foram suprimidas 44 aulas noturnas, sendo 42 em cidades, uma em freguesia e uma em distrito, restando, então, um total de 35 cadeiras de instrução primária (MINAS GERAIS, 1890, p. 50). A única exceção, em termos de criação de novas escolas noturnas deu-se no ano seguinte, 1891, quando autorizada a criação de outra cadeira noturna na Capital Ouro Preto7
A crença iluminista de que a organização do país e seu engrandecimento futuro dependiam da iluminação do espírito das massas, permeou as discussões na Câmara dos Deputados acerca da elaboração do Projeto de Lei n. 18, que deu origem à primeira , sob a regência do professor Agostinho Penido. Nesse caso, teríamos antes da implantação das reformas republicanas, um total de 36 cadeiras de instrução primária noturna, em Minas Gerais.
3.2. A primeira reforma republicana do ensino público em Minas
Gerais
6 Decreto n. 260, de 1º de dezembro de 1890. Cria o ginásio mineiro e suprime os externatos do estado e
liceu da Capital. Coleção dos Decretos do governo provisório do estado de Minas Gerais. Expedidos desde 3 de dezembro de 1889 a 31 de dezembro de 1890. APM.
reforma do ensino primário, no período republicano, no governo de Afonso Augusto de Moreira Pena, sob a forma da Lei de n. 41, de 03 de agosto de 18928
Considerada como promotora de uma das maiores reformas do ensino nos anos iniciais da República, a lei aprovada manteve as características do projeto original em termo de minudências e de abrangência, em vista do seu objetivo de promover uma ampla reforma na educação, tanto do ponto de vista pedagógico quanto do administrativo, além de promover a organização do ensino em todos os níveis e graus, criando e/ou reestruturando as instituições e os órgãos responsáveis pela educação e ensino em Minas. Dentre as diversas medidas discutidas enquanto projeto, confirmaram-se, então, pela Lei n. 41, dentre outras, a gratuidade e obrigatoriedade do ensino primário
.
9 para as
crianças na faixa etária de sete a treze anos de idade, reduzindo, portanto, a idade máxima que era de a quatorze anos; uma nova classificação e programa de ensino para as escolas primárias, cuja nova denominação (rurais, distritais, urbanas) relacionava-se ao recenseamento da população10
Várias foram as polêmicas presentes nas discussões do Projeto da reforma. Na Câmara, a principal questão que mobilizou profundas discussões dizia respeito à criação das “escolas superiores”
.
11
8 Regulamentada pelo Decreto de n. 655, de 17 de outubro de 1893. Após a promulgação da Lei n. 41, de
3/8/1892, também foram publicados: o Decreto nº. 611, de 6/3/1893, que aprovou o regulamento referente à execução da Lei n. 41, na parte que tratava do Ginásio Mineiro e o Decreto de n. 655, de 17 de outubro de 1893, que promulgou o Regulamento das Escolas de Instrução Primária, estabelecendo os programas de cada tipo de escola, os horários de funcionamento, o período de férias, o regime de matrículas, etc. Abordou também, questões relativas aos direitos e deveres dos professores, aos Conselhos, aos inspetores ambulantes, fundo escolar, prédios e mobílias e materiais para as escolas primárias, além de tratar da Revista do Ensino.
9 Vale lembrar que a obrigatoriedade foi estabelecida na Lei imperial do ano de 1827.
10 Nesse caso, as escolas rurais seriam as localizadas em região com população inferior a mil habitantes
ou 150 meninos, de ambos os sexos e em idade escolar, na área abrangida pelo perímetro escolar; as escolas distritais seriam as estabelecidas nas sedes dos distritos administrativos e em localidade com população, inscrita no perímetro escolar, acima de mil habitantes ou 150 crianças em idade escolar; e escolas urbanas, as estabelecidas em vilas ou cidades. Com relação à freqüência mínima foi estabelecida a de quinze alunos para as escolas rurais, vinte para as distritais e vinte e cinco para as escolas urbanas. De acordo com o Decreto de n. 516 A, de 12 de junho de 1891, revogado pela nova lei, a instrução primária era ministrada em escolas primárias para cada um dos sexos. As de 1º grau eram as escolas das cidades e vilas e distritos de paz, compostas de quatro classes. As de 2º grau que se localizavam nas cidades e vilas tinham um curso composto de duas classes, que apresentava um caráter prático e técnico e se destinavam ao ensino de escrituração mercantil e de noções de economia, aos rapazes, e trabalhos de agulha e economia doméstica às alunas. As primeiras seriam dedicadas aos meninos e meninas de sete a quatorze anos de idade e as últimas, ao público masculino e feminino até a idade de 20 anos.
, aos moldes das escolas norte-americanas, mas que, em vista do
11A idéia era a de se criar em Minas, as chamadas escolas “superiores” que, para alguns deputados a
estrutura estaria além dos recursos que se poderia destinar. Nessas escolas, seriam construídos jardins, tanques (piscinas), pátios, etc., levando, inclusive, à irônica observação de um dos deputados de que na sua cidade de origem não seria possível construir uma dessa porque lá não havia água. Esse modelo foi
volume de recursos que demandaria, acabou não sendo aprovada. Discutiu-se ainda, com bastante divergência a questão da composição fiscal do Fundo da Instrução, as matérias do programa, a questão do ensino técnico, dentre outras. No geral, a elaboração do projeto pautou-se pelo reconhecimento da utilidade e do valor diferenciado que cada ramo do ensino ocupava na produção da riqueza de Minas, como explicitou o deputado Bernardino Augusto de Lima:
A criação de institutos técnicos não significa a criação de estabelecimentos de aparato para a instrução. O ensino técnico está sendo considerado e deve sê-lo como mais útil à riqueza pública. Efetivamente o ensino primário tem uma ação indireta e mediata sobre a riqueza pública. O ensino secundário clássico, efeitos remotíssimos; o ensino técnico, porém, age imediatamente sobre esta, multiplicando o número dos industriais esclarecidos, que farão prosperar todos os ramos da atividade, que produzem a riqueza (LIMA, 1891, p. 383)
Embora esse tenha sido o pensamento corrente, a questão da educação do adulto trabalhador não chegou à tribuna, visto que o trabalhador em questão era o menino pobre, desvalido.
Já no Senado, o Projeto fora bastante criticado, principalmente por inspirar-se num modelo estrangeiro. Considerando-o totalmente inadequado, o senador Virgílio Martins de Mello Franco criticou-o duramente dizendo que esse seria “aplicável para a Itália, para a França, para a Alemanha e nunca para o Estado de Minas Gerais”. A proposta, de maneira geral e em especial nos artigos relativos ao ensino normal e ensino primário, era considerada pelo senador inadequada ao solo mineiro, pois, “um povo atrasado, rude e ignorante não pode receber a instrução compatível com as aptidões de um povo já civilizado” (MELLO FRANCO, 1892, p. 3-4).
Para ele, o atraso de Minas era tanto que não seria de um momento para outro que se conseguiria fazer “de um povo atrasado e quase analfabeto um povo civilizado pelo simples milagre de uma legislação adiantadíssima sobre instrução pública” (Ibidem, p.
descrito assim pelo deputado Gomes Freire (1891, p. 383): “o tipo estabelecido para as escolas primárias abrange o que os norte-americanos chamam de - não classificadas e as classificadas. Compreendendo-se na 1ª categoria as escolas que a comissão denomina distritais e urbanas, porque se acham confiadas a um instrutor único que cura da educação de todos os meninos que lhe são confiados, devendo repartir todos os seus cuidados a instrui-los em todas as disciplinas do curso primário. Vem depois as escolas que chamamos superiores, em que cada disciplina ocupa um instrutor separadamente, havendo diversas classes e diversos instituidores e abrangendo todo o ensino da escola rural, distrital e urbana. Corresponde este tipo muito aproximadamente os que foi adotado nos EUA com denominações, primary school,
grammar school e righ school”. Essa classificação não chegou a ir ao Senado, pois foi a mais polêmica entre os deputados em vista dos elevados custos para a criação das chamadas escolas superiores.
4). Na primeira discussão do “sistema geral do projeto e sua utilidade”, Mello Franco já havia se posicionado contrário alegando que o projeto teria dado o monopólio da instrução pública ao Estado, suprimido a liberdade, além de ter estabelecido um plano de ensino que não estaria de acordo com o desenvolvimento e costumes do povo mineiro. Finalizando sua apreciação geral, declarou: “não estamos preparados para receber a instrução pública que é dada pelo projeto e com os programas que adota” (MELLO FRANCO, 1892, p. 4).
Para o senador Joaquim Cândido da Costa Senna, os legisladores não teriam pensado nos efeitos que a reforma produziria no Estado, somente nas “vantagens da instrução considerada em si mesma [...] sem procurar adotar a instrução às condições do povo, e sem procurar melhorar a educação” (COSTA SENNA, 1892, p. 8). Apesar das severas críticas aos programas de ensino não houve alteração neste item, na versão final da Lei de n. 41, que ficou com a seguinte redação:
o ensino primário obrigatório compreende as matérias dos cursos rural, distrital, urbano ou superior, conforme a classificação da escola estadual, em cujo perímetro residir o menino, salvo desenho, ginástica, calistenia, noções de agronomia e trabalhos manuais nas escolas rurais atualmente providas.
Para o senador Costa Senna, a instrução deveria ser uma e a mesma em todo o Estado; todas as escolas deveriam ter o mesmo programa de ensino; e o professor rural deveria ensinar tanto como o professor urbano ou distrital. Nesse ponto, o senador Mello Franco divergia do colega elogiando inclusive essa proposição de diferenciação por considerá- la
uma inovação que ainda vi em país nenhum porque a instrução, como é sabido, é gradual, vai acompanhando o desenvolvimento da inteligência do povo (...) o lugar onde a civilização está mais adiantada deve também ser o centro mais populoso, e portanto aí a educação deve ser proporcional e adaptada à inteligência dos educandos (MELLO FRANCO, 1892).
Nesse sentido, prosseguiu afirmando que o Estado tinha a
obrigação de adotar essa instrução ao desenvolvimento gradual da inteligência dos alunos, de sorte que essa instrução não pode ser a mesma para todos os pontos [...] porque isto é contrário à natureza humana [...] e é por isso que a comissão, adotando a divisão do ensino dado pelas diversas escolas do Estado, estabeleceu programa mais desenvolvido para as povoações urbanas do que para as distritais e rurais (MELLO FRANCO, 1892).
O que o senador Mello Franco ressaltava era a necessidade de se respeitar as condições naturais e sociais do Estado, bem como as particularidades do povo mineiro que vivia disperso pelo vasto território. Com isso, a hierarquização dos saberes, pautada pelas condições mesológicas, se ancorava nos argumentos científicos evolucionistas que impregnavam o pensamento das elites intelectuais naquele momento e acabava por instituir e reforçar uma determinada representação de povo, ao qual bastaria um mínimo de conhecimentos, ou apenas os conhecimentos necessários à sua incorporação à nação como cidadão.
Nas palavras do senador Costa Senna, poderíamos encontrar a “fórmula” para desenvolver o processo de “preparação do cidadão”: a instrução primária. Aquela que “deve e deve sempre correr por conta do Estado, porque é essa instrução que abre aos meninos as portas de seus direitos, deveres e interesses; é esta instrução que é a destinada a fazer do menino um cidadão” (COSTA SENNA, 1892). Não se tratava de proporcionar educação, pois, para o senador, “a educação, todos sabem, consiste em certos hábitos morais e físicos que se impõem às crianças, logo que atingem o uso da razão; esta pertence principalmente à família”. Nesse caso, a educação aconteceria em casa e a instrução, essa sim, seria o único dever do Estado republicano para garantir a formação do cidadão:
o que se propõe, nada tem de especial, nada tem de profissional, ela [instrução primária] não tem por fim criar empregados públicos, não tem por fim criar funcionários, nem classes, nem hierarquias; tem por fim, única e exclusivamente, formar o cidadão. [...]
Para senador, a instrução profissional oferecida nos cursos secundários e cursos de preparatórios teria que ser oferecida a expensas do Estado, por iniciativa particular:
O Estado, quando se põe à testa deste ensino, não é com o fim de formar doutores à sua custa (COSTA SENNA, 1892).
essa instrução profissional [...]que tem por fim criar verdadeiras classes e hierarquias, que dividem depois entre si os cargos públicos [...] deve correr principalmente por conta dos pais de família, e é para eles que existem colégios, academias, universidades, liceus de artes e ofícios, onde se formam os doutores e aprendem ofícios os operários. O Estado apenas estabelece neste gênero de instrução alguns modelos; verdadeiros padrões pelos quais regula os outros estabelecimentos que devem ser fundados pela iniciativa particular, porém sob sua fiscalização (COSTA SENNA, 1892).
Resumindo, naquele momento não caberia ao Estado formar senão o cidadão. Mesmo, porque, conforme defendeu o deputado Ildefonso Moreira de Faria Alvim: “Preparar cidadãos; é a verdadeira política republicana” (FARIA ALVIM, 1892).