Quando se questiona a forma como devemos nos portar perante os animais, é possível dividir quatro diferentes posturas.
A primeira é a do total desprezo. Em síntese, como apenas o ser humano é que importa no mundo, todos os demais seres vivos não têm qualquer relevo e podemos tratá-los da forma como bem entendemos.
258NACONECY, Carlos. Ética e Animais: um guia de argumentação filosófica. Porto Alegre: PUCRS,
2014, pp. 58/59.
259 A Constituição do Equador, vigente desde 2008, parece ter adotado uma visão ecocêntrica, ao atri-
buir à natureza a qualidade de sujeito de direitos. Veja-se, a propósito, os artigos 71 e 72: Art. 71.- La naturaleza o Pacha Mama, donde se reproduce y realiza la vida, tiene derecho a que se respete inte- gralmente su existencia y el mantenimiento y regeneración de sus ciclos vitales, estructura, funciones y procesos evolutivos. Toda persona, comunidad, pueblo o nacionalidad podrá exigir a la autoridad pública el cumplimiento de los derechos de la naturaleza. Para aplicar e interpretar estos derechos se observaran los principios establecidos en la Constitución, en lo que proceda. El Estado incentivará a las personas naturales y jurídicas, y a los colectivos, para que protejan la naturaleza, y promoverá el respeto a todos los elementos que forman un ecosistema. Art. 72.- La naturaleza tiene derecho a la restauración. Esta restauración será independiente de la obligación que tienen el Estado y las personas naturales o jurídicas de Indemnizar a los individuos y colectivos que dependan de los sistemas naturales afectados. En los casos de impacto ambiental grave o permanente, incluidos los ocasionados por la explotación de los recursos naturales no renovables, el Estado establecerá los mecanismos más efica- ces para alcanzar la restauración, y adoptará las medidas adecuadas para eliminar o mitigar las con- secuencias ambientales nocivas. Disponível em: < http://www.asambleanacional.gov.ec/documen- tos/constitucion_de_bolsillo.pdf>. Acessado em 23/01/2016.
A segunda maneira continua a ter o homem como único ser vivo relevante no mundo, estando os demais seres vivos à disposição dele. Ocorre que, por duas razões diferentes, temos de ter compaixão com os animais. A primeira razão é o próprio ho- mem, ou seja, caso tratemos os animais com crueldade, essa falta de compaixão in- fluenciará a conduta do próprio ser humano em relação aos seus semelhantes. Há, no entanto, quem defenda um tratamento compassivo para com os animais tendo por fundamento os próprios animais.
As duas primeiras formas de tratar os animais, em verdade, não diferem muito uma da outra e, no fundo, ambas apenas levam em consideração o ser humano.
Buscando observar os interesses dos animais, surgem duas novas correntes: bem-estar animal e Direitos Animais.
A doutrina do bem-estar animal, também chamada de bem-estarista ou prote- cionista, defende que os animais devem ter um tratamento humanitário em razão de possuírem determinadas características, tais como senciência, que não podem ser ignoradas pelo ser humano. Assim, o homem pode utilizar os animais para suas pró- prias (humanas) finalidades, desde que eles sejam bem tratados e não lhes seja im- posto sofrimento desnecessário260. Frise-se, portanto, a teoria protecionista condena
o abuso dos animais, mas não o uso.
No campo jurídico, um exemplo de uma norma de cunho protecionista é a Lei 10.519/02, que regulamentou os rodeios.
Há, por fim, os defensores dos Direitos Animais, também conhecidos como abolicionistas. Para essa corrente, é incompatível a atribuição de dignidade a um ser, caso este ser possa ser instrumentalizado por outro. Trata-se, no fundo, da adaptação do conceito kantiano da dignidade para além do ser humano. Reconhece-se não ser suficiente a filosofia do bem-estar animal, que, em verdade, ainda os coisifica, sendo necessário que seus interesses (mormente vida e liberdade) sejam protegidos através do sistema do Direito. Dessa forma, busca-se impedir que o ser humano explore vidas
260Daniel Braga Lourenço critica as expressões utilizadas pela teoria protecionista que arrimam a ins-
trumentalização dos animais pelo ser humano: os conceitos de “violência injustificada”, “sofrimento cruel”, “abate humanitário”, “sofrimento desnecessário”, entre outros, traduzem realidades paradoxais e de conteúdo vago ou indeterminado. Exemplificativamente, termos que a expressão “sofrimento des- necessário” traz insitamente uma contradição interna, na medida em que admitiria, a contrario sensu, a noção de “sofrimento necessário”, algo extremamente difícil de ser fundamentado eticamente. (LOU- RENÇO, Daniel Braga. Direito dos Animais. Fundamentação e Novas Perspectivas. Porto Alegre: Ser- gio Antonio Fabris, 2008, p. 530).
sencientes e dotadas de interesses próprios. A teoria abolicionista não condena ape- nas o abuso, mas como também o uso.
No campo jurídico, um exemplo de uma norma de cunho abolicionista é o art. 21 da Lei Paulista n. 11.977/05261 (Código de Proteção aos Animais do Estado), que
não regulamentou a utilização de animais em circos, mas sim a proibiu.
Enquanto a doutrina protecionista é mais palatável, a teoria dos Direitos Ani- mais recebe várias objeções. Muitas delas já foram rebatidas no corpo desse trabalho, tais como a suposta incoerência na desconsideração moral das plantas e a suposta inexistência de características nos animais, tais como sensibilidade, consciência e ra- cionalidade (os dois últimos, por evidente, em grau mais primitivo quando comparados aos humanos). Diversos outros óbices levantados contra a concessão dos direitos aos animais são afastados com a análise dos chamados casos marginais. Se negamos
261A referida lei foi mutilada pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo que, em liminar de ADIN
proposta pela Federação da Agricultura do Estado de São Paulo, suspendeu, em 2005, diversos de seus dispositivos. Passada uma década, não houve julgamento definitivo da ADIN. Confira-se a ementa do julgamento do agravo: Ação Direta de Inconstitucionalidade – Suspensão liminar dos artigos 2°, I, II, III, VII, 15, III, 16, II e VI, 18, I, II, e III, 19 e 22 da Lei n° 11.977, de 26 de agosto de 2005 - Ato normativo que instituiu o Código de Proteção aos animais do Estado - Presença dos pressupostos legais para deferimento do pedido de liminar - Agravo improvido. (Relator(a): Luiz Tâmbara; Comarca: Comarca não informada; Órgão julgador: Órgão Julgador Não identificado; Data de registro: 30/03/2006; Outros números: 1272750201). Alguns artigos suspensos bem demonstram como mesmo a doutrina do bem-estar animal ainda é bastante negligenciada. Veja-se: Artigo 1 - é vedado: I - ofender ou agredir fisicamente os animais, sujeitando-os a qualquer tipo de experiência, prática ou atividade capaz de causar-lhes sofrimento ou dano, bem como as que provoquem condições inaceitáveis de existência; II - manter animais em local desprovido de asseio ou que lhes impeça a movimentação, o descanso ou os privem de ar e luminosidade; III - obrigar os animais a trabalhos excessivos ou superi- ores às suas forças e a todo ato que resulte em sofrimento, para deles obter esforços que não se alcançariam senão com castigo; VII - enclausurar animais conjuntamente com outros que os molestem; Artigo 15 - É vedado nas atividades de tração animal e carga:III - fazer o animal descansar atrelado ao veículo, em aclive ou declive, ou sob o sol ou chuva; Artigo 16 - É vedado: II - conservar animais em- barcados por mais de 6 (seis) horas sem água e alimento, devendo as empresas de transporte provi- denciar as necessárias modificações em seu material, veículos e equipamentos, adequando-as às es- pécies animais transportadas, dentro de 6 (seis) meses a partir da publicação desta lei;VI - transportar animal fraco, doente, ferido ou que esteja com mais da metade do período gestacional, exceto para atendimento de urgência; Dos Animais Criados para Consumo Artigo 18 - É vedado: I - privar os ani- mais da liberdade de movimentos, impedindo-lhes aqueles próprios da espécie; II - submeter os animais a processos medicamentosos que levem à engorda ou crescimento artificiais; III - impor aos animais condições reprodutivas artificiais que desrespeitem seus respectivos ciclos biológicos naturais. Artigo 19 - É obrigatório em todos os matadouros, matadouros-frigoríficos e abatedouros, estabelecidos no Estado, o emprego de métodos científicos modernos de insensibilização aplicados antes da sangria por instrumentos de percussão mecânica, por processamento químico, choque elétrico (eletronarcose) ou, ainda, por outros métodos modernos que impeçam o abate cruel de qualquer tipo de animal desti- nado ao consumo. Parágrafo único - É vedado o uso de marreta e da picada de bulbo (choupa), bem como ferir ou mutilar os animais antes da insensibilização. Artigo 22 - São vedadas provas de rodeio e espetáculos similares que envolvam o uso de instrumentos que visem induzir o animal à realização de atividade ou comportamento que não se produziria naturalmente sem o emprego de artifícios. O governador Geraldo Alckmin pediu, na ADI 3595, perante o STF, que a Lei n. 11.977/05 seja decla- rada toda inconstitucional.
direitos aos animais porque eles não possuem linguagem, consciência ou raciocínio sofisticados, incapacidade de compreensão do significado de direitos ou porque eles não têm deveres, deveríamos, pela mesma lógica, negar direitos aos seres humanos que se encontram na mesma situação, tais como crianças em tenra idade, senis (aqui entendido o ser humano cujas capacidades intelectuais foram muito afetadas devido ao avanço da idade) e pessoas portadoras de graves enfermidades mentais.
Outro obstáculo levantado é a necessidade de primeiro se resolver os proble- mas humanos para se depois pensar na situação dos animais. Não é preciso muito para se perceber que isso é apenas uma forma de não debater a questão animal, perpetuando a forma como atualmente os tratamos. Sendo honestos, sabemos que sempre haverá problemas humanos a serem debatidos, mesmo porque alguns pare- cem ser insolúveis.