2.2 SANAL ZORBALIK
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Algumas perguntas vitais, como as que se seguem, pontuaram e orientaram, desde criança, a vida de Catarina:
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Portes (1993, p. 120-127), em seu estudo sobre trajetórias e estratégias escolares de jovens oriundos das camadas populares que conseguiram ter acesso à UFMG, verificou que 50% dos universitários investigados frequentaram algum tipo de cursinho. Esse autor mostra que, para essas camadas, a complementação de estudos que ocorre através do cursinho, constitui-se como uma condição decisiva de acesso ao ensino
“Eu era uma criança que, apesar de não ter estudo, eu pensava demais. Eu ficava refletindo... Eu lembro que assim, ao entardecer, eu sentava naquele pasto, eu subia numa árvore e ficava horas e horas refletindo como é que é esse mundo... o que eu estava fazendo ali... será o que eu ia fazer da minha vida...o que eu ia passar... por que eu estava passando aquilo que estava passando... Passando frio, passando fome, passando uma série de dificuldades, doença... Eu sofria muito com o sofrimento da minha família, do meu pai... Eu via a luta dele querendo que as coisas dessem certo... Era muito complicado para a minha cabeça”.
Os significados que ela atribui à própria escolarização, ancoram-se em um projeto vital mais geral, norteador da própria vida. No bojo de uma fala sua que responde a uma provocação nossa a respeito de uma explicação para seu sucesso escolar inesperado, ela argumenta: “(...) eu tenho objetivo e é muito maior do que qualquer pessoa pode entender”. Há aí uma afirmação, portanto, da existência de um objetivo vital, embora sem explicitar seu conteúdo. No entanto, ele se mostra, de forma límpida durante toda a entrevista, tanto no discurso, quanto na prática: ser professora; aprender para, sobretudo, ensinar, compartilhar conhecimento. Um momento da entrevista é particularmente esclarecedor a esse respeito. Mesmo tendo vivido momentos de grandes dificuldades materiais ao lado da família, ela fechara seu salão de beleza, que lhe proporcionava relativa folga financeira, para retomar os estudos, depois de uma longa interrupção. Sobre essa questão, ela pondera:
“Mas dinheiro não era o que eu tava procurando! Eu não queria só dinheiro! Eu acho que... eu queria trabalhar na área da educação...apesar de que eu gosto de trabalhar com o público...é bom trabalhar de manicure, cabeleireira... mas eu queria educar! (...) Eu queria dar alguma coisa pra compensar o que eu não tive. (...) Na área da educação eu busco dar aquilo que me foi negado”.
O que ela estava fazendo ao tomar essa iniciativa era, em verdade, assim nos parece, seguir cuidadosa e firmemente o rumo que havia traçado para sua vida. A
escolarização assumia para Catarina o significado privilegiado, mobilizador de energias para a ação, de instrumentalizá-la para ser professora.
Mas, se o conhecimento que a escola proporcionava era importante, porque instrumentalizador para o magistério, ele assume também outras significações de peso. Num sentido mais geral, Catarina mostrou-se também uma pessoa ávida de conhecer e explicar o mundo. No momento da entrevista, por exemplo, quando concluía seu curso de especialização em psicopedagogia, ela já estava buscando alternativas para cursar psicologia na UFMG, entendendo que esse curso poderia suprir suas lacunas de conhecimento num campo que começava a se firmar como sendo de grande interesse para ela, o de “entender de gente”. Ela argumenta que desejava trabalhar com o ser humano de uma forma mais global, menos fragmentada e que, para tal, a formação até então recebida, era insuficiente.
Para Catarina, o conhecimento comporta uma densa significação, porque é portador ainda de duas outras importantes categorias de sentidos. Um desses sentidos, é o de representar para ela o único trunfo de reconhecimento e prestígio social. Ela imagina, por exemplo, que no plano econômico, em especial em relação a sua situação de moradia, não existe para ela possibilidade de ascensão social. Ela afirma que muitas pessoas não sabem que ela mora “lá naquele lugar” e, se vierem a saber, vai ser, provavelmente, discriminada por isso. Mas a posse de um capital escolar lhe possibilita aproximar-se de pessoas de nível social mais elevado, nivelando-se a camadas superiores àquela de suas origens. É isso que ela expressa, deixando subtendida a idéia de que sua ascensão social será sempre parcial e imperfeita:
“A hora que eu fico junto com os doutores, fico junto com engenheiros, é pelo meu conhecimento. Onde eu avanço e apoio é no meu conhecimento! Porque nesse aí eu não perco! (...) A hora que a gente se mistura com os grande, a hora que me igualo, que eu sinto igual, é através do meu conhecimento”.
Em segundo lugar, Catarina entende que o conhecimento lhe proporciona instrumentos de luta contra injustiças sociais. Ela defende esse ponto de vista, reportando-se à época em que ela, por desconhecimento de seus direitos, cumpria
docilmente as horas extras que seu patrão lhe impunha, lutando heroicamente para conciliar estudo com trabalho. “Hoje eu sei que o aluno pode e deve ser dispensando mais cedo para estudar”, declara.
A autodeterminação de Catarina em lutar pela escola, a qualquer custo, fundamenta-se, portanto, por um lado, num projeto orientador de vida mais geral, acima esboçado. Sob a égide dessa autodeterminação, ela tomou iniciativas, por conta e risco próprios, que foram fundamentais para impulsionar e garantir seu processo de escolarização, tais como: partir para São Paulo, providenciar sua transferência para uma outra classe de 4ª série, abrir mão do salão de beleza, solicitar bolsa de estudo integral em cursinho. Com esse espírito resoluto, ela tomou também decisões em situações, onde a dúvida e o indeterminado eram a tônica: uma adolescente de 13 anos, recém-chegada do interior, vivendo em condições de existência precaríssimas, decide partir para uma cidade ainda maior, com família quase desconhecida, tudo em nome de uma oportunidade de estudar.
Mas, se em relação a seus projetos vitais, Catarina demonstrou um horizonte temporal extremamente elástico, fundado na esperança, os planos mais específicos de estudos, principalmente os de realizar um curso superior ou de pós graduação, ao contrário, foram sendo construídos por etapas, a partir da experiência de sucessos parciais. Questionada acerca de uma possível época à qual remontariam seus projetos de fazer um curso superior, ela declara:
“Eu não tinha a idéia quantos anos eu tinha que estudar. Eu não sabia (...) nada. A partir do momento que eu... a minha idéia era assim... eu tenho que fazer o 1º grau. Quando eu terminei o 1º grau... eu tenho que fazer o 2º grau. E assim foi gradativamente. Cada vez que eu terminava uma coisa, eu queria ir além. Entendeu? Igual eu tô terminando agora, já fui na Federal pra ver se tinha... se eu poderia entrar com o pedido de... obtenção de novo título para psicologia...”
Por outro lado, retomando a questão da autodeterminação de Catarina para estudar, é possível supor que ela esteja ancorada também em determinadas disposições
temporais. A primeira dessas disposições é uma atitude de conquista diante da vida (Mercure, 1995), de não resignação diante das adversidades, de acreditar “ser possível” superar determinadas situações de vida injustas e indesejáveis. Perseguir obstinadamente a realização de um sonho, como o de ser professora e fazer um curso superior, nas condições materiais e sócio-culturais de vida de Catarina, é conceber realizá-lo num tempo extremamente dilatado, é assumir um projeto para a vida toda, é ancorar-se sobretudo na esperança. Isso exige fôlego; presssupõe uma concepção de futuro tão em aberto, que parece infinito.
Uma outra disposição temporal que, segundo a hipótese que colocamos, possibilita que Catarina não recue em relação a seus projetos vitais, é a ligada com a noção do “possível”. Essa noção será pensada aqui com dois sentidos básicos, intimamente relacionados. O primeiro, é o de, se necessário, tocar os limites, ou seja, fazer tudo o que for possível, esgotar as possibilidades de ação. O segundo é o de não tentar agir fora das condições objetivas de vida; de “aceitar” agir, estrategicamente, dentro dos limites dessas condições. Extrairemos do contexto dessa história escolar e familiar duas situações distintas, com as quais tentaremos trabalhar cada um desses dois sentidos da noção do “possível”.
O fazer tudo o que for possível para se alcançar o que se deseja, será pensado
em torno da idéia de força de vontade, tal como defendida e praticada no contexto da história de Seu Hélio e Catarina. Do princípio ao fim da entrevista com Seu Hélio, ele reitera essa idéia, que, por sua vez, tem lastros e fundamento nas ações concretas de sua vida. Uma das primeiras declarações suas, após termos estabelecido os contatos iniciais do encontro, e após ele ter indagado se “estava gravando”, é a seguinte:
Primeiramente, é como eu falei com a senhora, se não tiver Deus no coração, ninguém vence. (...) Aí depois vem a força de vontade... fazer a maior força de
vontade! Depende de quem vai formar e depende dos pais. Se tiver um filho
que não tiver força de vontade, não adianta o pai insistir. Ele não quer!”
Essa noção, relacionada com a de autodeterminação, pareceu-nos instigante, no sentido de provavelmente se constituir como uma disposição básica facilitadora do
sucesso escolar de Catarina. As reflexões que tecemos aqui são o resultado de um esforço para compreendê-la. Ao longo do encontro, o conteúdo do termo força de
vontade, foi emergindo, sobretudo através da fala de Seu Hélio, que o vincula com uma
outra idéia, a de ser humilde. Em muitos momentos também, Seu Hélio usa o termo
humilhação, não no seu sentido próprio, mas significando, contextualizadamente, humildade e, por extensão, segundo nosso ponto de vista, força de vontade. Em suma,
estaremos falando de palavras com significados próximos, quando falarmos aqui de: força de vontade, humildade e humilhação.
Tanto o pai quanto a filha demonstraram pensar que, para se alcançar o que se deseja na vida, é necessário passar por cima do próprio orgulho. Isso significou na história deles, por exemplo, pedir ajuda, até suplicar, e com muita frequência. Seu Hélio argumenta: “tem muito lugar onde se apegar; e não pensa ocê que a pessoa, sem humilhar, vai pra frente! Num ponto ou noutro, é obrigado a se humilhar; nem que seja mais ou menos!”. Para continuar defendendo esse ponto de vista, ele compara as duas filhas que venceram na escola, com as que não venceram, alegando ausência de força de vontade nas últimas. Catarina adere a esse argumento, dizendo que uma de suas irmãs não estudou, porque não tem tenacidade, ela “estoura fácil; é desesperada”. E continua: “tem que ficar de cabeça baixa; eu tenho que aguentar, engolir esse sapo, pra depois...”. Nesse ponto, ela retoma a história dos maus momentos porque passou em São Paulo e afirma não guardar ressentimentos nem mágoas dessa prima. “Voltaria tudo atrás de novo, voltaria pra sua casa, se... foi um passo muito grande”, declara. Seu Hélio lembra ainda que, para garantir estudo gratuito para os filhos no Colégio Abgard Renault, submetia-se a duras jornadas de trabalho, e, voluntariamente, a horas-extras não pagas. Catarina lembra também, exemplificando, que, para resgatar a dívida assumida pelo pai para comprar a casa própria, foi necessária uma luta insana, luta que tocou no limite de garantia da sobrevivência da família e de saúde do pai.
Entendemos que, no limite, Seu Hélio acredita que querer é poder: “não vai pra frente quem não quer”. A sua defesa da necessidade da humilhação, foi objeto de discordância por parte de Catarina e Vera, em alguns momentos da entrevista. Parece- nos que Catarina vê e vive essa questão, hoje, de uma forma contraditória; supomos que ela avalie, tomando distanciamento dos momentos vividos, as implicações da humilhação
em sua vida pessoal. Ao mesmo tempo em que defende a necessidade de ser humilde, e ela o foi muitas vezes em sua luta pela escolarização, ela aponta também os limites de se suportar tal situação: “cê corre o risco de ser maltratado, como eu fui muitas vezes; (...) é uma força de vontade que ultrapassa...” Ela entende que há muito sofrimento na “humilhação”; que “não é todo mundo que consegue passar por cima do orgulho”. Num determinado momento, quase gritando com o pai, Catarina fala, num tom de explosão:
”Mas cê tem tanta vontade! Mas é...passar por cima de muitos valores seus! Eu não sei...eu consegui humilhando... eu conseguí por aí, mas hoje em dia eu acho muito... não suporta isso...”
Para refletir sobre a outra dimensão do “possível”, acima anunciada, partimos do seguinte depoimento de Catarina:
“Eu sinto que, por mais que eu tenha parado na minha vida de estudar, que eu fiquei parada uns 7 anos, na verdade eu não parei. (...) O tempo que eu parei, eu não parei... eu não parava”.
Com isto ela quer dizer, que, nos períodos de interrupção de seus estudos regulares, ela mantinha contato com livros, fazia cursinhos de curta duração (por
exemplo, de matemática e português no SENAC6) e por correspondência. Indagada sobre
o que fizera no intervalo entre o 2º grau e o curso superior, período em que ficara sem estudar, ela esponde: “sem estudar eu costumo dizer entre aspas, porque eu tô sempre... Fiz curso de cabeleireira, manicure, violão, datilografia... uma série de cursinhos assim... Não parei de tudo, não”.
No entanto, parece necessário fazermos uma outra leitura da expressão “eu não parava”. É possível pensar que esse discurso expressa também, e sobretudo, a idéia de que ela construíra seu processo de escolarização dentro dos limites impostos pelas circunstâncias, ou seja, fazendo o que lhe era possível fazer, dando os passos do tamanho que suas pernas lhe possibilitavam. Essa consciência das injunções limitadoras, expressa, por exemplo, na aceitação de que só conseguiria retomar os estudos depois de
concluído o 2º grau, se os interrrompesse por um período de 7 anos, aliada a uma perseverança nos seus propósitos, constituíram, a nosso ver, disposições particularmente favorecedoras de sua permanência na escola. Supomos que seja exatamente essa idéia que Seu Hélio quis expressar quando disse: “acho que a maioria que não consegue, mais é pelo abandono”. Chamou-nos a atenção a densidade de significado do termo abandono utilizado nesse contexto; segundo nos parece, ele se opõe a perseverança. Continua Seu Hélio: “eu repito isso muitas vêzes, uma pessoa que não estuda (diríamos também, que não tem força de vontade) tá seno uma coitada por si própria, que não fez aquele esforço”.