Educação Matemática Online, assumindo a ludicidade como elemento fundamental e trazendo o RPG Online como procedimento adotado para a coleta de dados. A Cena 2: “O hábito faz
o monge” descreve o Cenário, o Ambiente do Jogo e as Identidades Online participantes do
curso, de forma a situar o leitor no contexto da pesquisa. Assim, apresenta os seres cibernéticos e o micromundo matemático que foram construídos.
O Ato IV – “Catástrofe Analítica”, que significa a definição final da peça, da narração, desvela a intriga proposta e a conduz a certo fim. Nesta tese, a catástrofe é analítica uma vez que o ato objetiva mostrar o movimento de apresentação e análise dos dados. Divide- se em duas cenas: Cena 1: “Ninguém poderá jamais aperfeiçoar-se, se não tiver o mundo
como mestre. A experiência se adquire na prática”, a qual traz à tona os recortes que fiz
nos dados coletados durante a investigação. Eles refletem minhas percepções e interpretações pessoais para a pergunta diretriz da pesquisa. Possíveis respostas a essa pergunta poderão ser vistas a partir de tais recortes analisados à luz do referencial teórico abordado. Cena 2:
“Desta arte, o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento”
traz as considerações finais da pesquisa e rumos que essa poderá tomar. Indica os principais pontos da investigação, retoma os principais resultados e discute a responsabilidade do pesquisador e as contribuições deste estudo para o universo da Educação Matemática.
A tese, assim organizada em atos e cenas, pretende que o movimento de escrita e leitura se identifique com o que Murray (1997, p.274 – tradução nossa) declara:
Na tentativa de imaginar Hamlet no holodeck10, então, eu não estou perguntando se é possível traduzir uma peça particular de Shakespeare dentro de outro formato. Eu estou perguntando se nós podemos esperar capturar no ciberdrama alguma coisa tão verdadeira para a condição humana, e tão belamente expressada, quanto à vida que Shakespeare capturou no palco Elizabetano11.
Assim como Murray, tentei capturar neste formato a beleza do processo que ocorreu na pesquisa, a qual se voltou para a condição humana imersa no ciberespaço e para a sua prática no mesmo.
Além disso, as minhas identidades contribuíram na constituição dessa prática que, como em uma relação biunívoca, também interferiu e interfere no processo de construção
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O holodeck consiste em um cubo preto vazio coberto por linhas em grade brancas ligado ao computador o qual pode projetar simulações elaboradas combinando a holografia com os campos de força e as conversões magnéticas da energia-para-matéria (MURRAY, 1997).
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“In trying to imagine Hamlet on the holodeck, then, I am not asking if it is possible to translate a particular Shakespeare play into another format. I am asking if we can hope to capture in cyberdrama something as true to the human condition, and as beautifully expressed, as the life that Shakespeare captured on the Elizabethan stage”.
dessas identidades. Esse fato permite que diferentes identidades do autor desse estudo se mostrem, e que discutam o que para elas é temática de identificação. Ou seja, a seguir o Pesquisador em Educação Matemática a Distância discutirá aspectos da Educação Matemática em EaD Online, enquanto que o Defensor da Prática Lúdica, o Jogador de RPG e o Educador Matemático se debruçarão sobre a prática do RPG em um contexto pedagógico matemático. Isso permitirá o entendimento sobre esses dois pontos fundamentais (EaD Online e RPG), os quais formam a base dessa pesquisa.
Imerso no ciberespaço ou nos livros, cada identidade que aqui se apresenta explora seu universo cognitivo. Pára, pensa e analisa. Envolve-se e busca diálogo. O pesquisador discute sobre Educação Matemática acontecendo no mundo cibernético, o defensor da prática lúdica revela seus argumentos sobre essa prática no ambiente educacional, o jogador de Role Playing
Game caracteriza o jogo, enquanto que o educador matemático correlaciona sua satisfação e
interesse pelo jogo com os interesses dos demais. O grupo pertencente à segunda cena traz a narrativa digital como ponto a ser levantado no RPG Online, destinado à Educação Matemática a Distância, e dialogam com diversos interlocutores, entre outros personagens, sobre seus interesses particulares e em comum.
C
CEENNAA11::““HHÁÁMMAAIISSCCOOIISSAASSEENNTTRREEOOCCÉÉUUEEAATTEERRRRAADDOOQQUUEESSOONNHHAAAANNOOSSSSAAVVÃÃ F
FIILLOOSSOOFFIIAA””1212
Pesquisador em Educação Matemática à Distância e interlocutores (teóricos, poetas, escritores...)
Os personagens dessa cena abordam os aspectos da Educação a Distância, na perspectiva da Educação Matemática, e debatem sobre a caracterização dessa modalidade educativa a partir da inserção da Internet (EaD Online). Isso gera questões referentes às concepções de tempo e espaço a partir dessa modalidade, e outras relativas ao aspecto social que também se encontra imbricado na EaD Online. Deste modo, em relação ao aspecto social, será destacada a problemática de uma suposta falsidade de quem se relaciona no mundo cibernético e evidenciado os diferentes papéis sociais possíveis de serem assumidos neste tempo/espaço. A cena, então, mistura todos esses elementos com o objetivo de apresentar o ciberspaço como
lócus de trocas, de relações, percepções e experiências que estão aquém de fantasias e além da
realidade mundana. Nessa perspectiva, as experiências que ocorrem no mundo cibernético abrangem às de ensino e aprendizagem, entre elas, aquelas relativas à matemática, especialmente, as que envolvem a construção de conceitos matemáticos. Isso, então, caracteriza particularmente a EaD Online, a qual constitui um dos pilares da investigação proposta.
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PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO MATEMÁTICA A DISTÂNCIA
[...] Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. [...]
(Fernando Pessoa – Trecho da Carta a Adolfo Casais Monteiro, 1935)
Acredito, também, na existência de outros mundos coexistentes ao mundo em que vivemos. No entanto, esses mundos não só coexistem interpenetradamente com o mundo em que vivemos, ou seja, com a realidade mundana, física, como também fazem parte dela. Entendo que tais mundos, embora não com uma conotação de “deuses” dada para seus criadores, tiveram um maior desenvolvimento a partir dos anos 90, pois esses anos marcaram o início da incorporação das redes de computadores como um todo e, em particular, como um meio diferente para a EaD. Assim, a inserção da Internet, que teve origem na Agência de Projetos de Pesquisa Avançada (ARPA), uma das maiores instituições de pesquisa do mundo, a qual se vinculava ao Departamento de Defesa dos EUA em 1958 (CASTELLS, 2005), começa a interferir em nosso modo de ser e cria demandas específicas para a educação realizada à distância, denominada Educação a Distância Online quando toma a Internet como suporte.
Como um dos atores do processo de ensino e aprendizagem, a Internet, então, faz com que novas possibilidades de interação tornem-se possíveis (ROMANI; ROCHA, 2001), abrindo-se para um novo universo, no qual as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) exercem um papel fundamental durante todo o processo educacional, pois tais tecnologias apresentam múltiplas formas de comunicação e acesso à informação (KENSKI, 2003).
Sobretudo, “O tempo, o espaço, a memória, a história, a noção de progresso, [...] a virtualidade e a ficção são algumas das muitas categorias que são consideradas em novas concepções baseadas nos impactos que, na atualidade, as tecnologias eletrônicas têm em nossas vidas” (KENSKI, 2003, p.32). Nessa perspectiva, a partir da Educação a Distância
Online também pode-se conceber o tempo de forma diferenciada. O tempo não é mais
Desse modo, o tempo cronológico já não sustenta a concepção de tempo concebida a partir do meio virtual, pois, o tempo vivido na rede de computadores é,
[...] a temporalidade dominante de nossa sociedade, ocorre quando as características de um dado contexto, ou seja, o paradigma informacional e a sociedade em rede, causam confusão sistêmica na ordem seqüencial dos fenômenos sucedidos naquele contexto. Essa confusão pode tomar a forma de compressão da ocorrência dos fenômenos, visando a instantaneidade, ou então de introdução de descontinuidade aleatória na seqüência. A eliminação da seqüência cria tempo não-diferenciado, o que equivale à eternidade (CASTELLS, 2005, p. 556 – grifo do autor).
Essa não seqüencialidade, por um lado, pode ser entendida como um problema visto na perspectiva da EaD Online, pois prevê uma descontinuidade aleatória na seqüência sucessória dos fenômenos educacionais, uma vez que a necessidade dos alunos em ter uma pronta resposta às suas questões, muitas vezes, não ocorre no processo assíncrono da EaD (ROMANI; ROCHA, 2001). Por outro lado, isso pode ser visto de forma positiva, quando permite a esse mesmo aluno que responda às questões levantadas, no ambiente educacional, no momento em que ele achar que pode responder, ou seja, a seu tempo, “[...] permitindo a todos o gerenciamento de ritmo de aprendizagem [...]” (CUNHA FILHO et al., 2000, p.57). Acredito que...
(“Enquanto o tempo acelera e pede pressa, Eu me recuso faço hora vou na valsa, A vida é tão rara...”. Paciência (Lenine) <http://uk.youtube.com/watch?v=sXmWAOIWg3w>)
Gerenciar o ritmo pessoal também é de grande valia quando as questões envolvidas são problemas matemáticos, por exemplo. Isso é afirmado, pois tal gerenciamento permite que o estudante interaja com o problema proposto de forma gradativa, respeitando seu compasso e estilo de aprendizagem. As relações matemáticas podem, então, ser percebidas com calma ou com rápida velocidade, se assim o estudante desejar. Porém, cabe relembrar que todo o processo educacional possui elementos que não dependem exclusivamente do estudante.
Não obstante, Castells (2005) também considera a existência de outra forma que a ocorrência dos fenômenos pode tomar, a de compressão, a qual visa a instantaneidade e é oposta à descontinuidade. Nessa perspectiva,
O tempo real, enfim, na esfera das telecomunicações e da informática, designa a imediatez da transmissão, do cálculo e da resposta, o tratamento e a apresentação instantânea das informações. [...], seu ideal: um tempo não mais seqüencial, mas paralelo, não mais linear, mas pontual, um tempo da simultaneidade, o limite das acelerações (LÉVY, 2000b, p.152 – grifo do autor).
A instantaneidade, desse modo, pressupõe a comunicação síncrona efetiva na EaD, devido a sua simultaneidade, a qual, segundo Mansur (2001, p.45), insere-se nas alternativas
que “[...] oferecidas pelos novos sistemas de comunicação permitem, em condições normais, uma comunicação rápida e personalizada, aspecto que durante anos [...] [foi motivo de preocupação]”. Porém, essa preocupação frente às TIC já não se faz constante, pois “[...] a comunicação mediada por computadores possibilita o diálogo em tempo real, reunindo pessoas com os mesmos interesses em conversa interativa multilateral, por escrito” (CASTELLS, 2005, p.553). Isso, a partir do ponto de vista da Educação Matemática, pode ser entendido como algo eficiente, pois possibilita o compartilhamento de software matemático (ZULATTO, 2007), de tarefas pré-elaboradas (SANTOS, 2006), de plataforma que possibilita edição de texto por qualquer membro (escrita a várias mãos) (MALHEIROS, 2006), assim como, de imagens digitais e páginas web (que é o caso dessa pesquisa), ao mesmo tempo em que se realiza discussões matemáticas via chat (comunicação escrita) com pessoas provenientes de diferentes lugares geográficos, simultaneamente.
Além dessa instantaneidade, há também a possibilidade de interação de idéias que estejam, provavelmente, sob perspectivas culturais diferenciadas. Esse fato pode enriquecer muito a elaboração de conjecturas matemáticas que estejam sendo exploradas, pois compartilha pontos de vistas condicionados pela cultura adjacente. Também, o compartilhamento de idéias entre essas pessoas, pertencentes a diferentes grupos culturais, é favorecido pela comunicação via rede de computadores e pode acontecer em “tempo real”, pois, embora as pessoas estejam muitas vezes em horas distintas, encontram-se ao mesmo tempo conectadas.
O tempo na EaD altera-se, uma vez que é possível, estando em “tempo real”, que a comunicação possua uma velocidade maior do que a velocidade de uma conversa habitual entre duas pessoas, pois no chat, por exemplo, são n os assuntos apresentados simultaneamente, o que transforma a atenção e interatividade exercida no ambiente.
Conforme Romani e Rocha (2001), esta é outra questão vista como um problema à EaD uma vez que há uma sobrecarga de informação que acarreta um não acompanhamento por parte do aluno no momento do diálogo, necessitando que esse retome a conversa em outro momento, despendendo mais tempo de sua jornada diária para se dedicar ao curso online em questão. Por outro lado, isso pode ser visto de maneira positiva, se esse “tempo despendido” for considerado como mais horas de produção de conhecimento.
Também, pode ser encarado positivamente se os multidiálogos que acontecem no chat, simultaneamente, forem entendidos como possibilidades de escolha pelo estudante, ou seja, cada um pode escolher quais assuntos participar e por quanto tempo de interação se encontrará plugado a cada um deles. O estudante buscará, talvez, nos diálogos traçados,
aqueles que lhe interessam mais. Poderá escolher se irá se envolver diretamente com a questão do cálculo da área, em um problema geométrico, ou com a modelagem da função que delimita essa mesma área, por exemplo.
Considero, então, esses multidiálogos possibilidades de ampliação de discussões, de interação e, conseqüentemente, de produção de conhecimento matemático. Zulatto (2007) já apresenta a interação em ambientes virtuais como fator proeminente à natureza colaborativa da aprendizagem matemática. Além disso, vejo que o processo de interação em uma paisagem móvel de significações pode transformar continuamente o universo no qual fazem sentido. Isso faz com que o ciberespaço seja lócus de uma diversidade de situações neste espaço móvel de interações entre conhecimentos e conhecedores, de coletivos inteligentes desterritorializados (LÉVY, 2000b).
A expressão ciberespaço provém, de acordo com Lévy (2000a), da ficção científica. Tal vocábulo servia para designar o universo das redes digitais, descrito como campo de batalha entre as multinacionais, palco de conflitos mundiais. Hoje, porém, essa expressão é utilizada para representar, ampliar e explicar o que esse mesmo autor chama de:
[...] espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Essa definição inclui o conjunto dos sistemas de comunicação eletrônicos [...], na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização. Insisto na codificação digital, pois ela condiciona o caráter plástico, fluido, calculável com precisão e tratável em tempo real, hipertextual, interativo, e, resumindo, virtual da informação que é, parece- me, a marca distintiva do ciberespaço (LÉVY, 2000a, p.92-93 – grifo do autor)
Logo, com o advento da Internet, a expressão ciberespaço (ou espaço virtual), utilizada somente na ficção científica, foi incorporada para designar esse novo espaço de comunicação, que vincula um espaço virtual a um tempo que também é virtual, o qual permite a sensação de se estar em outra realidade, uma realidade virtual (LÉVY, 2005). Mas o que mesmo seria virtual?
A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez de virtus, força potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto à concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente (LÉVY, 2005, p.15 – grifo do autor).
Entendo, então, que o espaço virtual é o espaço que existe em potência, mas não em ato. Podemos nos encontrar em potência nesse espaço, mas não em ato, de forma que não podemos tocar/apertar nossas mãos que estão em corpos físicos. Entretanto, podemos apertar nossas mãos virtualmente, de forma potencial em um tempo/espaço também potencial. O aperto de mão acontece entre duas pessoas que estão, às vezes, a milhares de quilômetros de
distância, localizados em regiões geográficas com fusos horários diferentes. Potencialmente, aperto a mão de alguém que está do outro lado do mundo, eu de dia e a outra pessoa à noite, por exemplo.
Tal fato, na perspectiva da EaD, abre inúmeras possibilidades. São diversas as ações educacionais que podem ser criadas no ciberespaço que viabilizam um “acontecer” em potência e não em ato, mas que cognitivamente podem favorecer o processo de ensino e aprendizagem. Isso pode ser observado em ações que permitem que leis da natureza sejam ultrapassadas, estudadas e compreendidas sem a interferência direta do ambiente físico, ou seja, da realidade mundana. Nesse sentido, modelos matemáticos podem ser estudados de forma a desconsiderar naturalmente certas variáveis, como a força de atrito, em um modelo relacionado à física mecânica, por exemplo, e isso pode gerar importantes estudos sobre diferentes aspectos matemáticos relacionados ao tópico em questão. Assim, simulação e experimentação matemática podem ser estudadas com software que geram imagens e até movimentos, no sentido de reprodução dos fenômenos físicos, qualitativamente diferentes em relação à visualização, percepção e compreensão.
(Lista de discussão PGEM-l, 25/05/07, mensagem proveniente do Prof. Dr. Romulo Lins, intitulada “Abbott's Flatland made into educational film!” – Clicar em “Trailer”
http://www.flatlandthemovie.com/)
Cabe ressaltar, no entanto, que cada uma dessas ações é materializada de alguma maneira e por algum meio. O software, o gráfico, a imagem, o applet, o texto, o vídeo, o chat etc., são maneiras e meios que materializam as ações potenciais que ocorrem no ciberespaço, as quais são traduzidas em bits (sigla para BInary DigiT, a menor unidade de informação, até o momento, utilizada na Ciência da Computação. Tem sempre valor 0 ou 1, ligado ou desligado, verdadeiro ou falso, quaiquer dois valores exclusivos) e bytes (um octeto, pois possui o tamanho de oito bits, unidade múltipla para manipular comandos).
Com base nisso, ou seja, nesse suporte material da informação, o qual toma a rede física como aparato tecnológico, Castells (2005) também busca a compreensão desse espaço que se forma por meio da rede de computadores, partindo da idéia que “espaço é um produto material em relação a outros produtos materiais – inclusive as pessoas – as quais se envolvem em relações sociais [historicamente]13 determinadas que dão ao espaço uma forma, uma função e um sentido social” (CASTELLS, 2005, p.500) e, assim, afirma que tempo e espaço não podem ser entendidos independentemente das práticas sociais. Além disso, o autor desvincula da idéia proveniente da teoria social, a qual afirma que “[...] espaço é o suporte 13
material de práticas sociais de tempo compartilhado” (CASTELLS, 2005, p.500 – grifo do
autor), a noção de contigüidade física, com intuito de garantir a existência de suportes materiais de simultaneidade que não dependam dessa contigüidade. Esse fato é identificado nas relações sociais da era da informação.
Castells, ainda na perspectiva social, defende a idéia de que a sociedade está construída em torno de fluxos (de capital, da informação, de tecnologia, de interação, de imagens, sons, símbolos etc.), entendidos como “[...] seqüências intencionais, repetitivas e programáveis de intercâmbio e interação entre posições fisicamente desarticuladas, mantidas por atores sociais nas estruturas econômica, política e simbólica da sociedade” (CASTELLS, 2005, p.501), e isso faz com que ele proponha a idéia de uma nova forma espacial que é evidenciada nas práticas sociais que moldam a sociedade em rede: o espaço de fluxos.
Este espaço de fluxos é definido pelo autor como “[...] a organização material das
práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxos” (CASTELLS,
2005, p.501 – grifo do autor). Nesse sentido, realmente o ciberespaço possui uma rede física de cabos e/ou equipamentos que viabilizam sua existência, de forma a traduzir em bits, a linguagem produzida na escrita de um texto no chat, como já mencionado. Mas, a definição de espaço de fluxos vai além, pois essa rede física nada mais é que a materialidade das práticas sociais que funcionam por meio de fluxos nesse espaço, enquanto que o próprio espaço de fluxos se dá pelas interações mantidas por atores sociais em diferentes dimensões (social, econômica, política, cultural, educacional...). Tal fato evidencia a potencialidade do ciberespaço no que se refere ao contexto, à prática, à matemática que acontece e que se apresenta nesse espaço de fluxos, não em ato, mas em potência.
O espaço de fluxos se altera, pois, muitas vezes estamos em diferentes regiões geográficas, mas nos encontramos no mesmo espaço virtual. Potencialmente, conversamos nesse espaço, nos tocamos nesse espaço, interagimos, agimos, sentimos nesse espaço. Além disso, ampliamos possibilidades, pois além de realizarmos ações da realidade mundana de diferentes formas (considerando que conversamos por meio de texto – escrita -, por exemplo), podemos realizar outras que não são possíveis nesta. Ações em potência e não em ato, como voar, ressuscitar, nos transformar nesse espaço. Em termos de percepção matemática, ainda podemos tocar, agir e interagir com gráficos e objetos geométricos em três ou mais dimensões, por exemplo.
(Ciberespaço, descobrindo objetos 4D, o tesseract ou hipercubo, um cubo em quatro dimensões, o qual já pode ser visto <http://www.youtube.com/watch?v=0vuLgmI-TNo>, manipulado <http://dogfeathers.com/java/hyprcube.html>, além de já podermos perceber uma