2. ENERJİ GÜVENLİĞİ
2.2. Enerji Arz Güvenliği Sağlayan Unsurlar
2.2.3. Ekonomiklik
A Lei do Habeas Data (Lei nº 9.507/1997207), logo no caput de seu artigo 1º, foi alvo de veto208 do Presidente da República. O caput do artigo 1º do referido projeto tinha a
206
SACCO NETO, Fernando. O habeas data, a Súmula 2 do STJ e o art. 8º, Parágrafo único, I, II e III, da Lei 9.507/1997. In: FUX, Luiz; NERY JR., Nelson; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim (Coords.). Processo e
Constituição: estudos em homenagem ao professor José Carlos Barbosa Moreira.
207 Lei decorrente do Projeto de Lei do Senado Federal nº 259/1989.
208 Além do caput do artigo 1º, a Lei nº 9.507/1997 (Lei do Habeas Data) teve outros artigos vetados pelo chefe do executivo nacional, entre eles os artigos 3º, parágrafo único, 5º e 6º.
seguinte redação: “Toda pessoa tem o direito de acesso a informações relativas à sua pessoa, constantes de registros ou banco de dados de entidades governamentais ou de caráter público”.
O confronto do caput do artigo 1º da citada lei, ora vetado, com o inciso LXXII, alínea “a”, parte final, do artigo 5º da Constituição Federal sugere que a pretensão do legislador infraconstitucional foi definir o que seria entidade de caráter público, conforme se verificará à frente.
A justificativa para o veto do Presidente da República aponta no sentido de que o dispositivo em comento contrariava o interesse público e, consequentemente, seria inconstitucional. É o que se extrai da mensagem enviada ao Presidente do Senado, em 12 de novembro de 1997, a seguir transcrita:
Razões do veto
Os preceitos desbordam sensivelmente a configuração constitucional do
habeas data, impondo obrigações aos entes governamentais ou de caráter
público sem qualquer respaldo na Carta Constitucional. A definição constitucional do habeas data é precisa, não permitindo a conformação pretendida nestes dispositivos.
Não é estabelecida, ademais, qualquer sorte de ressalva às hipóteses em que o sigilo afigura-se imprescindível à segurança do Estado e da sociedade, conforme determina a própria Constituição (art. 5°, XXXIII). [...].209
Pode-se dizer que a interpretação equivocada da doutrina contribuiu para o veto presidencial do caput do artigo 1º da Lei de Habeas Data na medida em que equiparou o direito geral à informação (artigo 5º, incisos XIV e XXXIII, da Constituição Federal) com a proteção à intimidade, como se aquele fosse a fonte material desta.
O veto também encontrou arrimo no Parecer nº SR-71210, emitido pela Advocacia Geral da União, em 06 de outubro de 1988, e publicado no Diário Oficial da União, em 11 de outubro de 1988, portanto, logo após a promulgação da Constituição Federal, e que tinha como interessado o Ministro Chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), cujo teor faz crer que o inciso LXXII deve ser interpretado à luz do inciso XXXIII.
209 BRASIl. Presidência da República. Mensagem nº 1.373. Brasília, DF. 12 nov. 1997. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/Mensagem_Veto/anterior_98/VEP-LEI-9507-1997.pdf>. Acesso em: 03 jun. 2013.
210 BRASIl. Presidência da República. Mensagem nº 1.373. Brasília, DF. 12 nov. 1997. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/Mensagem_Veto/anterior_98/VEP-LEI-9507-1997.pdf>. Acesso em: 03 jun. 2013.
O interesse do Ministro Chefe do SNI quanto ao Parecer SR-71 decorreu da Lei nº 4.341, de 18 de junho de 1964, que criou o Serviço Nacional e Informação, imunizando-o de prestar determinadas informações sobre as atividades do órgão oficial de investigação ante o argumento de zelar pelo interesse público e pela segurança nacional, pois sua atividade era de assessoramento da Presidência da República.
Assim, com a introdução do habeas data, temia-se que este instrumento colocasse em risco a segurança nacional, uma vez que permitia o exercício do direito de informação pelo indivíduo, consoante o comando do artigo 5º, inciso XXXIII, abordado anteriormente.
Por outro lado, na parte final do mesmo dispositivo (artigo 5º, inciso XXXIII) havia a observação de que nem todas as informações individuais deveriam ser disponibilizadas, em razão da cláusula que estabelecia o sigilo e para não colocar em risco o interesse coletivo.
Denota-se, assim, que havia um interesse do governo em compatibilizar o direito geral à informação com a proteção da segurança nacional mediante o sigilo de alguns dados coletados por seus órgãos de inteligência.
O habeas data, é bem verdade, foi uma resposta que o legislador constituinte deu ao regime ditatorial anterior à Carta da República de 1988, no sentido de introduzir no ordenamento constitucional mecanismo para o indivíduo se defender de eventuais abusos que os órgãos governamentais perpetravam contra a vida privada.
José Eduardo Nobre Matta211 também disserta a respeito:
É nesse clima de reconstrução de uma ordem democrática efetiva e ainda sob um certo temor do fantasma recente dos anos de ditadura militar que nasceu o habeas data. As discussões em torno da elaboração do novo instituto tinham por escopo muito mais a tutela do indivíduo contra os órgãos de informação do próprio Estado do que contra os bancos de dados de entes privados.
O habeas data, portanto, não era visto como instrumento constitucional de proteção da intimidade global, no sentido de preservar a privacidade do indivíduo diante dos avanços tecnológicos em marcha.
O Parecer nº SR-71 da Consultoria Geral da República surgiu da necessidade de o governo – antes de editar qualquer lei infraconstitucional específica para o habeas data ou até mesmo por ser esta garantia de aplicação imediata e, portanto, independente de lei
infraconstitucional que a regulamentasse – observar que determinados dados informatizados, coletados por alguns setores públicos (SNI, por exemplo), fossem mantidos em sigilo, a fim de preservar a segurança nacional.
Ainda, com o citado parecer, por meio do princípio da recepção, procurou-se demonstrar que há compatibilidade entre a lei ordinária infraconstitucional, que autoriza o sigilo de dados coletados pelo SNI, e a recém-promulgada Constituição Federal, que passou a garantir o acesso à informação pela via do habeas data, como pode ser observado em um dos trechos do referido enunciado, que se transcreve abaixo:
A nova Constituição do Brasil, ao proclamar o direito de acesso às informações existentes em órgãos públicos, emprestou-lhe caráter limitado e relativo, posto que exonerou o Estado do dever de prestá-las, nos casos estritos em que se tornasse imprescindível resguardar a segurança do Estado. A legislação concernente ao SNI, editada sob a vigência de anterior ordenamento constitucional, veiculou norma de sigilo fundada no caráter indisponível da segurança do Estado, objetivando tornar inacessíveis os elementos de informação naquele órgão existentes.
O conteúdo normativo desse regramento legal, como é facilmente perceptível, conforma-se por inteiro, aos postulados estabelecidos na Carta Política recém-promulgada.
Inexiste, consequentemente, no plano material, qualquer incompatibilidade entre a legislação infraconstitucional e a nova ordem jurídica plasmada no texto da Constituição de 1988.
Esse aspecto de extrema relevância jurídico-constitucional torna invocável e aplicável, à situação examinada, o princípio da recepção.
Portanto, quando o Projeto de Lei de Habeas Data, na disciplina do seu artigo 1º, caput, autorizava qualquer pessoa a ter acesso às informações coletadas pelo Poder Público, o Presidente da República entendeu ser inconstitucional tal dispositivo por violar o inciso XXXIII do artigo 5º da Constituição Federal, no que tange à preservação de dados sigilosos. Percebe-se, no entanto, que o veto presidencial seria desnecessário se no caput do artigo 1º o legislador infraconstitucional especificasse que as informações a que se facultaria o acesso eram apenas as de caráter pessoal.
4.1.1.2 Habeas data e Sistema de Conta Corrente de Pessoa Jurídica (SINCOR) da Receita