figura 15 expressa o equilíbrio de uma cadeia de suprimento, de acordo com Nagurney, Dong e Zhang (2002).
FIGURA 15
A estrutura de rede de uma cadeia de suprimento em equilíbrio Fonte: Nagurney, Dong e Zhang (2002, p. 283)
Para que seja considerada em equilíbrio, a estrutura denotada pela Figura 15 deverá assumir um determinado comportamento produtivo, no qual a quantidade produzida menos a rejeitada por i deverá ser igual a toda a quantidade embarcada para seus revendedores. Ainda, na condição de equilíbrio, o produtor i determinará sua quantidade produtiva levando em conta um cenário competitivo de comportamento não-cooperativo e considerando o ponto otimizado de produção de seus concorrentes (COURNOT, 1897; NASH, 1950; 1951). No modelo de equilíbrio de Nagurney, Dong e Zhang (2002), ainda é possível dizer que os consumidores do mercado de demanda k compram produtos do revendedor j, e os preços que ele cobra mais os custos de transação não deverão exceder o preço que os consumidores estão dispostos a pagar pelo produto. Além disso, em equilíbrio, esse preço deve garantir que não haja escassez de demanda ou de oferta, ou seja, todos os produtos produzidos são absorvidos pelos mercados de demanda. Essa observação está em sintonia com o conceito de equilíbrio econômico de Neumann (1945), mas considera a estrutura de relações de fornecimento como um todo, gerando um novo conceito baseado na disposição estrutural dos agentes econômicos. Sob o conceito de Nagurney, Dong e Zhang (2002), percebe-se que em supply chains, o equilíbrio é tido como um estado delimitado por condições específicas em que a estrutura de relações produtivas é dada de forma que corrobore o conceito de equilíbrio econômico. Entretanto, a análise de supply chains, por maiores que sejam os esforços de comparação com outros temas relacionados com a economia, possui uma amplitude de tratamento limitada ao escopo dos recursos produtivos. Muitos intentos têm tentado integrar a área ambiental na dinâmica de supply chains, tal qual relatam Lamming e Hampson (1996). Ainda é possível ver a preocupação de integração entre as dimensões produtiva e ambiental em diversas metodologias de tratamento das cadeias de fornecimento com enfoque de preservação dos recursos ambientais, como visto em Beamon (1999) e em Handfield, Sroufe e Walton (2005). Entretanto, nenhuma dessas aplicações trata da integração entre cenário econômico e ambiental enquanto variáveis interdependentes em uma lógica multidimensional de mensuração empírica. Na verdade, os esquemas de gestão delimitados em prol de melhor gerir os impactos ambientais, ainda que se concentrem em conceitos integrados, não possuem ferramentas genuinamente sistêmicas que permitam avaliar os impactos de forma multidimensional. Assim, o equilíbrio econômico, enquanto plena utilização dos recursos, não encontra intersecção com o equilíbrio ambiental nas ferramentas desenvolvidas, e quando o faz não o significa de forma integrada.
A abordagem sistêmica do equilíbrio não permite trata-lo apenas como um artigo de caráter econômico, mas sob um contexto mais amplo. A plena utilização dos recursos não
significa nada, para o pensamento sistêmico, se descolada do contexto social, ambiental e político de onde ela ocorre. No que tange ao desenvolvimento, enquanto progressão contínua no tempo das modificações de algum determinado objeto em estudo, consistindo em adaptações contextuais ao meio sob melhoria de seus mecanismos de interação com esse, é possível dizer que o conceito de equilíbrio encontra uma forma ainda mais peculiar de abordagem, considerando algumas componentes específicas e as relações passíveis de serem mensuradas entre elas. O tópico a seguir tenta recuperar o conceito de Desenvolvimento Local e Regional Equilibrado, sob as premissas daquilo que tem sido comum chamar de Desenvolvimento Sistêmico ou Pensamento Sistêmico aplicado ao Desenvolvimento Local.