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De 1909 a 1926, Chácaras e Quintais publicou 2.479 artigos sobre os mais diversos temas, os quais espelham a riqueza de informações relativas à agricultura e pecuária que se queria transmitir ao público do meio rural brasileiro. Essa produção era escrita tanto por cientistas: médicos, farmacêuticos, biólogos e engenheiros agrônomos vinculados a instituições de pesquisa, quanto por especialistas, que acumulavam seus conhecimentos na prática. Incluíam conselhos e ensinamentos relacionados a procedimentos

agrícolas e à criação de animais, bem como acerca do tratamento e prevenção de doenças humanas. Foram considerados, nessa primeira análise, todos os artigos publicados em Chácaras e Quintais entre 1909-1926, incluindo a produção dos cientistas e a dos especialistas, procurando identificar os temas de tal produção.

Os temas dos artigos encontrados na revista são variados: grande parte se refere à avicultura e à entomologia e pragas, outros tratam de exposições e eventos agropecuários, apicultura, floricultura e botânica. Um número considerável trata de criação de bovinos, fruticultura, produção de alimentos e bebidas, e das doenças que acometem os animais e seu tratamento. Há ainda muitos artigos sobre saúde pública, criação de porcos, assuntos institucionais, culturas de grande extensão, indústria agrícola, ornitologia, educação agrícola, horticultura e construções rurais, entre muitos outros.

A classificação dos assuntos não é dada pela revista; foi por mim atribuída. Empreguei, por exemplo, o termo entomologia e controle de pragas para artigos que englobassem a descrição de insetos, o controle de pragas que atacam à lavoura e insetos transmissores de doenças de animais e humanas. Essa produção abrangeria, portanto, a entomologia agrícola, a taxonomia entomológica, a entomologia veterinária e a entomologia médica, sendo que a grande maioria da produção da revista seria referente à entomologia agrícola.

A Tabela 1 apresenta uma classificação dos assuntos com maior incidência de artigos de 1909 a 1926. Foram incluídos os assuntos que alcançaram pelo menos 40 artigos, totalizando 1.772 artigos. Optei por apresentá-la desta forma porque esses assuntos concentraram a maior parte da produção (71,4%) da revista no período, representando, portanto, uma razoável amostra dos temas tratados nessa primeira fase do periódico.

Tabela 1

Chácaras e Quintais

Classificação dos artigos por assunto (temas de maior incidência) Período 1909-1926

Assuntos Artigos Avicultura 355 Entomologia/pragas 228 Exposições e eventos 121 Apicultura 118 Floricultura 104 Botânica 94 Criação de bovinos 90

Produção de alimentos e bebidas 81

Fruticultura 79 Veterinária 68 Saúde pública 61 Criação de porcos 55 Assuntos institucionais 50 Agricultura 49 Indústria/extração 46 Ornitologia 45 Educação agrícola 44 Horticultura 42 Construções rurais 42 Total 1.772

Consultando-se a tabela, observa-se que os assuntos de maior incidência na revista foram: avicultura, entomologia e controle de pragas, exposições e eventos, apicultura e floricultura.

O gráfico a seguir ilustra melhor o resultado encontrado em relação à incidência temática dos artigos.

0 50 100 150 200 250 300 350 400 Avicu ltura Ento molo gia/P raga s Expo siçõe s e E vent os Apicu ltura Floricu ltura Botâ nica Criaç ão d e bo vinos Prod ução de A lim. e Beb idas Frut icultu ra Vete rinár ia Saúd e Púb lica Criaç ão d e Po rcos Assu ntos insti tucio nais Agric ultur a Indú stria/ extra ção Ornit ologia Educ ação Agr ícola Horti cultu ra Cons truçõ es ru rais Chácaras e Quintaes

Classificação dos artigos por assunto (assuntos de maior incidência) Período 1909-1926

Avicultura é sem dúvida um tema central na revista, tratado em artigos, consultas e anúncios. Essa era uma das atividades comerciais desenvolvidas pelo conde, que possuía um aviário em sua propriedade em Vila Ema, bairro paulistano. Aves foram várias vezes objeto de premiação nos concursos da revista, parte delas, provavelmente, provenientes da criação do próprio editor.

Entre os autores que publicaram artigos sobre o tema no período, destacam-se: João A. Wilson da Costa, Oswaldo de Sequeira, conde Barbiellini, Manuel Carneiro e Delgado de Carvalho. Sobre eles são tecidos alguns comentários na análise sobre os autores.

Grande número de artigos se refere a exposições e eventos agropecuários. As exposições noticiadas ocorriam em diferentes pontos do País, patrocinadas muitas vezes pela revista, pelos governos estaduais e municipais, bem como por associações agropecuárias.

A apicultura era um tema também muito abordado na primeira fase da revista, constituindo assunto de artigos e seções fixas. Dom Amaro van Emelen, prior do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, foi o principal colaborador da revista especializado nesta temática. Além de responder a perguntas sobre o tema, assinava as seções especializadas e escrevia artigos.

Entre os autores que trataram do tema, além de dom Amaro, destacam-se: Emílio Schenk, professor ambulante19 de apicultura do Ministério da

Agricultura; e José Mariano Filho, botânico do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Floricultura foi tema também de muitos artigos na revista no período. Os artigos se referiam ao cultivo de plantas e flores, com finalidades ornamentais e comerciais, abordando, entre outros aspectos, a descrição de plantas, as técnicas e métodos de cultivo e a fabricação de perfumes e outros produtos das flores.

Grande parte da produção analisada dedica-se às atividades que podem ser desenvolvidas e aprimoradas pelos pequenos e médios proprietários, como a avicultura, a apicultura, a floricultura e a horticultura. Uma parcela importante dos artigos trata de temas como pragas na lavoura, exposições e eventos, criação de bovinos, fruticultura e veterinária; informações que podem interessar aos grandes proprietários. Certamente as divisões propostas não são rígidas, pois as mesmas atividades podem ser desenvolvidas por pequenos e grandes proprietários, variando, em cada caso, o tamanho da atividade.

Os cientistas que colaboraram com Chácaras e Quintais na fase inicial da revista eram pesquisadores de importantes instituições científicas brasileiras. Uma parte deles pertencia ao Instituto Oswaldo Cruz, por exemplo, o entomologista Ângelo Moreira da Costa Lima, o virologista Henrique Aragão e o entomologista Arthur Neiva. Este último foi diretor do Serviço Sanitário de São Paulo (1916-1918), trabalhou no Museu Nacional do Rio de Janeiro (1923- 1927) e também dirigiu o Instituto Biológico de São Paulo (1927-1931).

Outra instituição a contribuir com muitos articulistas foi o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), chamado à época de Instituto Agronômico do Estado de São Paulo. Entre seus cientistas, podemos citar: o agrônomo Octaviano de Moraes Sampaio, diretor-técnico de Chácaras em 1911; J. Arthaud Berthet, diretor do IAC (1909 a 1924);20 o fitopatologista José de

19 Professores ambulantes eram profissionais especializados, contratados pelo Ministério da Agricultura,

para levar conhecimentos em agricultura e criação de animais à população rural.

Campos Novaes; William W. Coelho de Souza, chefe da Seção de Algodão do Instituto; e o entomologista Gregório Bondar (1912).

Do Instituto Biológico de Defesa Agrícola do Rio de Janeiro, escreveram para a revista: o agrônomo Antonio Francisco de Magarinos Torres e os entomologistas Carlos Moreira, Luiz A. de Azevedo Marques e Ângelo da Costa Lima, que ingressou no Instituto em 1922.

Do Instituto Pasteur de São Paulo, publicou na revista seu diretor, Antonio Carini, cientista italiano, ex-diretor do Instituto de Bacteriologia, Soroterapia e Moléstias Infecciosas de Berna, Suíça (Teixeira, 1995). Carini, além de ser consultor técnico de Chácaras e Quintais em parasitologia, publicou artigos na revista sobre uma epizootia de raiva provocada por morcegos que ocorrera em Santa Catarina e sobre doenças dos animais. O Instituto Pasteur de São Paulo era uma instituição privada que, durante a gestão de Antonio Carini, atuou na resolução de problemas veterinários no Estado de São Paulo, cumprindo nas duas primeiras décadas do século XX um papel que caberia, a princípio, a uma instituição pública. (Teixeira, 1995).

Entre os articulistas, incluíam-se ainda cientistas do Instituto Butantan, como o farmacêutico Waldemar Peckolt, o botânico Frederico Carlos Hoehne e o microbiologista Vital Brasil.

Além desses cientistas, publicaram também na revista nessa fase médicos renomados, como Luís Pereira Barreto e Renato Kehl, bem como cientistas de outras instituições e órgãos governamentais.

A Tabela 2 apresenta a produção na revista dos principais autores, cientistas e especialistas, do período de 1909 a 1926. Destacaram-se nessa atividade: Paschoal de Moraes, dom Amaro van Emelen, João A. Wilson da Costa, Rodolpho von Ihering, Gregório Bondar e Oswaldo de Sequeira.

Paschoal de Moraes trabalhava no Observatório Nacional e escreveu artigos sobre diferentes culturas, indústria agrícola, criação de animais e meteorologia.

http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/P/verbetes/estagrcamp.htm#historico. Acesso em:

Dom Amaro van Emelen, como já mencionado, era monge do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro e o principal colaborador da revista na área de apicultura.

João A. Wilson da Costa era avicultor e um dos grandes especialistas em avicultura dessa fase da revista.

Rodolpho von Ihering era zoólogo. Filho do naturalista alemão Hermann von Ihering, trabalhou no Museu Paulista (1901-1917) e depois no Laboratório de Parasitologia da Faculdade de Medicina de São Paulo (1926-1927). Em 1927, ingressou no Instituto Biológico de São Paulo, trabalhando como assistente na Seção de Entomologia e Parasitologia Animal e depois chefiando a Seção de Zoologia, a partir de 1934. Foi redator da Diretoria de Publicidade Agrícola da Secretaria de Agricultura de São Paulo e diretor da Comissão Técnica de Piscicultura do Nordeste (1932-1937) (Fundação Oswaldo Cruz, [2002]; Reis, 1983). Rodolpho von Ihering desenvolveu trabalhos importantes na área da piscicultura e se dedicou também a escrever obras de divulgação científica para jovens e o público em geral (Reis, 1983). Os artigos que publicou na revista nesse período foram, principalmente, sobre entomologia, ornitologia e piscicultura.

Gregório Bondar era um entomólogo russo que veio para o Brasil em 1910. Trabalhou no Instituto Agronômico de Campinas (1912), na Secretaria de Agricultura da Bahia (1921), no Serviço de Fitopatologia do Estado da Bahia (1928), no Instituto do Cacau da Bahia (1936), no Instituto Central de Fomento Econômico da Bahia (1939), no Instituto de Química Agrícola e Tecnológica da Bahia (1946) e no Instituto Biológico da Bahia (1948).

Oswaldo de Sequeira foi colaborador de Chácaras e Quintais por muitos anos e um especialista em avicultura. Foi um dos autores da ”Cartilha avícola brasileira”, monografia da série “Biblioteca agrícola popular brasileira”, editada por Chácaras e Quintais (Barbiellini, 1950; Biedma e Sequeira, 1953).

Os cientistas procuravam instruir os agricultores, fossem eles grandes fazendeiros ou pequenos sitiantes, a aprimorar suas atividades agrícolas e criações, modernizando-as, para alcançar melhores resultados, incorporando em suas práticas os conhecimentos científicos.

Observa-se que alguns cientistas trabalharam em mais de uma instituição ao longo do período, o que demonstra certa mobilidade em suas trajetórias profissionais. Esses cientistas dedicaram-se a atividades de ensino e pesquisa e exerceram também funções em órgãos governamentais.

Tabela 2