• Sonuç bulunamadı

NABUCCO Doğal Gaz Boru Hattı Güzergahı

Atualmente, existem diversos autores relacionados à Ética Animal, podendo ser destacados, entre outros, Peter Singer, Tom Regan, Gary L. Francione e Steven Wise. Não pode deixar de ser citado, também, o britânico Heny Stephens Salt que, em 1892, parece ter sido o primeiro a escrever um livro220 que, logo no seu título, associa a ideia

de direitos aos animais.

Peter Singer, o filósofo australiano, professor titular de bioética da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos da América, publicou, em 1975, o livro Animal Li- beration (Libertação Animal), emblemática obra que expôs a exploração animal per- petrada pelo ser humano. Singer, autor diversas outras relacionadas aos animais221,

é um dos principais responsáveis pelo movimento contemporâneo da libertação ani- mal. Dentre vários aspectos importantes do livro Libertação Animal para a causa ani- mal, pode ser destacado o acúmulo de informações, com fontes científicas, que raci- onalmente demonstra, por diversos ângulos, o erro moral cometido por nós na instru- mentalização de outros animais. Tais informações afastam o argumento muito utili- zado por aqueles que, por desconhecimento ou até mesmo má-fé, acusam, com o escopo de perpetuar a instrumentação dos animais, de sentimentalismo222 os defen-

sores dos Direitos Animais.

218 HARARI, Yuval Noah. Uma breve história da humanidade: Sapiens. Tradução de Janaína Marcoan-

tonio. 7ª Ed. Porto Alegre: L&PM, 2015, pp. 236 e 238.

219 HARARI, Yuval Noah. Uma breve história da humanidade: Sapiens. Tradução de Janaína Marcoan-

tonio. 7ª Ed. Porto Alegre: L&PM, 2015, p. 352.

220 O título da obra é Animals’ Rights: Considered in Relation to Social Progress.

221Ver, a propósito, SINGER, Peter. Ética Prática. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. 3ª ed. São Paulo,

2002 e CAVALIERI, Paola; SINGER, PETER (org). The GreatApe Project. New York: ST. Martins’ Gri- ffin, 1996.

222Singer deixa isso claro no final de seu livro, quando afirma que apresentei argumentos, apelando

para a razão, e não para a emoção ou os sentimentos (...) não acredito que apenas o apelo à simpatia e à compaixão convenceria a maioria das pessoas de que há algo muito errado no especismo. (SIN- GER, Peter. Libertação Animal. Tradução: Marly Winckler e Marcelo Brandão Cipolla. Revisão técnica: Rita Paixão. Ed. Martins Fontes. São Paulo: 2013, p. 354).

Para o indivíduo ter seus interesses levados moralmente em consideração, Sin- ger utiliza o critério da senciência223, que é capacidade de ter sensações de prazer e

dor. Dor é dor, independentemente de quem a experimenta. Os animais que possuem sistema nervoso complexo devem ser considerados sencientes.

Singer condena a criação industrial e intensiva de animais para a alimentação e defende o vegetarianismo224.

Levando-se em conta os interesses, Singer utiliza o princípio da igualdade, re- finando-o para o princípio da igual consideração de interesses, com o escopo de incluir o ser dentro de nossas preocupações. Julgamentos morais não devem ser pessoais ou voltados para grupo de pessoas. Deve ser universalizada a máxima de que casos semelhantes devem ser tratados de maneira semelhante. A igualdade deve ser moral e não factual. Singer diz que a afirmação de que todos os seres humanos são iguais depende de chegarmos a um mínimo denominador comum. Assim, seria exato afirmar que todos os seres humanos são capazes de sentir dor e sofrimento. No entanto, a assertiva da igualdade entre os humanos acaba resvalando em outras espécies, que também são sencientes, e que, portanto, não deveriam ter seu interesse em não sofrer desconsiderado moralmente pelos humanos225.

Segundo o filósofo, sexismo e racismo são exemplos de práticas não igualitá- rias. Desigualdades específicas, tais como cor de pelo e sexo, justificaram, de forma arbitrária, tratamento diferenciado. Mesmo que se descobrisse que mulheres ou ne- gros tenham alguma capacidade inferior ao do homem branco, isso não é motivo para legitimar o racismo ou sexismo226.

O australiano critica os filósofos que não conseguem justificar racionalmente a existência de uma diferença concreta que legitime a não inclusão dos animais em nossa comunidade moral, apelando, por isso, à tergiversação, ao utilizarem frases de

223 Se um ser sofre, não pode haver justificativa moral para deixar de levar em conta esse sofrimento

(...) Portanto, o limite da senciência (usando o termo como redução conveniente, talvez não estrita- mente precisa, para a capacidade de sofrer e/ou experimentar prazer) é a única fronteira defensável de preocupação com os interesses alheios (SINGER, Peter. Libertação Animal. Tradução: Marly Winc- kler e Marcelo Brandão Cipolla. Revisão técnica: Rita Paixão. Ed. Martins Fontes. São Paulo: 2013, p. 14/15).

224 SINGER, Peter. Libertação Animal. Tradução: Marly Winckler e Marcelo Brandão Cipolla. Revisão

técnica: Rita Paixão. Ed. Martins Fontes. São Paulo: 2013, p. 233.

225 SINGER, Peter. Libertação Animal. Tradução: Marly Winckler e Marcelo Brandão Cipolla. Revisão

técnica: Rita Paixão. Ed. Martins Fontes. São Paulo: 2013, pp. 7/8.

226 SINGER, Peter. Libertação Animal. Tradução: Marly Winckler e Marcelo Brandão Cipolla. Revisão

efeito como “dignidade intrínseca do indivíduo humano”. Tal expressão acaba por ava- lizar a máxima de que apenas os seres humanos possuem valor e que todas os de- mais seres vivos são inferiores227.

Singer, no entanto, é criticado por ter dificuldades em negar a possibilidade do uso de animais quando não há dor228. O filósofo australiano não vê a vida do ser sen-

ciente como tendo um valor em si mesma229. Ele diz que a vida tem, de fato, pesos

diferentes. O ser humano, por exemplo, tem expectativas futuras. Então, tirar a vida dele é particularmente ruim. A doutrina de Singer, não obstante permeada de robustos argumentos em favor de mudança de nossa postura na forma como tratamos os ani- mais, pode ser utilizada para embasar teses meramente protecionistas230.

Além disso, Singer não enxerga na vida senciente um fim em si mesma, na medida em que caso o ser não seja consciente de si, ou seja, não se conceba como um ser distinto e detentor de um passado e um futuro, sua vida poderá ser se tratada como um recurso substituível, desde que seu interesse em não sofrer tenha sido le- vado em consideração231.

227Singer observa uma constatação que justifica esse pensamento ideológico: é improvável que os se-

res humanos, nossos semelhantes, rejeitem os louvores que tão generosamente lhes concedemos, e aqueles aos quais negam tal honra são incapazes de se opor a isso. (SINGER, Peter. Libertação Ani- mal. São Paulo: Martins Fontes, 2013, p. 347).

228Gary Francione, a propósito, diz que Singer não acredita que a importância moral dos interesses dos

animas requeira a abolição da condição de propriedade dos animais ou das instituições de exploração animal que supõem que os animais sejam nossos recursos. Ele afirma que podemos continuar a usar os animais não humanos para os propósitos humanos, mas que devemos dar mais consideração aos interesses dos não humanos do que se dá no presente. (FRANCIONE, Gary L. Introdução aos Direitos Animais. Campinas: Unicamp, 2013, p. 36).

229Veja-se, a propósito, sua argumentação: quando refletimos sobre o valor da vida, não podemos dizer,

tão confiantemente assim, que uma vida é uma vida, e igualmente valiosa, seja ela humana ou animal. Não seria especista afirmar que a vida de um ser consciente de si, capaz de pensamento abstrato, de planejar o futuro, de realizar complexos atos de comunicação, etc., seja mais valiosa do que a vida de um ser que não possua essas aptidões (SINGER, Peter. Ética Prática. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002, p. 71).

230Confira-se, nesse sentido, sua crítica quando ao consumo de carne, não se questionando, ao menos

nesse trecho (lembrado que Singer defende o vegetarianismo e se diz dele adepto), a moralidade de se alimentar, desnecessariamente, de tecidos ou de secreções de animais que desejam permanecer vivos e não sofrer, mas sim de animais criados industrialmente: sejam quais forem as possibilidades teóricas da criação sem sofrimento, o fato é que a carne disponível em açougues e supermercados provém de animais que não foram tratados com consideração quando vivos. Portanto, não temos de perguntar se é certo, em alguma circunstância, comer carne. A pergunta a ser feita deve ser: “É certo comer desta?” (SINGER, Peter. Libertação Animal. Tradução: Marly Winckler e Marcelo Brandão Ci- polla. São Paulo: Martins Fontes, 2013, p. 235).

231 SINGER, Peter. Ética Prática. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 3ª ed. São Paulo: Martins Fon-

Tom Regan, norte americano, é professor emérito de Filosofia da Universidade da Carolina do Norte e autor de diversas obras voltadas à Ética Animal232. Regan

defende a concessão de direitos morais básicos aos animais não humanos, incluindo o direito à liberdade, à integridade física e à vida. Em sua importante obra The case

for Animal Rights233 (1983), o autor, abolicionista, faz uma comparação entre o pen-

samento protecionista e o abolicionista utilizando a figura da jaula. Regan diz que um dia veremos todas as jaulas vazias (abolicionismo), não bastando que elas sejam es- paçosas e confortáveis (protecionismo).

É refutado por Regan a dissociação entre os Direitos Humanos e Direitos Ani- mais, ao afirmar que nunca teria se tornado um defensor dos direitos animais se não tivesse sido, primeiro, um defensor dos direitos humanos, especialmente daqueles humanos sem poder ou entendimento para fazer valer seus próprios direitos (as pes- soas muito jovens ou muito velhas, por exemplo. Os defensores dos direitos animais

não odeiam a humanidade234. É extremamente importante essa afirmação do filósofo,

porquanto é comum entre os opositores dos Direitos Animais argumentar a suposta misantropia dos seus defensores235.

O professor também se vale da razão para justificar a concessão de direitos aos animais, demonstrando a crueldade que praticamos ao utilizá-los para os nossos mais diversos fins. Regan critica a abordagem midiática, alimentada pela indústria da exploração animal, dos defensores dos direitos animais, taxando-os de extremistas236

232Traduzidas para o português, podem ser citadas: REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina

Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão. Porto Alegre: Lugano, 2006; e REGAN, Tom. Direitos dos Animais e Objeções e Respostas. In: GALVÃO, Pedro (org.). Os animais têm direitos? Perspectivas e Argumentos. Lisboa:Dinalivro, 2010. Na língua inglesa podem ser citados: REGAN, Tom. Animal Rights, Human Wrongs. Na Introduction to Moral Philosophy. Maryland: Rowman& Little- field Publishers, 2003; e COHEN, Carl; REGAN, Tom. Maryland: The Animal Rights Debate. Rowman& Littlefield Publishers, 2001.

233 A obra foi traduzida para a língua portuguesa, ganhando o título Jaulas vazias, encarando o desafio

dos Direitos dos Animais

234 REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Porto Alegre: Lugano, 2006, p. 4.

235 Não obstante deva ser admitida a existência de argumentos desse jaez dentro do movimento, tais

como a perfilhação da experimentação em pessoas submetidas ao sistema carcerário em vez de nos animais, os Direitos Animais são uma extensão dos Direitos Humanos. Trata-se, desse modo, de uma ampliação da comunidade moral do ser humano, que, por evidente, não o exclui, mesmo porque os seres humanos também são animais e, portanto, estão inseridos na doutrina dos Direitos Animais. Um pensamento coerente não perfilha comportamentos misantrópicos na defesa dos Direitos Animais, pois a inserção dos animais em nossas preocupações morais não despoja, por evidente, os seres humanos delas.

236 Regan faz uma interessante reflexão quanto ao conceito de extremista. Inicialmente, ele divide a

ideia de extremismo em dois sentidos. No primeiro, extremista seria aquele indivíduo que faz qualquer coisa para atingir seu objetivo. Com esse significado, é seguro afirmar que apenas algumas pessoas

em relação aos defensores do uso humanitário e responsável dos animais, tidos por moderados. Além disso, observa, do alto de seus muitos anos de luta pelos Direitos Animais, que conheceu poucos ativistas violentos, sendo que a mídia pouco mostra o lado positivo do movimento237.

Regan classifica os defensores dos Direitos Animais como vincianos, damas- cenos e relutantes. Os primeiros (a expressão é usada em alusão a Leonardo da Vinci, que possuía, segundo Tom Regan, um amor natural pelos animais) seriam aqueles que desde crianças parecem compreender os animais. Esse grupo é pequeno justa- mente porque a maioria de nós é o que é em razão da cultura. Segundo Regan:

para a maioria de nós, nossa compreensão inicial sobre os animais é her- dada. Devidamente aculturados, nós internalizamos, sem críticas, o para- digma cultural. Vemos os animais como nossa cultura os vê. Como o para- digma na cultura americana em particular – e na cultura ocidental em geral – vê os outros animais como seres que existem para nós, não tendo outro pro- pósito para estar no mundo senão o de atender às necessidades e aos dese- jos dos humanos, nós também os vemos dessa maneira. Assim, os porcos, por exemplo, mostram sua razão de ser ao se transformar em fatias de pre- sunto entre duas fatias de pão238.

Para o norte americano, os damascenos seriam aqueles que, em razão de al- gum acontecimento marcante em suas vidas, modificam sua postura em relação aos animais, passando a defendê-los. É feita uma alusão a Saulo de Tarso que, segundo acreditam os cristãos, após ter sido questionado pelo espírito de Jesus Cristo conver- teu-se ao cristianismo, passando a se chamar Paulo, deixando de perseguir os cris- tãos, tornando-se o maior difusor da doutrina cristã239.

são extremistas, mas entre elas não estão os defensores dos Direitos Animais. Até os membros da Frente de Libertação Animal (cuja abreviação é, em inglês, ALF) impõem limites as suas ações, não tolerando, por exemplo, a morte de humanos. Em outro sentido, extremista é aquele que defende de maneira incondicional aquilo em que acredita. Nessa concepção, todos (ou quase) nós somos extre- mistas. Por exemplo, tirando os pedófilos, todos não aceitam, seja em qual situação for, que crianças sejam abusadas sexualmente (REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão téc- nica: Sônia Felipe e Rita Paixão. Porto Alegre: Lugano, 2006, pp. 12/13). Acrescente-se que a ALF é considerada pelo FBI como uma doméstica organização terrorista. Disponível em:< https://www.fbi.gov/news/testimony/the-threat-of-eco-terrorism>. Acessado em 03/01/2016.

237 REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Porto Alegre: Lugano, 2006, p. 16.

238REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Porto Alegre: Lugano, 2006, p. 28.

239 REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Finalmente, os relutantes (Regan se inspira nele próprio) seriam o maior con- tingente entre os ativistas, ou seja, aqueles que, através de uma relação empírica e aprendizados pequenos e constantes, acabam por defender os Direitos Animais240.

A construção teórica do filósofo é arrimada no conceito de sujeitos-de-uma- vida. Os direitos, que não são meros favores e impedem seus detentores de serem usados por outrem, devem ser destinados aos sujeitos-de-uma-vida. Assim, o funda- mento do direito não está, para Regan, no fato de sermos humanos, de utilizamos a linguagem, der sermos pessoas, de termos alma ou porque Deus quis assim. Os su- jeitos-de-uma-vida têm direitos porque são conscientes do mundo e daquilo que acon- tece com eles. O que acontece às suas vidas, integridade física e liberdade são im- portante para eles, assim como a qualidade e quantidade de vida, independentemente do que os outros pensem a respeito. Todos que se encaixem nesse perfil tem, em razão da igualdade moral, direitos, e não apenas os seres humanos. O sujeito-de- uma-vida possui interesses, desejos, percepção, vida emocional rica (sente medo, alegria, tristeza, preferências e angústias) e tem experiências de dor e prazer241.

O filósofo norte americano entende que alguns animais, com certeza, podem ser considerados sujeito-de-uma-vida, tais como os mamíferos e as aves. Regan, no entanto, entende, pessoalmente, que peixes também podem receber a mesma consi- deração242. Da mesma forma que Singer243, Tom Regan rebate a objeção feitas por

muitos de que as plantas, caso incluíssemos os animais, também mereceriam nossa

240 REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Porto Alegre: Lugano, 2006, pp. 31/32.

241REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Porto Alegre: Lugano, 2006, pp. 60/61.

242REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Porto Alegre: Lugano, 2006, p. 74.

243Singer pondera que tais objeções, em verdade, não revelam real preocupação com seres vivos do

reino vegetal, mas apenas uma tentativa de encontrar contradição na construção teórica da ampliação da nossa comunidade moral para acrescentar os animais. Singer diz não haver evidências confiáveis de que as plantas sejam capazes de sentir dor e prazer. Ele afirma ser difícil imaginar um motivo pelo qual espécies que não conseguem se afastar de uma fonte de padecimento, ou de usar a percepção da dor para evitar a morte, tenham desenvolvido a capacidade de sofrer. Além disso, o australiano utiliza a lógica do “mal menor”, pois ao ingerir carne, também são responsáveis (os carnívoros), ainda que indiretamente, pela destruição de, no mínimo, dez vezes mais plantas que os vegetarianos! (SIN- GER, Peter. Libertação Animal. Tradução: Marly Winckler e Marcelo Brandão Cipolla. Revisão técnica: Rita Paixão. Ed. Martins Fontes. São Paulo: 2013, pp. 342/343).

atenção moral. O professor pondera que as plantas não são seres sencientes, na me- dida em que não possuem um sistema nervoso central, não se encaixando, assim, no conceito de sujeito-de-uma-vida244.

Gary Francione é professor universitário nos EUA, lecionando Direito e Filosofia na Rutgers Schoolof Law, em Newark. É autor de diversos livros ligados aos Direitos Animais245.

O norte-americano elege a senciência246como critério suficiente para a conces-

são de direitos, não apenas para os animais, mas como também para os humanos247.

A posse de interesses – e os seres sencientes os têm – é a condição necessária e suficiente para fazer parte da comunidade moral humana. Francione critica a lógica do tudo ou nada, ou seja, a desconsideração moral de todos os animais, inclusive aqueles comprovadamente sencientes, em razão de eventual inexatidão da fronteira da senciência248.

A originalidade de Francione está justamente em estabelecer a senciência como critério suficiente para a consideração moral do ser. Para ele, os animais capa- zes de sentir dor e prazer têm apenas um direito: o direito de não serem tratados como propriedade pelos humanos249. Caso contrário, ou seja, não sendo estabelecido o sis-

tema de direitos, em um conflito de interesses, o interesse do proprietário sempre vai prevalecer sobre o interesse da propriedade. No caso dos animais, costumamos a

244 REGAN, Tom. Jaulas Vazias. Tradução: Regina Rheda. Revisão técnica: Sônia Felipe e Rita Paixão.

Porto Alegre: Lugano, 2006, p. 77.

245Apenas um foi traduzido para a língua portuguesa: FRANCIONE, Gary L. Introdução aos Direitos

Animais. Tradução: Regina Rheda. Campinas: Unicamp, 2013. Ele é autor, na língua inglesa, entre outras, das seguintes obras: The Animal Rights Debate: Abolition or Regulation? e Animals as Persons (ambos pela Columbia University Press) e Animals, Property, and the Law e Rain Without Thunder (ambos pela Temple University Press).

246Gary Francione diz que ser senciente significa ser o tipo de ser que tem experiência subjetiva de dor

(e prazer) e interesse em não experimentar essa dor (ou em experimentar prazer). É inquestionável que a maioria dos animais que usamos para comida, experimento, entretenimentos e vestuário tem essas experiências subjetivas. (FRANCIONE, Gary L. Introdução aos Direitos Animais. Tradução: Re- gina Rheda. Campinas: Unicamp, 2013, p. 42).

247Se um ser humano realmente não for senciente – não for consciente de absolutamente nada e nunca

puder recobrar a consciência de coisa alguma –, então, por definição, esse humano não pode ter inte- resse em não sofrer (nem em qualquer outra coisa). Numa situação desse tipo, pode-se argumentar de modo convincente que é moralmente aceitável usar os órgãos desse humano para salvar outras pes- soas. Francione, ainda, estabelece a senciência do feto, ou seja, quando ele já se encontra em estágio avançado e reage a certos estímulos, como limite à possibilidade do aborto (FRANCIONE, Gary L. Introdução aos Direitos Animais. Tradução: Regina Rheda. Campinas: Unicamp, 2013, pp. 289/293).

248 FRANCIONE, Gary L. Introdução aos Direitos Animais. Tradução: Regina Rheda. Campinas: Uni-

camp, 2013, pp. 288/289.

249FRANCIONE, Gary L. Introdução aos Direitos Animais. Tradução: Regina Rheda. Campinas: Uni-

optar pelos nossos interesses, mesmo que eles sejam mais frívolos, do que os inte- resses mais fundamentais deles. Sua teoria enxerga a incompatibilidade prática de se conciliar interesses de seres tratados como recursos (os animais) e seres protegidos desse tipo de tratamento (os humanos), sendo impossível considerar os animais como recursos substituíveis e ao mesmo tempo como seres com interesses moralmente significativos250

Assim, Francione afasta a possibilidade de utilizarmos animais para nossas próprias finalidades, ainda que eles recebam tratamento humanitário, não aceitando, portanto, a teoria protecionista. O professor, ainda, vai além de Tom Regan ao incluir