5.2. Öneriler
5.2.3. Ebevynlere Yönelik Öneriler
O tratamento conferido ao ensino primário noturno ou à educação do trabalhador adulto na primeira reforma republicana é bem revelador do lugar que viria a ocupar ao longo da primeira década12. Enquanto o Senado não tratou dessa temática, na Câmara o adulto somente ocupou os discursos quando o debate girou em torno da definição do número de presos analfabetos que seria necessário para se abrir uma escola em todas as cadeias: se dez ou mais13
12 Interessante destacar que os legisladores defendiam uma reforma inspirada nos princípios iluministas,
considerados por eles, como sendo os mais avançados e modernos resgatados do continente europeu. Entretanto, desses princípios nenhum se inspirou na preocupação com a educação dos adultos, contida, por exemplo, no relatório de Condorcet, para quem a educação deveria se prolongar “au long de la vie”, a despeito de seu projeto ter caráter naturalmente elitista. Essa idéia, segundo Nöel Terrot (1997) alimentou todos os debates sobre a educação de adultos na França. Para os revolucionários, a educação era um meio importante e fundamental para a transformação da sociedade. Essa preocupação com a educação dos adultos levou à elaboração de um conjunto de leis e ao desenvolvimento de diversas iniciativas, principalmente após a supressão das aprendizagens corporativas. Para Condorcet, havia quatro motivos para se investir na educação dos adultos: “la justice sociale, l’évolution des connaissances, l’apparition
du travail parcellaire et la formations des citoyens”. (p. 29). A injustiça estaria na ausência de uma formação inicial dos adultos, por isso instruí-los representaria o resgate desse valor; a instrução deveria assegurar aos adultos a facilidade de se conservar os conhecimentos que se renovavam continuamente e, para isso a escola deveria possibilitar ao adulto “d’apprendre à apprendre”. (p. 31); quanto à nova organização do trabalho, a educação do adulto se justificaria pela possibilidade de levá-lo a indagar sobre as possibilidades de melhorar as condições de trabalho, e também seria uma forma de combater a monotonia e desinteresse pelo trabalho repetitivo e o absenteísmo ocasionado por esse desinteresse. A educação do adulto, para Condorcet, atenuaria os efeitos do trabalho manufaturado ao proporcionar o aperfeiçoamento profissional e a atualização dos conhecimentos. Por fim, a instrução do adulto acabaria com a ignorância acerca das leis nacionais que impediria que o adulto conhecesse os seus direitos e deveres. Mas, a formação do cidadão não se restringiria somente ao conhecimento das leis; para Condorcet, também deveriam fazer parte da formação, as cerimônias patrióticas sobre os eventos mais importantes do país. Essas são algumas das idéias que circulavam no contexto francês, mas que não fizeram parte da preocupação com a instrução e educação do adulto; estiveram, em alguma medida, presentes nas proposições reformistas, mas endereçadas à infância.
13 Os deputados recordaram que a Lei n. 1.741, de 08 de outubro de 1870, havia criado escolas em
diversas cadeias centrais, mas que somente haviam sido preenchidas as matrículas de Ouro Preto e Campanha, ficando vagas as de S. João Del Rey, Diamantina, Mariana, Montes Claros e Barbacena. Na escola de Ouro Preto, dos quatrocentos presos somente dezesseis estavam matriculados (SALLES, 1891, p. 419)
. A elevação desse número, para os deputados, não seria produtiva porquanto a escola na cadeia não estava trazendo os resultados que se esperava, pois, conforme advertiu o deputado Eugênio Simplício de Salles: “como sabem os colegas, é impossível ensinar-se a um adulto aquilo que ele não quer aprender” (1891, p. 419). Noutro momento, a referência sobre escolas noturnas se referia ao horário das aulas, que seria das 18:00 às 21:00h. Essas foram as duas únicas referências localizadas nos documentos consultados.
Além de não se constituir objeto de discussões ou polêmicas entre os parlamentares, parecendo haver consenso quanto ao seu tratamento, recebeu atenção em somente um artigo, tanto no Decreto quanto no texto final da Lei. Uma única medida, que, no entanto, teve uma grande repercussão mudando por definitivo o encaminhamento da política de escolarização dos adultos. No texto da Lei n. 41, o art. 103, das disposições transitórias, fez a seguinte recomendação: “das atuais escolas noturnas, só serão mantidas aquelas que tiverem freqüência efetiva de trinta alunos, ficando suprimidas à proporção que vagarem”. Essa medida ratificou o estabelecido pelo Decreto de n. 260, de 1º de dezembro de 1890 e, além de restringir o número de escolas para cada localidade, também reafirmou, como critério para a manutenção das mesmas, a freqüência efetiva de trinta alunos nas escolas primárias noturnas, suprimindo as já existentes à proporção que elas vagassem14
O reconhecimento da intencionalidade de se “proibir” a criação de escolas noturnas perdurou por um longo período reverberando nas ações dos parlamentares mineiros. O que se percebe é que a obtenção da aprovação de autorização de novas escolas acabou sendo feito mediante uma relação de “favores” e a partir de jogada política, como ocorreu com um Projeto apresentado pelo deputado Raul Penido, em 1895, solicitando a criação de duas cadeiras noturnas masculinas na cidade de Além Paraíba, uma das mais importantes produtoras de café do Estado, e na cidade de Pomba. O Projeto deu entrada na pauta do dia 25 de junho de 1895, sendo recusada sua apreciação pela Comissão de . Nesse caso, o que se percebe é que as escolas noturnas deveriam ter uma freqüência efetiva superior à mínima exigida para as demais escolas, que era a de quinze alunos nas escolas rurais; vinte nas distritais e 25 nas escolas urbanas.
Como vimos, no cumprimento dessa determinação foram suprimidas 44 das 79 cadeiras noturnas existentes. Ao apresentar o relatório ao presidente do Estado Cesário de Faria Alvim, o secretário Antônio Augusto de Lima assim noticiou a implementação dessas medidas: “foram suprimidas 44 escolas noturnas [...] por desnecessárias” (LIMA, 1891, p.42). Será que essa consideração das escolas noturnas, como “desnecessárias”, poderia ser entendida como expressão de um pensamento comum à elite política mineira da época para a qual o ensino dos adultos não se constituiria demanda legítima ao ponto de encontrar um lugar na política educacional?
14Capítulo IV - das escolas - art. 29: as escolas noturnas atualmente existentes serão suprimidas à
Instrução Pública, representada pelo deputado Juvenal Coelho de Oliveira Penna, sob os seguintes termos: “deixamos de pronunciar sobre sua aprovação, porque pelo art. 103 da Lei n. 41, parece ter sido intenção do legislador proibir a criação de cadeiras noturnas” no Estado. (PENNA, 1895, p. 354).
O Projeto foi para 2ª discussão e quando entrou em pauta novamente, em 6 de junho, recebeu uma emenda do deputado Sr. Augusto Clementino da Silva, elaborada a partir de uma Representação enviada pelos “habitantes do Brumado”, município de Pitangui, solicitando a conversão da escola diurna, da Fábrica do Brumado em noturna, sob a seguinte alegação:
Sr. Presidente, quase todas as crianças, em idade escolar do Brumado durante o dia ficam empregadas na fábrica de tecidos, de sorte que não podem freqüentar a escola, ao passo que se for deferida a representação, elas poderão perfeitamente freqüentá-la. Esta escola, Sr. Presidente, foi criada e é mantida pelo Estado e havendo ali um grande número de meninos que não podem freqüentá-la durante o dia, me parece razoável a transformação requerida para que se possa ser convenientemente freqüentado e produzido o resultado desejado, por isso manda a mesa a seguinte emenda (muito bem) (SILVA, 1895, p. 422).
O Projeto foi aprovado conjuntamente e entrando em discussão o deputado cônego João Pio de Souza Reis percebendo a incoerência da decisão, considerando que o parecer da comissão de instrução fora contrário à criação de escolas noturnas, logo se manifestou. Para acompanhar o debate vale reproduzir todo o diálogo que se sucedeu entre os deputados:
Sr. João Pio: Sr. Presidente, havendo um parecer da Comissão de Instrução Pública em que a Comissão relutou ou entrou em dúvidas se deviam ser criadas cadeiras noturnas e não tendo sido ainda votado esse parecer a Comissão vem apenas dizer à Câmara que se votar esta transferência para cadeira noturna ipso facto deve votar os projetos criando cadeiras noturnas de instrução primária.
Um Sr. Deputado: - Mas trata-se de uma cadeira criada em uma fábrica de tecidos.
O Sr. João Pio: - Pela Lei n. 41 parece que não devem ser criadas cadeiras noturnas e foi em vista dele que a Comissão entrou em dúvida. Venho fazer esta declaração, porque uma vez que se vote por esta emenda, ipso facto, deve-se votar contra o parecer da Comissão, e criar duas escolas noturnas: uma na cidade de Pomba e outra na cidade de São José D´Além Parahyba. Não posso opor-me à aprovação da emenda em discussão de modo nenhum; entretanto, chamo apenas atenção da Casa para sua votação, que irá determinar futuro parecer.
Sr. A. Clementino: Trata-se de uma cadeira especial, em uma fábrica de tecidos.
Sr. João Pio: Mas a Lei n. 41 parece dizer que não deve criar mais cadeiras noturnas no Estado (SOUZA REIS, 1895, p. 422)
Ainda assim, o projeto foi aprovado, entrando em 2ª discussão, dois dias depois, o Presidente da Casa, sr. Juvenal Penna, em vista da resolução da Câmara e se “exonerando de votar”, justifica sua posição. Reconhecendo que Comissão de Instrução pública “não quis assumir a responsabilidade de criação de escolas noturnas; entendeu mais acertado partilhá-la com a Câmara e o orador, tendo em considerações o procedimento anterior desta, acredita que não será coerente votando pelo projeto”. (Ibidem, p. 423). Ou seja, a aprovação não partiu da Comissão, e não foi apoiada pelo Presidente da Casa, mas os demais deputados é que o aprovaram, abrindo, assim, uma brecha para mais uma emenda de “uma zona que pretende igual favor”, como disse o deputado Ignácio Murta se referindo ao pedido de outra Fábrica:
Sr. Presidente, apesar de ter ouvido a leitura do parecer da ilustre Comissão de Instrução Primária, contrário à criação de cadeiras noturnas, por entender que esta Comissão que a Lei n. 41 procurou obstar a criação de tais cadeiras, eu, aproveitando-me do precedente aberto em sessão de ontem, nesta casa, quando se votou uma escola noturna para uma fábrica de tecidos, venho desempenhar-me de incumbência a mim feita pelos moradores de uma zona que pretende também igual favor.
Por isso Sr. Presidente, vou mandar à mesa uma emenda concebida nos seguintes termos: Fica também criada uma escola noturna do sexo feminino na fábrica de tecidos do Bom Jesus d´Agua Fria, do distrito de Itinga, município de Arassuahy (MURTA, 1895, p. 423).
Como forma de buscar legitimidade para a sua iniciativa afirmou ter analisado “documentos incontestáveis e oficiais”, consultado o inspetor municipal e o “mapa de alunos que freqüentam a escola mantida naquele lugar, onde existiam 43 alunos matriculados, com grande freqüência e aproveitamento. (Apoiado do Sr. Pedro Celestino Rodrigues Chaves)”. Sendo assim, esperava que a Câmara procedesse “com toda justiça não negando a criação dessas escolas, quer do projeto, quer das emendas, consoante com o que se praticou na sessão anterior (muito bem!)”. Obtendo apoio de vários deputados, conseguiu a aprovação em 3ª discussão. O projeto foi ao Senado de onde retornou, em setembro, com mais emendas relativas à criação de escolas em fábricas e, obtendo dispensa das formalidades regimentais foi aprovado, sancionado pelo Presidente do Estado e publicado como Lei de n.199, de 18 de setembro de 1896, com a seguinte redação:
O povo do Estado de Minas Gerais, por seus representantes, decretou e eu, em seu nome, sanciono a seguinte lei:
Art. 1. Ficam criadas escolas noturnas de instrução primária nos seguintes lugares:
Uma para o sexo masculino na cidade de S. José d´Alem Parahyba; uma na cidade do Pomba, para igual sexo; uma do sexo feminino na Fábrica de
Tecidos bom Jesus d´Agua Fria, distrito de Itinga, município de Arassuahy, uma do sexo masculino no distrito de Taboleiro Grande, município de Sete Lagoas; duas para o sexo masculino, sendo uma na cidade de Conceição e outra na oficina de fundição, na Cidade de Ponte Nova; uma para o sexo masculino na cidade de Bocayuva; duas para o sexo feminino, sendo uma na Fábrica de Tecidos do Beribery, município de Diamantina, e outra na fabrica de tecidos da Cachoeira, distrito de Sant´Anna de São João Acima, município do Pará.
Art. 2. Fica convertida em noturna a escola de instrução primária da fábrica de tecidos do Marzagão, município de Sabará.
Art. 3. Revogam-se as disposições em contrário.
Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei pertencerem, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se contém (MINAS GERAIS, 1896).
Nessa manobra política foram criadas, portanto, nada menos do que nove escolas noturnas, além de transformada em noturna a escola da Fábrica do Marzagão. O recurso à mediação política parece ter sido a maneira encontrada pelo setor fabril para garantir o cumprimento à obrigatoriedade, estabelecida pela lei 41, no seu artigo 54:
Os pais, tutores, patrões e protetores são responsáveis pela educação dos meninos que em sua companhia ou sob sua autoridade estiverem, e, como tais, obrigados a fazer com que eles, em idade escolar, freqüentem a escola pública primária do Estado, a fim de aprenderem os conhecimentos de que trata o art. 88. (MINAS GERAIS, 1892, p. 43)
Considerando que mulheres e crianças constituíam a grande maioria do operariado fabril em Minas, essa preocupação pode confirmar a grande presença de crianças em idade escolar trabalhando nas fábricas. Poderíamos, assim, entender esse “surto” de criação de escolas como indicativo de uma preocupação com a escolarização dos operários, ou apenas como uma forma de se cumprir as exigências legais?
Pode-se afirmar, em relação às implicações da primeira reforma republicana no ensino noturno, é que ela desencadeou um processo de diminuição gradativa das iniciativas oficiais, levando a uma maior entrada e participação de outros grupos sociais nesse ramo do ensino, destinado aos trabalhadores mineiros. Entretanto, a despeito das medidas restritivas aqui discutidas veremos, no capítulo VII, que a participação do Poder Público não desapareceu, pois o Governo mineiro manteve a política de financiamento às iniciativas particulares e de associações subsidiando as escolas noturnas por meio de auxílio pecuniário ou de materialidade. Pode-se destacar ainda que, embora o Congresso Mineiro não desconhecesse a legislação que impedia a criação das escolas noturnas, vários pedidos foram atendidos, seja objetivado por intencionalidade política ou não, mas o fato é que a demanda apresentada provocou
certa sensibilização na elite política ao ponto de haver uma verdadeira burla aos próprios constrangimentos normativos que vigiam no momento.
Na discussão seguinte veremos em que medida a segunda reforma da instrução pública primária implicará ou não na organização do ensino primário noturno mineiro.