A História de Vida ajuda a percepção da estrutura psicótica, mesmo quando ela não está evidente.
Al. 1: – “A impressão que a gente tinha é assim, que o psicótico é totalmente diferente de uma pessoa normal. Se ele tiver surtado, claro, porque aí qualquer um vê, mas ele não está surtando, aí ele é igual que nem...”
Al. 1: – “Por exemplo, pra mim o que vai caracterizar um psicótico é um delírio louco, doidão dele assim, o mais escancarado, fora as outras coisas, né? E a gente foi perceber que não é só isso, né?”
8.7.1 Dúvidas quanto ao diagnóstico: delírio, mentira ou fantasia?
Al. 1: – “Ela relata uma cena de violência, depois você pergunta: - Você já sofreu violência na sua vida? – Não... (ela respondeu). Onde que queimar a língua dos outros não é violência? Né? Ainda mais de uma menina de onze anos!”
Al. 1: – “Depois que você pergunta o quê que ela sentiu, ela fala que é normal. Como se fosse normal uma mãe furar com cigarro a língua do outro. Fora que é muito fácil segurar a língua da menina, né?”
Al. 5: – - “Como que desenvolveu isso, essa questão pra ela? Será que veio de um jeito que ela foi criada, como que ela se relacionava com a família, ou se foi só uma questão daquele momento?...A gente só confirmou quando a gente colheu a História de Vida, né? Era só suspeita, né?”
Al. 1: – “A mãe dela pode realmente até ter queimado a língua dela, isso é uma coisa que pode até ser aceitável. Fumar com 11 meses é uma coisa muito
delirante, mas, mesmo que ela não tivesse falado isso, a gente ia conseguir perceber, entendeu?”
Al. 2: – “Se eu tivesse atendido uma paciente antes dela, sem eu ter feito essa aula, e ela tivesse falado comigo que ela fumava desde os 11 meses de idade, eu ia deixar passar. Ia ficar como: Ah! Ela deve estar...sei lá, deve ter pensado errado, alguém deve ter falado com ela alguma coisa errada.”
Al. 3: – “Então nem isso ficou claro. Se o que a mãe dela fazia era verdade ou se não era verdade.”
Al. 3: – “Quando a gente estava fazendo a consulta de Clínica Médica (eu tive essa impressão) que ela simplesmente exagerou o dado da idade, não necessariamente ela inventou. Isso pra mim não ficou claro, se era uma invenção que ela fumava desde os 12 meses, ou se ela tinha exagerado.”
Al. 3: – “E não saí com a certeza se a mãe dela também não é doida...Eu saí com a impressão de que eu realmente não sei o quê que a mãe dela fez. Boa parte daquilo é e invenção.É uma mãe que ela levou pra gente construída, que não é a mãe dela real. Não é pessoa física, pelo que ela foi falando.”
A percepção do aluno da inadequação de uma confrontação do delírio: Al. 1: – “O professor sugeriu: Ô D., pergunta pra ela, toca de novo no assunto dela ter fumado, pergunta se é verdade mesmo... Aí a D. não perguntou, porque ela sabia que se ela perguntasse corria o risco dela sentir essa confrontação e não voltar lá mais.”
8.7.2 Percepção da falta de posição subjetiva na psicose O psicótico na posição de objeto:
Al. 1: – “Ela fala, ela expressaria o que seria uma expressão de todo mundo, não uma coisa dela...É como se aquilo tivesse simplesmente acontecido e pra ela é indiferente ter acontecido ou ter deixado de acontecer.”
Al. 1: – “Ela não teve uma fala, ou uma situação que ela tenha feito alguma coisa ou deixado transparecer que ela fizesse alguma coisa porque ela queria que o outro gostasse. Ela só conta o que os outros fazem com ela, sabe? Ela não se
preocupa com o desejo do outro. O outro vem cá, faz o que quer fazer com ela, e
pronto!”
Al. 2: – “Ela não conseguia é internalizar a situação e raciocinar e pensar assim: por que minha mãe está fazendo isso comigo, por quê minha tia está fazendo
isso comigo, quê que eu fiz? Será que ela gosta de mim mesmo? Ela nem pensava
nisso, não.”
Al. 10: – “A postura do sujeito é uma postura social, de troca e ela não tinha isso. Então pode ser que ela se portasse como objeto, à mercê daquele que fazia dela gato e sapato. Segurava a língua, puxava, queimava....Então ela não se colocava como sujeito. Ela não tinha essa questão de laço em relação ao outro.”
Al. 10: – “Ela não tem essa necessidade de fazer as coisas, não pra ser
reconhecida. Ela quer o amor também, mas não fica muito preocupada com o que as
outras pessoas estão pensando, sabe? Ela não está nem aí se a mãe dela gosta, se confia ou não confia nela.”
8.7.3 A ausência do Édipo no romance familiar (a foraclusão do Nome-do-pai – Lacan, 2003)
Al. 1: – “Você não consegue pegar uma figura feminina, uma figura materna, uma figura masculina, você não consegue. Parece que falta alguma coisa, eu não sei explicar, não.”
Al. 1: – “Se eu visse a entrevista dela primeiro, eu veria que estava faltando alguma coisa, mas não sabia o que é. Na hora que você vê o do “J” e vê o dela depois, aí você vê que está faltando alguma coisa mesmo.”
Al. 2: – “Ela não tinha interesse em agradar ninguém... Mesmo quando o pai dela morreu, também ela ficou um pouco indiferente. Apesar da situação dela de não ter conhecido ele direito assim, mas não demonstrou que tinha romance bem estabelecido, não.”
Al. 3: – “Ela se contradiz em vários momentos. Quando ela falou do pai dela, por exemplo – morreu e ela pensou, com 6 anos de idade: se ele não cuidou de mim durante a vida, por que eu vou no enterro dele agora? E ao mesmo tempo ela não lembra o que ela sentiu. Ela lembra que era uma criança tão madura que pensou isso, mas não o quê que ela sentiu em relação à morte do pai.”
Al. 3: – “Ela não mostrou que ela queria que o pai dela gostasse dela, por quê que o pai dela não gostava dela. Não mostrou o sentimento em relação à mãe que não confiava nela: por quê que a minha mãe não confiava em mim? Nem desejava que a mãe se sentisse agradada por ela. Não, nem demonstrou que ela tinha o desejo de que a mãe gostasse dela.”
Al. 6: – “Na “S” você não vê, de jeito nenhum, ela não fala do pai não. Ele morreu? Você sentiu alguma coisa? Não, ele nunca foi me procurar... Você não percebe o Édipo, você não percebe nada.”
8.7.4 Concepção de delírio
Al. 3: – “Então mais ao final da entrevista que eu percebi, porque eu fui juntando todas as pistas que ela foi deixando. Eu vi que não tinha sentido, não tinha conexão com a história. Quando ela estava falando do cigarro, eu achei que era na relação médico-paciente que ela queria ser valorizada. Quando ela falou o negócio da revista eu falei: Nossa! Mas aí já é uma megalomania!”;
A foraclusão do nome-do-pai: Al. 3: – “Eu acho que está desvinculado o sentido, o sentimento com o signo da palavra. Tipo assim, eu acho que quando ela falou: Eu amo minha mãe porque eu tenho que amar a minha mãe, eu não sei se ela realmente estava experimentando aquele sentimento, entendeu?”
Al. 3: – “Era um delírio, ela realmente acreditava naquilo e ela passava impressão, que ninguém achou estranho, que aquilo era uma coisa totalmente real, natural, que ela estava falando ali e que te fazia até crer que era verdade por um lado.”
Al. 3: – “Quando o neurótico inventa, ele deseja que o outro acredite, mas é uma invenção que: Ah! Se eu contar pra Betty que eu fiz o trabalho – eu não fiz o trabalho, mas quero contar que fiz – eu tenho que colocar uma desculpa real. Eu não vou chegar aqui e falar assim: o Papai Noel comeu meu trabalho. Eu vou inventar uma coisa que o outro possa pensar que é real. Ela não teve essa preocupação: foi Papai Noel que comeu meu trabalho.”