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2.6. İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

2.6.1 Sanal Zorba Farkındalığına İlişkin Yurtiçinde Yapılan

Helena não frequentou pré-escolar, porque, segundo D. Marta, não o desejou; ao que parece, fora estimulada a fazê-lo. A 1ª série primária ela cursou num estabelecimento do bairro, próximo à sua casa, a Escola Estadual “Antônio Clemente”. Para frequentar a 2ª série, ela foi transferida para uma outra escola estadual, em função da mudança de sua família para um bairro vizinho, a única mobilidade geográfica empreendida por essa família em toda sua história. Retornando ao bairro de origem no ano seguinte, D. Marta não encontrou vaga na escola estadual onde Helena estudara anteriormente. Através de

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Instituto Municipal de Administração Contábil. Esse estabelecimento figura entre os melhores da rede municipal de ensino de Belo Horizonte.

um cunhado de D. Marta, que era porteiro na Escola Municipal Cônsul Antônio Kadar, Helena foi então admitida nesse estabelecimento, onde cursou a 3ª e a 4ª séries do ensino fundamental. O ingresso de Helena nesse estabelecimento da rede municipal de Belo Horizonte, não foi, na perspectiva de sua mãe, resultado de escolha, mas de falta de alternativas de escolas no bairro, conforme circunstâncias acima descritas. “Não tinha escolha mesmo! Aqui não tem escolhas para eles, não!”, declara D. Marta. Entendemos, no entanto, o que discutiremos adiante, que o fato de Helena ter estudado, desde as séries iniciais, no sistema municipal de ensino de Belo Horizonte, pode ter se constituído como um dos elementos configurativos decisivos de sua bem sucedida escolarização.

As quatro últimas séries do ensino fundamental, Helena cursou num outro estabelecimento, também da rede municipal de Belo Horizonte, a Escola “Carlos Lacerda”, localizada no Bairro Ipiranga, próximo ao Aarão Reis. Esse estabelecimento foi indicado a D. Marta pela professora da 4ª série, com a alegação de se tratar de um “bom colégio”. Helena tinha as seguintes informações acerca do mesmo:

“As pessoas comentavam que essa era uma boa escola e, além do mais, dava bolsa pra um colégio. Naquela época, o colégio municipal era o tchan do momento; qualquer municipal era melhor que um estadual”.

O 2º grau foi cursado no Colégio Municipal Marconi, situado no Bairro Santo Agostinho, região nobre de Belo Horizonte. Tendo sido orientada pela escola onde concluíra a 8ª série, sobre as alternativas para se manter na rede municipal de ensino, optou por prestar um exame de seleção no Marconi, colégio que oferecia um curso técnico em Patologia Clínica, área biológica que, naquele momento, já lhe despertava interesse. Convém salientar que essa escola é altamente conceituada em termos da qualidade do ensino que oferece, encontrando-se, provavelmente, entre aqueles estabelecimentos mais procurados da rede de ensino médio em Belo Horizonte.

Assim que concluiu o 2º grau, aos 18 anos, Helena tentou o primeiro vestibular para Medicina, na UFMG, sem ter frequentado cursinho. Nessa primeira tentativa, foi reprovada, ao que parece, já na primeira etapa. Preparou-se no ano seguinte para novo vestibular de Medicina, recorrendo, então, a cursinho de 6 meses e em caráter extensivo,

para o que conseguiu uma bolsa. Mesmo tendo alcançado melhores resultados na segunda tentativa, foi reprovada na 2ª etapa, segundo Helena, por poucos pontos. Essa segunda reprovação deixou-a “com um pé atrás” em termos de suas possibilidades de fazer um curso superior e, nesse sentido, representou um momento de reavaliação de rumos a serem tomados. Ao final de 1987, com 20 anos, ela tentou o terceiro vestibular na UFMG, mas desta vez para Enfermagem, numa outra estratégia de entrada para a UFMG, oportunidade em que foi aprovada. Helena ficou classificada em 2º lugar no resultado final do vestibular para Enfermagem daquele ano.

Cursados 5 períodos do curso de Enfermagem e perseguindo o projeto de tornar- se médica, Helena conseguiu, através do expediente denominado “reopção”, transferir-se para o curso de Medicina da própria UFMG, que começou a frequentar em 1991.

Apesar de dificuldades, sobretudo econômicas, que também foram apontadas, destacamos da experiência escolar de Helena um traço característico, o da positividade. Por um lado, sua performance escolar, do ponto de vista, tanto de notas, quanto de comportamento, mostrou-se exemplar. Por outro, ela estabeleceu vínculos afetivos importantes no interior da escola, tanto com professores, quanto com colegas.

Qualificamos a trajetória escolar de Helena como um caso de sucesso porque, como todos os outros que estamos investigando e conforme os critérios estabelecidos por nós para definir esse termo, representou uma situação de manutenção no sistema escolar

até o ingresso na Universidade e, nesse caso, em ramo altamente seletivo, a medicina.

Sua trajetória escolar foi marcada também por uma performance de sucesso, no que diz respeito a seus rendimentos escolares. Excluídas as duas reprovações nos vestibulares para Medicina da UFMG, em nenhum outro momento ela experimentou reprovação, passou por estudos de recuperação ou perdeu uma média sequer. A esse respeito, declara D. Marta:

“Desde o início ela foi ótima aluna! Desde o 1º ano! Ela não quis fazer o pré, não quis de jeito nenhum, mas o 1º ano foi uma beleza! No ginásio... tudo, tudo! Tudo que ela estudou foi muito bom. Foi muito sacrificado, mas foi muito bom! Nunca perdeu uma média!”

Solicitada a avaliar-se enquanto aluna nos diferentes momentos de sua trajetória escolar, Helena assim se define:

“Olha, eu sempre fui aluna quieta da sala. Eu não... evitava conversar, sabe? As vezes até as colegas achavam ruim, sabe? Era tipo assim... timidez em pessoa! Era assim, eu sempre ficava nas primeiras cadeiras... aquilo ali eu prestava atenção demais. No entanto, em casa eu não estudava tanto. E assim... eu sempre tive muito boas notas! (...) Eu era super quieta. Eu considerava o seguinte: minha mãe sempre falava, não faz bagunça; fica quieta lá que você vai aprender. Eu sempre levava isto a sério” (grifos de Helena).

As situações que se seguem constituem-se como dados que confirmam a informação de Helena ter sido boa aluna. Ela afirma que, na 4ª série, entre outras turmas da mesma série, que eram classificadas como “médias ou atrasadas”, fora aluna da turma “adiantada” da escola. Supomos que, no geral, ela tenha integrado turmas com essa característica.

No interior da UFMG, Helena conseguiu a proeza de uma dificílima transferência do curso de Enfermagem para o de Medicina. Em primeiro lugar, a existência de uma vaga para esse curso é raríssima; em segundo, quando essa vaga existe, é muito disputada e é raro que o aluno(a) selecionado(a) seja proveniente do curso de Enfermagem. Alunos dos cursos de Odontologia, Fisioterapia, Medicina Veterinária, Ciências Biológicas e Terapia Ocupacional, candidatos mais frequentes a uma transferência para Medicina, via de regra, concorrem com mais chances de sucesso, em função de sua alta pontuação alcançada nos vestibulares para esses cursos, principalmente os quatro primeiros da listagem acima. Tendo Helena entrado na UFMG pela porta “menor” da Enfermagem, e tendo em vista que são os colegiados de curso que estabelecem critérios de transferências internas, atribuímos o sucesso de seu processo de reopção a um desempenho provavelmente excepcional neste curso. Uma informação fornecida por D. Marta corrobora essa nossa hipótese: “ela foi a única que teve média na turma pra ir pra Medicina”.

com professores e colegas predominaram na experiência escolar de Helena. Quando lhe propusemos que tentasse se lembrar da(s) melhor(es) época(s) de seu passado escolar, ela, por um tempo pasma com a pergunta, demorou a atender nossa solicitação, como se a tarefa de classificá-las lhe fosse difícil. “Cada uma delas tem coisas boas, viu? Mas eu acho que foi o 1º grau. Apesar da escola ser distante lá de casa, que era o único incoveniente que tinha, era tudo bom! Os professores ótimos, sabe?”, declara. O 1º grau, identificado por ela com o período de 5ª à 8ª série da Escola Carlos Lacerda, foi, então, apontado como o melhor dos momentos vividos na escola. Do período de 3ª e 4ª série na Escola Cônsul Antônio Kadar, ela tem lembrança de muitos e importantes amigos de infância; Helena declara, inclusive, que uma de suas colegas da escola de medicina “veio de lá”.

É na própria escola e entre seus professores que Helena vai encontrar decisivas referências impulsionadoras de seus investimentos nos estudos. Alguns professores da Faculdade de Medicina ela qualifica como “brilhantes”, referindo-se a eles da seguinte forma: “era como se eu quisesse me espelhar neles; tem uns, nossa, a gente pensa que não existem!”. Do Marconi, ela lembra de uma professora de português que, com frequência, falava: “a mão que toca o violão, se for preciso vai à guerra”. Helena associa o conteúdo dessa fala com uma característica forte que atribui a essa professora; a de uma figura portadora de muita “autoridade”, “muito grande”. Uma professora de matemática de 5ª à 8ª série, assim como a da 4ª série primária, foram particularmente lembradas como importantes incentivadoras da continuidade de seus estudos. A primeira porque costumava apontar, para os alunos em geral, a possibilidade de se vencer na vida através da escola; “esses meninos têm futuro”, afirmava. A segunda foi caracterizada como uma pessoa que “dava a maior força”, sobretudo porque constituiu-se em uma importante fonte de informações acerca de estabelecimentos de ensino considerados de boa qualidade, ainda porque os apontou à sua família, quando esta devia decidir para onde ela iria a partir da 5ª série.

No entanto, Helena viveu também momentos problemáticos em sua passagem pela escola. Quando indagada acerca dos momentos mais difíceis, primeira e rapidamente veio-lhe a lembrança de sua 2ª série primária. Desse período, ela queixou-se basicamente de uma enorme desadaptação à escola e ao bairro e de problemas de

saúde. Via-se frequentemente acometida de crises de amigdalite que, na maioria das vezes, impediam-na de ir à aula. D. Marta ressalta que, nesse período, no trajeto para a escola, Helena, muitas vezes, “ficava de pernas bambas”; nessas ocasiões, elas tinham que parar, descansar e só então, continuar a caminhada rumo à escola. Esse momento, particularmente difícil para Helena, é descrito da seguinte forma:

“A minha escola de 2ª série eu não adaptei. Não adaptei ao bairro, à escola... eu não lembro da professora... não lembro o nome da professora... É como se

eu apagasse isto! E eu faltava muito. Eu tinha amigdalite constantemente. A

professora chegou uma vez a chamar minha mãe e falar com ela que talvez eu ia ser reprovada por frequência. Aí não aconteceu, graças a Deus”(grifo de Helena).

Supomos que as dificuldades apontadas, tanto as especificamente “escolares”, quanto os problemas de saúde, fossem apenas a manifestação mais visível de algo mais profundo. Intrigou-nos, por exemplo, o fato desses problemas acontecerem justamente no momento em que essa família, que teve toda sua história enraizada no Aarão Reis, ter se deslocado para outro bairro, o Floramar.

A entrada para a Universidade representou um grande obstáculo na biografia escolar de Helena. Sua opção por concorrer ao vestibular em um dos cursos mais concorridos e seletivos da UFMG, implicou na quebra da regularidade que até então caracterizara sua trajetória. Ainda que, em momento algum, tivesse pensado em desistir dos estudos, ela declara que a segunda reprovação no vestibular para Medicina, colocou- a “com um pé atrás” em relação à possibilidade concreta de ter acesso ao ensino superior. Daí sua estratégia, bem sucedida, de entrar para a UFMG pela porta do vestibular para Enfermagem, curso que também lhe interessava: “eu queria alguma coisa na área da saúde, fosse enfermagem, medicina...”

Uma vez no interior da Universidade, suas dificuldades foram de duas ordens: econômica e cultural. Para sobreviver na UFMG, e, especificamente, no Curso de

Medicina, Helena enfrentou sérios problemas materiais. Como bolsista da FUMP4, ela foi

reduzidos de alimentação e financiamento de até 6 vezes para a compra de livros. Além disso, algumas vezes, recebeu contribuições de “pessoas da comunidade”, ligadas sobretudo à Igreja do bairro, ao que parece. Essa ajuda facilitou-lhe, por exemplo, xerocar livros. Uma professora universitária, sua vizinha e estimuladora de seus estudos, destacou-se como uma figura que muito contribuiu nesse sentido. Por outro lado, ela se coloca como uma pessoa que, quando se fazia necessário, foi capaz de pedir ajuda a pessoas que se mostravam disponíveis. Helena lembra de momentos particularmente difíceis, aqueles em que os irmãos, que ajudavam no orçamento doméstico, estiveram desempregados. Em relação a esses momentos, ela remete-se, muito emocionada, a seu pai: “meu pai... nossa! Meu pai que... ele me sustenta, né? “

A percepção de diferenças em relação à maioria dos colegas da Faculdade, em termos de linguagem e de maneiras de se portar, constituiu-se também, logo no início do curso, motivo de desadaptação e sofrimento para Helena. Assim ela expressa esse sentimento inicial:

“Quando eu entrei pra Faculdade, nossa! Pra mim era tudo diferente! Eu não conseguia me ver junto daquelas outras alunas. Elas falavam bem, sabe? Eu ainda trago isso de lá; eu não falo o português correto... fico muito na gíria. (...) Eu lembro dos primeiros dias lá no ICB5... Aí eu olhava aquilo tudo...meu Deus! Que que eu tô fazendo aqui? Este não é meu lugar, sabe? Mas eu fui enturmando...”

Ela não tinha experimentado antes a vivência desse distanciamento cultural. A explicação que ela própria dá para esse fenômeno é a seguinte: no ambiente da Escola Municipal “Carlos Lacerda”, onde cursara as séries finais do ensino fundamental, os colegas eram oriundos de meios sociais semelhantes ao seu e sua turma de 2º grau, no Marconi, era constituída basicamente de jovens, colegas seus, que vieram do “Carlos Lacerda”.

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Fundação Mendes Pimentel

5

Instituto de Ciências Biológicas, um dos institutos de ciências básicas da UFMG ao lado do ICEX (Instituto de Ciências Exatas).