No julgamento do HC 82424/RS, o Ministro Carlos Ayres Britto48, em seu voto,
destacou que:
Preconceito é discriminar, mas discriminar negativamente. É considerar al- guém subjacente, sub-raça, inferior. Não pode haver outro conceito jurídico de preconceito senão este: preconceito é inocular em um terceiro a pecha de inferior, como se o terceiro padecesse de um congênito déficit de dignidade ou cidadania.
O racismo, o sexismo e o especismo possuem, na sua base, fundamentos e funções muito semelhantes. O fundamento de tais comportamentos consiste na utili- zação de alguma característica arbitrária, no caso, raça, gênero e espécie, como
48O Ministro Carlos Ayres Britto, que já presidiu a Corte Suprema, aparenta compreender o preconceito
humano para com os demais animais. A propósito, em diversas entrevistas o Ministro informa ser ve- getariano. Em uma reportagem, afirma que pretende se tornar vegano, que é postura humana voltada a não instrumentalização dos animais contra os interesses deles. Ver: http://oglobo.globo.com/brasil/o- cardapio-de-ayres-britto-vegetariano-ha-mais-de-20-anos-5973287 acessado em 17/10/2015.
forma de se estabelecer um conceito pré-definido de inferioridade aos indivíduos por- tadores de tais traços. O etiquetamento da pecha de inferior não é destituída de fun- ção, tendo ele uma finalidade fundamental: legitimar a instrumentalização do indivíduo para fins alheios, desconsiderando seus interesses, justificando a dominação-explo- ração.
O preconceito, portanto, que sempre tem um conteúdo negativo, busca se ali- cerçar, para ganhar ares racionais, em características variantes e insignificantes dos indivíduos. A naturalização da opressão também se apresenta como um componente comum nas explorações perpetradas, inclusive impedindo um debate sério a respeito dela, porquanto se a utilização de um ser é natural, normal e necessária, não há por- que se discutir a moralidade dela.
A propósito, como observam Edson Borges, Carlos Alberto Medeiros e Jacques D’ Adesky49, o método de oposição binária, que reduz toda a complexidade humana
a simples termos opostos, tais como branco-negro, eu-outro e crente-ateu, foi utilizado para elevar a cultura europeia a patamares superiores, consubstanciando-a como a possuidora dos melhores costumes, mais civilidade e humanidade em cotejo com a de outros povos. Confira-se:
São conceitos que partiam das realizações técnicas e culturais dos europeus, assim como de seus valores e costumes (baseados, como já vimos, no etno- centrismo), para afirmar ao mundo a ideia de supremacia racial, geográfica e técnica do homem europeu, branco e cristão. Dessa maneira, tais conceitos não podem ser desvinculados de uma visão de classe (fortalecimento da bur- guesia industrial e financeira europeia), gênero (afirmação do poder do ho- mem e redução do papel da mulher ao espaço privado), império (a dominação colonial europeia sobre a maior parte do mundo) e “raça” (diversas teorias raciais afirmaram a superioridade do homem branco sobre todas os demais). O poder exercido com base nos preconceitos tem cor, sexo e acumulação eco- nômica (também não teria espécie?), conforme observa Heleieth Saffioti50:
(...) não há como se estabelecer tal igualdade entre mulheres negras e ho- mens brancos, pois estes são “superiores” pela cor de sua pele e pela textura de seus cabelos, sendo “superiores” também em razão de seu sexo. Na or- dem patriarcal do gênero, o branco encontra sua segunda vantagem. Caso seja rico, encontra sua terceira vantagem, o que mostra que o poder é macho, branco e, de preferência, heterossexual.
49BORGES, Edson; MEDEIROS, Carlos Alberto; D´ADESKY. Racismo, preconceito e intolerância. 6ª
ed. São Paulo: Atual, 2002, p. 12.
Em uma época de grande subjugação da mulher pelo homem, a noção de di- reitos dos animais já foi utilizada para ridicularizar o movimento feminista. Quando Mary Wollstonecraft51 (1759-1797) publicou “A Vindication of the Rights of Women”,
em 1792, Thomas Taylor, professor de filosofia de Cambridge, anonimamente (após descobriu-se ser ele o autor do texto) escreveu, em resumo, que se fossem levados a sério as pretensões feministas, elas também poderiam ser estendidas aos animais52.
Carol J. Adams53, na obra “a política sexual da carne”, que relaciona a domina-
ção masculina e o consumo na carne, faz a mesma constatação:
Além disso, uma visão de mundo ameaçada mostra a unidade dessa opres- são quando se conclui que as discussões a favor dos direitos da mulher leva- rão a discussões a favor dos direitos dos animais. Como reação ao movi- mento pelo voto feminino do século XIX, um homem disse: “E o que elas vão fazer em seguida, educar vacas? ” Era quase previsível que a primeira con- testação ao livro de Mary Wollstonecraft, A Vindication of the Rights of Wo- man tivesse como título A Vindication of the Rigths of Brutes (Uma reivindica- ção dos direitos das feras).
Vê- se, portanto, que não podemos subestimar nossa capacidade de estabele- cer critérios ideológicos justificadores de posições de conveniência. Sua função ideo- lógica é constatada quando não se consegue aferir a moralidade de determinadas práticas em relação ao outro, geradoras de benefícios para uns em detrimento da dignidade de outros. Dentro dessa perspectiva, urge a realização de uma reflexão de nossas justificativas para desconsiderarmos o sofrimento de outras espécies animais, precisamente porque já utilizamos argumentos semelhantes para tratarmos com indi- ferença seres da nossa própria espécie.
51 Mary Wollstonecraft foi uma escritora inglesa do século XVIII, que defendeu os direitos das mulheres.
Sua filha, Mary Shelley, também se tornou escritora, sendo a autora de Frankenstein. Tal personagem, característica pouco abordada pelos comentaristas da obra, era vegetariano. Carol Adams percebe que a Criatura inclui nos seus códigos morais os animais, mas se vê contrariada e profundamente frustrada quando procura ser incluída nos códigos morais da humanidade. Ela aprende que, apesar dos seus próprios padrões morais inclusivos, o círculo humano é tão contraído que exclui a ela e aos animais (ADAMS, Carl J. A política sexual da carne. A relação entre o carnivorismo e a dominação masculina. São Paulo: Alude, 2012, pp. 167).
52 LOURENÇO, Daniel Braga. Direito dos Animais. Fundamentação e Novas Perspectivas. Porto Ale-
gre: Sergio Antonio Fabris, 2008, p. 21.
53ADAMS, Carl J. A política sexual da carne. A relação entre o carnivorismo e a dominação masculina.
2 FUNDAMENTOS PARA A AMPLIAÇÃO DA COMUNIDADE MORAL
O ser humano, com o escopo de se diferenciar dos demais animais e também a fim de coisificá-los, vem buscando ao longo de sua história recente, estabelecer critérios que permitam fundamentar esses seus comportamentos. Assim, racionali- dade, cultura e consciência já foram e ainda são utilizados nesse sentido.
Além de ser questionável, mormente em razão da lógica da evolução, a pre- sença de tais atributos somente nos seres humanos, quando se tem por parâmetro os “casos marginais”, ou seja, seres humanos, tais como crianças de tenra idade e pes- soas portadoras de graves deficiências mentais, observa-se que, por não terem al- guns ou todos os atributos citados, a concessão de direitos apenas aos seres huma- nos e a negação deles aos animais, ao final, somente possui um critério (bastante arbitrário, mas, em verdade, seu desiderato é atrelado à conveniência humana): ani- mais humanos têm direitos porque são animais humanos e animais não humanos não têm direitos porque são animais não humanos.
Quando nos afastamos dos preconceitos oriundos do especismo e questiona- mos porque negamos alguns direitos aos animais ou a determinados animais, perce- bemos que existem sólidos argumentos a alicerçarem uma mudança de paradigma, com o fito de ampliarmos nossa comunidade moral com a inclusão de animais dentro de nossas preocupações éticas.