3. BÖLÜM: İNSAN HAKLARI VE DEMOKRASİ İLİŞKİSİ
3.5. Sosyal Demokrasi ve İnsan Hakları
No que se refere à análise dos dados, não ignoro as observações de Spink (2000), de que nelas há um viés próprio das idiossincrasias de quem as redigiu e dos fins aos quais se destinavam os documentos originais. Tais aspectos não foram desprezados e, precisamente em função deles, foram analisadas posteriormente as informações coletadas a fim de verificar se eram
capazes de revelar mais do que originalmente pretenderam, sem cair no interpretacionismo desenfreado a que alude Morgan (1996).
Como mencionado anteriormente, para o alcance dos objetivos propostos, observei empiricamente o caso de uma organização-cidade do interior de Minas Gerais. Associei como procedimentos de coleta de dados entrevistas semiestruturadas, poemas relacionados ao passado da cidade, documentos oficiais da área cultural, dados iconográficos e observação direta. O material coletado recebeu um tratamento para possibilitar a identificação de padrões de significados a partir da visão daquele universo específico.
Com exceção do material iconográfico e das notas de campo, todo o material coletado em fontes primárias e secundárias requereu a interpretação do mundo real da perspectiva dos sujeitos da sua investigação. Por isso, optei por examinar os dados à luz da vertente francesa da técnica da análise de discurso, um conjunto de instrumentos metodológicos que sistematizam a abordagem de textos diversos usada na busca por uma melhor compreensão de um discurso, de aprofundar suas características gramaticais às ideológicas e outras, além de extrair os aspectos mais relevantes. Essa abordagem considera que qualquer discurso, seja ele enunciado na forma escrita ou falada, traz aspectos explícitos, implícitos e silenciados (FIORIN, 2003).
O conjunto de procedimentos da análise francesa do discurso adotado desvendou as estratégias discursivas de persuasão ideológica dos diversos textos produzidos pelos distintos atores (BAKHTIN, 2006). Procurei, assim, analisar o discurso de forma contextualizada, isto é, a partir das condições sócio-históricas em que ele foi produzido e no contexto em que foi disseminado. Como os discursos apresentam uma complexidade composta por diversos elementos, identifiquei e analisei19:
– a análise lexical20;
– os temas21 e figuras22 (explícitos ou implícitos) dos discursos, inclusive os personagens;
19 Este roteiro é utilizado, para fins didáticos, pelo Professor Doutor Antonio Augusto Moreira de Faria, da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, para a análise do discurso na vertente francesa. 20 Análise do vocabulário usado em um enunciado discursivo.
21 Elementos mais abstratos de um discurso. 22 Elementos mais concretos de um discurso.
– os percursos semânticos23 estruturados a partir dos temas e figuras; – os aspectos interdiscursivos24;
– os aspectos da sintaxe discursiva25;
– os aspectos refletidos e refratados26 nos discursos; – as condições sociais de produção dos discursos27; – os discursos28 presentes no texto;
– os aspectos ideológicos29 defendidos nesses discursos; – os aspectos ideológicos combatidos nesses discursos;
– a posição do texto em relação ao discurso hegemônico30 na sociedade em que se situa.
Um procedimento adicional no caso da análise linguística dos poemas foi verificar a verossimilhança do discurso. Quanto mais verossímil, mais força ele ganha enquanto elemento que ajuda a compor o passado. No caso específico da análise linguística das entrevistas, dois procedimentos de suporte foram adotados: o primeiro foi sublinhar todos os trechos que, explícita ou implicitamente, contribuam para a análise do discurso. O segundo foi a introdução eventual de colchetes nas falas dos entrevistados. Todo os trechos contidos em colchetes não foram enunciados, mas ajudam, com base na dinâmica da entrevista e na estrutura da análise, a conferir sentido ao que é enunciado.
23 De acordo com Faria (1998, p. 142), “[...] corresponde à recorrência, ao longo do discurso, de elementos semânticos subjacentes”. Ele complementa dizendo que “[...] a noção de percurso semântico engloba os conceitos greimasianos de percurso temático e percurso figurativo, correspondentes à recorrência de elementos semânticos mais abstratos ou mais concretos, respectivamente” (FARIA, 1998, p. 150).
24 De acordo com Mainguenau (1999, p. 86), “[...] pode-se chamar interdiscurso um conjunto de discursos. [...] Se consideramos um discurso particular, podemos também chamar interdiscurso o conjunto das unidades discursivas com as quais ele entra em relação”. Fiorin (1999, p. 231) complementa que “[...] a identidade de um discurso depende de sua relação com outros, isto é, que ele não se constitui independentemente a outros discursos, para, em seguida, pôr-se em relação com eles, mas se constrói, de maneira regrada, no interior dessa oposição, definem-se nos limites dessa relação polêmica”.
25 A sintaxe discursiva se refere à estrutura pela qual um discurso é construído, à forma pela qual um enunciado discursivo é estruturado. Inclui figuras de linguagem, como metáforas, metonímias, prosopopéias, e hipérboles. 26 Refração linguística é uma estratégia discursiva analisada por Bakhtin (2006), que parte da ressignificação dos temas nos discursos. Todo aspecto é, ao mesmo tempo, refletido linguisticamente, preservando seu sentido socialmente estabelecido, e refratado, isto é, reinterpretado conforme os referenciais os enunciadores. Um discurso, assim, reproduz (ou reflete) as condições sociais em que é produzido, e modifica (ou refrata) determinados aspectos, de acordo com as ressignificações de seus enunciadores.
27 Além do contexto da enunciação discursiva, referem-se às condições reais de que o enunciador dispunha para que enunciasse o discurso daquela forma e não de outra qualquer. Em outras palavras, identifica-se aqui a partir de quais elementos sociais o discurso é produzido.
28 São entendidos como produção social de textos.
29 Em termos discursivos, ideologia se refere à intenção do texto socialmente produzido, isto é, a posição imanente a um dado enunciado discursivo. Como não há discurso neutro, ele necessariamente apresenta uma posição que é defendida. Da mesma forma, já se posiciona sobre o que combate em termos ideológicos.
30 Neste item, se coteja a posição defendida no discurso com a hegemonia discursiva na sociedade, podendo ser identificado, se o discurso se alinha ao que é dominante em termos sociais, ou se constitui algo marginal.
No caso específico dos dados iconográficos, a análise partiu da consideração da “[...] imagem como representação cultural, seja ela na sua carga simbólica, epistêmica ou estética, é de qualquer forma uma construção de conhecimento da realidade” (TACCA, 2005, p. 12), o que procurei estruturar na forma de abordagem do objeto fotografia para evitar a noção de representação por delegação do imagético. Para isso, fiz uso da semiótica, entendida aqui como um ramo de conhecimento que “[...] engloba e sistematiza diversos sistemas, desde que se utilize de signos” (ANDRADE, 2008, p. 27).
Os procedimentos para a análise semiótica, que não adotei exaustivamente em cada imagem, foram a identificação e análise (BAEDER, 2007):
– da localização original31 da imagem; – dos principais elementos da imagem32; – dos aspectos plásticos33;
– dos principais aspectos semânticos34;
– das estratégias plásticas do enunciador em relação ao enunciatário da imagem35; – das estratégias de persuasão enunciativa36;
– das categorias formais plásticas37; – das categorias de conteúdo38.
Das quinze imagens usadas ao longo da tese, é importante ressaltar que apenas quatro foram analisadas por meio da semiótica. No caso de dez imagens, o uso de fotografias foi meramente ilustrativo, ou por terem sido invocadas imagens dos depoimentos dos entrevistados ou por se referirem, narrativamente, a equipamentos, e não a produtos culturais.
31 Diz respeito a onde se localizava originalmente a imagem colhida, de forma a identificar seu papel em um contexto de comunicação social.
32 Dizem respeito aos elementos que chamam a atenção inicialmente para a imagem, uma espécie de síntese visual.
33 Os aspectos plásticos de uma imagem dizem respeito à forma pela qual os elementos são visualmente apresentados.
34 Refere-se ao que os aspectos plásticos remetem, em uma linha de interpretação dos elementos visuais apresentados.
35 Diz respeito à forma pela qual o enunciador da mensagem organiza as imagens de maneira a causar um efeito determinado no enunciatário.
36 Qualquer imagem encerra uma intenção de persuadir o enunciatário a focalizar sua atenção sobre alguns aspectos em detrimento de outros, para isso fazendo uso da disposição dos recursos visuais.
37 Referem-se aos elementos usados pelo enunciador ao organizar a imagem, como oposições físicas – claro x escuro, retilíneo x curvilíneo – cores, sentido de leitura da imagem, disposição dos planos visuais etc.)
38 A partir dos percursos semânticos e dos elementos visuais, é possível identificar conteúdos que podem ser agrupados em categorias, e analisados tomando como referência os elementos da imagem.
Como os prédios em si não me pareciam particularmente interessantes para a análise, que teria de enveredar para uma perspectiva arquitetônica, fora do escopo da tese, me concentrei, como disse anteriormente, apenas nos elementos diretamente ligados a Carlos Drummond de Andrade. Assim, as imagens analisadas são de esculturas do poeta espalhadas pela cidade. Estas, como será possível conferir adiante, encerram possibilidades interessantes de leitura das interfaces da cultura no nível local, e foram tratadas de forma articulada com a análise linguística dos discursos sobre os mesmos elementos.