II. Savaş Sonrası Dönemde Bağlantısızlar Bloğunda (Mısır, Hindistan, Endonezya ve
II.IV. Yugoslavya
1. BANDUNG KONFERANSI VE BAĞLANTISIZLAR BLOĞU’NUN ORTAYA
3.1. Sovyet Rusya’nın Bağlantısız Devletlere Yönelik Politikaları ( Mısır, Hindistan,
É justamente pelo fato de a onipotência ser do Outro, enquanto Outro que tem, que o sujeito instala aí sua demanda (QUINET, 2008a, p. 106, grifo nosso).
Prometer a reabilitação rápida do doente para que ele volte logo ao mercado de trabalho e ao consumo não seria estar ao serviço do discurso capitalista? (QUINET, 2008b, p. 15).
Nesse ponto, dada a apresentação da análise dos discursos como laços sociais de produção, podemos complementar algo que enunciamos na introdução desse ensaio. O referencial da Análise Política das Instituições nos possibilita ver como o PPHM, por fazer sintonia com a ética do capital, por meio dos seus laços sociais de produção típicos, opera a extração indireta da mais-valia (em um segundo momento) como resultado da capitalização do sofrimento psíquico, atuando, para esse intuito, por intermédio do Tratamento Terapêutico Alienante (tamponamento dos impasses psíquicos e sintomas). Assim, a ética do PPHM, munida dos laços sociais Discursos da Opressão/Reprodução, por intermédio das instituições disciplinares, neste caso específico os Estabelecimentos institucionais de Saúde31, tem como
meta final o tamponamento e a capitalização do sofrimento psíquico e, com isso, a (re)adaptação ao laço social capitalista como volta à produção e ao consumo, visando sempre a contínua extração de mais-valia (Figura 6):
31 Mostramos em outro lugar (PÉRICO; JUSTO, 2011) como esse processo social opressivo-capitalizador
acontece em outros contextos institucionais. Na ocasião, discutimos como as organizações de trabalho, no Modo Capitalista de Produção, tendo o apoio discursivo e prático do saber médico-psiquiátrico (PAPM e PPHM), tendem a desconsiderar sua parcela de responsabilização na “produção” do adoecimento orgânico e, especialmente, de impasses de subjetivação e sintomas psíquicos nos trabalhadores, por meio da estratégia de “culpabilização da vítima”. Tentamos elucidar como a culpa pelo “adoecimento” é atribuída ao trabalhador, não sendo questionadas, entre outras, as condições objetivas/subjetivas de trabalho (biológicas, psíquicas e sociais).
Figura 6: As instituições do Paradigma Psiquiátrico Hospitalocêntrico Medicalizador e os dois momentos de extração da mais-valia no Modo Capitalista de Produção como processo de produção de “subjetividadessaúde” (re)adaptada.
Dentro do princípio doença-cura, o PPHM concebe o seu ‘objeto’ como doente a ser tratado fora do meio social em que vive. Quanto às “Formas do relacionamento com a clientela e o Território”, vemos como o Tratamento Terapêutico Alienante parte da concepção de um dentro (instituições de tratamento) e um fora (laço social). Já é bastante sabido que à diminuição dos espaços físicos de confinamento (manicômios), como resultado das lutas animanicomiais da RPb, vem correspondendo um crescimento dos equipamentos sócio- subjetivos e químicos de confinamento (DELEUZE, 1992). Seus “‘meios’ de trabalho” típicos, permeados pelos Discursos da Opressão/Reprodução, são responsáveis pela configuração de duas modalidades de clínicas regidas por uma mesma ética, a Clínica do Olhar (Psiquiatria Organicista) e a Clínica do Cuidado (Psiquiatria Reformada)32. Na
perspectiva das relações intersubjetivas verticalizadas, esse modo de tratamento opera, sobretudo, por meio de ações de suprimento medicamentoso (farmacoterapias), ações de suprimentação de sentido tautológico-imaginário (psicoterapias da “consciência”, oficinas terapêuticas, etc) e ações de suprimentação social (tutela social). O PPHM visa, com isso, tamponar (suprimir) os impasses subjetivos e os sintomas, da forma mais direta e rápida
32 Para uma descrição mais detalhada sobre essas duas modalidades de clínica confira, nesta dissertação, o
possível, para alcançar seu principal objetivo: a (re)adaptação social. Se o tratamento “falha”, o “indivíduo-paciente” fica preso apenas ao segundo momento da extração da mais-valia, que podemos designar como cronificação ou “‘doença’ institucional” (MANNONI, 1971); ao passo que se vinga temos a situação de coincidência dos dois momentos da exploração socioeconômica, já que o indivíduo passa não só a ser reintegrado na produção e no consumo comum, como continua na des-implicação subjetiva e sociocultural tipicamente alienada e, portanto, preso à dimensão imaginária-tautológica-demandante de suprimentos do mercado. Consumidor ad Eternum – condição inclusive garantida pelo direito do Código de Defesa do Consumidor – seja das psicoterapias autoritárias e do assistencialismo paternalista, seja, principalmente, das muletas medicamentosas. Capitalizar e alienar, não necessariamente nessa ordem, parece ser o fim terapêutico e ético-político desse modo de tratamento: “a disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência)” (FOUCAULT, 2007, p. 119).
Nesse ponto, trago uma experiência de intercessão vivenciada na práxis clínica. Ele chega, para atendimento em uma Unidade Básica de Saúde, dilacerado pelo sintoma. Refere dormir muito mal: “minha cabeça não para, é 24 horas, parece um formigueiro de tanto que trabalha. Ela trabalha muito, e isso tem prejudicado meu desempenho lá no trabalho, fico muito distraído”. Após as duas primeiras sessões de sua psicotherapia33, onde já parece fazer algumas elaborações e equacionamentos iniciais, fica duas semanas sem comparecer. Feito o contato por telefone, diz estar bem e não precisar mais do tratamento. Digo que gostaria de falar com ele, pessoalmente, sobre isso. Comparece ao Estabelecimento de Saúde e, logo ao entrar, diz:
Fiquei internado por duas semanas em uma Comunidade Terapêutica. É da igreja católica, mas não tem padre. Lá a gente tem atividades das seis da manhã até às dez da noite. Tem terapeuta, tem até psicólogo. Tem reza e terapia. É ciência e religião tudo junto, é uma maravilha. [...] Eles faziam a gente regredir no tempo, até quando éramos pequenininhos, porque o sofrimento da gente tem a ver com o nosso passado e até com vidas passadas. Estou tão bem que nem consigo acreditar, é tão bom que parece que eu nem tô aqui, que minha cabeça ainda está lá.
Após essa sessão ele é atendido mais duas vezes, mas a demanda de tratamento não se reatualiza. Se o indivíduo em questão, como qualquer um, buscou tratamento devido a uma divisão subjetiva angustiosa limítrofe – sendo que “a força motivadora primária na terapia é o
33 Sugerimos uma nova grafia para a proposta de uma psicothetapia Outra, “‘meio’ de trabalho” sintônico com os
horizontes éticos de produção subjetiva do PPS, para fazer frente às “psicoterapias em geral” como “‘meio’ de trabalho” do PPHM. A esse respeito confira o ensaio “As psicoterapias em geral e uma Outra...” nesta dissertação.
sofrimento do paciente e o desejo de ser curado que deste se origina” (FREUD, 1966b, p. 157) – o Estabelecimento institucional em questão, fazendo uma oferta de transferência típica ao PPHM, só fez operar um fechamento (sutura) de tal divisão, a muito custo aberta34. Quanto a
isso, Costa-Rosa (2013g) refere que “só após o fracasso da operação de sutura, química ou outra, o indivíduo pode reeditar seu pedido” (p. 253). Alguns meses depois, a partir de um contato por telefone, ele retoma o tratamento, mas não sem um redobramento da angústia, exemplo do retorno pior de que nos fala Lacan (2003e).