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Antes do advento da escrita, marco utilizado para inaugurar a idade antiga, o ser humano já utilizava os animais para fins próprios. O primeiro animal a ser domes- ticado e explorado economicamente foi a ovelha. Há aproximadamente 4 mil anos a maior parte dos animais domésticos já se encontrava incorporada a nossa cultura.

Utilizando-se como ponto de partida os pré-socráticos, tem-se que, segundo Hesíodo (século VIII a.C.), os animais devoravam a si mesmos porque não tinham senso do que fosse certo ou errado. Zeus deu esse senso apenas aos homens. Assim, entre os homens prevalecia a justiça e entre os animais a necessidade.

Pitágoras de Salmos (fl.c. 530 a.C.) perfilhava a concepção da imortalidade das almas e a possibilidade de transmigração delas, também denominada metempsicose. Segunda tal crença, a alma humana poderia animar o corpo de um ser que não o da espécie humana. Todas as criaturas, assim, são fundamentalmente a mesma espécie.

Pitágoras se valeu dessa crença para moldar sua forma de alimentação185. Divulga-

se que Pitágoras era um vegetariano convicto, inclusive porque comer animais estaria

muito próximo do canibalismo e era proibido186.

Protágoras de Abbera (c.490-421 a.C.), um dos mais conhecidos sofistas, for- mulou a ideia de que o homem era a medida de todas as coisas. Até hoje essa ideia é amplamente defendida.

Rompendo com o pensamento mítico (forma de explicar a realidade dita por verdadeira sem questionamento científico), os pré-socráticos enxergaram o ser hu- mano dentro da totalidade do cosmos. Entretanto, eles claramente buscaram distinguir o ser humano dos demais seres. A ideia de ordem natural das coisas começa a legi- timar a construção de uma hierarquia entre os seres vivos187.

Com Sócrates (c.470-399 a.C.), o homem passa ser o centro das investigações filosóficas. Seu pensamento é marcado pelo antropocentrismo. Os animais tinham o propósito de servir aos homens.

Em Platão (427-347 a.C.), também é possível enxergar a ideia de hierarquia assim como do aspecto mítico. Os animais e escravos teriam uma alma mortal e o homem teria uma alma imortal188.

Aristóteles (384-322 a.C.) acreditava haver uma hierarquia natural entre os ob- jetos inanimados, os seres vivos e o homem. Haveria três espécies de alma: a vege- tativa, a sensitiva e racional. Sendo o homem um animal racional, ele possuía primazia sobre as mulheres, crianças, bárbaros, escravos e animais. O pensamento aristoté- lico, com o dualismo do superior e inferior, acabava por legitimar a dominação de uns sobre outros189.

185(...) abstenção de carne, posto que, para Pitágoras, as almas humanas podiam reencarnar em formas

humanas (MATTÉI, Jean-François. Pitágoras e os Pitagóricos. Tradução: Constança Marcondes Cesar. São Paulo: Paulus, 2000, p. 32).

186BURGIERMAN, Denis Russo, Vegetarianismo. Coleção para saber mais. São Paulo: Abril, 2002, p.

26.

187Ver, também, Marilena Chaui, que define o período pré-socrático também como cosmológico. Uma

das principais características da cosmologia é a explicação racional e sistemática sobre a origem e transformação da natureza, da qual os seres humanos fazem parte. (...) o mundo está numa mudança continua, sem por isso perder sua forma, sua ordem e sua estabilidade (CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 13ª ed. São Paulo: Ática, 2005, p. 39).

188 LOURENÇO, Daniel Braga. Direito dos Animais. Fundamentação e Novas Perspectivas. Porto Ale-

gre: Sergio Antonio Fabris, 2008, p. 63.

189 LOURENÇO, Daniel Braga. Direito dos Animais. Fundamentação e Novas Perspectivas. Porto Ale-

Pelo pensamento aristotélico190, tudo na natureza possuía um propósito espe-

cífico, com um destino pré-determinado, tese incompatível com a Teoria da Evolução, cunhada séculos depois. Assim, o homem, por natureza, seria superior a mulher. De- terminadas pessoas eram escravas por natureza, sendo o melhor para elas se sub- meterem à autoridade de um mestre. Os animais não são sujeitos à razão, mas sim à impressão. Eles não tinham consciência daquilo que percebiam sensorialmente, sendo incapazes de raciocinar e não poderiam desenvolver emoções.

Para Aristóteles, os animais poderiam ser objeto das chamadas guerras justas: disso se deduz que a arte da guerra é de algum modo um meio natural de conquista: porque a arte da caça é apenas uma das suas partes, aquela da qual se serve o homem contra as feras ou contra outros homens que, destinados por sua natureza a

obedecer, recusam submeter-se; assim, a própria natureza desculpa a guerra191.

Para os estoicos, os animais não eram dotados de razão, sendo coisas postas a serviço do homem. Os estoicos, nesse particular, continuaram o pensamento aris- totélico.

Plutarco (século I d.C.) escreveu o texto “Do consumo da carne”, fazendo várias críticas a esse hábito. Segundo o pensador, o ser humano não é naturalmente carní- voro. Fundamenta seu raciocínio utilizando a estrutura do nosso corpo. Diz que o ho- mem não consegue matar animais sem o auxílio de instrumentos. Afirma que a carne não é comida naturalmente, pois precisa ser assada ou cozida e ainda incrementada

190Essa conclusão é extraída do livro A Política de Aristóteles. Veja-se: (...) A autoridade e a obediência

não só são coisas necessárias, mas ainda são coisas úteis. Alguns seres, ao nascer, se veem destina- dos a obedecer; outros a mandar. E formam, uns e outros, numerosas espécies. A autoridade é tanto mais alta quanto mais perfeitos são os que a ela se submetem. A que rege o homem, por exemplo, é superior àquela que rege o animal (...) A mesma relação existe entre o homem e os outros animais. A natureza foi mais pródiga para com o animal que vive sob o domínio do homem do que em relação à fera selvagem; e a todos os animais é útil viver sob a dependência do homem. Nela encontram eles a sua segurança. Os animais são machos e fêmeas. O macho é mais perfeito e governa. A fêmea o é menos, e obedece. A mesma lei se aplica naturalmente a todos os homens. Há na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo é em relação à alma, ou a fera ao homem; são os homens nos quais o emprego da força física é o melhor que deles se obtêm. Partindo dos nossos princípios, tais indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão; porque para eles, nada é mais fácil que obedecer. (...) A utilidade dos escravos é mais ou menos a dos animais domésticos: ajudam- nos com sua força física em nossas necessidades quotidianas (ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Nestor Silveira Chaves. São Paulo: Escala Educacional, 2006, pp. 15/16).

191 ARISTÓTELES. A Política. Tradução de Nestor Silveira Chaves. São Paulo: Escala Educacional,

com condimentos. É atribuída a ele uma frase muito utilizada na defesa do vegetaria- nismo: “a bem de um bocado de carne, privamos uma criatura inocente do sol e da luz, e daquela porção de vida e tempo que ela veio ao mundo desfrutar”192.

Em suma, os gregos consolidaram a noção de universo hierarquizado, tendo no topo, após os Deuses, o ser humano. Apenas nós poderíamos ter direitos subjeti- vos. Esse pensamento passou por diversas civilizações, chegando, praticamente in- cólume, até os dias de hoje.

Os romanos adotavam a dicotomia pessoa/coisa. Os animais eram, como ainda são, classificados como coisas.