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O Direito105, ainda que utilizado para fins de conservação (muitas vezes de in-

justiças106), também possui um viés transformador, podendo, em corolário, ser um

instrumento promovedor da Justiça107. Os mais diversos ordenamentos jurídicos na-

cionais e internacionais estabelecidos pelo planeta, convivem com as mais diversas formas de injustiça, sendo, entre os seres humanos, uma delas a social/econômica, a impedir uma existência realmente digna.

Como já afirmado, a atribuição, ao menos formalmente, de sujeito de direitos a todos seres humanos é algo recente na nossa história. Se antes apenas os homens, adultos, brancos e heterossexuais poderiam ter verdadeiramente direitos, a ampliação da comunidade moral do ser humano vem reconhecendo que outros sujeitos também devem ser titulares de direitos. Assim, crianças, mulheres, negros, índios e, inclusive, pessoas meramente jurídicas, passaram a ser reconhecidos como sujeito de direitos.

Já se admitiu, ao menos da teoria, ou seja, há um consenso de que todos os seres humanos, pelo simples fato de serem humanos, possuem uma dignidade intrín- seca, devendo, portanto, ser reconhecida sua condição de sujeito de direitos, inde- pendentemente de qualquer característica que venham a possuir. Em termos de re- conhecimento formal, já que, repita-se, ainda estamos muito longe de garantir a todos os seres humanos um mínimo que possa suprir as suas necessidades básicas, houve

105 Segundo Tercio Sampaio Ferraz Júnior, o direito contém, ao mesmo tempo, as filosofias da obedi-

ência e da revolta, servindo para expressar e produzir a aceitação do status quo, da situação existente, mas aparecendo também como sustentação moral da indignação e da rebelião (JÚNIOR, Tércio Sam- paio Ferraz. Introdução do Estudo do Direito. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 2003, p. 31).

106 Para Laerte Fernando Levai, um dos precursores dos estudos dos Direitos Animais em terras pátrias,

a consagrada fórmula acadêmica atribuindo ao Direito a realização da Justiça soa - em termos práticos - cada vez mais destituída de sentido. Isso porque a solução jurídica advinda de um ordenamento legal costuma, muitas vezes, ser injusta. O conceito do justo, aliás, nem sempre está compreendido na noção do Direito, cujas leis - surgidas ao sabor das circunstâncias históricas e sujeitas a múltiplos interesses políticos - podem vigorar em descompasso com o princípio da moralidade, que deveria inspirá-las (LE- VAI, Laerte Fernando. Direito dos Animais. 2ª ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2004, p. 135). Es- pecificamente em relação aos animais, pode-se notar que o Direito convive hodiernamente com diver- sas formas de exploração animal perpetradas pelo ser humano, tais como sua utilização para fins de entretenimento, experiências científicas, ensino, alimentação (carnes, laticínios, ovos, mel e corante), vestimenta, tração, comercialização de animais considerados como de estimação e etc.

107 Para Heron Santana, o judiciário pode ser um poderoso agente no processo de mudança social,

uma vez que ele não apenas tem o poder, mas o dever de agir quando o legislativo se recusa a fazê- lo, sendo, muitas vezes, o único poder capaz de corrigir as injustiças sociais quando os demais poderes estão comprometidos politicamente ou presos aos interesses dos grandes grupos econômicos (GOR- DILHO, Heron José Santana. Darwin e a evolução jurídica: habeas corpus para chimpanzés. Disponível em: <http://www.abolicionismoanimal.org.br/artigos/darwin.pdf>. Acessado em 01/08/2015).

um avanço moral em relação à restrição de dignidade que, no passado, nós costumá- vamos a fazer. No presente, ainda nos negamos a reconhecer que animais comple- xos, sencientes e autoconsciência, têm interesse em permanecerem livres e vivos.

Heron Santana e Tagore Trajano de Almeida Silva108 nos conta que a Suprema

Corte estadunidense, em 1972, julgou o case Sierra Club vs Morton, no qual a Asso- ciação Sierra Club pediu a anulação de licença que autorizava a construção de uma estação de esportes de inverno em vale bastante conhecido por abrigar várias espé- cies de sequóias. O Tribunal de Apelação da Califórnia indeferiu o pedido. Mesmo mantendo o indeferimento, três juízes foram votos vencidos. O voto do juiz Marshall, embora contrário à tese vencedora, se tornou antológico ao afirmar que se naquele país os navios e as corporações podiam ser titulares de direitos, não havia nenhuma razão para não se estendê-los aos animais e plantas.

A grande maioria das pessoas entende que os animais não podem ser tratados com crueldade. Trata-se de entendimento que, mesmo se valendo de causas diver- sas, mostrou-se bastante presente durante os períodos antigo, medieval, moderno e contemporâneo da história do ser humano.

No atual contexto, no qual, repita-se, os animais não são objeto de nossa con- sideração moral, sendo tratados como meras coisas, uma defesa de sua emancipa- ção, sendo respeitado seu valor intrínseco, acaba por possuir um viés progressista109.

A realidade demonstra, entrementes, que, em muitos casos, o pensamento progres- sista nas relações humanas, quando se trata da nossa relação com os animais, revela- se conservador.

A despeito de não ser possível afastar a ideologia, no sentido de conjunto de ideias a respeito de determinados temas, do indivíduo, não se pretende ideologizar o debate em torno dos Direitos Animais, porquanto tem-se o risco de prejudicar justa- mente aqueles (animais) que se pretenderia beneficiar com tal discussão. O simples fato de se atrelar a defesa dos direitos animais a determinada ideologia poderá ter como efeito, não se olvidando da possibilidade de o vício estar no indivíduo receptor e não no argumento, o desinteresse ou a oposição sistemática ao tema pelo indivíduo

108 GORDILHO, Heron José Santana. Darwin e a evolução jurídica: habeas corpus para chimpanzés.

Disponível em: <http://www.abolicionismoanimal.org.br/artigos/darwin.pdf>. Acessado em 23/08/15.

109Definimos a concepção progressista aquela tendente a valorar positivamente a ideia de igualdade,

naquilo que efetivamente for relevante, entre os indivíduos, buscando-se a ampliação e universalização de direitos. Nesse sentido, Leila Escorsim Netto define o progressismo como ampliação e universaliza- ção de direitos políticos e sociais, valor real da democratização (NETTO, Leila Escorsim. O conserva- dorismo clássico: elementos de caracterização e crítica. São Paulo: Cortez, 2011, p. 17).

de ideologia oposta. Independentemente de a pessoa se considerar conservadora ou progressista, a fundamentação dos Direitos Animais deve ser sólida o bastante para se encaixar em qualquer ponto de vista de outras concepções de vida.

Não se pretende, também, fazer um juízo de valor a respeito dos conceitos de conservadorismo e progressismo. Por isso, foi escolhida a distinção feita por Noberto Bobbio, em sua obra Direita e Esquerda110, que busca fazer uma análise não axioló-

gica dessas concepções ideológicas, estabelecendo um critério que as diferencie. Bobbio conclui que a forma como a desigualdade é encarada define tais matizes. A esquerda tende a ser igualitária, dando mais valor àquilo a nos unir. A direita, por sua vez, tende ser igualitária, dando mais valor àquilo que nos diferencia. Transcreve-se, por oportuno, algumas ponderações existentes na mencionada obra: para a pessoa

de esquerda, a igualdade é a regra e a desigualdade, a exceção111(...) a regra da

esquerda é a inclusão, salvo exceção, e a regra da direita é a exclusão, salvo exce- ções112“(...) o igualitário parte da convicção de que a maior parte das desigualdades que o indignam, e que gostaria de fazer desaparecer, são sociais e, enquanto tal, elimináveis; o igualitário, ao contrário, parte da convicção oposta, de que as desigual- dades são naturais e, enquanto tal, inelimináveis113. Se referindo a outros autores,

Noberto Bobbio cita outras diferenciações: o traço característico da esquerda seria o conceito, que é também um valor (e, tal como “tradição, um valor positivo), de eman- cipação114(...).“ Deste ponto de vista, “o homem de direita é aquele que se preocupa,

acima de tudo, salvaguardar a tradição; o homem de esquerda, ao contrário, é aquele que pretende, acima de qualquer outra coisa, libertar seus semelhantes das cadeias a eles impostas pelos privilégios de raça, casta, classe etc”.115

Concebendo como naturais as desigualdades existentes entre os indivíduos, o pensamento conservador se vale de um arcabouço teórico para legitimá-las. Assim, a noção de meritocracia permite que o indivíduo mais capaz ocupe uma posição de

110Bobbio não utiliza as expressões conservadorismo e progressismo. Nós é que fizemos a relação

entre conservadorismo com a direita, bem como progressismo com a esquerda. O fundamental é esta- belecer uma distinção entre conservadores e progressistas, que, da mesma forma como a esquerda e a direita, é maneira como se portam em relação às desigualdades. No mesmo sentido: concebemos que o principal ponto unificador dos conservadorismos se encontra na questão da desigualdade. Para todas essas correntes a desigualdade é essencialmente natural (LUDWIG, Antonio Carlos Will. Con- servadorismo e progressismo na formação docente. Campinas: Pontes, 2000, 15).

111BOBBIO, Noberto. Direita e Esquerda. 3ª ed. Editora Unesp. São Paulo: 2011, p. 23. 112BOBBIO, Noberto. Direita e Esquerda. 3ª ed. Editora Unesp. São Paulo: 2011, p. 24. 113BOBBIO, Noberto. Direita e Esquerda. 3ª ed. Editora Unesp. São Paulo: 2011, p. 121. 114BOBBIO, Noberto. Direita e Esquerda. 3ª ed. Editora Unesp. São Paulo: 2011, p. 95. 115BOBBIO, Noberto. Direita e Esquerda. 3ª ed. Editora Unesp. São Paulo: 2011, p. 97

superioridade em relação ao outro. Aquele indivíduo naturalmente mais apto pode ter uma vida privilegiada, ainda que muitos outros tenham uma vida de miséria, sendo, portanto, justo que assim o seja.

No pensamento conservador, as desigualdades são naturais e a tentativa de reduzi-las é inócua e ideológica. Desse modo, as posições ocupadas pelos indivíduos, ainda que haja desigualdade entre elas, derivam do caminhar natural das coisas. Quando se busca alterar essa realidade, limitando-se os interesses daqueles em po- sição privilegiada, tem-se que os defensores de tais alterações não arrimam suas ideias no caminhar natural das coisas, mas sim na ideologia, que é uma construção artificial e danosa a todos, inclusive aos desfavorecidos.

Ainda, segundo o conservadorismo, os indivíduos são naturalmente desiguais, sendo artificiais as tentativas de igualização de seres diferentes. As desigualdades, além de serem naturais, são benéficas para o funcionamento da vida em sociedade. Assim, devem ser mais positivamente valorados os aspectos que diferenciam os indi- víduos em detrimento daqueles que os igualam. Sendo as desigualdades natural- mente impostas pela vida, não há falar-se em opressão de indivíduos para com indi- víduos, na medida em que elas são, em verdade, comportamentos naturais decorren- tes do respeito às diferenças existentes entre os próprios indivíduos.

Tendo por corretas as ponderações de Bobbio, assim como as dos autores ci- tados por ele em seu texto, uma ressalva deve ser feita. O pensamento conservador se enquadra nos conceitos citados (meritocracia, ideologia e desigualdade), se e so- mente se eles se referirem às relações entre indivíduos da espécie humana. Caso se refira à relação animais-homem, diversas pessoas adeptas das visões progressistas acabam por defender ideias conservadoras, na medida em que enaltecem mais as diferenças do que as semelhanças que nos une aos demais animais, para que possa- mos permanecer em posição privilegiada, desconsiderando a dor e o sofrimento deles, naturalizando as opressões perpetradas pela espécie dominante (nós).

Registre-se que Bobbio, ao final do livro “Direita e Esquerda”, admite116 repre-

sentar os debates envolvendo os animais uma possível extensão do princípio da igual- dade, ao menos no pertinente à capacidade de sofrer, para além dos limites do gênero humano. Quanto ao pensamento conservador, fiel aos seus ideais de naturalização

das desigualdades, o corolário lógico é a conservação do posicionamento de superi- oridade dos seres humanos em relação aos animais, sendo, portanto, legítima a ins- trumentalização deles para o atingimento das mais diversas finalidades humanas.