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2.2 SANAL ZORBALIK

2.2.4 Sanal Zorbalık Türleri

Em Dom Cavate, onde Catarina nasceu, D. Cavate, não havia escola. Mesmo depois de chegar a Belo Horizonte, por volta de 1967, com 9 anos de idade, ela permaneceu ainda por alguns anos sem estudar. “Não sabia como procurar escola, o que precisava”, declara. Isso se dava no contexto de um dos momentos mais difíceis da história da família. Foram de sua iniciativa os primeiros movimentos em direção à

compreensão do sucesso escolar de Catarina poderia ser ampliada com possíveis respostas para estas questões.

escolarização, assim como todos os outros de sua vida escolar. Aos 13 anos, ainda analfabeta, ela própria encaminhou-se para a E. E. Mário Casassanta, no Bairro Jardim

América, “de pé no chão, sem material”. Ávida para aprender letras3, o que ela encontrou

na escola foi uma professora trabalhando com “risquinhos”. Sua primeira impressão de escola foi, portanto, marcada por uma grande decepção.

Logo no início daquele ano, aconteceu um fato novo que, segundo parece, muito contribuiu para mudar o rumo de sua vida. Uma prima de seu pai, em 3º grau, apareceu em sua casa, comentando que procurava uma pessoa para ir trabalhar em sua casa, em São Paulo. Avaliando que essa era sua grande chance de aprender a ler e escrever, além de ter acesso a ”roupa, comida e salário”, ela decidiu que iria trabalhar como doméstica na casa dessa prima. Depois de muita luta para convencer o pai, partiu para São Paulo. “Peguei uns mulambinhos que eu tinha, coloquei numa sacolinha de plástico; tudo que eu tinha cabia numa sacolinha de plástico”, afirma.

Assim que chegou a São Paulo, a prima começou a ensinar-lhe letras e palavras, fato que Catarina narra num tom caloroso, lento e emocionado. Em seguida, essa mesma prima providencou para que ela fosse estudar no Mobral, à noite. Sobre a impressão inicial do Mobral, ela comenta: “é isso que eu tava querendo! lá não tinha desenho, não tinha coordenação motora, nada disso! Então eu comecei a ler e escrever!”. Nessa escola ela permaneceu por um período de um ano e meio; entre os 13 e os 16 anos.

No entanto, a estadia de Catarina em São Paulo foi também marcada por momentos conturbados. Além da saudade que sentia da família, que a fazia “chorar escondido no banheiro”, a relação com a prima começou a se deteriorar. Esta última começou a castigar Catarina fisicamente e ameaçá-la com a possibilidade de mandá-la de volta a Belo Horizonte. “Cê vai passar fome em Belo Horizonte; (...) cê não sabe fazer mais nada a não ser limpar chão, ou então... prostituição”, advertências atemorizadoras como estas por parte da prima, passaram a se tornar frequentes. Nos primeiros tempos, quando assim ameaçada, Catarina implorava para ficar, ponderando que, se ficasse em São Paulo, estaria se sustentando e ajudando a sustentar a família. A uma certa altura, no

3.Catarina conserva em sua linguagem, de maneira muito forte, a marca de suas origens. Em diversos momentos da entrevista ela “se trai” nesse aspecto. Nesse caso, ao invés de usar uma terminologia mais “técnica”, de certa forma esperada, tendo em vista sua formação de pedagoga, ela utiliza-se da palavra “letras”, que, supomos, lhe é afetivamente carregada de significado.

entanto, estando a prima para mudar-se de São Paulo para o Paraná, e tendo ficado insustentável a situação entre elas, Catarina resolveu que voltaria para a casa dos pais. A ameaça definidora dessa decisão, a “gota d’água”, foi a que apontava para a possibilidade dela ficar sem estudar, mesmo se continuasse morando e trabalhando para a prima. Nesse depoimento, ela expressa sua resolução de voltar a Belo Horizonte, e a razão de ser dessa decisão:

“A minha preocupação é que ela [a prima] falou que eu não voltaria mais pra escola. Eu tava gostando da escola, pois eu tava aprendendo. Eu já tinha aprendido a ler e escrever! Eu já escrevia carta, eu já fazia poesia... não tinha o domínio ortográfico... mas eu já tinha lógica de raciocínio nas minha produções. Então, eu acho que foi aí que ela cometeu o grande erro dela. E eu pensei, a partir desse momento, não tem mais sentido eu estar aqui!” (grifo nosso).

Essa fala nos instiga a concluir que a principal razão de Catarina ter ido para São Paulo e ter permanecido apesar dos maus tratos recebidos, era que ela via alí sua grande oportunidade de estudar. Hoje Catarina percebe que, impedí-la de estudar, era, naquele momento, apenas uma ameaça da prima.

Logo que voltou de São Paulo, por volta de 1972, com 17 anos, Catarina procurou novamente a escola, considerando que após ter frequentado o Mobral e ter avançado no domínio da leitura e da escrita, poderia matricular-se numa série mais adiantada. Ela dizia então: “eu já tenho conhecimento, eu não quero começar na 1ª série; eu quero começar na 4ª série”. Com esse propósito, providenciou para si matrícula na E. E. “Mário Casassanta”, no turno da noite. Pela primeira vez em sua vida, frequentava uma escola regular!

Uma vez aceita na 4ª série, Catarina teve que enfrentar um novo problema: a turma na qual ingressara não oferecia as mínimas condições para a aprendizagem. A sala de aula “era uma bagunça, uma baderna, um inferno”, comenta. E continua: “eu não lembro quem era a professora, nem imagino... na minha mente eu não tenho o rosto dela!”. Por iniciativa própria, ela começou, então, a observar o funcionamento de uma sala de aula ao lado da sua, onde o clima era inteiramente outro; onde “não tinha bagunça, a professora falava baixinho”. Após conversar com a diretora da escola, conseguiu ser

transferida para a classe desejada.

Resolvido esse problema, uma outra dificuldade entrou em cena, a de conciliar trabalho e estudo. Ao voltar de São Paulo, ela trabalhara um curto período de tempo como doméstica e, em seguida, conseguiu trabalho numa gráfica que fabricava envelopes, blocos, sacolas de plástico, no Bairro da Ventosa, perto de sua casa; dava para ir a pé para o trabalho. Mas o patrão exigia que fizesse hora extra, condição de permanência no trabalho. Sua angústia aumentava na medida em que ela, estando muitas vezes impossibilitada até de frequentar às aulas, ingenuamente ambiciosa, sonhava ainda em dispor de tempo para “estudar”, ou seja, preparar-se para as aulas. “Eu queria frequentar as aulas, mas queria também estudar”, confessa. Naquele momento, a solução possível foi a seguinte: quando tinha que fazer hora extra no trabalho, o que era frequente, Catarina não ia à escola. Ao final do ano, ela tomou recuperação em matemática. A professora ofereceu-lhe uma nova oportunidade de prestar a prova de recuperação e ela, novamente, não pode comparecer por causa do trabalho. Essa professora, provavelmente a figura mais significativa de sua história escolar, e a quem Catarina dedicou o memorial exigido no exame de seleção para o curso de pós graduação, resolveu, então, conferir-lhe assim mesmo o diploma.

De posse do certificado de conclusão da 4ª série, Catarina percebeu que podia dar uma passo além: “e eu, com esse atrevimento todo meu, pensei assim... eu tenho um diploma de 4ª série... eu vou para a 5ª série com esse diploma!” Nessa época, Seu Hélio já trabalhava no Colégio Abgard Renault do Bairro Esplanada e, conforme acordo estabelecido com o proprietário dessa escola, seus filhos poderiam lá estudar gratuitamente. Foi nesse estabelcimento de ensino que Catarina estudou a partir de então, até concluir o 2º grau.

A 5ª série constituiu-se num dos momentos particularmente dramáticos da trajetória escolar de Catarina, a respeito do qual ela apresentou algumas queixas básicas. Em primeiro lugar, a quantidade e diversidade de matérias trabalhadas simultâneamente. Em segundo lugar, o fato de que ela não dava conta de copiar o que era passado no quadro, lembrando que exortações do tipo, “anda depressa, o professor vai apagar!”, lhe desorientavam. Sua letra “de garranchos” era também um grande problema. Sobre um professor especificamente, o de geografia, ela comenta que não lembra sequer do rosto

dele, tal era seu distanciamento daquelas aulas. Indagada se os colegas teriam vivenciado dificuldades semelhantes, ela argumenta que eles davam conta porque

“deviam ser de classe média”4, tendo em vista que aquela era uma escola particular.

Reportando-se a esse momento, ela narra:

“O que eu estava fazendo naquele meio? Eu enlouqueci! Jesus do céu, eu enlouqueci! Eu fiquei tão assim com problemas emocionais... e a vontade de entender aquilo tudo, que eu adoeci. Eu queria entender e não conseguia entender! A base que eu tinha era praticamente insuficiente; era como colocar tijolo sem a estrutura, sem ter aquela base de cimento”.

Essa obstinação de aprender, de situar-se naquele universo que a desorientava, acarretou-lhe problemas de saúde. Tinha constantes dores de cabeça e, à noite, não conseguia ficar onde tivesse luz. Por volta de outubro daquele ano, abandonou a escola, retornando somente no ano seguinte. Ela insistia: “eu volto; (...) eu tenho que dar conta!” Consultado um médico, este lhe receitara calmantes; foi também ao oftalmologista.

Aos “trancos e barrancos” alcançou a 7ª série, quando voltou a ficar extremamente perturbada. Teve, inclusive, segundo ela própria, desvios de comportamento; começou a ficar conversadeira, fazia careta nas costas de professores. Num primeiro momento, ela centraliza a explicação para as dificuldades que viveu nesse momento, numa matéria denominada Desenho Industrial. Não conseguia acompanhar o desenvolvimento das aulas e, sobretudo, não percebia nenhum sentido no seu estudo. Mas em seguida reconhece que seus problemas eram mais gerais e de fundamento, de “falta de base”, porque, naquele ano, fora reprovada em outras matérias: português, matemática e história. Essa reprovação provocou-lhe reações de muita raiva; chorou, rasgou o boletim, teve ímpetos de jogar a professora de história pela janela; “acho que ela ironizou alguma coisa de mim, não me lembro mais ao certo”, comenta.

No 1º ano do 2º grau, quando estudou matérias gerais básicas, foi aprovada, embora tenha tomado recuperação em matemática. Nessa época, ela trabalhava numa confecção de roupas, no centro da cidade. Sempre conciliando penosamente trabalho e

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É de se supor que essa escola fosse frequentada sobretudo por alunos de classes populares, em virtude de sua localização em bairro da periferia de Belo Horizonte.

estudo, afirma que, às vezes, deixava de comer para estudar; “aliás, não tinha muito o que comer ainda na época”. A partir do 2º ano, foi transferida para outro prédio do Colégio Abgard Renault situado no Bairro Nova Vista, onde funcionava o curso de magistério. Esse foi um período, de 3 anos, que transcorreu sem grandes problemas; o mais tranquilo de sua trajetória, supomos.

Ao final de 1984, ano em que terminou o 2º grau, Catarina tentou vestibular para Pedagogia, mas não foi aprovada. Ficou na lista de excedentes, acima da classificação 240ª. Ela era totalmente desinformada acerca dos estabelecimentos de ensino superior de Belo Horizonte; desconhecia, inclusive, qual era o curso de graduação em educação. Indagada acerca da razão da escolha do curso de Pedagogia do Instituto de Educação e se não pensara em fazer vestibular também na UFMG, ela declara, após um prolongado silêncio:

“Oh! Eu não pensei... eu vim aqui, porque na época que eu perguntei aonde tinha... Eu nem sabia direito se era Pedagogia e tal... Como é que era o curso de formação a nível superior que trabalhava na área da Educação e tal... Me falaram Pedagogia. Aonde eu perguntei, a pessoa me indicou aqui, e, na época, fiquei sabendo que aqui era um dos melhores e talvez o melhor curso de Pedagogia...”

Nos dois anos seguintes, 1985 e 1986, tentou dois vestibulares, e, novamente, foi reprovada em ambos. Para se preparar para esses dois vestibulares, frequentou um cursinho, o Elo. O acesso ao pré-vestibular só foi possível graças à gratuidade, que ela própria “implorou” junto à administração do estabelecimento: “(...), eu preciso estudar, eu não tenho dinheiro; deixa eu estudar?”

Nesse tempo Catarina ficou grávida, interrompendo os estudos por um longo período. Só retomou, quando o filho completou 7 anos. Foi um tempo em que dedicou-se basicamente ao filho e ao trabalho. Desde que concluíra o magistério, ela dava algumas aulas de Ciências Físicas e Biológicas para a 5ª e 6ª série no mesmo Colégio Abgard Renault, e, como ocupação principal, trabalhava num salão de beleza, do qual era proprietária. Logo que concluiu o 2º grau, Catarina fora aprovada em concurso do Estado

para professora primária, mas não assumiu a vaga. A razão dessa decisão não nos ficou clara, mas supomos que, naquele momento, optou por manter o salão de beleza, tendo em vista a manutenção de um filho e a insuficiência da remuneração.

Em 1992, quando decidiu que tentaria novamente o vestibular, voltou a procurar o

cursinho, o mesmo que frequentara antes.5 Nesse momento, ainda que de uma forma

muito tênue, tentar o vestibular na UFMG, também estava em seu horizonte. Na Federal, fez inscrição para Ciências Físicas e Biológicas, área que lhe despertava algum interesse, mas sua “idéia” continuava sendo Pedagogia. Não foi aprovada na Federal. Sobre sua aprovação no vestibular do Instituto de Educação, ela comenta, emocionada: “eu sei que quando foi um dia, eu cheguei aqui pra ver o resultado, e eu estava lá!”

No mesmo ano em que terminava o curso de Pedagogia, Catarina já estava se preparando para a seleção do curso de pós-graduação lato sensu: ao mesmo tempo em que Catarina fazia as provas finais do Instituto de Educação, ela submetia-se ao exame de seleção para o curso de especialização. Naquele momento, trabalhava como professora primária na rede municipal de Betim, concursada quando fazia o curso de Pedagogia. Assumir os encargos financeiros do curso de pós-graduação, única forma de ensino pago que conhecera até então, e apesar de ter conseguido um desconto significativo nas mensalidades, tornou-se muito oneroso para Catarina, que recebia R$320,00 pelo seu trabalho como professora em Betim. A respeito dos novos encaminhamentos de trabalho, no momento da entrevista Catarina informa que fizera novo concurso para trabalhar como Orientadora Educacional, também na rede municipal de Betim, e que aguardava os resultados.