• Sonuç bulunamadı

SAĞLIKLI BESLENMEK İSTEYEN BİREYLER İÇİN BİR ALTERNATİF: BİTKİSEL KAYNAKLI PRO- PRO-TEİNCE ZENGİNLEŞTİRİLMİŞ, DÜŞÜK KALORİLİ VEGAN DONDURMA ÜRETİMİ VE BESİN

SÖZEL SUNUMLAR

SAĞLIKLI BESLENMEK İSTEYEN BİREYLER İÇİN BİR ALTERNATİF: BİTKİSEL KAYNAKLI PRO- PRO-TEİNCE ZENGİNLEŞTİRİLMİŞ, DÜŞÜK KALORİLİ VEGAN DONDURMA ÜRETİMİ VE BESİN

O florescimento das “casas de tolerância” no Centro da cidade, apesar da imagem transgressora que as pensões pudessem inspirar, tem sua explicação nos valores morais do período. A própria denominação “casas de tolerância" vem do fato de que tais locais só existiam em função da tolerância da polícia, que partia da compreensão da prostituição como "mal necessário". O discurso da autoridade policial sobre a prostituição era então fortemente influenciado pelo modelo regulamentarista francês, cujos marcos haviam sido estabelecidos pelo sanitarista Parent-Duchatelet. Em suas pesquisas, Duchatelet estabeleceu o tipo ideal de prostituta por oposição à mulher honesta, simbolizada pela esposa. Os ideais sanitaristas primavam pela vigilância da prostituição, dados os perigos e

ameaças morais que eram atribuídos a esta atividade. Desta forma, este modelo ideológico procura distinguir a prostituição dos bordéis, regulamentada e devidamente vigiada pelas autoridades, das formas clandestinas de prostituição (RAGO, 1997, p. 92).

As mulheres que viviam do meretrício logo incorporavam a noção de discrição no período diurno, e colocavam em prática uma série de estratégias necessárias à convivência com a autoridade policial. Edna explicou-me, certa vez, um dos expedientes que usava para despistar a atenção dos guardas, quando fazia o trottoir39

, sempre durante a tarde, no Centro da cidade. Ela me contou que, após andar por algum tempo nas calçadas e conseguir um cliente, trocava o vestido para voltar a circular na rua, no intuito de que os policiais não a reconhecessem. Ainda assim, Edna explica que não havia uma abordagem mais incisiva de sua parte, além do modo de se fazer presente no espaço, circulando pelas ruas do Centro sem companhia masculina, em vestidos elegantes. Os clientes em potencial se aproximavam e as negociações do programa eram feitas em bares ou pensões das proximidades. A convivência do meretrício e do comércio no mesmo espaço urbano gerava um esforço, por parte do aparato policial, no sentido de ocultar a presença das meretrizes no espaço urbano.

Nos bordéis, onde o funcionamento cotidiano era submetido às normas policiais, as madames deveriam se fazer respeitadas conforme os valores burgueses da época. O modelo produzido por este contexto era um bordel asséptico, de salões elegantes. Longe de ser uma instância transgressora da ordem, o bordel reproduzia, a seu modo, valores ligados à conjugalidade burguesa. As falas das entrevistadas sobre as práticas sexuais realizadas nestes espaços não deixam dúvidas de que imperava o tradicionalismo, sendo que havia preconceito contra várias modalidades de relações sexuais, embora isto não impedisse que fossem realizadas nos recônditos dos quartos. As mulheres que praticavam sexo oral ou anal eram diferenciadas com a denominação de completas. Em uma das conversas com Edna, que morou em pensões do Centro e também no Curral das Éguas, a entrevistada contou-me, em tom de desabafo: “mulher, a gente encontra tanta coisa ruim nessa vida. Tinha homem que queria até que eu chupasse a bicha dele”. Confissão semelhante foi feita por Glória, que disse ter recusado uma proposta de casamento de um cliente depois que este, em um encontro, revelou que gostava de praticar o cunilingus.

Porque hoje, né, é tudo liberal... Mas naquela época, se tinha, era muito oculto, a mulher que fazia... sabão, né? Você sabe, né?... Mulher que fazia sexo oral, anal, se tinha, era uma coisa velada, escondida. [...] Simplesmente, eu nunca gostei de homem que faz sexo oral. Nunca gostei. [GLÓRIA, 2011].

Em Fortaleza, as casas de meretrício também receberam a alcunha popular de “casas de recursos”. A denominação remete à idéia do sexo venal como uma mercadoria útil, à disposição em determinados locais, aos quais os homens poderiam aceder para a satisfação de necessidades mais prementes. Tais recursos eram necessários ao escoamento da libido masculina, tida como irrefreável, por oposição à inexistência do desejo no elemento feminino. O comércio do sexo era, nessas casas, era a commoditie, o produto desprovido de maiores refinamentos. Assim, é compreensível que a denominação casa de recursos fosse usualmente atribuída aos prostíbulos mais simples, em bairros distantes, com um modo de funcionamento que não alcançava, a sofisticação das pensões galantes do Centro. Na fala das entrevistadas, as denominações “pensões” e “casa de recursos” são utilizadas de forma distinta, sendo que segunda forma é pejorativa.

As pensões do Centro encontram um paralelo histórico nas maisons de tolerance da França do final do século XVIII. O modelo francês, que misturava tolerância e repressão, tinha como características “o confinamento das meretrizes em prostíbulos sujeitos a regulamento rígidos; com a inscrição das prostitutas na polícia de costumes, sujeitas a exames periódicos, de forma a garantir a saúde coletiva” (MENEZES, 1992, p. 61). A adoção deste modelo em Fortaleza corresponde a uma visão regulamentarista do meretrício, adotada pelas autoridades brasileiras na primeira metade do século XX. A liberdade de circulação das meretrizes era tolhida em nome da preservação dos costumes. O controle médico e sanitário também era uma forma de salvaguardar a saúde das famílias40.

A regulamentação se refletia em medidas restritivas e proibitivas ao meretrício, lançadas periodicamente pela Secretaria de Segurança Pública. Em 1954, uma campanha de moralização engendrada pelo órgão impediu a “permanência das mundanas na via pública depois das 22 horas”41. Em 1957, nova decisão do referido órgão determinava que

todos os bares e restaurantes da cidade deveriam fechar antes da meia-noite42. A Secretaria

de Segurança Pública prometia deslocar o meretrício do Centro da cidade para o Farol do Mucuripe43, longe do comércio e das famílias de classe média.

A tolerância relativa para com as pensões alegres do Centro, contudo, teve um fim, e os salões com orquestras e inquilinas de longos vestidos ficaram apenas na memória dos remanescentes da época. As entrevistadas afirmam que, no início da década de setenta, as

40 Mereceria um capítulo à parte a profusão de anúncios, vistos em jornais cearenses da década de 1950, de remédios e tratamentos contra a sífilis e outras doenças venéreas.

41 Cf. Jornal O Povo, 22 de maio de 1954, p. 3. 42 Cf. Jornal O Nordeste, 24 de julho de 1957, p. 2. 43 Cf. Jornal O Nordeste, 20 de maio de 1960, p. 4.

últimas casas foram fechadas pela polícia. Dona Augusta, de oitenta e dois anos de idade, assim responde sobre o fechamento da pensão que manteve no Centro da cidade, por dez anos, entre as décadas de 60 e 70:

Érika: Como a senhora veio bater aqui no Farol?

Augusta: Era porque eu morava no Centro, e lá fechou, e eu vim pra cá.

Érika: Por que que fechou? Foi a polícia? Augusta: Foi.

Érika: Foi mesmo?

Augusta: Foi a polícia que fechou. Érika: A senhora se lembra o ano?

Augusta: Foi...eu num to lembrada não, primeiramente quando eu cheguei a morar aqui, e quando foi em sessenta e dois, em sessenta e quatro eu fui morar no Centro.[...] Foi, foram dez anos, ai fechou e eu vim de novo pra cá [AUGUSTA, 2011].

A presença das pensões no Centro durou até o início da década de setenta, quando novos esforços de ordenamento urbano levaram ao fechamento massivo das casas por parte das autoridades. No dia 06 de dezembro de 1971, foi publicada determinação do Secretário de Polícia, para que todos os cabarés fossem retirados do centro de Fortaleza, até o dia 30 do mesmo mês. O historiador Juarez Leitão enumera algumas casas atingidas pela medida ainda em dezembro de 1971, entre as quais a Boate Fascinação, que ficava situada à rua Major Facundo, nº 152; a boate Elite, na Rua Floriano Peixoto, nº 225; a boate Miami, à Rua Major Facundo, nº 170; boate da Emília, à Rua Pedro Borges, nº 130 e a Pensão do Zé Tatá, à Rua General Bezerril, nº 15044.

A determinação do secretário de Polícia foi repercutida no jornal Correio do Ceará45,

que informava, na edição da mesma data, que a execução da medida estava à cargo da Delegacia de Costumes e Diversões, a mesma que expedia as carteiras de identificação das meretrizes da cidade. Ainda de acordo com a matéria, vários cabarés da área central da cidade teriam sido fechados pela Polícia no decorrer dos meses anteriores. O mesmo periódico, em edição do dia seguinte, sete de dezembro de 1971, torna a abordar o assunto, com a denúncia de que as medidas da Secretaria de Polícia seriam movidas por pressões da rede hoteleira, interessada em sanear o Centro da cidade46. O articulista critica a retirada

dos prostíbulos, e argumenta que a medida estaria provocando a ida de casas de meretrício para áreas familiares da cidade:

44As informações que constam deste parágrafo estão no livro “Sábado, estação de viver”, do escritor cearense Juarez Leitão.

45 Matéria “Polícia fecha todos os cabarés do Centro”, publicada no periódico local Correio do Ceará, na data de 06 de dezembro de 1971.

46 Matéria “Mudança de cabarés”, publicada no periódico local Correio do Ceará, na data de 07 de dezembro de 1971.

Gostaríamos de aplaudir essa iniciativa. Não temos podido, entretanto, desde que se iniciou a retirada das casas de recursos do centro, senão criticá-la. É inadmissível que se continue, em face de um problema com tão graves implicações, simplesmente forçando mudança de localização desses antros. Os cabarés não são fechados propriamente, mas apenas impedidos de continuar a funcionar nas proximidades dos hotéis de primeira classe. Transferem-se, assim, para bairros familiares, como ocorre, por exemplo, com a praia de Iracema. [...]

Achamos que já é tempo de a Secretaria de polícia adotar, em relação a esse problema, uma posição definida, passando a entendê- lo não como questão que afete apenas determinada área da cidade, mas a toda a cidade, procurando equacioná-lo de forma a que o saneamento de um ponto não determine a poluição de outro. [CORREIO DO CEARÁ, 07/12/1971].