A Psiquiatria criou os modernos Manuais de Classificação Estatística Diagnóstica, que foram sendo refeitos periodicamente, visando principalmente estabelecer critérios para pesquisa e acompanhar os avanços na psicofarmacoterapia. Estes critérios diagnósticos – do DSM-IV e do CID-10 – foram baseado-se em descrições fenomenológicas dos quadros e sinais objetiváveis aparentes, conceitos relativos de “normalidade” psíquica, estabelecidos a partir de avaliações quantitativas do grau de inadequação interferência dos sintomas no desempenho social dos sujeitos, com a orientação positivista das ciências naturais pressupondo um julgamento “imparcial” por parte do observador.
Essas modernas Classificações Diagnósticas Estatísticas em Psiquiatria (que se dizem “ateóricas”) são herdeiras da Fenomenologia Jasperiana (JASPERS, 1987)) que, em sua clássica e insuperável obra “Psicopatologia Geral”, estabeleceu as bases para o desenvolvimento do diagnóstico psiquiátrico através da Súmula Psicopatológica – que consiste no exame do Estado Mental do paciente num corte transversal. Está presente aí a antiga querela do “compreender” (relativa ao “compreensível” do ponto-de-vista psicológico) e do “explicar” (tendo “explicação” numa doença concebida organicamente, como uma entidade mórbida com
correlação anátomo-clínica), na qual a Psiquiatria até hoje continua se debatendo em controvérsias intermináveis, como se pode ver em LOPES (2006):
“O limite entre a normalidade e a doença se coloca como grande questão em psiquiatria, sujeita a conceitos controversos. Em vista disso, prefere-se o termo transtorno para designar um quadro clinicamente reconhecível, como alteração de comportamento com sintomas associados a sofrimento e interferência nas atividades habituais.” (MICHELON e VALLADA FILHO, in: LOPES, A.C., 2006, p.2471)
Entretanto, as classificações têm se distanciado até mesmo da própria Fenomenologia jasperiana original, restringindo-se às aparências dos fenômenos observáveis quantitativamente, ou seja, quantificáveis metodologicamente para fins de pesquisa dentro do paradigma positivista das neurociências.
As entidades construídas nosologicamente, ou convencionadas por uma Classificação, seriam “sintomas”, “síndromes” ou “doenças”? Até que ponto pode-se manter o antigo termo “Endógeno”, em contraposição ao “Psicógeno”? Esses termos, hoje obsoletos, foram convenientemente substituídos pela proposição etiológica do “Biopsicossocial”, que veio atender, de certa forma ou pelo menos em parte, ao melhor entendimento da rede multifatorial e à complexidade etiológica dos quadros. Mais adiante será discutida a concepção do “Sintoma Psíquico” visto sob essa perspectiva e suas implicações para a prática médica.
O modelo biopsicossocial (ENGEL,1980) deriva da teoria geral dos sistemas. “O sistema psicológico salienta o impacto dos fatores psicodinâmicos, motivação e
personalidade sobre a experiência ou reação à doença.” E mais: “O ‘comportamento de doente’ é o termo usado para descrever as reações de um paciente à experiência de estar enfermo.” (KAPLAN, 2003)
Assim, pode-se compreender que o chamado “Perfil biopsicossocial” é exatamente um corte transversal que pressupõe a existência de uma “doença” prévia.
Podemos exemplificar essas dificuldades diagnósticas tomando como exemplo a entidade nosológica anteriormente conhecida como “Depressão Maior” - hoje chamada “Episódio Depressivo Maior”- porque este poderia ser o primeiro episódio de uma série, que poderia configurar futuramente um “Transtorno Depressivo Recorrente” ou qualquer outra entidade nosológica dentro do grande grupo dos “Transtornos do Humor.”
Na história das Classificações em Psiquiatria pode-se suspeitar, nas próprias mudanças dos nomes das entidades nosológicas, das antigas “Doenças Afetivas” para os chamados “Transtornos do Humor”, a persistência de uma dúvida que persegue esses diagnósticos. Até que ponto, ou em que medida, uma manifestação sintomática depressiva seria “Depressão-doença”, ou até que ponto ela seria “Psicogênica, Reativa ou Situacional”?
Para o diagnóstico específico de um quadro depressivo pode-se ver a precariedade:
“O diagnóstico de transtorno depressivo requer a exclusão do transtorno bipolar, outro tipo de alteração do humor com curso, tratamento e prognóstico distintos.” (LOPES, 2006, p. 2471)
“O diagnóstico de depressão deve ser concebido como uma categoria arbitrariamente definida de um fenômeno dimensional. Em um extremo, tem-se a depressão “normal”, fenômeno humano universal, e, no outro, as depressões graves com sintomas psicóticos. O ponto de corte que determina o limite da normalidade leva em consideração a intensidade, a duração, a persistência, a abrangência, a interferência com o funcionamento fisiológico e psicológico e a desproporção em relação a um fator desencadeante.” (DUNCAN; SCHMIDT; GIUGLIANI, 2004, p.875)
“Avaliação da história prévia de um episódio maníaco ou hipomaníaco. Durante um episódio depressivo, é mandatório que o clínico pergunte sobre a história prévia de episódios de euforia, gastos excessivos, irritabilidade intensa, idéias de grandeza, bem como sobre a presença de história familiar de episódios dessa natureza. Na suspeita de um transtorno bipolar, o paciente deve ser avaliado por um psiquiatra, antes que um antidepressivo seja prescrito, pois o antidepressivo pode desencadear episódio maníaco em um paciente com depressão bipolar.” (DUNCAN; SCHMIDT; GIUGLIANI, 2004, p.876)
Acresça-se a isso o despreparo na formação médica:
“Entretanto, os médicos sentem-se despreparados para atuar no campo da saúde mental. Tal fato traz interrogações tanto sobre a formação do médico quanto sobre o estado atual da própria atividade clínica, submetida às pressões da superespecialização, do primado da tecnologia e da proletarização da profissão médica.” (LOPES, A.C., 2006, p.2471)
Por via das dúvidas, empregando-se os psicofármacos aliados à psicoterapia, estaria se tratando os dois lados concomitantemente e assim todos os problemas estariam resolvidos. Entretanto, essa dicotomia de abordagens, que de modo geral seguem paralelas e não se encontram, podendo muitas vezes ser até mesmo contraditórias entre si, leva a outros impasses e dificuldades, que foram objetos de nosso estudo nesta pesquisa.